sexta-feira, 9 de novembro de 2018

O sábio e o passarinho



Numa vila da Grécia, vivia um sábio famoso por saber sempre a resposta para todas as perguntas que fossem feitas a ele.

Um dia, um jovem adolescente, conversando com um amigo, disse: “Eu acho que sei como enganar o sábio. Vou pegar um passarinho e o levarei, dentro da minha mão, até o sábio. Então, perguntarei a ele se o passarinho está vivo ou morto. Se ele disser que está vivo, espremo o passarinho, mato-o e deixo-o cair no chão; mas se ele disser que está morto, abro a mão e o deixo voar”.

Assim, o jovem chegou perto do sábio e fez a pergunta:

− “Sábio, o passarinho em minha mão está vivo ou morto?”

O sábio olhou para o rapaz e disse:

− “Meu jovem, a resposta está em suas mãos!”

É possível tirarmos diversas conclusões ou mensagens do texto acima, a depender de quem lê. Mas uma coisa é certa: muitas vezes a solução para nossos problemas está mesmo em nossas mãos…

(Do livro “O Sucesso não ocorre por acaso”, do Dr. Lair Ribeiro)

Paderewski, um herói polonês

O Piano


Desejando encorajar o progresso de seu jovem filho ao piano, uma mãe levou seu pequeno menino a um concerto de Paderewski.*

Depois de sentarem, a mãe viu uma amiga na plateia e foi até ela para saudá-la.

Tomando a oportunidade para explorar as maravilhas do teatro, o pequeno garoto se levantou e eventualmente suas explorações o levaram a uma porta onde estava escrito:

PROIBIDA A ENTRADA

Quando as luzes abaixaram e o concerto estava prestes a começar, a mãe retornou ao seu lugar e descobriu que seu filho não estava lá.

De repente, as cortinas se abriram e as luzes caíram sobre um impressionante piano Steinway no centro do palco.

Horrorizada, a mãe viu seu filho sentado ao teclado, inocentemente catando as notas de uma canção infantil.

Naquele momento, o grande mestre de piano fez sua entrada, rapidamente foi ao piano, e sussurrou no ouvido do menino:

− “Não pare, continue tocando”.

Então, debruçando, Paderewski estendeu sua mão esquerda e começou a preencher a parte do baixo. Logo, colocou sua mão direita ao redor do menino e acrescentou um belo acompanhamento de melodia. Juntos, o velho mestre e o jovem noviço transformaram uma situação embaraçosa em uma experiência maravilhosamente criativa.

O público estava perplexo, e acabou explodindo numa espetacular ovação.

Há inúmeras situações como esta em nossas vidas. Atrevidos, sentamo-nos no banco do mestre e, incapazes, executamos uma melodia infantil em seu espetacular instrumento. Mas ele não nos remove do seu banco. Ele nos inclui em sua apresentação. Apenas precisamos de silêncio para ouvir o mestre sussurrando ao nosso ouvido para que continuemos tocando nossa melodia infantil.

É assim que as coisas são com Deus.

O que podemos conseguir por conta própria mal vale mencionar. Fazemos o melhor possível, mas os resultados não são exatamente como uma música graciosamente fluida. Mas, com as mãos do Mestre, as obras de nossas vidas verdadeiramente podem ser lindas.

Na próxima vez que você se determinar a realizar grandes feitos, ouça atentamente. Você pode ouvir a voz do Mestre, sussurrando em seu ouvido:

− “Não pare, continue tocando”.

Sinta seus braços amorosos ao seu redor. Saiba que suas fortes mãos estão tocando o concerto de sua vida. Lembre-se, Deus não chama aqueles que são equipados. Ele equipa aqueles que são chamados. E Ele sempre estará lá para amar e guiar você a grandes coisas.


*Ignacy Jan Paderewski (Kurylovka, 18 de novembro de 1860 − Nova Iorque, 29 de junho de 1941) foi um pianista, compositor, político e diplomata polaco, incansável defensor da causa nacionalista de seu país.


Paderewski - Fanity Fair -1899

A Recompensa

Os alunos que precisavam trabalhar para pagar os seus estudos na Universidade Stanford, na Califórnia, estavam a ter dificuldades para conseguir o dinheiro. Então, um deles teve uma ideia brilhante. Porque não convocar Ignacy Paderewski, o famoso pianista polonês, para dar um recital de piano? Com o dinheiro que conseguissem, poderiam pagar as suas dívidas na universidade. O rapaz procurou o empresário de Paderewski, fez-lhe a proposta, e este concordou, com a condição de que os estudantes garantissem dois mil dólares para Paderewski.

O jovem estava certo de que conseguiriam facilmente arrecadar mais do que essa quantia, e tomou as providências relacionadas com a organização do concerto. Mas quando se fizeram as contas, viu-se que a importância recebida era de 1.600 dólares. Dirigindo-se ao grande pianista, muito constrangido, o jovem entregou-lhe os 1.600 dólares e uma folha em que os jovens se comprometiam a pagar os 400 dólares o mais rápido possível!

− Não, rapazes − disse Paderewski. − Isso não vai funcionar.

Rasgando a folha, ele devolveu o dinheiro aos estudantes e disse:

− Subtraiam dos 1.600 dólares todas as despesas que tiveram, fique cada um com 10% do saldo pelos seus esforços, e deem-me o que sobrar.

Os rapazes não podiam crer no que ouviam.

Os anos passaram-se. No fim da Primeira Guerra Mundial, Paderewski, agora primeiro-ministro da Polônia, viu-se na situação de precisar de alimentar milhões dos seus compatriotas famintos. Ele apelou a Herbert C. Hoover, que na época era o encarregado do serviço filantrópico da América, e em pouco tempo toneladas de alimentos começaram a chegar para abastecer a população faminta da Polônia. Pouco depois, Paderewski viajou a Paris, para expressar gratidão ao seu benfeitor.

− Sempre às ordens, Senhor Paderewski − respondeu Hoover. − Talvez não se lembre de mim, mas o senhor ajudou-me quando eu era um estudante pobre na Universidade Stanford.

Sim, a bondade vale a pena. Mas em alguns casos teremos de esperar, para receber a recompensa por ocasião da ressurreição dos justos.


quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Grandeza



Quando Jesus se reuniu com os seus discípulos para a última ceia,

eles o questionaram sobre qual deles seria o maior.

Reunidos durante a festa de Páscoa,

os discípulos sabiam muito bem

que alguns deles precisava lavar os pés dos outros.

O problema era que quem lavava os pés era considerado inferior.

Então, foram sentar com os pés sujos.

Era uma questão tão delicada

que não iriam nem ao menos conversar a respeito.

Ninguém queria ser considerado inferior ali.

Então, Jesus pegou uma toalha e uma bacia

e definiu o que é grandeza.
  
(De Richard no Livro “História para o coração do homem”)

Salve a Medicina!

Luís Fernando Veríssimo


Homem e mulher na cama do motel. Já haviam travado a esperada luta e tragavam os seus respectivos cigarros.

Ele: - Esses seus peitos... Incrível como podem estar tão firmes, sendo que você deve estar beirando os trinta.

Ela: - Quarenta! 200 ml de silicone de cada lado.

Ele: - Viva a Medicina!

Ela: - Gostei do seu sorriso... É o seu charme.

Ele: - 32 dentes implantados. Mais de 16 horas na cadeira do dentista.

Ela: - Viva a Odontologia!

Ele: - Gostei dos seus cabelos. São naturais, não é mesmo?

Ela: - Aplique. Estavam curtinhos. Não quis esperar crescerem. Mas os seus são...

Ele: - Interlace. Nem dá para perceber. Posso até nadar com eles.

Ela: - Há mais de duas horas nós estamos transando e você ainda não baixou o mastro. Como consegue? Viagra?

Ele: - Prótese. Depois que acaba é só dobrar.

Ela: - (perturbada) Pensei que fosse pura excitação... esse clima... o calor.

Ele: - Mas fiquei excitado, juro... Também, com esse seu bumbum...

Ela: - Silicone... Nas batatas da perna também tem um pouco.

Ele: - Onde mais você mexeu?

Ela: - Pálpebras, maçãs do rosto, queixo, pescoço, lipo na barriga, culotes, cintura, botox, lifting... e também fiz a “preciosa”...

Ele: - Você quer dizer... “o vulcão”...

Ela: - Exatamente!

Ele: - O que você fez? Períneo?

Ela: - Não, mudança de sexo. O meu nome é Valdemar.

As Medidas


(...)

Vou falar agora sobre as Medidas, ou o Sistema Métrico.

(...)

− Medir é uma das coisas mais importantes da vida humana. Os homens não fazem nada sem primeiro medir. Quem vai comprar chita numa loja, obriga o caixeiro a medir um pedaço de fazenda. Quem vai vender feijão no mercado da vila, pesa-o antes de entrar em negócio. Pesar é medir. O automóvel que para numa bomba de gasolina a fim de encher o tanque, faz o bombeiro medir a gasolina que entra. Sem essas medições seria impossível negociar. Se eu vou a uma casa e peço um pedaço de morim, ou um pouco de açúcar, faço papel de idiota. Tenho de pedir tantos metros de morim ou tantos quilos de açúcar. A base da vida dos negócios, portanto, é a medição.

Mas todos os países tinham suas medidas, de modo que a trapalhada era grande. Daí veio a ideia de organizar medidas que servissem para todos os povos − e os sábios começaram a estudar a questão. As medidas devem ser de três espécies. Temos que medir as coisas que têm comprimento, como uma corda, uma peça de morim. Temos que medir os líquidos, como o querosene, o vinho, o leite, ou as coisas esfareladas ou reduzidas a pequenos pedacinhos, como o arroz, o açúcar, o café. E temos de medir o peso de certos materiais.

Em primeiro lugar, os sábios trataram de achar a melhor medida para as coisas que têm  comprimento − e inventaram o Metro. Que é o Metro?

(...)

Era preciso encontrar uma medida fixa, que os homens não pudessem nunca alterar, e então eles se lembraram de tomar a distância entre o Equador e o Polo Norte. Fizeram lá uns cálculos e acharam que tinha 5.130.740 toesas.

− Que é toesa?

− Era uma medida de comprimento usada na Europa.

− Mas se havia essa toesa, para que inventaram o metro? A humanidade não ia vivendo muito bem com a toesa?

− Não ia. O comprimento da toesa era, como se diz, arbitrário sem base, variando de um ponto para outro. Não prestava, a toesa. Eles mediram aquela distância em toesas porque não havia outro meio. Acharam, como já disse, que a distância entre o Equador e o Polo Norte era de 5.130.740 toesas e então dividiram essa distância em dez milhões de partes iguais. Tomaram uma dessas partes e deram-lhe o nome de Metro. Quer dizer que o Metro é a décima milionésima parte da distância entre o Equador e o Polo. E pronto! Nunca mais poderia haver dúvida sobre o comprimento do Metro. Quem o quisesse verificar, era tomar outra vez aquela distância e dividi-la em dez milhões de partes.

− E que quer dizer Metro? − perguntou Narizinho.

− É uma palavra que vem do grego metron, medida. Temos na língua muitas palavras em que entra o metro como termômetro, instrumento para medir a temperatura; barômetro, instrumento para medir a pressão atmosférica; cronômetro, instrumento para medir o tempo, etc. E o novo sistema de medidas ficou se chamando Sistema Métrico, porque a base dele é o Metro.

Depois de obtida a medida de comprimento, os sábios trataram de arranjar a medida de capacidade, isto é, a medida para os líquidos ou as coisas esfareladas − e inventaram o Litro.

(...)

− Litro − explicou o Visconde − é o primeiro filho do Metro. Depois de arranjado o Metro para medir o comprimento, os sábios arranjaram o Metro Quadrado para medir as superfícies. O Metro Quadrado é uma superfície quadrada que tem um Metro de cada lado, assim:


Depois arranjaram o Metro Cúbico, para medir as coisas líquidas ou esfareladas. O Metro Cúbico é um cubo que tem um Metro de comprimento, um Metro de largura e um Metro de altura, assim:


Depois dividiram esse bloco em mil bloquinhos iguais, assim:


E cada um desses bloquinhos ficou sendo a milésima parte do bloco inteiro, ou um Decímetro Cúbico. Pois o tal litro é isso: é um Decímetro Cúbico. Depois que desse modo foi conseguida uma medida fixa para os líquidos, acabou-se a atrapalhação de medidas sem base científica. Um litro é sempre a mesma coisa em qualquer país do mundo. Não varia. É sempre um Decímetro Cúbico, ou a milésima parte do Metro Cúbico.

(...)

− Restava ainda conseguir a medida fixa para as pesagens. Se eu quero comprar chumbo, por exemplo, não posso medir esse metal com o Metro, nem com Litro. Tenho de usar a balança e pesá-lo. Mas qual devia ser a unidade de peso das balanças? Era outra atrapalhada no mundo. Havia toda a sorte de pesos, havia Onças, e Arrobas, e Quintais, e Oitavas, e Libras, sempre variando de um ponto para outro. Como para medir o comprimento havia Léguas, e Milhas, e Braças, e Varas, e Côvados, e Palmos e Passos, e Pés, e Polegadas. Como para medir líquidos havia Pipas, e Almudes, e Quartilhos. Como para medir coisas secas e esfareladas havia os Alqueires e Quartas que a nossa gente da roça ainda usa.

Tudo isso já não tem razão de ser, depois do Sistema Métrico inventado pelos sábios. Para medir comprimentos temos o Metro ou as divisões e multiplicações do Metro. Para medir Líquidos temos o Litro ou as divisões e multiplicações do Litro. Para medir as coisas de peso temos o Quilo, que se divide em mil Gramas.

(...)

− O Quilo e o Grama − continuou o Visconde − são também filhos do Metro. Os sábios tomaram um Metro Cúbico de água destilada e o dividiram em mil partes iguais − cada parte ficou sendo um Quilo. Depois dividiram o Quilo em mil partes iguais, e cada parte ficou sendo um Grama.

O Visconde continuou:

− Depois de arranjado o Metro, foi só dividi-lo em partes iguais para obter os Decímetros, os Centímetros e os Milímetros. Decímetro é a décima parte do Metro. Centímetro é a centésima parte. Milímetro é a milésima parte.

Depois prepararam as medidas grandes. Fizeram o Decâmetro que vale 10 Metros, medidas que ninguém emprega. Fizeram o Hectômetro, que vale 100 Metros e também não é usado. Fizeram o Quilômetro, ou mil Metros que é usadíssimo.

(...)

Com o Metro e o Quilômetro os homens se arrumam perfeitamente. É mais fácil, por exemplo, dizer 10 metros do que dizer um Decâmetro.

− E para o Grama fizeram a mesma coisa. Dividiram-no em Decigrama, Centigrama e Miligrama. Decigrama é a décima parte dum Grama; Centigrama é a centésima parte; Miligrama é a milésima parte.

Depois vieram as multiplicações. Decagrama, ou 10 Gramas. Não pegou. Hectograma, ou 100 Gramas. Também não pegou. E Quilograma, ou Quilo, como se diz vulgarmente. Esse pegou. Não há quem não use o Quilo, e também a Tonelada, ou mil Quilos.

− E o Litro?

− O Litro foi dividido em Decilitro ou décima parte dum Litro; em Centilitro ou centésima parte; e em Mililitro, ou milésima parte.

− E pegaram?

− Nada disso pegou. Ninguém usa. Como também ninguém usa as multiplicações do Litro − O decalitro, ou 10 litros; o Hectolitro, ou 100 Litros e o Quilolitro, ou 1000 Litros. Mais fácil dizer logo 10 Litros, 100 Litros ou 1000 Litros do que os tais Decalitro, Hectolitro e Quilolitro.

(...)

− O Metro – continuou ele – divide-se em 100 Centímetros e cada Centímetro divide-se em 10 Milímetros.

− E para medir terrenos? – perguntou Pedrinho.

− Medição de terrenos é medição de superfície. Um terreno é uma superfície de chão. Para medida de superfície os sábios tomaram como eu já disse, o Metro Quadrado, e com 100 Metros Quadrados constituíram o Are, que ficou sendo a unidade.

− E o tal de Hectare que vovó tanto usa? Ela diz que aqui no sítio tem 520 Hectares...

− O Hectare – respondeu o Visconde – corresponde a cem Ares, ou 10.000 metros quadrados.

Mas entre nós as medidas de terrenos que mais usamos ainda são as antigas. Temos o Alqueire e a Quarta. Um Alqueire de terra é a superfície de chão onde cabe um Alqueire de grãos de milhos plantados; uma Quarta de terra é o chão que leva uma Quarta, ou 12 litros de milho.

(...)

− E a Légua Quadrada, Visconde? Já ouvi falar nisso – observou Pedrinho.

− A antiga Légua, medida de comprimento que foi substituída pelo Quilômetro, tinha um valor muito variável. A usada no Brasil e chamada “Légua de Sesmaria”, tinha 6.600 metros. Já a Légua Marítima também usada pela nossa gente do mar, tinha 5.555 metros. Mas a Légua comum que ainda hoje usamos tem 6.000 metros justos.

(...)

(Do livro “Aritmética da Emília”, de Monteiro Lobato,
Editora Brasiliense)
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segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Para todo acadêmico de direito!



Estudante de Direito não copia: Compila.

Estudante de Direito não fala: Defende ideias.

Estudante de Direito não tem professor: Tem colega que aplica a matéria.

Estudante de Direito não dorme: Se concentra.

Estudante de Direito não faz sexo: Pratica conjunção carnal.

Estudante de Direito não se distrai: Analisa a inter-relação simbiótica dos insetos a sua volta.

Estudante de Direito não falta à faculdade: É solicitado em outros lugares.

Estudante de Direito não faz putaria: Pratica ato libidinoso.

Estudante de Direito não cola: Tem código comentado por ele próprio.

Estudante de Direito não diz besteiras: Defende uma outra corrente.

Estudante de Direito não fica lendo e-mail em serviço: Pesquisa jurisprudência.

Estudante de Direito não lê revistas na sala de aula: Se informa sobre acontecimentos da sociedade.

Estudante de Direito não fica bêbado no bar da faculdade: Se socializa com a comunidade.


quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Ajuste de contas

Humberto de Campos


A vida de Mariano Pereira Barbosa corria serena, sem preocupações, sem sustos, sem contrariedades, quando o destino lhe pôs no caminho aquela armadilha: uma luta do João Salomão, celerado destemido, com o barbeiro Felisberto Sampaio do “Salão Fluminense”. Mais forte que o outro, Salomão conseguira desarmar o adversário, passando-lhe a própria navalha, depois, cinco vezes pelo peito, pela barriga, pelas espáduas, pelo pescoço. Arrolado como testemunha, Mariano fez enorme carga ao criminoso. E de tal forma que este, ao receber a sentença de quatro anos de prisão, se voltou no banco dos réus para o seu acusador, ameaçando-o, olhos fuzilantes, a mão aberta no seu rumo:

− Deixa-te estar. Quando eu sair, tu me pagas.

Anos depois, ia Mariano para seu emprego no Ministério da Justiça, quando, ao passar o bonde pela praça da República, viu, parado a um canto da rua, um indivíduo que não lhe parecia estranho. Atentou melhor e estremeceu: era o João Salomão, o agressor de Felisberto. Ao dar com os olhos no passageiro, Salomão reconheceu-o também, e, cara fechada, mordendo o beiço, avançou para o bonde. O veículo já ia, porém, em marcha acelerada, devendo o pacífico funcionário ministerial a essa circunstância não ter, desde logo, ajustado contas com o valentão.

Ao fim de dois dias, novo encontro. Caminhava Mariano pela Avenida Passos, quando viu, quase desembocando da rua General Câmara, o brutamontes que o seu testemunho havia levado à prisão. Ao divisá-lo, Salomão acelerou o passo. Tal foi, porém, o pavor que se apossou do pobre rapaz, que, quando o valentaço chegou á esquina, já havia ele dobrado, meio quilômetro adiante, a rua da Constituição.

A partir desse dia não teve o honrado burocrata um só momento de sossego. A cada canto de rua levava a mão ao peito, pálido, o coração aos pulos, vendo em cada indivíduo corpulento o fantasma do ferrabrás. E era trêmulo, nervoso, agitado, que exclamou, um dia, ao entrar em casa:

− Não, isto não pode continuar! Isto tem que ser liquidado, de uma vez!

− Acaba logo com isso, Mariano! Observou-lhe a esposa, Dona Ritinha, incomodada com aquela situação. − Compra um revólver e dá-lhe uma lição. Isto não é vida. Demais, tu não tens culpa: é ele que anda te perseguindo.

Bom marido, obediente às razoes da mulher, Mariano comprou a arma. Era um “Smith Wessson” de bom calibre, cabo de madrepérola, adquirido a prestações por quatrocentos e setenta mil réis. Como preço, era caro; tratando-se, porém, da sua tranquilidade, do extermínio daquele terrível pesadelo, o rapaz não olhara despesa. A paz da sua vida valia incomparavelmente mais.

Dois dias após a aquisição do revólver, estava Dona Ritinha no interior da casa, quando parou ao portão um automóvel. Correu a abrir, e recuou: era Mariano que chegava, sem chapéu, rosto vermelho, cabelo alvoroçado, paletó em frangalhos, camisa sem botões, colarinho para um lado, gravata para outro.

− Que é isso, Mariano? Que foi meu Deus?... exclamou a pobre senhora, aflita, torcendo as mãos.

Mariano quase não podia falar. Fez, porém, um esforço, e informou, cortando as palavras:

− Está tudo... liquidado!... Estamos... quites!

− Mataste-o?... − gritou a desgraçada, recuando, os olhos fora das órbitas.

− Não! − informou o marido, ansiado.

E abanando-se com a mão, sem fôlego:

− Já apanhei!

*****

(Do livro “A Bacia de Pilatos”, de Humberto de Campos)


Humberto de Campos (Humberto de Campos Veras), jornalista, crítico, contista e memorialista, nasceu em Miritiba, hoje Humberto de Campos, MA, em 25 de outubro de 1886, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 5 de dezembro de 1934.

Terceiro ocupante da Cadeira 20, eleito em 30 de outubro de 1919, na sucessão de Emílio de Menezes e recebido pelo Acadêmico Luís Murat em 8 de maio de 1920.