quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Maldição da Sexta-Feira Santa



Este fato aconteceu na década de 50, no interior do município de Jaguari, Rio Grande do Sul. Foi numa Sexta-Feira Santa, que na época era um dia de muito respeito: não se varria casa, não se tirava leite nem se encilhava cavalo, muito menos se devia montá-lo. À tardinha, dona Justina mandou o filho buscar os terneiros no potreiro, com a recomendação:

− Meu filho, não vá a cavalo! Lembre-se, hoje é Sexta-Feira Santa!

O menino, muito levado, fez exatamente o contrário. Amarrou uma corda no pescoço do cavalo, montou em pelo e saiu estrada afora.

Chegando ao potreiro, deixou o animal embaixo de uma árvore e subiu um pequeno morro para repontar os terneiros. Aconteceu que um bugio saltou da árvore no lombo do cavalo. Este, assustado, voltou a galope para casa. Quando a montaria entrou no pátio com o bicho agarrado no lombo, dona Justina soltou um grito:

− Meu filho, bem que eu te disse para não montar em Sexta-Feira Santa. Viu, Deus te castigou!

Ao ouvir os gritos, o marido veio correndo e encontrou a mulher desmaiada, e só não desmaiou também ao ver o bugio, porque, na mesma hora, avistou o filho que chegava, assobiando tranquilamente, repontando os terneiros, sem saber o que tinha acontecido com o cavalo.


(Do “Almanaque Gaúcho O livro”, RBS)


terça-feira, 30 de outubro de 2018

A santa da dor de dente



9 de fevereiro é o dia de Santa Apolônia, padroeira da odontologia. Várias lendas cercam a vida desta mártir do ano de 249 da era cristã. Aos 40 anos de idade, após ter os dedos e os dentes arrancados, ela teria caminhado voluntariamente para a morte numa fogueira. Segundo a tradição popular, é a santa que alivia qualquer tipo de dor.

Sua “especialidade”, porém, é a cura da dor de dentes. Existe até uma oração específica pesquisada nos receituários do Brasil colônia.

O teor da prece é o seguinte:

Deus eterno,
por cujo amor Santa Apolônia sofreu
que lhe tirassem os dentes com tanto rigor
e fosse queimada com chamas,
concedei-me a graça do celeste refrigério
contra o incêndio dos vícios
e dai-me socorro contra a dor de dente,
por intercessão.
Amém, Jesus.

(Do “Almanaque Gaúcho – O livro”)

Santa Apolônia viveu no tempo do império romano por volta do ano 249*. Era o tempo do imperador Filipe, que foi derrotado por Décio. Este tornou-se um dos mais cruéis perseguidores dos cristãos. Apolônia era filha de um rico magistrado de Alexandria, cidade importante do Egito, então sob o domínio do império Romano. Apolônia teve sua história contada pelo então Bispo de Alexandria, São Dionísio, em cartas ao Bispo Fabio de Antioquia.

Na sétima investida do Imperador Décio contra os cristãos, ela foi capturada. Como Décio sempre fazia, Apolônia foi obrigada a renunciar a sua fé cristã pelas forças do império. Além disso, foi obrigada a prestar culto aos deuses romanos e a obedecer ao Imperador. Santa Apolônia, porém, firme na fé e tomada por uma coragem impressionante, negou-se a obedecer. Por isso, ela passou a sofrer terríveis torturas em praça pública, diante de todo o povo, que se impressionava com tudo o que via.

Em meio às grandes torturas que sofreu sem negar sua fé, Santa Apolônia teve seus dentes arrancados por pedras afiadas. Mesmo sofrendo a dor lancinante de ter seus dentes quebrados, ela não renunciou à sua fé em Jesus Cristo. Ao ver sua firmeza na fé, os carrascos quebraram sua face com pancadas. Em seguida, foi condenada a morrer queimada. Depois de sua morte, seus dentes foram recolhidos e levados para vários mosteiros. Existe um dente e um pedaço de sua mandíbula no Mosteiro de Santa Apolônia em Florença, Itália.

Depois de todos os sofrimentos pelos quais tinha passado, Santa Apolônia ainda reunia forças para mostrar a todos sua fé inabalável. Assim, mesmo amarrada, ela própria se jogou na fogueira onde morreria, dizendo que preferia a morte a renunciar sua fé em Cristo Jesus. Deus, porém, protegeu Santa Apolônia e ela escapou ilesa da fogueira. Muitos dos presentes se converteram ao presenciar este fato. Então os algozes lhe deram vários golpes de espada e lhe deceparam a cabeça. Santa Apolônia faleceu no ano de 249.

Oração a Santa Apolônia

Ó bom Deus.
Rogamos que a intercessão da gloriosa mártir de Alexandria,
Santa Apolônia, nos livre de todas as enfermidades do rosto e da boca.
Lembrai-vos principalmente das criaturas inocentes e indefesas.
Afastai, se possível, a amargura das dores de dente.
Iluminai, fortificai e protegei os cirurgiões-dentistas,
para que sempre se dediquem ao próximo com o amor que de vós emana,
e nos seja dado usufruir de vosso reino.
Santa Apolônia, intercedei a Deus por nós.
Amém.

(Do Blog Terra Santa)


Cadeira de dentista antiga


Dentista antigo

Você já andou de...?


01. Você andou de lotação? E bonde? (1)

02. Você andou de Simca Chambord? (2)

03 E també já de Vemaguet? (3)

04. Lembra-se do táxi Fusca, que não tinha o banco da frente?

05. Já viu uma Romi-Iseta (4)? E um Gordini? Um Dauphine, talvez?

06. Sonhou em ter um Maverick? E um Kharman-Guia (5)?

07. Quem sabe um confortável Aero Willis? E, claro, um Galaxie!

08. Teve um toca-fitas TKR cara preta no seu carro?

09. Lembra-se do taxímetro Capelinha?

10. Teve um carro com tala-larga e rodas de magnésio? Vidro bolha?

11. O câmbio do carro tinha bolinha de plástico com siri dentro?

12. E caveirinha pendurada no espelho retrovisor?

13. Você andou de Papa-fila?

14. E, finalmente, andou num motociclo antigo com sidecar para levar o carona? (6)


(1) Bonde na Av. João Pessoa-RS


(2) Simca Chambord - modelo 1963


(3) Camionete Vemaguet - modelo 1960


(4) Romi-Iseta


(5) Kharman-Guia


(6) Motociclo com sidecar


Como o poeta Vinicius de Moraes via o mundo, a vida e as pessoas!



Vinicius de Moraes (1913-1980) tinha uma maneira toda sua de enxergar as coisas que o cercavam: acreditava que a grande vantagem de ser poeta é ter como patrão apenas a própria vida.

Em dezenas de entrevistas que concedeu, sempre inteligente nas respostas e conceitos, Vinicius deixou suas ideias sobre os mais variados assuntos. Justamente com seus poemas, musicados ou não, artigos e crônicas, essas respostas ajudam a entender como o poeta via o mundo e as pessoas. Abaixo, trechos de seu pensamento:

Sobre o Brasil:

→ Depois de cinco anos nos Estados Unidos, voltei em 1951 com uma tal sede de Brasil, uma tal fome de Rio de Janeiro, uma tal gana de olhos escuros, peles mulatas e seu divino aroma, bossas e dengues, samba, molejo e malemolência, que encampei tudo sem querer saber de onde vinha e parti para a mais total ignorância. Eu queria “comer” o Brasil. A coisa terrível com o Brasil é que a gente precisa muito mais dele do que ele de nós.

Sobre a esperança:

→ Eu sempre digo que a esperança é um bem gratuito. Não se paga nada para ter e é melhor ter do que não ter.

Sobre bares e bebedores:

→ Até hoje não sei direito o que faz os caras mudarem de bar, mas o fato é que, de repente, seu instinto nômade e de caçador busca outro ambiente para curtir. Há, é claro, os fiéis-até-a-morte, mas em geral são bebedores solitários, que só têm diálogo com o copo.

Sobre mulheres:

→ O que eu mais gosto na mulher é a disponibilidade dela para o amor. É a qualquer hora e a qualquer tempo.

Sobre sensualidade:

→ Eu sou um ser erótico, naturalmente. Problema existencial, é claro. Porque tenho horror à licenciosidade, à pornografia. Não se pode ser sensual apenas com as mulheres, num sentido puramente sexual. A gente deve ser sensual em relação à vida, a tudo. E, dentro do sensualismo, o erotismo é uma arte maior, como era concebida na China, por exemplo.

Sobre a Bossa Nova:

→ A bossa nova foi uma conjuntura histórica, um momento determinado onde a música brasileira precisava mudar. O pessoal todo tinha nível universitário, mas ninguém tinha nada de elitista. Eram gente de classe média, até mais para abastada, mas artistas de muita sensibilidade e todos ligados à cultura popular.

Sobre a poesia e poetas:

→ Acho difícil que um poeta jamais possa conseguir o seu filé em troca de um soneto ou uma balada. Por isso me parece que a maior beleza dessa arte modesta e heroica seja a sua aparente inutilidade. Isso dá ao verdadeiro poeta forças para jamais se comprometer com os donos da vida. Seu único patrão é a própria vida: a vida dos homens em sua longa luta contra a própria natureza e contra si mesmos para se realizarem em amor e tranquilidade.

(Contigo Extra, julho de 1980)*

*Edição lançada por ocasião da morte de Vinicius de Moraes, em 9 de julho de 1980.


segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Curiosidades do nosso cérebro



Como é que é possível?
  
De aorcdo com uma pqsieusa de uma uinrvesriddae ignlsea, nao ipomtra a odrem plea qaul as lrteas de uma plravaa etaso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia lrteas etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma ttaol csãofnuo que vcoe pdoe anida ler sem gnderas pobrlmea. Itso é poqrue nós nao lmeos cdaa lrtea isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo.
  
Não sabe contar?

TESTE: rápido e impressionante: conte, quantas letras “F” têm no texto abaixo:


FINISHED FILES ARE THE RESULT OF YEARS OF SCIENTIFIC STUDY COMBINED WITH THE EXPERIENCE OF YEARS.


↓
↓
↓
↓
↓
↓
↓

De seguida selecione o texto a partir de aqui: Quantos? 3? Talvez 4? Errado, são 6 (seis) − não é piada! Volte para cima e leia mais uma vez! A explicação está mais abaixo... O cérebro não consegue processar a palavra “OF”. Loucura, não? 

Conflito Cerebral

Diga as cores e não as palavras:

Azul vermelho roxo
Roxo Amarelo verde
Laranja verde preto
Verde azul laranja
Amarelo Azul Laranja
Preto Vermelho Verde

O lado direito do cérebro tenta dizer a cor, mas o lado esquerdo insiste em ler a palavra!
  
Jogar com os números...

L1 UM4 4L7UR4 N4 N37 UM 73X70 C0M 3573 F0RM470 3 4CH31 1M3N54 P14D4. V0L731 4 PR0CUR4-L0 M45 NUNC4 M415 0 3NC0N7R31 3 P3N531 P4R4 M1M M35M0: P0RQU3 NÃ0 CR14R UM D4 M1NH4 4U70R14 4 V3R C0M0 3 QU3 C0RR3? PU5 M3 L060 40 7R484LH0 3 C0M3C31 4 R3D161R 35745 L1NH45. NÃ0 531 0 QU3 V41 541R D4QU1 M45 35P3R0 QU3 FUNC10N3...


Poemas modernos II



T,  U,  D,  O,

Separados não somos nada.

Unidos Somos

TUDO.

Se você nunca viu a tristeza, procure ver.
Se você nunca viu a miséria, procure ver.
Se você nunca viu a doença, procure ver.
Se nunca viu a fome, procure ver.
Se você nunca viu a dor e a desgraça, procure ver...
Porque, se você não viu nada disso, você não conhece a vida
E morrerá sem saber o que é viver

(Edson dos Santos Avancini)

Vou dormir.
Não, não, vou
tentar dormir,
pois você entra em mim,
e põe meu sono de lado,
ativa-me lembranças,
momentos...

Vou comer.
Não, não, vou
tentar comer,
pois você entra em mim,
e a fome se faz ausente,
atiça-me lembranças,
momentos...

Vou sair.
Não, não, vou
tentar sair,
pois você entra em mim,
e me prende,
envolve-me em lembranças,
momentos...

Vou estudar.
Não, não, vou
tentar estudar,
pois você entra em mim,
e faz-me fechar os livros,
e povoa minha mente de lembranças,
momentos...

Vou pensar no amor...
Sim, sim, vou
pensar no amor,
pois você está dentro de mim
e o amor é você
e você é o amor
em todos os momentos...

(Liliana Camargo de Luca)

Se...

Se eu não me importasse com a miséria...
Se eu não importasse com a fome...
Se eu me importasse com a avareza...
Se eu me importasse com a ganância...
Se eu me importasse com o meu orgulho...
Se eu me importasse com a minha vaidade...
Provavelmente estaria agora viajando pelo país,
fazendo comícios em busca de votos para atingir o poder.
Estaria agora deitado em minha cama pensando no futuro próximo:
num apartamento de cobertura mais luxuoso,
nas comidas deliciosas,
nas bebidas importadas,
nas roupas e sapatos caros,
nos carros especiais...
Infelizmente, meu coração não tem coragem.
Ele se bala, ele se comove diante
da miséria,
da fome,
da avareza,
da ganância,
do orgulho,
da vaidade.

(Dóris Lage)

Parodiando Drummond

João, o banqueiro,
Roubava Pedro, o fiscal de rendas,
Que roubava Raimundo, o comerciante,
Que roubava Antônio, o industrial,
Que roubava Carlos, o diretor,
Que roubava Severino, o operário,
Que nunca havia roubado ninguém.

João foi para o Paraguai e Pedro para as Bahamas,
Raimundo morreu bêbado,
Antônio pediu concordata,
Carlos suicidou-se e Severino, faminto,
Roubou a bolsa de Sônia que nem tinha entrado na história.

(Newton)

(Do livro “A prática da redação em grupo”,
de Hildebrando A. de André)

Testemunha tranquila



O camarada chegou assim com ar suspeito, olhou pros lados e – como não parecia ter ninguém por perto – forçou a porta do apartamento e entrou. Eu estava parado olhando, para ver no que ia dar aquilo. Na verdade eu estava vendo nitidamente toda a cena e senti que o camarada era um mau-caráter.

E foi batata. Entrou no apartamento e olhou em volta. Penumbra total. Caminhou até o telefone e desligou com cuidado, na certa para que o aparelho não tocasse enquanto ele estivesse ali. Isto – pensei – é porque ele não quer que ninguém note a sua presença: logo, só pode ser um ladrão, ou coisa assim. Mas não era. Se fosse ladrão estaria revistando as gavetas, mexendo em tudo, procurando coisas para levar. O cara – ao contrário – parecia morar perfeitamente no ambiente, pois mesmo na penumbra se orientou muito bem e andou desembaraçado até uma poltrona, onde sentou e ficou quieto:

− Pior que ladrão. Esse cara deve ser um assassino e está esperando alguém chegar para matar – eu tornei a pensar e me lembro (inclusive) que cheguei a suspirar aliviado por não conhecer o homem e – portanto – ser difícil que ele estivesse esperando por mim. Pensamento bobo, de resto, pois eu não tinha nada a ver com aquilo.

De repente ele se retesou na cadeira. Passos no corredor. Os passos, ou melhor, a pessoa que dava os passos, parou em frente à porta do apartamento. O detalhe era visível pela réstia de luz, que vinha por baixo da porta.

Som de chave na fechadura e a porta se abriu lentamente e logo a silhueta de uma mulher se desenhou contra a luz. Bonita ou feia? – pensei eu. Pois era uma graça, meus caros. Quando ele acendeu a luz da sala é que eu pude ver. Era boa às pampas. Quando viu o cara na poltrona ainda tentou recuar, mas ele avançou e fechou a porta com um pontapé... e eu ali olhando. Fechou a porta, caminhou em direção à bonitinha e pimba... tacou-lhe a primeira bolacha. Ela estremeceu nos alicerces e pataco... tacou a outra.

Os caros leitores perguntarão: − E você? Assistindo àquilo sem tomar uma atitude? A pergunta é razoável. Eu tomei uma atitude, realmente. Desliguei a televisão, a imagem dos dois desapareceu e eu fui dormir.

*****

(Retirado do livro Dois amigos e um chato – Stanislaw Ponte Preta, Editora Moderna)