sexta-feira, 8 de julho de 2016

Uma Mensagem a Garcia



Elbert Hubbard

“Para evitar críticas, não faça nada, não diga nada, não seja nada.”

Quando irrompeu a guerra entre a Espanha e os Estados Unidos, o que importava a estes era a comunicar-se rapidamente com o chefe dos insurretos. Garcia, que se sabia encontra-se em alguma fortaleza no interior do sertão cubano, mas sem que pudesse precisar exatamente onde. Era impossível comunicar-se com ele pelo correio ou pelo telégrafo. No entanto, o Presidente tinha que tratar de assegura-se da sua colaboração, e isto quanto antes. Que fazer?

Alguém lembrou ao Presidente: “Há um homem chamado Rowan; e se alguma pessoa é capaz de encontrar Garcia, há de ser Rowan”.

Rowan foi trazido à presença do Presidente, que lhe confiou uma carta com a incumbência de entregá-la a Garcia. De como este homem, Rowan, tomou a carta, meteu-a num invólucro impermeável, amarrou-a sobre o peito, e, após quatro dias, saltou de um barco sem coberta, alta noite, nas costas de Cuba; de como se embrenhou no sertão, para, depois de três semanas, surgir do outro lado da ilha, tendo atravessado a pé um país hostil e entregado a carta a Garcia – são coisas que não vêm ao caso narrar aqui pormenorizadamente. O ponto principal é este: O Presidente deu a Rowan uma carta para ser entregue a Garcia; Rowan pegou da carta e nem sequer perguntou: “Onde é que ele está?”

Hosana! Eis aí um homem cujo busto merecia ser fundido em bronze e sua estátua colocada em cada escola do país. Não é de sabedoria livresca que a juventude precisa, nem instrução sobre isto ou aquilo. Precisa, sim, de um endurecimento das vértebras para poder mostra-se altivo no exercício de um cargo; para atuar com diligência, para dar conta do recado; para, em suma, levar uma mensagem a Garcia.

A civilização busca ansiosa, insistentemente, homens nestas condições. Tudo que um tal homem pedir, se lhe dá de conceder. Precisa-se dele em cada cidade, em cada vila, em cada lugarejo, em cada escritório, em cada oficina, em cada loja, fábrica ou venda. O grito do mundo inteiro praticamente se resume nisso: Precisa-se, e precisa-se com urgência de um homem capaz de levar uma mensagem a Garcia.

 *****

Resumido de um texto de Elbert Green Hubbard, que nasceu nos Estados Unidos em 19 de junho 1856 e morreu no naufrágio do navio Lusitânia, em 7 de maio1915. Fundou a editora Roycroft Press, em Nova York.Publicou, como editor e diretor, as revistas The Philistine - onde incluiu a Mensagem a Garcia.

Uma homenagem aos bons professores.

É o que um bom professor?


→ Tem um conceito positivo de si mesmo e de seu trabalho. Ele faz o que gosta, gosta do que faz e se sente realizado porque é professor.

→ Busca as possibilidades de fazer boas coisas diante da adversidade, em vez de procurar as excelentes razões para se desculpar por não havê-las feito. Não se contamina pelo pessimismo dos outros. Em vez disso, ele cria uma ilha de otimismo em torno de si.

→ Sabe mostrar ao aluno a beleza e o poder das ideias.

→ Tem sempre expectativas positivas acerca de seus alunos. Já foi demonstrado que os alunos fracassam quando o professor acha que vão fracassar. Portanto, não os culpe pelo fracasso, pois só atrapalha.

→ Nunca ridiculariza seus alunos. Aliviar o mau humor, mas à custa de maltratar a auto-estima do aluno, é péssima ideia.

→ Consegue que seus alunos participem ativamente da aula. Educação não se despeja goela abaixo. Aprender é um processo ativo, em que o aluno trabalha (intelectualmente) tanto quanto o professor.

→ Dialoga com os colegas e pede conselhos quando tem problemas com os alunos. Ser professor é aprender constantemente, com os alunos e com os colegas que já viveram situações semelhantes.

→ Entende que a indisciplina começa quando o aluno para de aprender, “Cabeça vazia, oficina do diabo”.

→ Não vê os pais como adversários temíveis, mas sim como aliados e parceiros.

→ O bom professor consegue que todos aprendam o que têm de aprender, que cada um aprenda quando está pronto para tal e que sejam felizes no aprender.

→ Por fim, esses são os objetivos e a maneira de atingi-los. Varia tanto quanto a personalidade humana e suas variações. Só devemos temer o professor “bonzinho”, que tudo deixa, tudo entende e tudo perdoa.

Quem ouve aprende uma vez,
quem ouve e escreve aprende duas vezes,
quem ouve, escreve e lê aprende três vezes,
no entanto, quem ensina é o que aprende mais.”



A navalha

(Fábulas e Lendas)

Leonardo da Vinci


Era uma vez uma navalha de excelente qualidade, que morava numa barbearia. Um dia, em que a loja estava vazia, ela resolveu dar uma voltinha. Soltou-se do cabo e saiu a apreciar o lindo dia de primavera.

Quando a navalha viu o reflexo do sol em si mesma, ficou surpresa e encantada.  A lâmina de aço lançava uma luz tão brilhante que, subitamente, com excessivo orgulho, a navalha disse a si mesma:

- E eu vou voltar para aquela loja de onde acabei de fugir? É claro que não! Os deuses não podem querer que uma beleza tal como a minha seja desonrada desta maneira.  Seria loucura ficar aqui cortando as barbas ensaboadas daqueles camponeses, repetindo sem cessar a mesma tarefa mecânica! Será que minha beleza foi realmente feita para um trabalho desses? Certamente não! Vou esconder-me num local secreto e passar o resto da vida em paz.

E em seguida foi procurar um esconderijo onde ninguém a visse.

Passaram-se meses. Um dia a navalha teve vontade de respirar ar fresco. Saiu cautelosamente de seu refúgio e olhou para si mesma.

Ai, que acontecera? A lâmina estava horrorosa, parecendo uma serra enferrujada, e não refletia mais a luz do sol.

A navalha ficou muito arrependida pelo que havia feito, e lamentou amargamente a irreparável perda, dizendo:

- Oh, como teria sido melhor se eu tivesse conservado em forma a minha linda lâmina, cortando barbas ensaboadas! Minha superfície teria permanecido brilhante a minha borda afiada! Agora aqui estou eu, toda corroída e coberta de uma horrível ferrugem! E não há nada a fazer!

O triste fim da navalha é o mesmo que sucede às pessoas inteligentes que preferem ser preguiçosas a usar seus talentos.  Essas pessoas, assim como a navalha, perdem o brilho e a parte afiada de seu intelecto, sendo logo corroídas pela ferrugem da ignorância.


Autorretrato

Leonardo da Vinci – 15.04.1452 a 02.05.1519



Uma resposta contra o preconceito

“Não Comprem Produtos Judeus”

Ruhollah Khomeini


Muito interessante este texto. Pouco tempo atrás, o Irã e o líder supremo, aiatolá Ruhollah Khomeini, pediu ao mundo muçulmano para boicotar tudo e qualquer coisa que tenha origem judaica; em resposta, Meyer M. Treinkman, um farmacêutico, fora da bondade de seu coração, se ofereceu para ajudá-los em seu boicote da seguinte forma:

Qualquer muçulmano que tenha sífilis não deve ser curado pelo teste de Wasserman que foi descoberto por um judeu Dr. Ehrlich. Muçulmanos que tenham gonorreia, não deveriam procurar o diagnóstico, porque vai usar o método de um judeu chamado Neissner.

Um muçulmano que tenha uma doença cardíaca não deve usar Digitalis, descoberta por um judeu, Ludwig Traube.

Se ele sofrer com uma dor de dente, não deve usar novocaína, uma descoberta dos judeus, Widal e Weil.

Se um muçulmano tiver diabetes, não deve usar insulina, o resultado da pesquisa por Minkowsky, um judeu.

Se alguém tem uma dor de cabeça, deve evitar Pyramidon e Antypyrin, devido aos judeus Spiro e Ellege.

Muçulmanos com convulsões devem ficar assim, porque era um judeu Oscar Leibreich, que propôs o uso de hidrato de cloral.

Árabes devem fazer o mesmo com seus males psíquicos, porque Freud, pai da  psicanálise, era um judeu.

Se uma criança muçulmana pegar Difteria, ela deve abster-se de o "Schick" reação, que foi inventado pelo judeu, Bella Schick.

Os muçulmanos devem estar prontos para morrer em grande número e não devem permitir o tratamento da orelha e danos cerebrais, trabalho de judeu ganhador do Prêmio Nobel, Robert Baram.

Eles devem continuar a morrer ou ficar aleijados por Paralisia Infantil, porque o descobridor da vacina antipólio é judeu, Jonas Salk.

Os muçulmanos devem se recusar a usar estreptomicina e continuar a morrer de tuberculose, porque um judeu, Zalman Waxman, inventou a droga milagrosa contra esta doença mortal.

Médicos muçulmanos devem descartar todas as descobertas e melhorias por dermatologista Judas Sehn Bento, ou o especialista em pulmão, Frawnkel, e de muitas outras de renome mundial cientistas judeus e especialistas médicos.

Muçulmanos, apropriadamente, devem permanecer aflitos com sífilis, gonorreia, doença de coração, dores de cabeça, tifo, diabetes, transtornos mentais, convulsões poliomielite e tuberculose e terem orgulho em obedecer ao boicote islâmico.

Ah, e por falar nisso, não chame um médico em seu telefone celular porque o telefone celular foi inventado em Israel por um engenheiro judeu.



quinta-feira, 7 de julho de 2016

Consultório Sentimental de Antonio Maria



Antonio Maria (Recife, 17.03.1921 / Rio, 15.10.1964). Compositor (autor de Ninguém me ama), cronista, radialista, homem de TV. Entre 1950 e 1964, ele escreveu praticamente todos os dias nos jornais do Rio, algo próximo a 3 mil crônicas.

Consultório Sentimental foi uma das mais deliciosas invenções de Antonio Maria na sua atividade nos jornais. Na Última Hora, entre 1959 e 1961, No Diário da Noite, entre 1961 e 1962, e em O Jornal, até outubro de 1964, ele respondeu às cartas dos leitores. Muitas eram forjadas pelo próprio Maria, é claro. Mas a ideia surgiu quando, depois de lerem crônicas carregadas de situações sentimentais, alusões a adultérios e outras complicações da vida românticas, alguns leitores pegaram da pena e escreveram seriamente para o jornalista que tanto parecia entender do assunto. Queriam uma luz na escuridão da dúvida. Separar hoje o que chegou pelo correio e o que foi inventado na redação é impossível. E desnecessário. Importa saborear o humor que Maria conseguiu com aqueles textos curtinhos.

01) “Sr. Antonio Maria, meu namorado sua muito debaixo do braço”.

→ Só debaixo dos braços, Mariza? Divirta-se na área enxuta, que é a maior parte do seu namorado.

02) “Sr. Antonio Maria, é verdade que os casais se aproveitam da escuridão da boate?”

→ Muito. E levam os cinzeiros, as xícaras, os talheres e os guardanapos.

03) Reinaldo: “Sr. Antonio Maria, estou noivo há dois anos e só agora descobri que Berenice, minha noiva, só tem três dedos na mão esquerda.”  

→ Mas se ela tiver sete na mão direita dá no mesmo, Reinaldo. O negócio é ter dez dedos na hora de mostrar. Verifique e volte a escrever-me.

04) Jandira (São Luís): “Meu filho, Eleutério, veste-se mal, porque quem lhe escolhe as roupas é o pai”.

→ E o nome, foi a senhora quem escolheu?

05) Laís Pimenta (Rio): “E foi por isso, exclusivamente por isto, que abandonei o meu marido”.

→ O “exclusivamente por isto” a que se refere Laís foi o seguinte: o marido chegou em casa, despiu-se completamente, surrou a sogra, o sogro e trancou-se no quarto da empregada, com empregada e tudo, durante 72 horas.

06) Dalita: “Já me casei três vezes, e em nenhum dos meus maridos encontrei aquilo que eu esperava.”

→ Mas você procurou bem, Dalita? Em todos os bolsos?

07) Claúdia Rúbia: “Sou, enfim, uma mulher muito bonita. Que devo fazer para ingressar no cinema?”

→ Comprar a entrada. O fato de você ser bonita não quer dizer que entre de graça nos cinemas.

08) Carlota Rios: “Me garantiram que você não fala uma palavra em inglês – não acredito.”

→ Acredite, Carlota. A gente deve ser ignorante numa língua só.

09) Sinésio Carmo: “Minha mãe, uma senhora de 65 anos, vai operar o menisco. Terá que ficar longo tempo em repouso e...”

→ É claro, Sinésio, repouso absoluto. E jogar futebol, nem pensar.

10) Helena: “Estou espantada porque meu filho, de 15 anos, me contou que teve uma aventura com uma mulher. Disse que a conheceu, de volta do Rian, ali mesmo na calçada do cinema.”

→ Ficará ainda mais espantada quando o médico lhe mandar a conta. As moças da calçada do Rian são caríssimas.

11) Alfredo: “Queria ser uma pessoa que, quando passasse na rua, todo mundo olhasse, comentasse, apontasse.”

→ Você está querendo ser Martha Rocha*, não é, Alfredo?

12) Raul Bahia: “Além de ter feito todos os tratamentos modernos, agarrei-me a todos os santos, para deixar de beber. Cheguei a passar seis dias sem ingerir uma gota de álcool.”

→ E no sétimo dia descansou... não foi, Raul? Deus, quando fez o mundo, também foi assim.

13) Maria Félix (Nova Iguaçu): “Sou uma moça bonita e vivo metida neste buraco. Aqui, não serei nada. Queria e podia ser uma pessoa como a Norma Benguel e Conchita Mascarenhas.”

→ Você quer botar as pernas de fora, não é, Maria Félix? Pois se você acha que a mulher só é alguma coisa quando bota as pernas de fora, recorte este pedaço de jornal e procure, em meu nome, o empresário Carlos Machado. Antigamente, M.F., as moças de sua idade diziam: “Queria ser como Santa Terezinha e Santa Rita de Cássia.”

14) Paulino: “Minha mulher trabalha e ganha bastante. É ela que, praticamente, mantém a casa. Tenho uma enorme vergonha disto tudo.”

→ Não se deixe levar pela vergonha, Paulino. A vergonha é, no fundo, uma demonstração de vaidade.

15) Horácio Veiga (Contando um fracasso de amor); “Foi a mulher mais bonita que eu já vi. Consegui que ela me desse o número do telefone. Mas não consegui nunca ter nada com ela.”

→ Porque você, Horácio, fez as coisas ao contrário. Primeiro devia ter tido, com ela, isto que os homens chamam de “alguma coisa”. Depois, então, pedir-lhe-ia o número do telefone.

16) Maria Caldas: “Quero trabalhar, ser independente, mas ninguém me leva a sério, porque sou bonita. Cada dono de empresa a quem vou oferecer meus serviços, me convida para jantar e, depois, faz aquele outro convite que não preciso explicar.”

→ Maria, não estou insinuando que você deva aceitar um só ou dois convites. Mas, no caso de aceitar os dois, recomendo-lhe que deixe o jantar para depois.

17) Marietinha: “Meu marido teve uma briga muito feia com a minha mãe. Os dois se esbofetearam e se unharam. Minha situação é delicada. Não sei o que deva fazer, porque os três, desde o meu casamento, moramos juntos. De que lado devo ficar?”

→ Só você pode resolver, Marietinha, se deve mudar de mãe ou de marido. Ou de mãe e de marido. O principal é que você viva em felicidade.

18) Maria Lúcia: “Na época em que o senhor recomendava dietas pelo jornal, eu cheguei a perder 20 quilos. Meu marido, muito mais gordo que eu, perdeu 27. Quando o senhor parou, nós engordamos outra vez. Estamos mais gordos do que éramos antes.”

→ Maria Lúcia, você e seu marido devem continuar gordos. Para que fazer regimes tão cruéis? Comprem uma cama mais larga.

19) Cristina: “Sonhei com você e, no sonho, você estava de terno branco e gravata-borboleta.”

→ Não posso impedir que alguém sonhe comigo. Mas pedir que, quando sonhar outra vez, o meu terno não seja branco, posso.

20) RT: “Depois que calcei os sapatos foi que o moço me disse o preço: 3 mil cruzeiros. Só podia dispor, naquele dia, de 1.500. É um absurdo que nosso comércio etc.”

→ Meu caro, eu, se fosse você, teria comprado um pé e, quando tivesse mais 1.500 cruzeiros, compraria o outro. Queixar da alta de preços não adianta.

21) Armando Guedes (GB): “não sei como dizer à minha futura esposa que me faltam três dedos no pé esquerdo.”

→ Armando, Deus quando fez o homem cometeu alguns excessos. Os dedos dos pés, por exemplo. Por que e para que tantos? Dez, por quê? Não tem a menor utilidade e só trazem aborrecimentos, como calos, pisadelas e unhas encravadas. Hoje mesmo, quando estiver em casa de sua noiva, tire o sapato, a meia (pé esquerdo) e diga uma coisa mais ou menos assim: “Olhe aqui, esse negócio de dedo de pé é besteira. Aos pouquinhos eu estou mandando tirar.”

22) Lucienne François: “Estou gostando de um homem casado.”

→ Sabe, Lucienne? Recebo muitas cartas. Nunca houve alguém que me dissesse: “Estou gostando de um homem solteiro.”

23) Tião (GB): “Eu e minha mulher moramos com a minha sogra. Agora descobri que a minha cunhada está apaixonada por mim. Não é suposição minha e, sim, paixão declarada. Que devo fazer? Não quero que minha mulher saiba. Que ninguém saiba.”

→ Tião, você desse tamanho morando com a sogra? Arranje um empreguinho e mude-se para um apartamento seu, onde sua cunhada vá o menos possível. É preciso trabalhar, Tião. Não siga o exemplo do governador de sua cidade. Trabalhe, Tião.

24) Marietinha: “Tenho só 1,60 m e acho muito pouco.”

→ Você diz que tem 1,60 m, mas não explica, Marietinha, se é de altura. Se for de largura, é muito.

*Martha Rocha foi Mis Brasil nos anos 50.

(Frases do livro “Seja feliz e faça os outros felizes
– Crônicas de humor de Antonio Maria,
De Joaquim Ferreira dos Santos)



O aspecto ameno de um grave problema



Octávio Mendes Cajado

Muito se tem falado e escrito, em prosa e verso, sobre a situação de completo descalabro em que encontra o ensino no Brasil, em todos os seus níveis. E se é verdade que o caso faz chorar as pedras, também é verdade que possui, em contrapartida, o seu lado cômico. Não é de hoje que professores bem-humorados têm colecionado “pérolas” dos alunos. Mais recentemente, ou melhor, no dia 8 de fevereiro de 1976 (30 anos atrás), o jornal O Estado de São Paulo publicou um artigo do Prof. Renato Basile, da Universidade de São Paulo, intitulado “Vestibular, uma antologia tragicômica”. O Prof. Basile, a certa altura do seu trabalho, diz estas palavras, que pedimos licença para reproduzir:

“Fizemos também algumas perguntas gerais sobre Morfologia e Fisiologia, assim como de Genética, como constam do programa. Vejamos algumas das respostas curiosas.

Pergunta:

Qual o papel do pâncreas no metabolismo dos mamíferos?

Respostas:

→ O pâncreas, 4 a 6 horas após a morte, explode e batalhões de micróbiada decomposição são eliminados.

→ O pâncreas segrega a bilings.

→ O pâncreas  substitui qualquer outro órgão amputado.

→ O pâncreas é o órgão do equilíbrio, localiza-se na altura da coxa, pouco abaixo da calda.

→ O pâncreas ajuda o intestino a controlar as obras.

→ O sulco pancreático serve para enriquecer a massa celebral.

→ O pâncreas é o cemitério do organismo.

Pergunta:

Explique em poucas palavras o ciclo da vida da Taenia.

Respostas:

→ Tênia é um vírus que vive no fundo do mar.

→ A Tênia é adquirida pela carne de porco estagnada.

→ A Tênia vive no intestino delgado, ovulando no pulmão.

→ Quando o indivíduo dorme, a Tênia sai pelo ânus.

Mas não suponha o leitor que essas “maravilhas” sejam apanágio dos estudantes brasileiros. Para salvaguarda honra nacional, examinemos também alguns “achados” recolhidos em suas escolas por professores dos Estados Unidos, pátria de quase todas as “inovações” que tanto têm contribuído para confundir o já de si tão confuso ensino no Brasil. Entre as curiosidades figuram estas:

O edito de Nantes foi uma lei passada por Luís XIV, proibindo todos os nascimentos, casamentos e falecimentos na França pelo período de um ano.

Pelos seus próprios esforços. Henrique VIII aumentou a população da Inglaterra de 40 000 pessoas.

A rainha Elisabete era uma mulher gorda, que resistiu corajosamente aos pedidos do Embaixador da Espanha.

Quando um soldado do Norte não podia ir para a Guerra Civil, mandava um prostituto.

Nero era um tirano cruel, que torturava seus pobres súditos tocando violino para eles.

Charlote Brontë matou Marat em seu banheiro.

A diferença entre um rei e um presidente é que o rei é filho do pai dele e o presidente não é.

Na Idade Média o Papa tinha poderes sexuais muito grande.

A mulher de Colombo era Colombina.

Que espécie de substantivo é calças? Um substantivo incomum, porque é singular em cima e plural embaixo.

O interesse de Donatello pelo nu feminino tornou-o pai da Renascença.

Há três espécies de poesia: lírica, dramática e epidêmica. Epitáfio é um poema sarcástico muito curto.

Poesia é quando cada linha começa com uma letra maiúscula. Uma peça de teatro moral é uma peça cujos personagens são anões, fantasmas, virgens e outras criaturas sobrenaturais.

O Humor foi então introduzido no drama inglês – por exemplo: uma mulher torcendo o pescoço do marido.

Zanzibar é famoso pelos seus macacos. O governador inglês vive lá

Os resíduos sólidos são excretados através da retina.

A lei da gravidade foi promulgada pelo Parlamento Britânico.

O animal que possui maior apego ao homem é a mulher.

A adolescência é a idade entre a puberdade e o adultério.

Antípodas são animais sem pernas, tais como as serpentes etc.

A apendicite é causada por informação do apêndice.

Um catálogo é diálogo entre quatro pessoas.

Trigonometria é quando uma mulher se casa com três homens ao mesmo tempo.

Um agente do censo é um homem que vai de casa em casa aumentando a população.

Cavalheirismo é a atitude de um homem diante de uma mulher estranha.

Ênfase na leitura é colocar mais desespero num lugar do que em outro.

Epicurista é um poeta que escreve poesias épicas.

Filet Mignon é uma ópera de Puccini.

Ibidem foi um famoso poeta latino.

A Inquisição foi uma peça levada na corte de Fernando e Isabel.

O Kodak é a Bíblia dos maometanos.

A “Última Ceia” é o sacramento que se administra os católicos moribundos.

Um mártir é uma pilha de madeira em que se ateou fogo com um homem em cima.

A hereditariedade quer dizer que seu avô não teve filhos, seu pai também não teve e você, provavelmente, não terá.

Analfabeta é a criança cujos pais não são casados.

Oráculo: um vulcão que dá respostas anfíbias.

Paralelepípedos são animais com pés paralelos.

A Acrópole foi a loba que amamentou Romeu e Julieta.

Ali Babá significa estar longe quando o crime foi cometido.

Celibato é o crime que o padre comete quando casa.

A parafina é uma categoria de anjos acima dos serafins.

Polígono é o homem que tem muitas mulheres.

Um Senador é meio cavalo e meio homem.

Sinecura é uma moléstia sem cura.

O esôfago foi o autor das fábulas de Esopo.

Adulto é o homem que parou de crescer nas extremidades, mas não no meio.

Os habitantes do antigo Egito chamavam-se múmias.

Em Atenas há um templo chamado Pâncreas.

O porto de mar de Atenas chama-se Piorreia.

Epístola é a esposa do apóstolo.

Luís XVI foi gelatinado durante a Revolução Francesa.

Contorcionista é uma senhora que recita versos.

Decalcomania é uma forma especial de insanidade mental.

(Do Almanaque do Pensamento de 1977)




quarta-feira, 6 de julho de 2016

Camargo e a voz



Era um dia como qualquer outro. Camargo acordou, pulou da cama, tomou seu banho, vestiu-se e foi até a cozinha preparar seu café. Enquanto fazia sua primeira refeição, lendo o jornal, como todas as manhãs, ouviu a voz pela primeira vez. Era uma voz nítida e profunda:

‒ Camargo! É hoje, Camargo!

Camargo levantou os olhos do jornal e olhou em volta para ver quem falava. Com espanto, verificou que não havia mais ninguém junto dele. A voz repetiu:

‒ Escuta, Camargo! Quem te fala é a voz da Fortuna! Levanta e vem comigo!

Apesar de nervoso, Camargo obedeceu. Vestiu o paletó e saiu em direção à porta. Tremia de emoção.

‒ Camargo! Vamos até uma loja de bilhete de loterias! Escuta a voz da Fortuna, Camargo!

Camargo não cabia em si de excitação. Quase corria. Dois quarteirões adiante avistou a loja. Quando ia entrando a voz falou:

‒ Não, Camargo! A loja não é essa! Continua correndo, Camargo! Escuta a voz da Fortuna!

Camargo seguiu, correndo, quase sem fôlego, cada vez mais nervoso. Três ruas mais longe, outra loja. Camargo, na corrida, passa sem ver. A voz avisa:

‒ Para, Camargo! É aqui! Entra, pede as três séries daquele bilhete que está na vitrine. O número 45736. Vai, Camargo!

‒ Mas pra comprar o bilhete inteiro eu vou ficar sem um tostão até o fim do mês!

‒ Não seja ridículo, Camargo! É a voz da Fortuna quem te fala!

Camargo juntou tudo o que tinha no bolso e comprou o 45736.

‒ Agora vai pra casa, Camargo, e espera o resultado hoje à tarde. Você não deve falar com ninguém antes do resultado! Quem te fala é a voz da Fortuna!

‒ Mas se eu não for trabalhar vou perder o emprego! – disse Camargo.

‒ Não seja imbecil, Camargo! É a voz da fortuna! Vai, segue teu destino!

Camargo, febril, voltou para casa. Ligou o rádio e ficou à espera do resultado, mal se contendo de alegria. Finalmente chegou a hora. Pausadamente, o locutor anunciou o primeiro prêmio: “09218”.

Antes de desmaiar, horrorizado, Camargo ainda ouviu a voz da Fortuna dizendo desolada:

‒ Porra, Camargo, perdemos...
    
(Do livro “O Astronauta Sem Regime”, de Jô Soares)