sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Homenagem

A Brigada de Infantaria Paraquedista, ao comemorar o cinquentenário (1945-1995) de sua criação, sente-se orgulhosa em homenagear o Capitão Paraquedista Edson Xavier de Almeida (Pqdt 509 – 1951/3 – MS 311), pelos belos e expressivos sonetos escritos para os festejos do jubilei de ouro de nossa Grande Unidade. Engrandecendo, ainda mais, o acervo histórico e cultural dos Paraquedistas Militares do Exército Brasileiro, seus versos cimentam, de maneira indelével, a grandeza e a bravura dos “irmãos do condor”.

General-de-Brigada Gilseno Nunes Ribeiro Neto,

Comandante da Brigada de Infantaria Paraquedista. 

Divido esta homenagem com todos os meus irmãos militares, republicando, aqui, alguns destes meus sonetos que constam do livro “Ser Paraquedista”, comemorativo do citado jubileu, escrito por Ly Adorno de Carvalho (Pqdt 503). 

Ser Paraquedista

Cap Pqdt Edson Xavier de Almeida

Obrigado, Senhor, por ter firmado

Meus passos no caminho do dever;

Por ter de verde-oliva me fardado

Pra que eu fosse o que sou, feliz de o ser. 


Obrigado, Senhor, por ter-me dado

O que na vida um homem pode ter:

Uma pátria, da qual me fiz soldado,

Um Deus e uma família pra viver. 


Obrigado, Senhor onipotente,

Por ter-me feito um singular guerreiro

Que faz do desafio uma conquista... 


Obrigado, Senhor, principalmente,

Por ter nascido em solo brasileiro

E ‒ mais, Senhor ‒ por ser paraquedista! 

Boina Paraquedista

Cap Pqdt Edson Xavier de Almeida

Quando a hora final me for chegada,

O toque de silêncio, o adeus, a dor...

Quero esta boina rubra pendurada

Na solitária cruz para onde eu for.

 

E então a minha boina avermelhada,

Com o meu sangue estampado em sua cor,

Há de ser para sempre relembrada

Como o troféu de um bravo ‒ o destemor!

 

E não se assustem, para o espaço olhando,

Se virem, no final de uma largada,

Minha boina vermelha flutuando...


Certamente, sou eu que ainda estarei,

Com saudade da vida e da Brigada,

Saltando entre os amigos que deixei. 

(Do livro Musa Rediviva, de Edson Xavier de Almeida) 

P.S.: A Brigada de Infantaria Paraquedista, tropa de elite do Exercito Brasileiro, completará, neste ano de 2025, oitenta anos!

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

O maior goleiro do Grêmio

 Mitos e verdades sobre a morte de Lara 

O goleiro Eurico Lara virou lenda do futebol gaúcho. Quando morreu, era o grande ídolo do Grêmio, admirado também por adversários. Uma multidão acompanhou o funeral do jogador na tarde de 6 de novembro de 1935. Aos 37 anos, Lara morreu no início da manhã daquele dia, no quarto 96 do Hospital Beneficência Portuguesa, em Porto Alegre. 

Pelo registro do óbito em cartório, a morte foi causada por sífilis e aneurisma da aorta ascendente. O velório ocorreu na sede do Grêmio, na Rua Mostardeiro, no bairro Moinhos de Vento. Colegas de equipe carregaram o caixão durante boa parte do trajeto até o Cemitério São Miguel e Almas. O cortejo reuniu grande número de torcedores nas ruas da cidade. O jornal A Federação classificou Lara como “o jogador mais querido do Estado”. O ídolo gremista era casado com Maria Cândida Lara e pai de uma menina, Odessa. 

Por 15 anos, o goleiro defendeu o Grêmio. Pelas estatísticas oficiais do clube, foram 217 jogos: 158 vitórias, 31 empates e 28 derrotas. Lara estreou em 15 de junho de 1920, em um amistoso vencido pelo Grêmio por 3 a 0 contra o Juventude, na Baixada. Ele veio de Uruguaiana, cidade onde nasceu e ingressou na carreira militar. No futebol, queria ser atacante, mas, magro e alto, acabou no gol. Corajoso, logo se destacou pelas defesas arrojadas. 

Convidado para jogar no Grêmio, teria resistido. Não queria morar na cidade grande, preferia a vida calma da Fronteira Oeste. Por influência de um dirigente tricolor, foi transferido pelo Exército para Porto Alegre. 

‒ Ele morou na Baixada, foi zelador e ecônomo. Cuidava do estádio, desde cortar a grama até arrumar cercas. Também foi treinador de atletas jovens ‒ conta Carlos Eduardo Santos, coordenador do Museu do Grêmio. 

Entre 1920 e 1935, Lara ficou apenas uma temporada fora do Grêmio. Em 1928, jogou pelo Futebol Clube Porto Alegre (Fuss-Ball). Defendendo o Tricolor, conquistou 11 campeonatos da cidade e cinco estaduais. A fama rompeu fronteiras. Lara jogou também pela Seleção do Exército e pela Seleção Gaúcha. Foi o maior ídolo do período amador do futebol no Rio Grande do Sul. Respeitado e conhecedor das regras, além de jogador, atuava como árbitro em partidas de outros clubes.

Retrato de Lara em 1933. Revista do Globo / Delfos/PUCRS 

A história de Lara está cercada de lendas, várias envolvendo sua morte. Você já deve ter ouvido que o goleiro morreu em um Gre-Nal, após defender um pênalti cobrado pelo irmão. Em outra versão, teria saído do jogo para morrer no hospital. Nenhuma delas é real. 

É fato que sua última partida foi o Gre-Nal Farroupilha, em 22 de setembro de 1935. Devido aos problemas de saúde, Lara jogou apenas o primeiro tempo. Na arquibancada, viu os colegas vencerem o rival por 2 a 0 e conquistarem o Citadino.

Colegas carregaram o caixão de Lara.

Reprodução / A Federação 

Multidão acompanhou o cortejo pelas ruas de Porto Alegre.

Reprodução / Museu do Grêmio - Hermínio Bittencourt 

Mesmo doente, ainda atuou como árbitro até o início de outubro, um mês antes do falecimento. Segundo o jornal A Federação, o goleiro morreu às 7h10min de 6 de novembro de 1935. O livro de registros da Beneficência Portuguesa indica que a internação ocorreu três dias antes. 

Se já não bastassem as histórias e lendas envolvendo o ídolo, na letra do hino do Grêmio, Lupicínio Rodrigues eternizou o goleiro: “Lara, o Craque Imortal.”

Lara em campo em 1925 

O Grêmio viajou ao interior gaúcho para uma série de amistosos entre o final de maio e início de junho de 1925. Em Pelotas, a partida contra o Esporte Clube Pelotas foi filmada pela produtora Atlas Filmes. Descoberto no acervo da Leopoldis-Som, o fragmento preservado tem 48 segundos.  

Em um domingo, 31 de maio de 1925, as duas equipes empataram em 1 a 1 no Estádio Boca do Lobo. Tutu fez para o Pelotas e Coró marcou para os visitantes, que jogavam com camisa celeste. As imagens mostram em ação o lendário goleiro Eurico Lara. 

(Do jornal Zero Hora, 06.11.2025) 


segunda-feira, 3 de novembro de 2025

A mulher no analista

‒ Meu caso, doutor, não é propriamente um analista. Preciso de um homem que me entenda, o senhor me entende? 

‒ O meu verdadeiro “eu” está escondido no decote, quer ver? 

‒ Sonho sempre com o mesmo homem, o senhor não podia receitar um remédio pra variar? 

‒ O que me desagrada na sua profissão é que o senhor só lida com débil mental. 

‒ Tenho vergonha de confessar que às vezes não tenho vergonha. 

‒ O senhor não faz permuta? Eu entro com o subconsciente e o senhor com o consciente. 

‒ É normal, doutor, que eu continue anormal? 

‒ Sempre que saio de casa esqueço o mordomo no armário. 

‒ Descobri que nasci para ser mãe: tenho oito filhos, um de cada marido. 

‒ No cinema sempre sento no colo dos outros, mas só percebo quando acende a luz. 

‒ Antes eu só mudava de roupa com a janela aberta para os vizinhos, agora abro até as portas. 

‒ O doutor não faz ideia como me sinto sozinha neste divã. 

‒ Não tenho dinheiro suficiente para lhe pagar a consulta, o senhor não poderia me restituir uns dois ou três complexos? 

Do livro “O homem ao meio” de Leon Eliachar

Em defesa dos animais

 Texto de Paulo Mendes

Vivi por muitos anos no meio rural, numa chácara nos arredores de Júlio de Castilhos. Por isso aprendi, desde guri, a cuidar de todos os tipos de animais. Era terneiro guaxo, borrego, leitão, passarinhos e até filhotes de gambá. Era comum para nós, os meninos do campo, salvar essas pequenas criaturinhas que, por um motivo ou outro, ficavam órfãs no mundo e precisavam de auxílio para sobreviver. Recordo que tínhamos muito orgulho de contar para outras crianças quando conseguíamos salvar um ou mais bichinhos das intempéries climáticas, de algum predador  desalmado e até acidentes. Sem saber, passávamos por uma espécie de curso intensivo de preparação para a vida, a ter um respeito total pelos seres vivos, de todas as espécies, tamanhos e classes. Compreender e valorizar a natureza é um jeito e uma forma primitiva e primordial de se respeitar os outros e a si mesmo, entender que toda firma de vida é importante para a nossa existência. Nenhum ser humano ou animal tem mais valor que outro e todos cumprem o seu papel no mundo. Vejo com muito bons olhos hoje o crescimento do número de entidades de apoio aos animais e o envolvimento cada vez maior da população. Cuidar dos animais é cuidar do planeta. 

Correio do Povo, 02.11.2025

guacho: diz-se do animal que é alimentado com leite que não é o materno. 

borrego: carneiro com até um ano de idade. 

gambá: designação comum aos mamíferos marsupiais, de cor cinza e grande comedor de galinhas.

Obrigado, minha terra

Obrigado rios de São Pedro
pelo peso da água em meu remo.
Feitorias do linho-cânhamo
obrigado pelos lanhos.
Obrigado loiro trigo
pelo contraste comigo.
Obrigado lavoura
pelas vergas no meu couro.
Obrigado charqueadas
por minhas feridas salgadas.
Te agradeço Rio Grande
o doce e o amargo
pelos quais te fiz meu pago
e as fronteiras fraternas
por onde busquei outras terras.
Agradeço teu peso em meus ombros
músculos braços e lombo.
Por ser linha de frente no perigo
lanceando teus inimigos.
Muito obrigado pelo ditado
“negro em posição é encrenca no galpão”.
Obrigado pelo preconceito
com que até hoje me aceitas.
Muito obrigado pela cor do emprego
que não me dás porque sou negro.
E pelo torto direito
de te nomear pelos defeitos.
Tens o lado bom também
– terra natal sempre tem.
Agradeço de todo o coração
e sem nenhum perdão.

(Pelo escuro, 1977, de Oliveira Silveira)

Oliveira Silveira (1941-2009) foi um poeta, intelectual negro e militante que se tornou o principal idealizador do Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro. Formado em Letras pela UFRGS, atuou como professor e ativista, utilizando sua obra literária e publicações para combater a discriminação racial e resgatar a memória afro-brasileira. Ele também fundou o grupo Palmares e foi reconhecido como o “Poeta da Consciência Negra”. 

domingo, 2 de novembro de 2025

Predestinação

 

Tinha no nome seu destino líquido:

mar, rio e lago.

Pois se chamava Mário Lago.

Viu a luz sob o signo de Peixes.

Brilhava no céu a constelação de Aquário.

Veio morar no Rio.

Quando discutia, sempre levava um banho.

Pois era de um temperamento transbordante.

Sua arte preferida: água-forte.

Seu provérbio predileto: “Quem tem capa, escapa”.

Sua piada favorita: “Ser como o rio: seguir o curso sem deixar o leito”.

Pois estudava: engenharia hidráulica.

Quando conheceu uma moça de primeira água.

Foi na onda.

Teve que desistir dos estudos quando estava na bica para se formar.

Então arranjou um emprego em Ribeirão das Lajes.

Donde desceu até ser leiteiro.

Encarregado de pôr água no leite.

Ficou noivo e deu à moça uma água marinha.

Mas ela o traiu com um escafandrista.

E fugiu sem dizer água vai.

Foi aquela água.

Desde então ele só vivia na chuva.

Virou pau d’água.

Portanto, com hidrofobia.

Foi morar numa água furtada.

Deu-lhe água no pulmão.

Rim flutuante.

Água no joelho.

Hidropsia.

Bolha de água.

Gota.

Catarata.

Morreu afogado. 

(Millôr Fernandes, em “Pif-Paf” O Cruzeiro de 1951)

sábado, 1 de novembro de 2025

“CRIANÇA”

 

Lugar de criança,

é na Escola,

e não nas ruas,

pedindo esmola. 

Lugar de criança,

é na Escola,

e não nas praças,

cheirando cola. 

Lugar de criança.

é na Escola,

e não nos laranjais,

enchendo sacola. 

Lugar de criança,

é na Escola,

e não nos canaviais,

enriquecendo usineiro frajola. 

Lugar de criança,

é na Escola,

e não jogado pra cá,

jogado pra lá,

feito boneco de mola. 

Lugar de criança,

é na Escola,

e não sustentando

pai bêbado e gabola. 

Lugar de criança,

é na Escola,

preparando-se para ser

o futuro Mestre-Escola,

se os governantes,

usarem a cachola...  

Texto de Maria Fernandes

(professora aposentada do Estado do Rio Grande do Sul)