sexta-feira, 3 de novembro de 2017

A Capital que muitos de nós nunca conhecemos

Jéssica Rebeca Weber

O trem da Tristeza


→ Uma locomotiva a vapor já circulou pela Zona Sul. O trenzinho da Tristeza surgiu no final do século 19, para levar o esgoto até o Guaíba. Mais tarde, faria o transporte de cargas e passageiros – virou um dos melhores passeios turísticos de Porto Alegre, proporcionando banho e piqueniques na beira do Guaíba. Era composto por uma locomotiva maria-fumaça pequena que puxava dois ou três vagões. Alem da estação na Pracinha da Tristeza, também havia a Estação do Riacho (junto à Ponte de Pedra) e a Estação Ildefonso Pinto, ao lado do Mercado Livre, no Centro. Em 1933, a locomotiva foi incorporada à Viação Férrea do Rio Grande do Sul e, em 1936, encerrou as atividades. Em abril (de 2017), reportagem da ZH mostrou que o trenzinho apodrecia a céu aberto em Carlos Barbosa.

O circo de touros


→ No Campo da Redenção, próximo à Rua da República, havia um espaço para touradas no final do século 19. Construção de madeira, sem cobertura – conforme o livro Porto Alegre Ano a Ano, de Sérgio da Costa Franco −, o Circo de Touros era uma das atrações mais populares dos domingos à época. A edição do jornal A Federação de 13 de outubro de 1891 grafava: “Esteve divertida a funcção tauromachica de ante-hontem. Quasi todos os touros prestaram-se às lides. Aranha e Matheus applicaram muitas farpas”. A praça de touradas foi desativada no começo do século 20.

O bebedouro do Floresta


→ Onde se juntam as avenidas Cristóvão Colombo e Benjamin Constant com as ruas Quintino Bocaiúva e Coronel Bordini, no bairro Floresta, havia um bebedouro que não era para gente. Em uma época em que cavalos e mulas tinham grande papel na mobilidade urbana, era preciso levá-los para tomar água em algum lugar – como ali, onde hoje fica a Praça Athos Damasceno Ferreira. Na área, havia ainda um mercado abastecido por carroças. Vale lembrar que, até o começo do século 20, cavalos e burros puxavam os bondes – os elétricos surgiram a partir de 1908.

O zoológico do Menino Deus


→ Em janeiro de 1913, “altas autoridades civis e militares, representantes do clero, da imprensa e o povo” participaram da inauguração do jardim zoológico do bairro Menino Deus, que ficava onde hoje passa a Avenida Ganzo. O acontecimento, registrado pelo jornal A Federação, teve até presença do então governador, Carlos Barbosa Gonçalves. O parque pertencia ao coronel Juan Ganzo Fernández, e a entrada era na Avenida Getúlio Vargas (que, na época, se chamava Avenida 13 de Maio). Ele batizou o empreendimento de Vila Diamela, em homenagem à filha. Além de uma “variada coleção de quadrúpedes, aves e palmípedes”, o zoo também tinha lago e pavilhão de patinação. Mas não teve vida longa: funcionou até a década de 1920.

 O bunker do Viaduto da Borges


→ O Viaduto Otávio Rocha, conhecido como viaduto da Borges de Medeiros, teve um abrigo para proteger moradores de eventuais ataques dos aviões nazistas de Adolf Hitler. Entre as arcadas, foi escavado um túnel na parede da estrutura, visando à segurança da população em caso de ataque durante a II Guerra Mundial. A arrecadação de dinheiro para os abrigos antiaéreos começou em setembro de 1942, um mês depois de o presidente Getúlio Vargas aderir aos aliados. Os gaúchos doavam dinheiro, além  de joias e ouro.

A gruta da Praça XV


→ Na época em que a Praça XV de Novembro ainda era chamada de Praça Conde D´Eu, havia por lá uma pitoresca gruta, formada por um amontoado de pedras e folhagens. Ela foi construída em 1881, junto com uma ponte ornamental. Teriam sido projetos encomendados pela prefeitura ao cenógrafo italiano Oreste Colliva. Em 1925, a gruta foi demolida, e o chafariz que ficava ao lado, transferido para o centro da Praça Parobé – depois, no início dos anos 1940, migrou para a Redenção. Daquela época, na praça ao lado do Mercado Público, restou apenas o Chalé da Praça XV.

A piscina da Redenção


→ Alinhada ao Monumento ao Expedicionário, já existiu uma piscina na Redenção, com até quatro metros de profundidade, conforme publicação de ZH de 50 anos atrás. Ela teria sido construída no começo do século pelo Colégio Militar de Porto Alegre, recebendo importantes competições de natação. Mais tarde, com a proliferação de piscinas em clubes e o desenvolvimento do parque, o tanque ficou “apenas como ornamentação” – embora fotos de antigamente mostrem muita gente brincando e nadando em dias de tempo bom. A piscina seria desativada em 1967, depois que uma criança morreu afogada no local.

Um presídio ao lado do Gasômetro


→ Ao lado do principal cartão-postal de Porto Alegre, a Usina do Gasômetro, ficava o presídio da capital. A Casa de Correção foi inaugurada em 1855. Acolheu inicialmente 195 detentos, mas, décadas depois, chegaria a abrigar mais de um mil. Como lembrou o historiador Sérgio da Costa Franco, em artigo publicado no ano passado (2016) em ZH, um viajante alemão que esteve em Porto Alegre, possivelmente, em 1889, descreveu o local como ameno e leniente, chamando-o de “presídio alegre”, pois dele emanavam cantorias e brincadeiras dos detentos. A partir dos anos de 1940, mal conservado e pequeno para a população carcerária que aumentava, começou a ser um tema polêmico na Capital. O presídio foi dinamitado em 1962.

(Do jornal Zero Hora, outubro de 2017)


O livro de epitáfios



Aran & Castelo

Epitáfios de gente famosa:
  
Ai, tô morta! (Agnaldo Timóteo)

Nelson Ned é a puta que o pariu! (Anão Zangado)

Causa mortis: pneumonia. (Anão Atchim)

Estou dando para os vermes o que sempre recusei aos homens... (Angélica)

Do pró ao pó. (Arnaldo Jabor)

Caí do cavalo. (Beto Carreiro)

Isso é uma vergonha! (Bóris Casoy)

É preciso passar o inferno a limpo. (Idem)

Cuidado: inflamável. (Boris Ieltsin)

Alguma coisa aconteceu em meu coração. (Caetano Veloso)

Moli. (Cebolinha)

A César o que é de César: um buraco. (César Maia)

Hay que apodrecerse. (Che Guevara)

Pai, viu o que deu não afastar de mim o cálice? (Chico Buarque)

Ohana nas alturas. (Cláudia Ohana)

Às margens do rio Piedra eu sentei e a-do-rei! (Clodovil)

No túmulo com Danuza. (Danuza Leão)

Logo hoje que eu estava toda encaralhada, puta que me pariu! (Dercy Gonçalves)

Finalmente, não preciso fazer mais nada. (Dorival Caymmi)

Atenção, velas, flores e fotos autografadas estão à venda no estande da Igreja Universal, à direita de quem entra no cemitério. (Edir Macedo)

A Sociedade Protetora dos Animais conserva esta área (Edmundo)

Meu nome era Enéas! (Enéas)

Não morri, estou fazendo pós-graduação da vida. (Fernando Henrique Cardoso)

Desta vez, doeu demaaaisss! (Gal Costa)

A complexitude do sincretizamento da afrocrença nagô com a mitologização da catolicitude, não deixa duvidanças: desencarneci. (Gilberto Gil)

Sempre adorei criança. Malpassada... (Herodes)

Enterrem meu topete na beira do rio. (Itamar Franco)

Foi o único jeito dele pular cerca... (José Rainha, do MST)

Foi culpa da Rede Globo. (Leonel Brizola)

Aqui jaz um malvadinho. (Luiz Eduardo Magalhães)


O “Aqui Jaz - O Livro dos Epitáfios”, de Aran & Castelo, Editora Ática - São Paulo, 1996, pág. 61 e seguintes, traz inúmeras sugestões sobre epitáfios, todas engraçadíssimas. Quem prestar atenção ao último e à data em este foi feito, logo pela manhã, não vai achar graça nenhuma (foi na data e hora da morte "dele").

Mais ideias para sua lápide

Aran & Castelo

O Agnóstico: Deus é grande, mas não é dois.

O Ansioso: Uma cueca limpa, por favor.

O Ateu: Tão bem vestido e nenhum lugar para ir...

O Britânico: Morri, presumo.

O Cego: Aqui onde?

O Cinéfilo: From Here to Eternity

O Comunista: O Paraíso não existe. Avisem Karl Marx. Pensando bem, Karl Marx também não existe. Esquece.

O Cri-cri: Volto a insistir: para mim isso foi só um desmaio.

O Decorador: Aqui repousa Fabinho Darling num caixão lindíssimo de mogno perolado, com luxuosas alças douradas em estilo Luiz XV. Acima, mármore de Carrara marrom, combinando com o vaso de cerâmica marajoara. As flores são manufaturadas em papel crepom
multicolorido e pintado à mão.

O Doente de hemorróidas: Ainda bem que não enterram a gente sentado.

O Editor: Fora de catálogo.

O Ejaculador precoce: Eu já esperava por isso, mas não tão rápido.

O Empreiteiro: Este mausoléu é mais um empreendimento da  Construtora Odebretch & Corleone, com o apoio do Governo Federal, Estadual e Municipal. Consulte nosso corretor.

O Enrustido: Aqui jaz Sebastião. Tião, para o pessoal da obra. Sebás,  para os íntimos.

O Esportista: Asa delta, nunca mais.

O Favelado: Aqui, mais uma casa própria entregue pela Nossa Caixa,  Nosso Banco.

O Feirante: Olha o cadáver fresquinho, dona freguesa!

O Fotógrafo: Velei.

O Geólogo: É pau, é pedra, é o fim do caminho.

O Impotente: De pé, nunca mais.

O Juiz: Isso não é justo.

O Mal-humorado: Não incomodem.

O Místico: À margem do rio Piedra eu sentei e dancei.

O Pagodeiro: Favor não batucar na lápide.

O Paranóico: Ta olhando o quê?

O Proctologista: Tomei no cu.

O Punk: Enfim, podre.

O Segurança: Favor deixar o crachá visível.

O Telegrafista: Fim da mensagem Pt.

O Workaholic: Podem continuar rezando, que meu celular está  tocando.

O Zumbi: Aqui jazia.

Aran & Castelo, autores do livro "Aqui Jaz - O Livro dos Epitáfios", já fizeram suas opções: "Agora sim, espirituoso" e "Tô fora", respectivamente. O texto acima foi extraído do livro citado, Editora Ática - São Paulo, 1996, págs. 11 a 56.

Várias ideias para sua lápide

Aran & Castelo

O Agrônomo: Favor regar o solo com Neguvon. Evita vermes.

O Alcoólatra: Enfim, sóbrio.

O Alcoólico Anônimo: Já que era pra acabar assim, preferia cirrose.

O Alérgico: Flores no túmulo do lado. Sou alérgico a pólen.

O Alpinista: Pra cima todo santo ajuda.

O Arqueólogo: Enfim, fóssil.

O Assistente Social: Alguém aí, me ajude!

O Baiano: Finalmente vou descobrir se o Caetano Veloso existe mesmo.

O Cangaceiro fanho: Tã mi dano um cangaço.

O Cartunista: Partiu sem deixar traços.

O Católico: Deus é grande, mas não é dois. É três.

O Curto e Grosso: Fodeu.

O Delegado: Tá olhando o quê? Circulando, circulando!

O Ecologista: Entrei em extinção.

O Encanador
: Aqui gás.

O Enólogo: Cadáver envelhecido em caixão de carvalho, aroma de formol e aftertasling que denota a presença de microorganismos diversos.

O Espiritualista: Volto já.

O Fanho: Anqui janz.

O Funcionário Público: É no túmulo ao lado.

O Garanhão: Rígido, como sempre.

O Herói: Corri para o lado errado.

O Hipocondríaco: Eu não disse que estava doente?

O Humorista: Isto não tem a menor graça.

O Jangadeiro Diabético: Foi doce morrer no mar.

O Jóquei: Cruzei o disco final.

O Judeu: O que vocês estão fazendo aqui? Quem está tomando conta da lojinha?

O Kamikaze: Cai matando.

O Latifundiário: Invasores serão expulsos à bala.

O Lobista: Tudo bem. Eu conheço um cara que é amigo de um primo de Deus.

O Maníaco Sexual: Deixo para trás os melhores ânus da minha vida.

O Megalomaníaco: Deus estava precisando de uma força.

O Micreiro: Por favor, me dê um restart.

A Ninfomaníaca: Uau, esses vermes insaciáveis vão me comer todinha.

O Obstetra: Morrer é um parto.

O Otimista: Pelo menos não pago mais imposto de renda.

O Paulistano: Ôrra, meu, que merda! Até aqui tem fila?!

O Pessimista: Aposto que está fazendo o maior frio no Inferno.

O Político de Esquerda: Mortos, fora do cemitério! Terra para quem trabalha!

O Psicanalista: A Eternidade não passa de um complexo de superioridade mal resolvido.

O Sanitarista: Sujou.

A Sex-Symbol: Agora, só a terra vai comer.

O Soldado Desconhecido: Quê? Eu seguro a bomba?

O Viciado: Enfim, pó.


Aran & Castelo, autores do livro "Aqui Jaz - O Livro dos Epitáfios", já escolheram os seus: "Agora sim, espirituoso" e "Tô fora...", respectivamente. Pode-se dizer que é um tratado sobre epitáfios, sob a ótica do humor. O texto acima foi extraído do livro citado, Editora Ática - São Paulo, 1996, págs. 11 a 56.


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Uma Vela para Dario

Dalton Trevisan


Ilustração do Blog Prosa e Poesia, ou qualquer coisa.
  
Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.

Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque.

Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.

Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida?

Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado á parede - não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las.

Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade.

Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.

O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo - os bolsos vazios. Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio quando vivo - só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão.

A última boca repetiu - Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto.

Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.



Como manter suas plantas vivas

Manual por Marcelo Testoni


Plantas avisam quando algo não vai bem. Saiba interpretar os sinais que elas dão e como agir para salvá-las − às vezes, de você mesmo.

1. Manchas escuras Indicam fungos, geralmente causados por umidade excessiva. Caracóis, lesmas e insetos devem ser combatidos, pois transmitem esporos de fungos. Para curar a planta, só com antifúngicos, vendidos em lojas de jardinagem.

2. Rugas Sinal de seiva obstruída nos veios, o que reduz a captação de luz pela planta. Ácaros, pulgões e cochonilhas também sugam a seiva. Pulgões podem ser expulsos por joaninhas. Outra estratégia é pulverizar extratos naturais, como calda de fumo.

3. Raiz escura e cheiro forte Excesso de água apodrece as raízes. Na dúvida, cheire a base da planta. Se exalar odor forte, passe a regar menos e a não deixar a terra úmida demais.

4. Desbotamento e caule fino Falta de luz deixa as folhas com manchas amareladas e pintas marrons. Por outro lado, se as folhas estiverem enroladas, é porque há excesso de sol e a planta precisa ficar em um local mais sombreado.

Outros sinais

Galho saliente Um ramo vigoroso, que rouba os recursos energéticos. A simples retirada faz a planta florescer e frutificar.

Rasgos e fissuras Se o jardim é sujeito a ventanias, não cultive espécies com folhas largas, que ressecam e rasgam.

Pelos e espinhos Em tempo seco, plantas desidratadas criam pelos para captar umidade do ar e espinhos para se proteger de predadores sedentos.


(Da revista Super Interessante – janeiro de 2017)



quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Flores raras



Conta-se que havia uma jovem que tinha tudo, um marido maravilhoso, filhos perfeitos, um emprego que lhe rendia um bom salário e uma família unida.

O problema é que ela não conseguia conciliar tudo. O trabalho e os afazeres lhe ocupavam quase todo tempo e ela estava sempre em débito em alguma área. Se o trabalho lhe consumia tempo demais, ela tirava dos filhos, se surgiam imprevistos, ela deixava de lado o marido...

E assim, as pessoas que ela amava eram deixadas para depois até que um dia, seu pai, um homem muito sábio, lhe deu um presente: Uma flor muito rara, da qual só havia um exemplar em todo o mundo.

O pai lhe entregou o vaso com a flor e lhe disse:

“Filha, esta flor vai lhe ajudar muito mais do que você imagina! Você terá apenas que regá-la e podá-la de vez em quando, e, às vezes, conversar um pouquinho com ela. Se assim fizer, ela enfeitará sua casa e lhe dará em troca esse perfume maravilhoso”.

A jovem ficou muito emocionada, afinal a flor era de uma beleza sem igual. Mas o tempo foi passando, os problemas surgiam, o trabalho consumia todo o seu tempo, e a sua vida, que continuava confusa, não lhe permitia cuidar da flor.

Ela chegava em casa, e as flores ainda estavam lá, não mostravam sinal de fraqueza ou morte, apenas estavam lá, lindas, perfumadas. Então ela passava direto.

Até que um dia, sem mais nem menos, a flor morreu. Ela chegou em casa e levou um susto! A planta, antes exuberante, estava completamente morta, suas raízes estavam ressecadas, suas flores murchas e as folhas amareladas.

A jovem chorou muito, e contou ao pai o que havia acontecido. Seu pai então respondeu: eu já imaginava que isso aconteceria, e, infelizmente, não posso lhe dar outra flor, porque não existe outra igual a essa. Ela era única, assim como seus filhos, seu marido e sua família.

Todos são bênçãos que o senhor lhe deu, mas você tem que aprender a regá-los, podá-los e dar atenção a eles, pois assim como a flor, os sentimentos também morrem.

Você se acostumou a ver a flor sempre lá, sempre viçosa, sempre perfumada, e se esqueceu de cuidar dela.

 Por fim, o pai amoroso e sábio concluiu:

- Filha! Cuide bem das pessoas que você ama!

(Autor desconhecido)


Em 1932, aconteceu em um carnaval

A primeira disputa entre escolas de samba aconteceu em 7 de fevereiro de 1932, na Praça Onze (foto abaixo), no Rio de Janeiro e foi organizada pelo jornalista Mário Filho.


Preocupado com a falta de assunto para o seu jornal, O Mundo Sportivo, entre os meses de dezembro e março, criou o primeiro concurso de escolas de samba.

O primeiro desfile das escolas de samba

A primeira disputa entre escolas de samba aconteceu em 7 de fevereiro de 1932, na Praça Onze, no Rio de Janeiro e foi organizada pelo jornalista Mário Filho.

Preocupado com a falta de assunto para o seu jornal, O Mundo Sportivo, entre os meses de dezembro e março, criou o primeiro concurso de escolas de samba.

A ideia de promover um desfile das escolas partiu de um repórter chamado Carlos Pimentel, muito ligado ao mundo do samba. No Mundo Sportivo, a ideia do desfile foi facilmente aceita, uma vez que lá atuavam três jornalistas que iniciavam com grande sucesso a carreira de compositor: Antônio Nássara, Armando Reis (Cristovão de Alencar) e Orestes Barbosa, todos também identificados com o samba.

Era uma ideia revolucionária, pois, até então, as escolas de samba limitavam-se a apresentar-se nas favelas e nos subúrbios e, eventualmente, na Praça Onze. Eram desconhecidas do público das demais regiões da cidade, o que pode ser comprovado pelas notas que convocavam os leitores para o desfile de 1932. Eis uma delas:

“O campeonato de sambas que o Mundo Sportivo fará realizar domingo de carnaval, na Praça Onze, destina-se a um extraordinário êxito. Independente do número de atrações, a grande competição de melodias tem o seu maior elemento de sucesso rumoroso na quantidade enorme de escolas já inscritas e que se preparam para o concurso. A ideia é realmente encantadora. Daí a acolhida entusiástica que teve a ansiedade com que é aguardada a sua realização”.

“Terá o público oportunidade de ouvir instrumentos mal conhecidos pela maioria da cidade. É o caso, por exemplo, da cuíca (que o redator chamou de "puíta"), cujo som se destaca de todos, pois é único e inconfundível. Para que o leitor tenha uma ideia da importância do campeonato de samba, diremos apenas que várias escolas entrarão na Praça Onze com mais de cem figuras cada uma. Além dos instrumentos conhecidos, outros aparecerão, por certo, na hora da parada sonora, criados pela febre de improvisação que sempre empolga os carnavalescos. O Mundo Sportivo oferecerá aos três primeiros colocados prêmios valiosíssimos que estão em exposição numa das vitrines da (loja) Capital”.

O resultado do desfile de 1932 foi o seguinte:

1º lugar - Estação Primeira de Mangueira
2º lugar - Segunda Linha do Estácio e Vai Como Pode (mais tarde, Portela)
3º lugar - Para o Ano Sai Melhor
4º lugar - Unidos da Tijuca.




Clarabela



Clarabela era o nome dela, mas os vizinhos a chamavam de Claratrouxa. Mulherzinha muito simpática, puxando assim para bonita, mas toda pequenininha, frágil e delicadinha. Casou com uma besta de sujeito. Os gremistas são ótimos, mas aquele era uma besta. A começar pelo nome: Oldemar. Era um grandalhão com um jeito permanente de quem não gostava nem de água nem de sabonete. Ninguém sabe o que ela viu nele, embora todo mundo soubesse o que ele viu nela. O que ele viu, todo mundo via. O salafra saía todos os domingos para ir ao futebol e só voltava na segunda. E voltava com muita delicadeza. Punha o pé na porta e perguntava:

- O que foi? não vai estrilar?

Não, ela não estrilava. Mas talvez por isso mesmo o Oldemar ficava zangado e lhe dava dois tabefes. Não eram bofetadas de entortar a cara. Eram tabefes.

- Para aprender a não pensar mal de mim.

A Clarabela ficava ali parada, chorando choro de uma lágrima só, mas não dizia nada. No resto da semana ele passeava descaradamente com a flor da vagabundagem. Cada uma mais torta que a outra, enquanto aquela lindeza ficava esperando em casa a sua ração diária de tabefes. Três anos durou isso, só para mostra como mulher tem paciência. Num domingo de grenal, a Clarabela deixou o Oldemar de pão na boca aberta, dizendo:

- Quero ir ao jogo com você.

O primeiro impulso do salafra foi discordar, mas depois ele pensou em todos os vexames que ela poderia passar no meio da torcida e só de sem-vergonha concordou:

- Tá bem, filha, você vai. Isso é bom para aprender.

E lá se foram. Ela ao lado dele. Ele com um radinho na mão e ela com uma almofada que tinha feito em casa. Qualquer outro marido teria ido de cadeira, mas ele resolveu ir de geral. E ainda comprou a entrada olhando e rindo para a Clarabela.

Só que na hora de entrar nos portões, ele parou de rir porque ela disse:

- Vamos para o outro lado.

- Tá doida, filha? Lá é a torcida colorada.

- O que é que tem?

- Não seja burra. Gremista não senta lá.

Ela olhou para ele com um arzinho muito doce e perguntou:

- Por medo ou por quê?

Danado como as mulheres conseguem empurrar o homem para o desatino. Ao som de medo, ele ergueu o queixo:

- Tá bom, você pediu. Vamos lá.

Mas quando sentou no meio daquela massa toda, logo se arrependeu.

- Você vai se incomodar, filha.

- Não se incomode comigo.

Ele olhou para frente, olhou para trás, olhou para os lados e recomendou:

- Vai com calma, tá me ouvindo? Vê o jogo de boca fechada.

Ela só manteve a boca fechada por quinze minutos. Aí, sem mais essa, se pôs de pé e berrou:

- Aí, Grêmio, acaba com essa negrada!

Foi um golpe tão baixo que o Oldemar nem reagiu. Ficou de boca aberta, balançando a cabeça como quisesse limpar os ouvidos.

- Essa negrada não é de nada! - berrou ela.

Aí acordou a geral toda. Veio gente lá de cima como pedra numa avalanche. O Oldemar apavorado tenta puxar a mulher:

- Tá doida, filha, senta, senta!

Mas que nada, ela enfrentava a massa toda com um dedo apontando para o marido:

- Tenho marido, macacada!

E num tapa, abriu a almofada, tirou lá de dentro uma bandeira do Grêmio e jogou em cima dele.

- Tá doida! – berrou o Oldemar.

E também foi só o que disse, porque aí já recebeu uma bofetada no ouvido esquerdo outro no direito e veio vinde lá de cima, meio de pé, meio sentado, meio deitado, com todo mundo batendo e sovando e quando chegou lá embaixo, até mordida na orelha tinha. E lá de cima, aquela coisinha muito simpática ria e batia palmas. Também foi a última vez que ele pôs os olhos nela, embora virasse a cidade durante seis meses de revólver na mão querendo acabar com a coitada.

Essa Clarabela!

*****

(Da Coleção “Histórias de Futebol”, de Sérgio Jockymann)