sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Desapego

 Carmen Regina Oliveira

Não dava para levar mais nada na mala. Ficou a chave da casa em cima da mesa pequena da cozinha (alguém poderia ou precisaria usar), alguns agasalhos novos e, é claro, alguns amigos (eles não poderiam partir comigo) mas os levaria em meu coração. 

Sentiria saudade de tudo e de todos, mas tinha que seguir. 

Não olhei para trás. Não foi covardia, mas quem sabe um pouco de tristeza em passar tanto tempo naquele lugar que nem meu era... 

Levei somente o necessário. Alguns livros, muitos papéis em branco, outros rabiscados e canetas. Sim canetas, e coloridas, saberia como usá-las. Reescreveria minha vida. 

Sei que desapegar-se é um processo que envolve talvez mágoa, pelos menos para mim, mas já havia tomado a decisão. 

Desapegar-se daquele cantinho, daquele sofá antigo, daquele olhar doce colecionado em fotografias. Sei que seria difícil mas eu conseguiria. 

Foi o que fiz. Não expulsei as lembranças mas diminui o poder delas, colocando-as lá no lugar que lhes cabe: no passado. 

Desapegar-se é permitir que as pessoas partam da gente sem que nos sintamos desistindo delas ou de nós mesmos. 

É abrir mão de planos. É como despir-se de alguns sonhos. 

É esvaziar-se de algumas expectativas deixando lugar para que novas portas e janelas se abram e venham ao nosso encontro, mesmo carregando uma mala praticamente vazia. 

(Do livro “Palavras 2018” da AJEB*)

*Associação de Jornalistas e Escritores do Brasil.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Excelente para refletir

 

Uma mãe e um bebê camelo, estavam por ali, à toa, quando, de repente, o bebê camelo perguntou:

- Mamãe, por que os camelos têm corcovas? 

- Bem, meu filhinho,  nós somos animais do deserto, precisamos das corcovas para reservar água e por isso mesmo somos conhecidos por sobreviver sem água. 

- Certo, e por que nossas pernas são longas e nossas patas arredondadas? 

- Filho, certamente elas são assim para permitir caminhar no deserto. Sabe, com essas pernas longas eu mantenho meu corpo mais longe do chão do deserto que é mais quente que a temperatura do ar e assim fico mais longe do calor. Quanto às patas arredondadas eu posso me movimentar melhor devido à consistência da areia! − disse a mãe. 

- Certo! Então, por que nossos cílios são tão longos? De vez em quando eles atrapalham minha visão. 

- Meu filho! Esses cílios longos e grossos são como uma capa protetora para os olhos. Eles ajudam na proteção dos seus olhos quando atingidos pela areia e pelo vento do deserto! - respondeu a mãe com orgulho. 

- Tá, mamãe. Então a corcova é para armazenar água enquanto cruzamos o deserto, as pernas para caminhar através do deserto e os cílios são para proteger meus olhos do deserto. Então o que é que estamos fazendo aqui no Zoológico? 

Moral da história: 

Habilidade, conhecimento, capacidade e experiências,

só são úteis se você estiver no lugar certo!


quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Só sorte

 (No tempo das máquinas com filme)

Sebastião tirou uma máquina fotográfica numa rifa organizada por Manoel Faustino e foi recebê-la. Sorridente, examinou-a e, nunca havendo visto uma de perto, indagou: 

- E aí, Seo Manoel Fostino, como é que se tira retrato? 

Manoel Faustino, homem seco e duro, informou: 

- Compre o filme que lá explica. 

Comprou filme. Puxou o prospecto, onde explicava: 

“La película debe tratarse em plena obscuridad o a luz del filtro protector de distància com bombilla de 15 vatios y luz directa. El riesco del transporte va entonces a cargo del cleinte. No puedem admitirse otras pretensioenes de indemnizacion de cualquier índole.” 

Achou o português muito errado e virou a página. 

Havia: 

“Traitement à l¢obscurité parfaite ou à la lumière du filtre de securité ampoule de 15 watts em eclairage direct. Les risques el périls du transport sont à la charge du client. D¢autres demandes dèpassante cette restitution ne peuvent pás être admises.” 

Achou o negócio muito rico e correu a vista à outra página, onde estava escrito: 

 “Work in local darkness or use 15 watt lamp, direct lighting. Transport is at the sustemer¢s own risk. No other clams will be considered.” 

Foi lá para fora, sentou-se num banquinho, passou a mão pelos olhos e procurou piedade na última página do papelzinho, onde se ordenava: 

 “Verarbeitung dunkeldammerbeleuchtung bei vollger 15-W-lampe, direkte beleuchtung. das transportrisiko heht hierbei zu lasten des kunden. weitere Anspruche kannen nicht anerkannt warden.” 


Botou-a numa rifa de novo. 

(Afrânio Pires Lemos − Natal)

A vadiagem

 

Rua 13 de Maio (atual Getúlio Vargas),

a preferida do 'rapazio malfazejo', que já, em 1910,

emporcalhava paredes, portas, janelas e muros.

Escrevem-nos as seguintes linhas: 

“Peço, rogo-vos um enérgico apelo à polícia contra o rapazio vadio, malfazejo, daninho, que, impunemente, vaga pelas ruas, fazendo das suas, nomeadamente pela Rua 13 de Maio e suas adjacências. 

É impossível ter-se calçadas, paredes, portas e muros em asseio: em tudo eles escrevem, e - o que é mais grave - obscenas palavras, em letras garrafais!”. 

(Correio do Povo de 15 de julho de 1910) 

Observação pessoal: 

Já bem dizia o jornalista e teatrólogo Nélson Rodrigues: “Jovens, envelheçam!”, que, na sua opinião, seria a única forma de alcançar a sabedoria. A juventude será sempre igual em qualquer fase da humanidade. Fará centenas de besteiras, errará muito para, na medida em que envelhecer, olhar para trás e ver quantos estragos fez no passado, tudo fruto da sua imaturidade e da sua fase rebelde de jovem no seu aprendizado para a vida.

Crônica do Amor

 Arnaldo Jabor

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta. 

O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estrelar. 

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais. 

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. 

Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. 

Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco. 

Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então? Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome. 

Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo. 

Quando a mão dele toca na sua nuca, você se derrete feito manteiga. Ele toca gaita de boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara? Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor. 

É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível. 

Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor? 

Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.

Não funciona assim. 

Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível. 

Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó! 

Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Dois homens tramam um assalto.

  

− Valeu, mermão? Tu traz o berro que nóis vamo rendê o caixa bonitinho. Engrossou, enche o cara de chumbo. Pra arejá. 

− Podes crê. Servicinho manero. É só entrá e pegá. 

− Tá com o berro aí? 

− Tá na mão. 

Aparece um guarda. 

− Ih, sujou. Disfarça, disfarça... 

O guarda passa pelos dois, que fingem estar discutindo. 

− Discordo terminantemente. O imperativo categórico de Hegel chega a Marx diluído pela fenomenologia de Feurbach. 

 Pelo amor de Deus! Isso é o mesmo que dizer que Kierkegaard não passa de um Kant com algumas sílabas a mais. Ou que os iluministas do século 18... 

O guarda se afasta. 

− O berro, tá recheado? 

− Tá. 

− Então vamlá!

(Luís Fernando Veríssimo)

O mau perdedor

 

Para ajudar a identificar as atitudes de mau perdedor e assim facilitar combatê-las, eis as 5 principais atitudes do mau perdedor: 

Inventar mil desculpas − a típica desculpa de um mau perdedor começa com “ah, mas”. Pode ser algo como “ah, mas a outra equipe tinha muito mais recursos e apoio”, ou “ah, mas deixaram a final para um feriadão e a torcida não estava lá para apoiar o nosso time”. O que elas têm em comum é que procuram “culpar” as circunstâncias, ou fazer parecer injusta a superioridade demonstrada pelo adversário.

Menosprezar a vitória alheia − a súbita mudança de opinião sobre o valor da disputa é um sintoma claro do mau perdedor. Embora seja positivo compreender e comunicar que a recente derrota não impedirá vitórias futuras, isso não pode ter a lamentável conotação de “nem queríamos ganhar mesmo”, como quando o derrotado que disputou até o final um campeonato estadual passa a dizer que está mesmo preocupado com o campeonato nacional, tentando assim (geralmente sem sucesso) desvalorizar a vitória do oponente. 

Mudar de ideia sobre a validade da disputa − as regras e condições da disputa são conhecidas desde o princípio, e foram aceitas ao longo de todo o certame. Por que criticá-las só ao final e após não ter sido o vencedor? Se elas não tiverem sido cumpridas, a atitude correta é recorrer, e aí sim divulgar a providência tomada. Simplesmente criticar o que anteriormente foi aceito é o típico “choro do perdedor”.

Culpar as circunstâncias − se as circunstâncias não desrespeitaram a regra que foi aceita, elas são parte da disputa, e todos os participantes terão estado expostos à possibilidade delas. A forma como as competências, habilidades e atitudes de cada oponente são usadas para fazer frente às circunstâncias que a eles se apresentem fazem a diferença. Vale lamentar que alguma circunstância tenha afetado de modo desproporcional o seu lado na disputa, mas não usar isso para implicar que o lado vencedor não mereceu sua vitória - afinal, se choveu forte e o adversário foi o melhor na pista por causa disso, o mérito de aproveitar melhor a circunstância é dele.

Desrespeitar o adversário − talvez o grau mais baixo da escala dos comportamentos de maus perdedores, quem pratica a atitude de desvalorizar o vencedor muitas vezes nem percebe a consequência lógica: se o adversário vencedor era mesmo tão ruim assim, que dizer de quem perdeu dele? 

(Do blog Efetividade.net)

P.S. Para algumas pessoas, será que  o Brasil está acima de tudo?

“Ganhar roubando já é um constrangimento. Perder roubando então...” 

(Antonio Tebet humorista do Porta dos Fundos)