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Desde o início dos tempos. Recebemos um paraíso: florestas imensas, terras férteis, rios transparentes, animais e plantas saudáveis. A máquina da vida azeitadinha para funcionar a pleno vapor. E nos foi concedida a gerência desse prodigioso ecossistema. Vai lá, humano, tu que tens cérebro e espírito criados à imagem e semelhança dos deuses, comanda esse condomínio bem estruturado e faze com que todos os teus habitantes cresçam, se multipliquem e sejam felizes.
Parecia que ia dar certo. Dominamos o fogo, cultivamos a terra, formamos famílias, edificamos cidades e civilizações, inventamos a escrita, desenvolvemos a ciência, as artes e a comunicação. Beleza pura. Mas alguém deixou aberta a Caixa de Pandora* da alma humana. E dela saiu de tudo ‒ os rancores, as fronteiras nacionais, as discriminações, os preconceitos, as crendices, as armas, a ganância, a crueldade e tantos outros males que nem vale aqui descrever.
Deu no que deu. O homem escravizou o homem, tiranos assumiram o poder, a corrupção derrotou a fraternidade. O resultado está aí: poluição crescente, desmatamento incontrolável, queimadas criminosas, conflitos bélicos, genocídios, cidades destruídas, vidas abreviadas, um horror que parece não ter fim.
Falhamos com você, Mundo.
E pur si muove!** Quem sabe se nessas voltas que essa vida dá ainda nos recuperamos? Convém não esquecer que a esperança ‒ aquela ilusão pintada de verde ‒ ficou presa no fundo da caixinha. Agarro-me a ela para torcer pelas novas gerações, pelos sobreviventes da insensatez, para que extraíam de suas telinhas luminosas alguma fórmula mágica capaz de devolver paz e harmonia à humanidade. Quem sabe?
Prezado Mundo, boa sorte!
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Parte da crônica “Prezado Mundo!”, de Nílson Souza, no jornal Zero Hora, 1ͦ.10.2024.
* Caixa de Pandora: é um mito grego que conta a história da primeira mulher, Pandora, e de como ela liberou todos os males do mundo ao abrir uma caixa.
** E pur si muove = E contudo se move. Segundo a lenda teria sido a frase murmurada por Galileu Galilei (1564 – 1642) após ter renegado a sua teoria heliocêntrica perante o tribunal da inquisição.

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