segunda-feira, 13 de julho de 2020

Um pequeno conto judaico

Na sinagoga de Leipzig

Nilton Bonder


Dois sócios de uma madeireira foram até a feira de Leipzig com a intenção de fazer negócios para sobreviver no inverno. Leipzig tinha uma sinagoga que oferecia aulas e grandes mestres que ensinavam a tradição. Um dos sócios aproveitava essas ocasiões para estudar e ficava muito contente. Em dado momento, no meio da feira, o sócio estudiosos desapareceu.

O colega conjeturou sobre onde poderia encontrá-lo, e rumou à sinagoga. Avistou o estudioso e, pela janela, falou:

− O que você está fazendo? Temos que fazer negócios.

− E o que mesmo vai acontecer se fizermos negócios na feira? − disse o estudioso.

− Ora, vamos conseguir uma boa transação comprando no atacado.

− E se compramos no atacado, o que vai acontecer?

− Vamos revender no varejo e vamos ganhar um bom dinheiro.

− E o que faremos com o dinheiro?

− Ora, vamos pagar nossas dívidas e sobreviver no inverno.

− E daí?

− E daí? Tá maluco? Daí vamos ficar felizes.

− Então pode pular todas as etapas, porque eu já estou feliz aqui fazendo o que gosto.

*****

(Do livro “Cabala e a Arte de Preservação da Alegria”,
de Nilton Bonder, Editora Rocco)

domingo, 12 de julho de 2020

Um padre no inferno nazista

A cruel saga de Maximiliano em Auschwitz


São Maximiliano Maria Kolbe

Franciszek Gajowniczek era um homem destinado a morrer no campo de concentração de Auschwitz. Membro da resistência judaica na Polônia, o sargento foi sentenciado à morte e seria morto pelas mãos dos guardas do campo como consequência da fuga de outro prisioneiro.

Seu destino estava traçado, entretanto, Rajmund Kolbe apareceu no exato momento e aceitou passar fome no lugar do sargento. Kolbe era um padre missionário, da ordem de Maria Imaculada, e passou diversos anos em sua missão de fé propagando a mensagem da santa.

Nascido em 1894, o então garoto polonês presenciou uma aparição de Nossa Senhora, e ficou marcado pelo resto da vida com ela. Enquanto estava no convento, aos 16 anos de idade o futuro padre decidiu dar início ao noviciado.

Tornou-se propriamente Frei em 1914, e passou a se chamar Frei Maximiliano “Maria” Kolbe. Maria foi incorporado ao seu nome por causa de sua devoção. Fundada em 1917 por sete jovens frades (incluindo Maximiliano), era uma ordem cristã com o objetivo de conquistar o maior número de fiéis possíveis sob mediação da santa em questão.

Voltando para a Polônia, o religioso se inscreveu no Seminário Franciscano da cidade. O ministro-geral da Ordem dos Franciscanos convidou os frades da ordem para que se dedicassem às obras missionárias, ao que Rajmund adotou para sua vida.

Rodou o mundo, mas voltou para a Polônia para estabelecer a ordem religiosa que fundara definitivamente. Por não se curvar às vontades nazistas, foi preso pela Gestapo em 17 de fevereiro de 1941, e levado para Auschwitz com outros 320 presos.

Era política no campo de concentração que diante de toda fuga que se concretizasse no local, outros presos seriam levados para uma cela subterrânea privados de luz, água e comida. Lá, os escolhidos deveriam permanecer até a morte.

Maximiliano assumiu a sentença do polonês depois de ter ouvido o homem suplicar pela vida de sua mulher e de seus filhos. Na solitária, Kolbe celebrava missas e recitava cânticos, encorajando-os e dizendo que logo estariam no céu.

Depois de duas semanas, apenas Kolbe e outros três prisioneiros continuaram vivos. Visando esvaziar a cela, os guardas nazistas deram uma injeção letal no padre. Ao se dirigirem a Maximiliano para injetar o ácido carbônico em suas veias, ele estendeu levemente o braço, sem medo da morte.

Em 1982, durante uma celebração solene com o Papa João Paulo II, o franciscano foi canonizado pela Igreja Católica, tornando-se São Maximiliano Maria Kolbe.


Cerimônia de celebração de beatificação de Maximiliano
 Crédito: Getty Images

Em 1998, a Igreja da Inglaterra ergueu uma estátua do santo em frente à Abadia de Westminster, fazendo parte de um conjunto de mártires do século 20. 


(Do blog AH Aventuras na História)

A um adolescente

Ronald de Carvalho


Faze do instante que passa
toda a tua inspiração,
que o mundo cheio de graça
caberá na tua mão.

Sê sóbrio: com um copo de água,
um fruto e um pouco de pão,
nem sombra de leve mágoa
cortará teu coração...

Ama a rude terra virgem,
com todo o teu rude amor;
pois colherás na vertigem
de cada sonho uma flor.

Sofre em silêncio, sozinho,
porque os sofrimentos são
o mais saboroso vinho
para a sombra e a solidão...

E, quando um dia o cansaço
descer ao teu coração,
une à terra o peito lasso,
e morre, beijando o chão.

Morre, assim como indeciso
fumo que nos ares vai;
morre num breve sorriso,
como uma folha que cai...

Ronald de Carvalho, in “Poemas da vida”,
no livro “Poemas e Sonetos”, 1919.

O pintor e o Rei



Henrique VIII por Holbein

O pintor Hans Holbein fechara-se um dia no seu “atelier” para fazer o retrato de uma fidalga que não queria ser reconhecida quando um nobre inglês foi vê-la e insistiu para entrar.

Holbein mandou pedir desculpas por não poder recebê-lo, mas o fidalgo, supondo que a sua nobreza tudo lhe permitia, quis entra à força. O pintor, dotado de caráter violento, atirou o teimoso escada abaixo.

Assustado, porém, com esse gesto, correu e lançou-se aos pés de Henrique VIII, contando-lhe o que se passara.

Pouco depois, o nobre ultrajado chegou.

− Majestade, disse ele, peço justiça!

O monarca quis-lhe provar que não tinha razão. Como, porém, o fidalgo se exaltasse, acabou dizendo-lhe:

− Cale-se, cale-se! A diferença entre os dois é considerável demais. De sete campônios, posso fazer sete condes como vós, mas de sete condes como vós, não posso fazer um pintor como Holbein...

(Do Almanaque do Correio do Povo de 1967)


Hans Holbein, o jovem, foi um pintor alemão, um dos mestres do retrato no Renascimento, além de desenhista de xilogravuras, vidrarias e peças de joalharia. Suas principais áreas de atuação artística foram as regiões das atuais Alemanha, Suíça e Inglaterra.
Nascimento: 1497, Augsburgo, Alemanha;
Falecimento: 1543, Londres, Reino Unido.
Em exibição: Galeria Nacional de Arte, Royal Collention Trust.  


sábado, 11 de julho de 2020

Quando alguém fala do outro

O que você acha do outro é projeção sua!


Projeções: Como lidar?

“Quando Pedro me fala de Paulo, 
sei mais de Pedro do que de Paulo”

Freud

Paula Corrall*

Confesso que demorei para entender a profundidade dessa frase, e hoje eu sei por quê… eu não me enxergava!

O que você acha do outro é projeção sua. E quando a ficha caiu… meu Deus, quem sou eu? Eu encaro essa sombra?

Percebi que a maior parte do tempo eu projetava, era reativa. Fazemos isso por defesa, inconscientemente.

Observei questões em mim, mas a ficha caiu mesmo quando, certa vez, fui acusada de agir e ser de tal maneira, que eu não me identifiquei, e aquilo ficou martelando na minha cabeça… eu queria entender por que uma pessoa querida estava me vendo daquela maneira.

Sofri com o julgamento dela, até entender que aquilo não era meu e sim dela.

Essa é a maneira mais fácil de você saber se a carapuça serve ou não: pelo sentir.

Se naquela época eu soubesse quem eu era, não sofreria nem por um minuto, pois saberia que essas características não eram minhas.

Não teria dúvidas, mas foi excelente, pois me fez observar que há momentos em que os outros projetam coisas em nós que não somos e também há momentos que projetam o que em partes também somos.

Enxergamos no outro o que não enxergamos em nós mesmos.

E também tem a projeção positiva, quantas vezes adoramos pessoas que falam a mesma língua que nós, sentimos afinidade. Parte das qualidades da pessoa também está em nós.

Estava vendo um vídeo com o Prem Baba e ele disse algo assim: “Se a vida é uma escola, os relacionamentos são a universidade”, aproveite a oportunidade de trabalhar aspectos seus através do outro.

Quando alguém lhe incomodar, aceite e não reaja. Procure saber o que isso tem a ver com você.

Conforme expandimos em consciência e trabalhamos o nosso autoconhecimento, deixamos de nos incomodar com o outro, curamos nossas feridas, damos novo significado às nossas relações.

Que essas palavras toquem seus corações e sirvam para alguns insights.

Gratidão!

*****

*Paula Rosa é Consultora de Numerologia. Reikiana, e apaixonada pelo autoconhecimento. Aprendendo sempre sobre Espiritualidade e Física Quântica

(Do blog O Segredo)

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Vinicius



Vinicius por Romero

Poeta, diplomata, cantor, compositor, boêmio e mulherengo, não necessariamente nessa ordem, Vinicius de Moraes morreu em 9 de julho de 1980. Lá se vão quatro décadas cravadas. Artista admirável em todos os sentidos, tenho comigo que a melhor criação é o poema “O haver” do poetinha. (...)

Juremir Machado da Silva

O Haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
− Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento 
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade 
Do tempo, essa lenta decomposição poética 
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius. 

Resta esse coração queimando como um círio 
Numa catedral em ruínas, essa tristeza 
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria 
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história... 

Resta essa vontade de chorar diante da beleza 
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido 
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa 
Piedade de si mesmo e de sua força inútil. 

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado 
De pequenos absurdos, essa capacidade 
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil 
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade. 

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza 
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser 
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar 
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade 
De aceitá-la tal como é, e essa visão 
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante 

E desnecessária presciência, e essa memória anterior 
De mundos inexistentes, e esse heroísmo 
Estático, e essa pequenina luz indecifrável 
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança. 

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos 
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória 
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade 
De não querer ser príncipe senão do seu reino. 

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade 
Pelo momento a vir, quando, apressada 
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante 
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada... 

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto 
Esse eterno levantar-se depois de cada queda 
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha 
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo 
Infantil de ter pequenas coragens.





quarta-feira, 8 de julho de 2020

Um soneto para os tempos de pandemia



Não negues nunca o pão

Não negues nunca o pão ao que te bate à porta,
nem o trates jamais de maneira violenta.
Amar é o sumo bem e, se o pão alimenta,
o gesto vivifica e a palavra conforta.

Vê no desconhecido a velha folha morta
que, às tontas, voluteia agarrada à tormenta;
ama-o como a ti mesmo. O amor constrói, sustenta,
encoraja, encaminha, ensina, instrui e exorta.

Não o faças, porém, visando recompensa:
o interesse amesquinha e desvirtua a crença.
Ama pelo prazer que o próprio amor produz.

Ao que te pede o pão não o negues jamais,
nem queiras ver, depois, teu nome nos jornais;
faze-o, com humildade, em nome de Jesus!

Gioia Junior