Dos
sete contos selecionados abaixo, um deles apresenta foco narrativo de primeira
pessoa, técnica
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
Contos de Machado de Assis
Cheiros e causos dos setembros de alvoroços
Paulo Mendes
Era uma linda manhã de setembro, quando alguns clientes já haviam chegado ao bolicho. Alguns vizinhos vieram a pé, enquanto seu Neto tinha chegado em seu cavalo moro. O Lampião estacionara o jipe debaixo dos cinamomos, enquanto o Bibo viera de bicicleta, e o Surdinho, em um velho trator John Deere. Foi quando um casal de sabiás-laranjeira empreendeu um voo em dueto desde a tronqueira da cerca da Esquina Maboni, subiu aos ares em um bailado de negaceios de penas e bicos, passou por cima das taquareiras, realizou manobras acrobáticas sobre a antiga estrada real e enveredou num voo rasante em direção à porta da venda, onde entrou de supetão e pousou no balcão engraxado. Os amantes alados abriram as asas felizes e cantaram. Seu Turíbio fez menção de rir, mas se conteve e disse:
‒ Chegou a primavera.
Setembro sempre aspergia cheiros de graxa pingando nas brasas, havia um sorriso maroto no rosto dos moços que sonhavam nesta época com alguns amores proibidos. Nesta época, nós, os adolescentes, nos cortávamos com aparelhos de barbear dos pais, querendo ser adultos. As jovens estudantes retiravam dos cadernos pétalas perfumadas de flores e esperavam o ônibus exalando cheiros de Cashemere Bouquet roubados das mães e avós. Os homens engraxavam botas, adelgaçavam cavalos e passavam em frente ao bolicho bem pilchados rumo aos desfiles e alvoroços.
As senhoras vestiam roupas novas, enrolavam os cabelos, faziam máscaras e toucas, se enfeitavam e, à noite, se banhavam antes de se deitar. A proximidade da primavera inundava o ar de malícias, gritos de guerra, exaltações, fanfarronices e mitologias gauchescas. Meu tio Carrapicho aparecia montado numa petiça gateada e estendia causos de antigas tropeadas e histórias de assombrações, de domas de cavalos xucros e de noites de ronda.
Depois das friagens do inverno, das geadas que a tudo tirava o viço, das chuvas guasqueadas nas tardes curtas, um sol ameno aparecia pelos oitões do rancheiro. O povo voltava a matear debaixo dos arvoredos, ligavam os rádios e, no bolicho, recomeçavam a jogar bochas, a atirar a tava, pediam a chave da mesa de Mini Snooker. À noite, os velhos puxavam a fumaça de palheiros bem sovados, coçavam as barbas brancas e começavam a ter pena de morrer. Voltavam os jogos de bola no campinho das rosetas, a mãe fazia de novo os assados no domingo. Eu lia contos de Simões Lopes Neto e ensaiava declamar de cor uns versos amorosos de Aureliano de Figueiredo Pinto.
Setembro existia para nos lembrar que nem tudo era tristeza sobre a terra. Era um mês que chegava meio apaixonado, trazendo flores nos alforjes e milhares de esperanças na garupa. Em setembro, quando dormíamos, tínhamos a sensação de que navegávamos sozinhos numa jangada, como Ulisses, o grego, de volta para casa em busca de sua eternidade.
(Da coluna Campereada, jornal Correio do Povo, 06.09.2026)
domingo, 6 de setembro de 2026
Pacto com a Felicidade
De hoje em diante, todos os dias ao acordar, direi:
Eu hoje vou ser Feliz!
Vou lembrar de agradecer ao sol
Pelo seu calor e luminosidade.
Sentirei que estou vivendo, respirando.
Posso desfrutar de todos os recursos da natureza gratuitamente.
Não preciso comprar o canto dos pássaros,
Nem o murmúrio das ondas do mar.
Lembrarei de sentir a beleza das árvores, das flores.
Vou sorrir mais, sempre que puder.
Vou cultivar mais amizades e neutralizar as inimizades.
Não vou julgar os atos dos meus semelhantes ou companheiros.
Vou aprimorar os meus.
Lembrarei de ligar para alguém para dizer que estou com saudades!
Reservarei minutos de silêncio
Para ter a oportunidade de ouvir.
Não vou lamentar nem amargar as injustiças,
Vou pensar no que posso fazer para diminuir seus efeitos.
Terei sempre em mente que um minuto passado, não volta mais.
Vou viver todos os minutos proveitosamente.
Não vou sofrer por antecipação prevendo futuros incertos,
Nem com atraso, lembrando de coisas
Sobre as quais não tenho mais ação.
Não vou pensar no que não tenho e que gostaria de ter,
Mas em como posso ser feliz com o que possuo,
E o maior bem que possuo é a própria vida.
Vou lembrar de ler uma poesia e de ouvir uma canção,
Vou dedicá-las a alguém.
Vou fazer alguma coisa para alguém, sem esperar nada em troca,
Apenas pelo prazer de ver alguém sorrir.
Vou lembrar que existe alguém que me quer bem,
Vou dedicar uns minutos de pensamento para os que já se foram
Para que saibam que serão sempre uma doce lembrança,
Até que venhamos a nos encontrar outra vez.
Vou procurar dar um pouco de alegria para alguém,
Especialmente quando sentir que
A tristeza e o desânimo querem se aproximar.
E quando a noite chegar, vou olhar para o céu,
Para as estrelas e para o luar e
Agradecer aos Anjos e a Deus, porque...
Hoje Eu fui Feliz!
Autoria desconhecida
Meus interesses?
Deixem-os pra lá.
Aviso aos candidatos à presidência e demais cargos públicos. Sou uma mulher branca e heterossexual. Minha família pagou meu colégio e a faculdade. Na juventude, pude me exercitar, estudar idiomas, viajar. Fui criada em meio a livros, filmes e teatro. Nenhum homem jamais levantou a mão para mim.
Tenho plano de saúde e previdência privada. Trabalho há 45 anos. Minhas duas filhas estão criadas. Vivo no meu próprio país, nunca tive que abandoná-lo para fugir da fome ou de uma guerra. Se eu me apertar, aciono minha rede de contatos. Deveria votar em quem defende os meus interesses? Os meus???
Meus interesses foram atendidos desde o dia em que nasci ‒ aliás, antes mesmo de eu nascer, pois minha mãe teve condições de realizar os exames de pré-natal.
Preciso do governo infinitamente menos do que aqueles que ainda lutam por seus direitos básicos. Tenho 65 anos de privilégios. Voto por quem tem 3 anos e é cuidado por um irmãozinho de 9, enquanto a mãe realiza serviços domésticos na casa dos outros ‒ aos sábados, inclusive. Voto por quem tem 12 e teve que sair da escola para ajudar na renda familiar. Voto por quem tem 24 e ainda não conseguiu o primeiro emprego. Voto por quem mora em encostas, por quem sofre violência, por quem mal sabe escrever.
Seria uma indecência se eu votasse pensando em mim.
Voto em quem pode impedir a escalada do retrocesso, da ignorância e da irresponsabilidade de indivíduos que nunca conceberam um projeto social de inclusão e negam evidências científicas. Voto em qualquer um que, em vez de ser um entreguista lambe-botas, defende nossa independência e democracia, em vez de tratar o Brasil como sucursal dos Estados Unidos. Obviamente, quem assumir em janeiro vai cometer erros e será cobrado, como acontece em todas as gestões de todas as nações. Mas não contem comigo para dar poder a quem nunca demonstrou compaixão por homens e mulheres que dependem de um governo consciente. O mercado importa, o agro importa, a economia importa, o empresariado importa, desde que beneficiem também a população, e não apenas suas bolhas.
Minhas angústias emocionais, conhecidas como white people problem, atenuo com amigos, leitura e terapia, sob um teto sólido e com a certeza de que almoçarei amanhã. Desejo, claro, ver meus impostos bem investidos, a valorização da cultura, o meio-ambiente preservado e a corrupção combatida, mas sem esquecer o principal: nunca iremos decolar enquanto o Brasil for um dos países mais desiguais do mundo. É o nosso problema maior, que origina tantos outros.
Portanto, nobres candidatos, obrigada pelas considerações, mas deixem para lá meus interesses. Vocês têm mais com o que se preocupar.
(Do caderno donna, do jornal Zero Hora, 05.09.2026)
sábado, 5 de setembro de 2026
As dez músicas mais censuradas
Durante o Regime Militar no Brasil
Durante o Regime Militar no Brasil
10. “Eu quero é botar o meu bloco na rua”, de Sérgio Sampaio.
09. “Pare de tomar a pílula”, de Odair José.
08. “Mosca na sopa”, de Raul Seixas.
07. “Que as crianças cantem livre”, de Taiguara.
06. “Meu novo sapato”, de Paulinho da Viola.
05. “Comportamento Geral”, de Gonzaguinha.
04. “Pra não dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré.
03. “Acorda, amor”, de Julinho de Adelaide* (Chico Buarque).
02. “Cálice”, de Chuço Buarque e Milton Nascimento.
01. “Apesar de você”, de Chico Buarque.
* Chico Buarque usou um codinome inventado porque as músicas com críticas políticas diretas eram proibidas ou cortadas pelos censores do regime.
Outra lista de musicas censuradas
As dez músicas mais marcantes que enfrentaram a censura durante o Regime Militar no Brasil (1964–1985) tornaram-se símbolos de resistência, liberdade e denúncia contra a repressão política e moral da época.
01. Apesar de Você (1970) – Chico Buarque: Um dos maiores hinos de resistência, a música foi liberada inicialmente por os censores não perceberem a crítica direta ao autoritarismo, mas acabou banida e recolhida das lojas após o sucesso popular.
02. Pra não dizer que não falei das flores (1967) – Geraldo Vandré: Conhecida como “Caminhando”, virou o hino da resistência estudantil e da oposição, o que levou à perseguição e ao exílio de seu autor.
03. O Bêbado e a Equilibrista (1979) – João Bosco e Aldir Blanc (gravada por Elis Regina): Considerada o hino não oficial da anistia, a letra lamentava o exílio de artistas e pedia a volta dos banidos pelo regime.
04. Cálice (1973) – Chico Buarque e Gilberto Gil: Usava uma metáfora religiosa (“Pai, afasta de me esse cálice”) para driblar a censura e falar sobre o silenciamento e a opressão, sendo integralmente proibida na época.
05. Tiro ao Álvaro (1973) – Adoniran Barbosa e Elis Regina: Canção barrada pelos censores sob a justificativa de “ofensa ao vernáculo” (por usar o português coloquial e popular de São Paulo), embora carregasse um tom subversivo informal.
06. Que as crianças cantem livres (1963) – Taiguara: De autoria do artista mais censurado do período, a faixa foi vetada por expressar anseios de liberdade e críticas sociais profundas.
07. Meu novo sapato (1976) – Paulinho da Viola: Teve a circulação vetada devido ao duplo sentido da letra, que a censura interpretou como uma alusão velada aos militares e à rigidez do governo.
08 Alegria, Alegria (1967) – Caetano Veloso: Teve versos questionados e enfrentou forte patrulhamento dos censores por misturar rebeldia juvenil, comportamento e críticas veladas ao moralismo da época.
09. Acender as velas (1965) – Zé Keti: Retratava a dura realidade e o abandono das periferias urbanas, sendo vista pelo regime como propaganda negativa da realidade social brasileira.
10. Eu quero é botar meu bloco na rua (1972) – Sérgio Sampaio: O refrão de forte apelo à autonomia pessoal e à liberdade individual soou incômodo para as autoridades do início dos anos 70, resultando em vigilância e restrições ao cantor.
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
Carta ao Inquilino
Senhor morador:
Gostaria de informar que o contrato de aluguel que acordamos há bilhões de anos atrás está vencendo. Precisamos renová-lo, porém temos que acertar alguns pontos fundamentais:
01 ‒ Você precisa pagar a conta de energia.
Está muito alta! Como você gasta tanto?
02 ‒ Antes eu fornecia água em abundância; hoje não disponho mais desta quantidade. Precisamos renegociar o uso.
03 ‒ Por que alguns na casa comem o suficiente e outros estão morrendo de fome, se o quintal é tão grande? Se cuidar da terra vai ter alimento para todos!
04 ‒ Você cortou as árvores que dão sombra, ar e equilíbrio. O sol está quente e o calor aumentou. Você precisa replantar novamente!
05 ‒ Todos os bichos e as plantas do imenso jardim devem ser cuidados e preservados. Procurei alguns animais e não encontrei. Sei que quando aluguei a casa eles existiam...
06 ‒ Não vi os peixes que moram nos rios e lagos. Você pescou todos? Onde estão?
07 ‒ Precisa verificar que cores estranhas estão no céu! Não vejo o azul!
08 ‒ Por falar em lixo, que sujeira! Encontrei objetos estranhos pelo caminho... isopor, pneus, plásticos e muitas outras sujeiras que encontrei nos oceanos.
09 ‒ Você notou que as geleiras estão derretendo principalmente por causa do aquecimento global, que aumenta a temperatura média da Terra devido ao excesso de gases do efeito estufa na atmosfera. Tome cuidado!
10 ‒ E por último, uma advertência: o Oceano Pacífico está mais quente principalmente devido à forte atuação do fenômeno climático El Niño combinado com o avanço contínuo do aquecimento global, cuja causa é a emissão excessiva de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera devido às atividades humanas, conforme explica a Nações Unidas.
Bom... é hora de conversarmos. Preciso saber se você ainda quer morar aqui. Caso afirmativo, o que você pode fazer para cumprir o contrato? Gostaria de ter você sempre comigo, mas tudo tem um limite. Você pode mudar? Aguardo respostas e atitudes...
Sua casa,
A Terra
O discurso do velhinho
Essa também se passa numa pequena cidade do interior gaúcho, numa época de eleições municipais. Um senhor, pequeno comerciante da comunidade, sorridente e simpático, começa, timidamente, o seu discurso para uma pequena plateia de curiosos na pacata pracinha da cidade:
‒ Meus senhores, minhas senhoras, povo desta comunidade!
Alguém, no meio do pequeno grupo, grita só de sacanagem:
‒ Cala a boca, velho!
O senhor para de falar, encara a pequena plateia e diz alto e convicto de suas palavras:
‒ Meu futuro correligionário, ser velho é uma condição que vai além da idade cronológica, envolvendo construções sociais, psicológicas e biológicas, entendeu? Mas como eu ia dizendo...
Mais uma vez, um desocupado grita bem alto:
‒ Não incomoda, ancião!
‒ Meu jovem, ser ancião abrange tanto a ideia de maturidade e sabedoria ligada à idade avançada quanto o papel de liderança espiritual e comunitária, vê se aprende esta lição. Volto ao meu discurso, meus senhores e minhas senhoras...
Novamente, um gaiato grita no meio das poucas pessoas presentes no local:
‒ Cala a boca, decrépito!
O velhinho responde, encarando a galera:
‒ Meu amigo, se ser decrépito é referir-se ao estado de decadência física, mental ou estrutural extrema, geralmente causado pelo envelhecimento avançado ou por profundo desgaste natural, eu não sou nada disso. Falei!
O velho candidato começa a ficar impaciente e nervoso. Seu rosto já está ficando vermelho de raiva. Então, ele recomeça a sua fala:
‒ Mas como eu ia dizendo, se não for mais uma vez interrompido, meus senhores e minhas senhoras!
Quando um sacana resolve pegar pesado com o velhinho:
‒ Cala a boca, velho brocha!
O idoso, que já tinha esgotado todo o seu repertório de argumentos bonitos, encara a plateia, olha bem para o sacana e descarrega sua cólera, agora sem medir as suas palavras:
‒ Velho brocha! Brocha é a puta que o pariu!







