segunda-feira, 6 de maio de 2019

Maria


Conceição Evaristo*


Maria estava parada há mais de meia hora no ponto de ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. Os ônibus estavam aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso a patroa ia jogar fora. Estava feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara numa hora boa. Os dois filhos menores estavam muito gripados. Precisava comprar xarope e aquele remedinho de desentupir o nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy. As frutas estavam ótimas e havia melão. As crianças nunca tinham comido melão. Será que os meninos gostavam de melão?

A palma de umas de suas mãos doía. Tinha sofrido um corte, bem no meio, enquanto cortava o pernil para a patroa. Que coisa! Faca-laser corta até a vida!

Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entra as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quanto tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem assentou-se ao lado dela. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai do seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de outra forma? Por que não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o menino? cochichou o homem. Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tô sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também! Homens também? Eles haveriam de ter outra vida. Com eles tudo haveria de ser diferente. Maria, não te esqueci! Tá tudo aqui no buraco do peito...

O homem falava, mas continuava estático, preso, fixo no banco. Cochichava com Maria as palavras, sem entretanto virar para o lado dela. Ela sabia o que o homem dizia. Ele estava dizendo de dor, de prazer, de alegria, de filho, de vida, de morte, de despedida. Do buraco-saudade no peito dele... Desta vez ele cochichou um pouquinho mais alto. Ela, ainda sem ouvir direito, adivinhou a fala dele: um abraço, um beijo, um carinho no filho. E logo após, levantou rápido sacando a arma. Outro lá atrás gritou que era um assalto. Maria estava com muito medo. Não dos assaltantes. Não da morte. Sim da vida. Tinha três filhos. O mais velho, com onze anos, era filho daquele homem que estava ali na frente com uma arma na mão. O de lá de trás vinha recolhendo tudo. O motorista seguia a viagem. Havia o silêncio de todos no ônibus. Apenas a voz do outro se ouvia pedindo aos passageiros que entregassem tudo rapidamente. O medo da vida em Maria ia aumentando. Meu Deus, como seria a vida dos seus filhos? Era a primeira vez que ela via um assalto no ônibus. Imaginava o terror das pessoas. O comparsa de seu ex-homem passou por ela e não pediu nada. Se fossem outros os assaltantes? Ela teria para dar uma sacola de frutas, um osso de pernil e uma gorjeta de mil cruzeiros. Não tinha relógio algum no braço. Nas mãos nenhum anel ou aliança. Aliás, nas mãos tinha sim! Tinha um profundo corte feito com faca-laser que parecia cortar até a vida.

Os assaltantes desceram rápido. Maria olhou saudosa e desesperada para o primeiro. Foi quando uma voz acordou a coragem dos demais. Alguém gritou que aquela puta safada conhecia os assaltantes. Maria assustou-se. Ela não conhecia assaltante algum. Conhecia o pai do seu primeiro filho. Conhecia o homem que tinha sido dela e que ela ainda amava tanto. Ouviu uma voz: Negra safada, vai ver que estava de coleio com os dois. Outra voz ainda lá do fundo do ônibus acrescentou: Calma gente! Se ela estivesse junto com eles, teria descido também. Alguém argumentou que ela não tinha descido só para disfarçar. Estava mesmo com os ladrões. Foi a única a não ser assaltada. Mentira, eu não fui e não sei por quê. Maria olhou na direção de onde vinha a voz e viu um rapazinho negro e magro, com feições de menino e que relembrava vagamente o seu filho. A primeira voz, a que acordou a coragem de todos, tornou-se um grito: Aquela puta, aquela negra safada estava com os ladrões! O dono da voz levantou e se encaminhou em direção a Maria. A mulher teve medo e raiva. Que merda! Não conhecia assaltante algum. Não devia satisfação a ninguém. Olha só, a negra ainda é atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher. Alguém gritou: Lincha! Lincha! Lincha!... Uns passageiros desceram e outros voaram em direção a Maria. O motorista tinha parado o ônibus para defender a passageira: Calma, pessoal! Que loucura é esta? Eu conheço esta mulher de vista. Todos os dias, mais ou menos neste horário, ela toma o ônibus comigo. Está vindo do trabalho, da luta para sustentar os filhos... Lincha! Lincha! Lincha! Maria punha sangue pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos. A sacola havia arrebentado e as frutas rolavam pelo chão. Será que os meninos gostam de melão?

Tudo foi tão rápido, tão breve. Maria tinha saudades do seu ex-homem. Por que estavam fazendo isto com ela? O homem havia segredado um abraço, um beijo, um carinho no filho. Ela precisava chegar em casa para transmitir o recado. Estavam todos armados com facas-laser que cortam até a vida. Quando o ônibus esvaziou, quando chegou a polícia, o corpo da mulher já estava todo dilacerado, todo pisoteado.

Maria queria tanto dizer ao filho que o pai havia mandado um abraço, um beijo, um carinho.

(Olhos d’água, p. 39-42)


*Maria da Conceição Evaristo de Brito (Belo Horizonte, 29 de novembro de 1946) é uma escritora negra brasileira. Segundo palavras do jornalista Juremir Machado da Silva; “Ela foi preterida pela Academia Brasileira de Letras que preferiu o cineasta Cacá Diegues. O clube dos imortais brancos rejeitou a autora negra de talento e acolheu o candidato branco de ótimos filmes e nenhum grande livro”.**


**Correio do Povo, maio de 2019

domingo, 5 de maio de 2019

Comece de novo

Silvia Schmidt


Se você confiou em Deus e andou pelo caminho Dele,
Se você O sentiu a guiá-lo todos os dias,
Mas agora seus passos o levam por outro caminho,
Comece de novo!

Se você fez planos que não deram certo,
Se você tentou dar o melhor de si,
E não há mais o que tentar,
Se você falhou consigo mesmo sem saber por quê,
Comece de novo!

Se você contou aos seus amigos
O que planejava fazer,
Se você confiou neles e eles não o apoiaram,
Se agora você está sozinho,
Só podendo contar consigo mesmo,
Comece de novo!

Se você falhou com seus familiares,
Se agora você já não é tão importante para eles,
Se eles perderam a confiança em você
Se você se sente um estranho em seu próprio lar,
Comece de novo!

Se você orou a Deus,
Respeitando sempre a vontade Dele,
Se você orou e orou e ainda se sente infeliz,
Se você quer parar, sentindo que atingiu seu limite,
Comece de novo!

Se você está certo de que está acabado e quer desistir,
Se você chegou ao fundo do poço,
Se você tenteou e tentou e não conseguiu subir,
Comece de novo!

Se os anos passam tão depressa e os sucessos são poucos,
Se chega dezembro e você se sente triste,
Deus dá um novo janeiro a você:
Comece de novo!

Começar de novo significa:
“Vitórias alcançadas”
Começar de novo significa:
“Uma corrida bem feita”
Começar de novo significa:
“Com Deus você sempre vencerá”
Não fique aí sentado no trono da derrota:
Comece de novo!




Amigo Amador X Amigo Profissional

Max Gerhinger


Existem cinco estágios em uma carreira.

O primeiro é aquele em que um funcionário precisa usar crachá, porque quase ninguém na empresa sabe o nome dele.

No segundo, o funcionário começa a ficar conhecido dentro da empresa e seu sobrenome passa a ser o nome do departamento em que trabalha. Por exemplo, Heitor de contas a pagar.

No terceiro, o funcionário passa a ser conhecido fora da empresa e o nome da empresa se transforma em sobrenome. Heitor do banco tal.

No quarto, é acrescentado um título hierárquico ao nome dele: Heitor, diretor do banco tal.

Finalmente, no quinto, vem a distinção definitiva. Pessoas que mal conhecem o Heitor passam a se referir a ele como “o meu amigo Heitor, diretor do banco tal”.

Esse é o momento em que uma pessoa se torna, mesmo contra sua vontade, em “amigo profissional”.

Existem algumas diferenças entre um amigo que é amigo
 e um amigo profissional.

Amigos que são amigos trocam sentimentos.
Amigos profissionais trocam cartões de visita.

Uma amizade dura para sempre.
Uma amizade profissional é uma relação de curto prazo e dura apenas enquanto um estiver sendo útil ao outro.

Amigos de verdade perguntam se podem ajudar.
Amigos profissionais solicitam favores.

Amigos de verdade estão no coração.
Amigos profissionais estão em uma planilha.

É bom ter uma penca de amigos profissionais.

É isso que, hoje, chamamos networking, um círculo de relacionamentos puramente profissional. Mas é bom não confundir uma coisa com a outra.

Amigos profissionais são necessários.
Amigos de verdade, indispensáveis.

Algum dia, (e esse dia chega rápido), os únicos amigos com quem poderemos contar serão aqueles poucos que fizemos quando amizade era coisa de amadores.


Você está realmente amando?



O Dr. Clifford Adams, Diretor do “Consultório Matrimonial”, no Colégio Estadual de Pensilvânia, usa o seguinte questionário para verificar se uma pessoa está realmente apaixonada, ou simplesmente impressionada pela beleza ou pela atração do objeto de se afeto:

01. Você e a pessoa amada têm em comum muitas preferências?

02. Orgulha-se da pessoa amada quando a compara com qualquer outra pessoa?

03. Sente-se inquieto (ou inquieta), longe da pessoa amada?

04. Você e ele (ou ela) se sentem bem juntos, mesmo quando brigam?

05. Tem grande desejo de agradá-lo (ou agradá-la) mesmo com sacrifício dos seus pontos de vista?

06. Quer realmente casar-se (ou viver junto) com essa pessoa?

07. Ele (ou ela) tem as qualidades que você deseja que seus filhos tenham?

08. Os seus amigos e conhecidos admiram essa pessoa e acham que ela e você farão um bom par?

09. Seus pais acham que você está amando? (Eles são muito perspicazes a esse respeito!)

10. Já começou a planejar como vai ser seu futuro lar?

Se o leitor responder afirmativamente a 7 dessas perguntas, pelo menos, está mesmo apaixonado... segundo o Dr. Adams.

(Da Seleções do Readerʼs Digest, abril de 1945)



sábado, 4 de maio de 2019

Como se passar por inteligente em uma reunião social



Utilizando este pequeno teste, você pode aprender a usar o
chavão certo e aprimorar os seus clichês:

A arte... pode ser:

milenar
• burguesa
• contemporânea
• a sétima

A estrutura... pode ser:

• arcaica
• familiar
• rígida
• econômica

Uma experiência... pode ser:

• gratificante
• inesquecível
• sexual
• científica

A conjuntura... pode ser:

• atual
• clássica
• acadêmica
• ultrapassada

As bases... podem ser:

• consultadas
• sólidas
• insuficientes
• nucleares

A situação... pode ser:

• limite
• complexa
• favorável
• insustentável

O ego... pode ser:

• inflado
• afagado
• super
• alter

Uma obra... pode ser:

• polêmica
• insólita
• do governo
• prima

Um hábito... pode ser:

• contumaz
• desagradável
• irritante
• do monge

Um episódio... pode ser:

• isolado
• dramático
• curioso
• longo

Os juros... podem ser:

• escorchantes
• imorais
• altos
• baixos

O plano... pode ser:

• mirabolante
• de saúde
• furado
• cruzado
  
(Texto de Jô Soares – na revista Veja)

O Macumbeiro



À direita, de terno claro, Abelard Jacques Noronha

Na edição do Jornal do Brasil de 24 de novembro de 1944, Ary Barroso, cronista, letrista, apresentador de televisão, narrador de futebol, autor da música/hino Aquarela do Brasil, faria o mais enobrecedor dos textos a respeito do grande internacional da década de 1940. O título de sua crônica era: “O Macumbeiro do Profissionalismo Indígena”.

A postura do presidente do Sport Club Internacional e os expressivos resultados do Rolo Compressor foram homenageados e transcrita abaixo integralmente:

“O Macumbeiro do Profissionalismo Indígena”.

Ary Barroso

Nos áureos tempos do amadorismo puro, o jogador escolhia livremente o clube dos seus afetos e envergava a sua camiseta com orgulho e entusiasmo. Os voos eram raros e, quase sempre, provocavam escândalo. Quando um atleta qualquer trocava de clube, era cognominado sarcasticamente de borboleta. Os borboletas podem ser os precursores da “insensibilidade clubística” que contaminou o nosso profissionalismo. O regime da remuneração organizava (ou desorganizada?) veio acabar definitivamente com o lado emocional do futebol. Hoje em dia o jogador não tem mais preferência. Vai para o Grêmio que melhor lhe pagar. Não joga por causa do clube, senão pelo contrato a prazo fixo. Tanto se lhe faz vestir uma camisa branca ou preta, azul ou vermelha, aqui ou em São Paulo, no Norte ou no Sul. Todo fim de ano é este corre-corre tremendo em busca de craques, com operações mais ou menos escusas e expedientes geralmente inferiores.

No panorama do profissionalismo brasileiro, porém, há um grupo de jogadores sui generis. As abarrotadas arcas de dinheiro dos clubes milionários do Rio e de São Paulo absolutamente não seduzem o jogador deste grupo. São profissionais com mentalidade amadorista. Sentem-se bem onde estão e ouvem com singular desinteresse as ternas e embaladoras canções das sereias astutas que pretendem abraçar. Refiro-me ao notável grupo de profissionais do Internacional de Porto Alegre!...

O estribilho destas canções de amor é o mesmo com pequeninas adaptações:

− Que é que vocês pretendem da vida, perdidos lá pelas lonjuras dos pampas? A felicidade está por aqui. Há dinheiro, fama, popularidade, cartaz, enfim... Vamos pensar no dia de amanhã.

E eles continuam firmes no Internacional... Sai jogador do Pará, de Pernambuco, da Bahia, de Minas Gerais, do Paraná. Do Internacional não sai. Os emissários vão ao sul e voltam desnorteados com o livro de cheques intacto. Que será isso? Não é por falta das sereias cantarem para eles o chorinho buliçoso e metálico das cifras. Há qualquer segredo no apego destes profissionais do Internacional ao próprio clube.

Alguém dirá:

− São muito burros.

Responderei:

− De burro não têm nada. São divinamente sagazes e inteligentes. Querem saber o que um deles me disse?

− Não me interessam as propostas formidáveis que constantemente nos fazem representantes de clubes cariocas e paulistas. Não deixo o Internacional. Vivo bem por lá, rodeado de amigos sinceros, protegido por meus diretores e amparado pela minha torcida. Por que hei de abandonar o agradável ambiente em que vivo, pela ambição de mais alguns cruzeiros? Nem tudo neste mundo se pode comprar com dinheiro. Não, estou satisfeito no Internacional e já que comecei neste clube, nele hei de terminar minha carreira. Se o futebol brasileiro precisar de meus modestos recursos, estarei a sua disposição com prazer e honra. Agora, clube, só o meu.

Quando o craque terminou eu ainda continuei olhando para ele, meio tonto, meio abobalhado, sem capacidade para articular uma palavra. Percebendo minha atitude, sublinhou as suas expressões com este período definitivo:

− É isso mesmo, “seu” Ary.

Uma espécie de tiro de misericórdia.

Sacudi a cabeça como quem espanta o sono e rapidamente dei um pulaço na cadeira e fui cair no gabinete de trabalho do senhor Abelard Jacques Noronha*, na capital gaúcha, para perguntar-lhe com a sofreguidão dos curiosos impenitentes:

− Presidente, o senhor que é macumbeiro do profissionalismo indígena, o senhor que faz despachos terríveis e os coloca na porta da casa de seus jogadores a ponto de inocular-lhes a mística internacionalista, o senhor que não tem medo de tenores e muito menos de sereias, o senhor feiticeiro dos pampas, quer me revelar a sua reza milagrosa? Olhe, que sabe não é isso que está faltando ao futebol brasileiro e nós seremos capazes de fazer uma revolução no profissionalismo fazendo de todos os jogadores gente da marca dos seus jogadores. Ah, pai de santo invencível, me dá um pouco de seu marafo.

Porque, meus senhores, a obra do presidente do Internacional tem sido tão útil, tão grande e tem produzido tão admiráveis frutos que ele pode ser apontado como único em sua terra, pondo amor no coração dos seus contratados e retendo no seu clube astros de invulgar brilho, como este gigantesco Ávila, este satânico Adãozinho, este incansável Abigail e esta maravilha que é Tesourinha. Eta macumbeiro brabo e perigoso.

(Do livro “A História dos Grenais”, de David Coimbra,
Nico Noronha, Mário Marcos de Souza, Carlos André Moreira)
  
*Presidente do Internacional no período de 1943-1944.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Pedido de desculpas

Ivana Maria França de Negri*


Nós, representantes da raça Homo Sapiens, queremos, através desta, pedir desculpas às criaturas irracionais que habitam este imenso planeta. Pela nossa inabilidade em conservar, usufruir sem degradar e utilizar racionalmente os recursos naturais do meio ambiente, destruindo em poucos dias o que a natureza leva milhões de anos para construir.

Perdoem-nos pela nossa falta de sensibilidade, quando abandonamos cadelas e gatas prenhas, filhotes e animais velhos nas ruas ou nas estradas para morrerem mais depressa. Eles sucumbem aos poucos, por doenças, tristeza e abandono e vemos todos os dias centenas de corpinhos estirados nas margens das estradas.

Pedimos perdão pela nossa falta de consciência ao aprisionarmos animais em jaulas ou gaiolas, privando-os do bem mais precioso, a liberdade. Perdoem-nos pela nossa voracidade em utilizar seus corpos como alimento, obrigando-os a uma vida cheia de privações, sem o mínimo conforto, apenas para saciar a nossa gula primitiva.

Pedimos desculpas pela nossa falta de ética crônica ao utilizarmos suas vidas em experimentos laboratoriais, quando existem outras alternativas. Pedimos desculpas por utilizar sua força em nosso proveito, trabalho nem sempre necessário. E muitas vezes apenas para nosso divertimento, como nos rodeios, circos, touradas e outras festas que martirizam os animais, apenas para a diversão mórbida de alguns. Pela nossa falta de respeito às espécies, deixando muitas chegarem à completa extinção por causa da caça predatória, da matança para retirada das peles e comércio ilícito de penas, ossos e marfim a fim de confeccionar amuletos inúteis.

Perdoem-nos pelas queimadas criminosas que poluem o ambiente e ceifam milhares de vidas silvestres. Perdoem-nos pela nossa falta de misericórdia, pela violação dos santuários ecológicos, pelo desmatamento, pela pesca indiscriminada e pela poluição dos rios. Perdoem-nos pelos derramamentos de petróleo nos mares, pelas aves agonizantes que morrem sem poder livrar-se do óleo em suas penas, essa hemorragia negra e nefasta, que de quando em quando deixamos sangrar nos mares.

Pedimos desculpas por condená-los à frieza das grandes metrópoles, à mercê dos laçadores, e à morte, nos moldes de Hitler, nas cruéis câmaras de vácuo. Perdoem os homens por não saberem compartilhar o planeta com os outros seres vivos, e por ignorar o que significa conviver pacificamente com a natureza.

Pobres de nós, seres humanos... Não temos ideia de que a paz, artigo em falta nos tempos atuais, está em saber viver harmoniosamente com todos os seres que compartilham conosco esta empreitada de aprendizado. E que Deus tenha piedade de nós no dia fatídico do ajuste final de contas.

*****

*Ivana Maria França de Negri é escritora e integrante da Sociedade Piracicabana de Proteção aos Animais e-mail: ivanamfn@yahoo.com.br