quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Você precisa realmente ser assaltado?



→ É evidente que a resposta é sim. É claro que você precisa ser assaltado.

→ Observe com atenção uma pessoa que ainda não foi assaltada. Veja como ela é mole, flácida, desmotivada e sem vida. Repare na sua palidez, nos seus olhos sem brilho.

→ Agora observe um assaltado típico. Veja quer bela musculatura, rígida, o porte bonito, o andar rápido, o olhar permanentemente alerta e a adrenalina sempre no nível correto.

→ Sim, é evidente que você precisa de um bom assalto para reviver.

→ Imagine todos os seus amigos reunidos, todos contando como foi o assalto da semana, trocando precisas informações ou novidades, e você lá, sentando, só ouvindo, sem nada para dizer.

→ Meu amigo, se você não quer ser conhecido com uma dessas pessoas insípidas e desinteressantes, mãos à obra e já. Não permita que ninguém o desestimule, nem mesmo a sua mãe.

→ Lembre-se de que se dependesse dela, você estaria escrevendo cartinhas para o Papai Noel até hoje.

→ O importante é que um bom assalto tempera os nervos e prepara o seu coração para emoções fortes como os casuísmos e as novelas de tevê. Está comprovado que um assalto profissional você pode morrer por uma montanha de razões, as nunca por ataque cardíaco.

→ O objetivo deste guia é o de transformar você neste profissional. É o de estimular novas e fascinantes experiências pessoais e sólidas amizades. É, finalmente, o de abrir para você as portas do sucesso e da satisfação pessoal.

O Autor


(Do livro “O Guia do Assaltado”, de Roberto Schneider)


Clitóris ou ovário?

Karol Conka dá recado e ensina a diferença


Karol Conka segue abordando temas de cunho feminista em seu trabalho.

Recentemente, a rapper fez um show em Santa Maria, Rio Grande do Sul, e apresentou trechos de uma música inédita, feita em parceria com o grupo Tropkillaz.

Na letra, a curitibana critica os homens que não se preocupam em dar prazer à mulher na relação sexual, mais especificamente durante o sexo oral.

E, por conta disso, não sabem a diferença entre um clitóris e um ovário.

Segundo a música, os rapazes heterossexuais andam "desafinados" quando se trata de cantar um "lalá", gíria usada pela curitibana para se referir ao sexo oral. Gravada por um fã, a alfinetada foi postada no Youtube.

Ela canta:

Moleque mimado, bolado,
que agora chora,
Só porque eu mandei ajoelhar,
fazer um lalá por várias horas.

Ele disse por aí que era o tal,
pega geral, apavora.
Seduzi pra conferir e percebi
que era da boca pra fora.

Dá pra perceber que existem vários.
Falam demais, fingem que faz,
chega a ser hilário.
Mal sabem a diferença
de um clitóris prum ovário.
Dedilham ao contrário, egoístas,
criando um orgasmo imaginário.

A apresentação teve ainda um momento "fica a dica" para o público masculino. “Um recado para os boys heteros da noite: façam o lalá direito. Não vem com essa boca de lixa, não. Essa língua de lixa não rola. Trata direito a nossa flor!”, mandou a curitibana.

O próximo álbum de Karol Conka ainda não tem data de lançamento. Mas o recado aos homens está dado!

O Segundo Caderno do jornal Globo, de 19.01.2017, há uma boa matéria com a rapper, intitulado: Karol Conka – “Os esquisitos também existem”.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O Humor de Lamartine Babo



Soneto retratando Lamartine Babo de 1941

‒ Gozadíssima espécie de esqueleto
De abundante matéria cerebral
Como é que o Babo cabe num soneto
Se enche, sozinho, a Rádio Nacional?

Quem o vê, de canelas de graveto,
De um microfone ao pé, fino e espectral,
Julgar ver duas hastes em dueto,
Sendo bem mais gordinha... a de metal.

Certa vez, num bilhar, formou-se um rolo:
Cascudos! Bofetões! Copos em caco!
‒ E o Lamartine estava no bilhar.

Mas quem foi que falou que ele era tolo?
‒ Calmamente escondeu-se atrás de um taco.
E não houve ninguém que o fosse achar!...

(Sebastião Fonseca)




→ Ao encomendar um caixão para um conhecido que morrera, o dono da funerária perguntou ao Lalá:

‒ Quer que leve o caixão à sua casa ou o senhor já vai dentro?

→ Depois que o amigo foi sepultado, Lamartine ainda se demorou um pouco no cemitério. Ao sair, já anoitecendo, o porteiro falou:

‒ Fugindo, hein!.

→ Perguntado se entraria em um cemitério à meia-noite, respondeu:

‒ Quando eu era muito magro entrava em sonhos, crente que era uma das caveiras.

→ Ao chegar a uma esquina, contava, ouviu dois cachorros conversando e olhando para ele:

‒ Se for para a direita, é seu; se for para a esquerda, é meu.

→ Dizia frequentemente que era tão magro que seu pijama só tinha uma listra.

→ Em madrugada de boêmia com Noel Rosa, vindos de um baile na rua Ibituruna, no hoje bairro do Maracanã, sobraçavam os dois garrafas de cerveja, quando se depararam com o leiteiro, por volta das 4 horas. Seguiram-no e quando um litro de leite foi depositado no portão de uma casa, os dois substituíram-no por uma garrafa de cerveja, com a seguinte mensagem:

‒ Vai-te alimentando com a nossa cerveja, enquanto nos envenenamos com teu leite.

→ Apresentado por um amigo a um admirador na Galeria Cruzeiro:

‒ Este é o grande Lamartine Babo em carne e osso.

E Lalá:

‒ Exagero, exagero. Em osso só. Em osso só.

→ Quando, certa vez, lhe perguntaram que epitáfio escolheria, respondeu:

‒ Aqui jaz um compositor que nunca gostou de jazz!

→ “Não quero busto quando morrer, prefiro ser vivo e robusto”, costumava dizer.

→ Indagado sobre por que não ia ao dentista, respondia que era um ás do rádio brasileiro. E vinha o trocadilho:

‒ Estou subindo sempre. Sou um ás-sem-dente.

→ Quando o médico chegou à sua cabeceira e, para animá-lo, perguntou:

‒ Por que não aproveita para compor alguma coisinha agora que você melhorou?

Ele respondeu:

‒ Logo agora, doutor, que estou me decompondo!

→ “Não tenho voz, propriamente, tenho vez... E, assim sendo, destarte... a minha vez chegou”, dizia.

→ Ainda sobre sua magreza: era tão magro que conseguia passar incólume entre os pingos da chuva, comentava.

→ Numa entrevista publicada em agosto de 1936:

‒ Eu me achava um colosso. Mas um dia, olhando-me no espelho, vi que não tenho colo, só tenho osso.

→ De certa feita, ao entregar um telegrama no guichê dos Correios, notou que um dos funcionários batia com o lápis, em código Morse, para o colega, referindo-se a Lamartine:


‒ Magro e feio.

E o Lalá, de lápis na mão, também bateu em Morse:

‒ Magro, feio e ex-telegrafista.

 → Durante o carnaval de 1932, Lamartine achava-se nos salões do Botafogo, cercado de moças, quando um folião gritou em direção ao grupo:

‒ Você, Lamartine, assim transparente, no meio de tantas moças, está querendo bancar o último varão sobre a terra!

E o Lalá, prontamente:

‒ Varão não, meu amigo, varinha... varinha!

→ Dizia-se dele: “Poeta de poucos quilos e muitos quilates”.

→ Lalá, dirigindo-se a Ataulfo Alves que lhe pedia músicas para o Carnaval de 1956:

‒ Todos dizem que o Lamartine está em decadência. Então você me dê cadência que eu faço uma música.

→ Ao saber que a entrevista que dera a um telejornal seria preterida pela cobertura que a emissora de TV fizera da chegada do compositor Tom Jobim dos Estados Unidos, Lalá considerou:

‒ Quer dizer então que na verdade eu estou um Tom abaixo?

→ Sobre Lamartine imprimiu-se em determinada época nos jornais;

Quem é?
Foi magro com um palito.
Sem ser feio nem bonito
Quando canta é como o tordo...
Educado no São Bento,
Ninguém lhe nega talento,
Hoje, está, dizem, mais gordo!...

Certa vez foi a Formiga
Ver uma fã ‒ sua amiga ‒
E bancou ‒ dizem ‒ basbaque.
Por paixão ou por pagode,
Ao voltar, tal qual um bode,
Nos voltou de... cavanhaque!

Digam-nos, pois, logo à vista,
O nome do grande artista.

→ Na homenagem póstuma prestada a Lamartine no Teatro Municipal, a 1° de agosto de 1963, sob o patrocínio do Jockey Clube Brasileiro e da Secretaria de Turismo do Estado da Guanabara, o declamador Romeu Gonçalves, antigo amigo do Lalá, declamou da autoria do compositor “Vida de solteiro, vida de casado”:

Vida de solteiro...
um quarto
pouco farto
uma cama
um pijama
um par de chinelos
meio par de meia no chão
prontidão, sozinho...
quase sem carinho!
Vida sem compromisso
(ao menos... há sinceridade nisso!)
Mas... os dias são tão desencontrados...
‒ Que inveja da vida dos casados!

Vida de casado...
um quarto
uma cama, outra cama
monograma
dois pares de chinelos
dois lençóis
até que enfim sós
mil castelos
lar... doce lar...
hora do almoço
hora do jantar
um garoto, dois garotos
três garotos, um casal
dois casais, três casais, quatro casais,
que santa paz!
Dia 1° ‒ de janeiro a janeiro
açougueiro...
vendeiro...
padeiro...
leiteiro...
leiteiro, tintureiro, verdureiro!
Feira... 2ª feira, 3ª feira, 4ª feira, 5ª feira
6ª feira, sábado, feira, domingo, feira
prestação do aparelho de televisão
prestação da geladeira,
prestação da enceradeira
briga com a cozinheira
briga com a lavadeira
rádio ligado
novela quase o dia inteiro
jornal falado
programa de auditório
“é a maior... é a maior...”
Que berreiro
‒ que saudade da vida de solteiro!


(Do livro “Tra-la-lá”, de Suetônio Valença)


Capa do Livro da primeira edição

Suetônio Soares Valença

23/1/1944 Rio de Janeiro, RJ
07/4/2006 Rio de Janeiro, RJ

O filólogo e pesquisador Suetônio Valença morreu nesta sexta-feira, 8 de abril de 2006 de câncer, no Rio de Janeiro, aos 62 anos. Formado em Letras Clássicas pela Universidade de Brasília, ele foi diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e, nos últimos anos, estava aposentado. Deixa duas filhas e dois netos.

Foi autor de livros importantes sobre o mundo do samba, como "Tra-la-lá" (biografia de Lamartine Babo, "Serra, Serrinha, Serrano: o Império do Samba" (em parceria com Rachel Valença) e "Um Escurinho Direitinho", (sobre Geraldo Pereira, com Luiz Fernando Vieira e Luís Pimentel.


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Garantias que não interessam



Uma coisa eu posso afirmar: se esta geladeira não for a mais prática e duradoura que existe na praça o senhor pode me cuspir na cara.

Nós dois vamos subir até lá em cima do morro. Leva mais ou menos uma hora. Agora, se aquela vista não for a mais bonita que você já viu e toda sua vida eu me atiro de lá de cima.

Leve em confiança – se, em qualquer tempo, esta fazenda encolher ou desbotar eu engulo ela inteirinha.

Traga sua filha, sua irmã e sua noiva para ver este maravilhoso espetáculo. Garantimos que vão todos morrer de tanto rir.

Aceite esse emprego pelo menos durante seis meses. Se depois desse prazo você não estiver perfeitamente adaptado eu quero me chamar João da Silva.

Fique com as alpercatas de elástico. Ou o senhor nunca mais pensa em usar outro tipo de calçado ou eu sou mico de circo de cavalinhos.

Se a amiga dela não lhe agradar de uma coisa você pode estar certo – você é o sujeito mais chato do mundo.

Se este automóvel não fizer a Rio-Petrópolis em quarenta minutos eu quero ver minha mãe morta.

Que um raio me parta se essa mulher tornar a botar o pé aqui dentro.

(Millôr Fernandes: O Pif-Paf, “O Cruzeiro”, de 1955)


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Os Hinos de Lamartine Babo


Lamartine de Azeredo Babo
(10 de janeiro de 1904 - 16 de junho de 1963)

O Trem da Alegria:

Flamengo, Fluminense, Vasco, América, Botafogo.

Desde 1942, Lamartine vinha fazendo na Rádio Mayrink Veiga um programa de muito sucesso, o “Trem da Alegria”. Ao lado do radialista Héber de Bôscoli, que era o maquinista, e de Yara Sales, foguista, Lalá apresentava-se como guarda-freios do trem. Muito magros, os três intitulavam-se o Trio de Osso, em alusão ao Trio de Ouro, famosos grupo constituído na música popular brasileiro por Herivelto Martins, Dalva de Oliveira e Nilo Chagas.

Foi exatamente no “Trem da Alegria”, programa que ficaria famoso na história do rádio brasileiro, que, de certa feita, Héber de Bôscoli desafiou Lalá a fazer um hino para cada clube de futebol do Rio de Janeiro. Passou ele então a apresentar uma vez por semana, às terças-feiras, o hino dos clubes cariocas que ia compondo.

Sobre o Hino do Flamengo, achava que devia lembrar um hino de guerra, por ser o Flamengo um clube de massa, deste modo compôs para o rubro-negro carioca:

Uma vez Flamengo,
Sempre Flamengo.
Flamengo sempre eu hei de ser!
É o meu maior prazer
vê-lo brilhar...
seja na terra,
seja no mar.
Vencer, vencer, vencer...
Uma vez Flamengo,
Flamengo até morrer!

Na regata,
ele me mata,
me maltrata,
me arrebata
que emoção
no coração!
Consagrado no gramado
Sempre amado,
o mais cotado
Nos Fla-Flus é o Ai, Jesus.
Eu teria um desgosto profundo,
Se faltasse o Flamengo no mundo!
Ele vibra,
ele é fibra,
muita libra já pesou.
Flamengo até morrer eu sou!

Via o Hino do Fluminense, feito na sorveteria Americana, que ficava onde seria depois a garagem do Hotel serrador, hoje prédio adquirido pela Petrobrás, com um toque lírico, devido às características refinadas do clube:

Sou tricolor de coração,
Sou do clube tantas vezes campeão.
Fascina pela sua disciplina,
o Fluminense me domina,
eu tenho amor ao tricolor

Salve o querido pavilhão
Das três cores que traduzem tradição
A paz, a esperança e o vigor
Unido e forte pelo esporte
Eu sou é tricolor.

Vence o Fluminense,
com o verde da esperança,
pois quem espera sempre alcança.
Clube que orgulha o Brasil,
retumbante de glórias
e vitórias mil.

Vence o Fluminense
com o sangue do encarnado,
com amor e com vigor
Faz a torcida querida
Vibrar de emoção o tricampeão.

Vence o Fluminense
usando a fidalguia.
Branco é paz e harmonia,
brilha com o sol da manhã,
com a luz de um refletor,
Salve o Tricolor!

No Hino do América, por quem torcia apaixonadamente, quando perguntado por que introduzira o tra-la-lá na música – de resto calcada sobre uma marcha norte-americana de remadores – respondia que não cabia nos compassos musicais a paixão de devotava ao clube:

Hei de torcer, torcer, torcer...
Hei de torcer até morrer, morrer, morrer,
pois a torcida americana é toda assim
a começar por mim,
a cor do pavilhão é a cor do nosso coração.
Em nossos dias de emoção,
toda torcida cantará esta canção
Tralalá-lá-lá-lá, tralalá-lá-lá-lá, tralalá-lá-lá-lá.

Campeões de 13, 16 e 22, trá-lá-lá.
Temos muitas glórias,
surgirão outras depois, trá-lá-lá.
Campeões com a pelota nos pés,
fabricamos aos montes, aos dez.
Nós inda queremos muito mais!
América!
Unido vencerás!

O Hino do Vasco da Gama chegou a merecer trecho de música portuguesa:

Vamos todos cantar de coração.
A Cruz de Malta é o meu pendão!
Tens o nome de um heroico português,
Vasco da Gama, a tua fama assim se fez.

Tua imensa torcida é bem feliz,
Norte e Sul, Norte e Sul destes Brasis.
Tua estrela, na terra a brilhar,
ilumina o mar.

No atletismo és um braço,
no remo és imortal,
no futebol és o traço
de união Brasil-Portugal.

O Hino do Botafogo mereceu da diretoria um protesto, pois entendeu ela que o... “de 1910”... do trecho... “Botafogo, Botafogo, campeão de 1910”, podia fazer supor que o clube só fora campeão naquele ano. Lamartine, muito diplomaticamente, como era de seu feitio, explicou que, de maneira alguma, aquela não fora sua intenção. Se só citava o ano de 1910 era porque fora aquele o campeonato mais expressivo do clube da estrela solitária, inclusive tendo o Botafogo, na ocasião, ganho o título de “O Glorioso”. Em outras circunstâncias Lalá explicava que escrevera “desde 1910” e não “de 1910”, mas o cantor gravara da segunda maneira, gerando-se então toda a confusão.

Apesar de todos os argumentos, os homens do Botafogo não se deram por satisfeitos e, na gestão em que Ademar Bebiano era vice-presidente, o clube proibiu que o hino fosse tocado no maracanã. Em seu lugar adotou-se como hino oficial do clube o da autoria de Eduardo Souto e Otacílio Gomes. Mas, apesar de toda a intransigência botafoguense, o hino que ficou consagrado na memória popular foi mesmo o de Lamartine Babo.

Botafogo! Botafogo!
Campeão desde 1910!
Foste herói em cada jogo, Botafogo,
por isso é que tu és.
E hás de ser nosso imenso prazer.
Tradições aos milhões tens também.
Tu és O Glorioso, não podes perder,
perder pra ninguém

Noutros esportes tua fibra está presente,
honrando as cores do Brasil e de nossa gente.
Na estrada dos louros, num facho de luz,
tua estrela solitária te conduz!

Foi assim que, se por um lado o desafio de Héber de Bôscoli proporcionou a cada clube da cidade o seu hino, por outro trouxe alguns aborrecimentos a Lalá e nenhum agradecimento por parte das diretorias desses clubes. De todos, apenas a do Fluminense, em reconhecimento, renovava a cada ano o convite a Lamartine para que frequentasse o clube das Laranjeiras.

(Do livro “Tra-la-lá Lamartine Babo”
de Suetônio Valença)


Hinos de Lamartine Babo para os “nanicos” do Rio de Janeiro

Sérgio Rangel, da Folha de S.Paulo, no Rio

Autor dos mais famosos hinos do futebol brasileiro, Lamartine Babo compôs também uma série de marchas” esquecidas de times pequenos do Rio.

São Cristóvão, Bonsucesso, Madureira, Olaria, Bangu e até o desaparecido Canto do Rio, de Niterói, ganharam hinos de um dos mais notáveis nomes do carnaval brasileiro.

As músicas originais praticamente perdidas pelo tempo foram resgatadas pelo músico e pesquisador Alfredo Del-Penho.

As raras gravações podem ser ouvidas no site da Folha Online.

Os hinos dos clubes nanicos” são preciosidades e crônicas do Rio antigo.

O do Bangu, por exemplo, tem a grandiosidade dos hinos dos clubes grandes – a torcida reunida/até parece a do Fla-Flu” – e lembra algo que não acontece mais na cidade, como o comércio fechado por causa da vitória do clube.

Atualmente, o time, que já teve como patrono o bicheiro Castor de Andrade, disputa a segunda divisão do Estadual do Rio e não conquista o título há mais de 40 anos. A última vez que o Bangu levantou o troféu do campeonato foi em 1966.

A pretensa grandiosidade dos clubes também é destaque nos hinos do Olaria – Teu esforço e tua glória/estão crescendo dia-a-dia” – e do Bonsucesso, que tem Leônidas da Silva, um dos poucos jogadores revelados pelo clube, citado na letra. Os dois times nunca conquistaram o Estadual e amargam a periferia do futebol do Rio.

Os hinos que nasceram como marchas foram escritos e apresentados por Babo no programa de rádio Trem da Alegria”, na Rádio Mayrink Veiga, no Rio, nos anos 40.

“Existem algumas versões sobre a composição destas músicas. Anos antes, ele tinha feito o hino do Flamengo, que faz sucesso até hoje. Por isto, uns dizem que ele foi desafiado pelos seus companheiros de programa a compor as marchas restantes. Outros dizem que ele fez essas músicas incentivado por um patrocinador. Ninguém sabe ao certo como começou esta história”, disse o músico e produtor Luís Filipe de Lima.

O hino do Canto do Rio é o que mais chama a atenção. Nele, Babo deixa o futebol praticamente de lado para enaltecer uma morena do Canto do Rio”. Segundo pesquisadores, a homenageada era sua namorada na época.

“As marchas destes times não têm o mesmo nível dos hinos eternizados pelos grandes clubes, mas mostra toda a genialidade do Lamartine de fazer boas letras de temas difíceis”, disse o cantor Pedro Paulo Malta.

Veja a letra e ouça os hinos esquecidos de Lamartine Babo


Hino do Bangu

O Bangu tem também sua história,
sua glória enchendo seus fãs de alegria!
De lá pra cá surgiu o Domingos da Guia.
Em Bangu se o clube vence, há na certa um feriado,
comércio fechado, a torcida reunida até parece a do Fla-Flu,
Bangu! Bangu! Bangu!

O Bangu tem também como divisa na camisa,
o vermelho sangue a brilhar,
e faz cartaz, estouram foguetes no ar.
Em Bangu, se o clube vence, há na certa um feriado,
comércio fechado, a torcida reunida até parece a do Fla-Flu,
Bangu! Bangu! Bangu!

Hino do Bonsucesso

Para a torcida rubro-anil,
palmas eu peço (clap! clap!).
Na Leopoldina, em cada esquina,
quem domina é o Bonsucesso.
Lá surgiu um jogador sensacional,
surgiu Leônidas, o maioral!

Quando a turma joga em casa,
a linha arrasa.
Que baile... Que troça!
A torcida grita em coro,
não há choro,
a vitória hoje é nossa

Hino do Madureira

Nosso ideal é lutar, lutar por ti,
Madureira!
Queremos ver tua bandeira
a tremular pelo ar.

E assim queridos, unidos,
seremos dez, vinte mil.
Em cada glória que temos,
daremos pujança ao esporte do Brasil.

És, Madureira, nosso castelo,
a nossa catedral, ideal,
o sol de muitos anos
dos tricolores suburbanos.

Hino do Olaria

Olaria, teu esforço e tua glória
estão crescendo dia-a-dia.
Olaria, tua pujança, tua vida
envaidecem tua torcida.
Olaria, tua camisa azul e branca
tem um quê de simpatia,
realizando sonhos mil,
tu serás um pioneiro
dos esportes do Brasil.

Clube da faixa azul-celeste,
tu vieste da zona norte.
Clube da faixa azul celeste,
És o esporte pelo esporte.

Hino do Canto do Rio

Aquela morena o Canto do Rio
que torce e faz cena e causa arrepio.
Queimada da praia, na hora do jogo,
ela desmaia e pega fogo (oi!).

Aquela morena do Canto do Rio
que torce e se agita, garota bonita.
Basta o clube empatar,
ela chora que dói,
foge de Nitheroy.

No estádio formoso de Caio Martins,
há dias de gozo, foguetes, clarins.
De noite e de dia, a turma sorri,
enche de alegria, Icarahy (oi!).

Hino do São Cristóvão

São Cristóvão, São Cristóvão teu passado é tão belo,
quantas vitórias em Figueira de Melo.
Quando vences outro clube
Oh, São Cristóvão, pertences
Aos corações são-cristovenses.
Estimulam a tua fibra extraordinária,
os grandes feitos do saudoso Cantuária.
Avante, São Cristóvão, por teu bem, por nosso bem,
pela grandeza dos esportes que esta terra tem.

És de um bairro cuja história tem valor profundo,
bairro ditoso de D. Pedro II.
Quando vais à zona sul jogar com um clube bem forte,
tens a torcida da zona norte.
São Cristóvão, São Cristóvão, teu passado é tão cheio,
aos teus rivais inspiras sempre receio.
Avante, São Cristóvão, por teu bem, por nosso bem,
pela grandeza dos esportes que esta terra tem.




quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Oração para não ficar Rabugento(a)



Ó Senhor, tu sabes melhor do que eu que estou envelhecendo a cada dia. Sendo assim, Senhor, livra-me da tolice de achar que devo dizer algo, em toda e qualquer ocasião.

Livra-me, também, Senhor, deste desejo enorme que tenho de querer pôr em ordem a vida dos outros.

Ensina-me a pensar nos outros e ajudá-los, sem jamais me impor sobre eles, mesmo considerando com modéstia a sabedoria que acumulei e que penso ser uma lástima não passar adiante.

Tu sabes, Senhor, que desejo preservar alguns amigos e uma boa relação com os filhos, e que só se preserva os amigos e os filhos quando não há intromissão na vida deles.

Livra-me, também, Senhor, da tolice de querer contar tudo com detalhes e minúcias e dá asas à minha imaginação para voar diretamente ao ponto que interessa.

Não me permita falar mal de alguém.

Ensina-me a fazer silêncio sobre minhas dores e doenças... Elas estão aumentando e, com isso, a vontade de descrevê-las vai crescendo a cada ano que passa.

Não ouso pedir o dom de ouvir com alegria a descrição das doenças alheias; seria pedir muito. Mas, ensina-me, Senhor, a suportar ouvi-las com paciência.

Ensina-me a maravilhosa sabedoria de saber que posso estar errado em algumas ocasiões. 

Já descobri que pessoas que acertam sempre são maçantes e desagradáveis. Mas, sobretudo, Senhor, nesta oração de envelhecimento, peço: mantenha-me o mais amável possível.

Livrai-me de ser santo. É difícil conviver com santos!


Mas um velho rabugento, Senhor, é obra prima do mal! Poupe-me, por misericórdia.

E proteja-me contra os mal intencionados...

Assim seja! Amém!


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Versão moderna da Parábola do Filho Pródigo.


Em seu livro “Maravilhosa Graça”, Philip Yancey* conta uma história memorável que tem se reproduzido com muita frequência em nossos dias, ela é sem dúvida uma Versão moderna da Parábola do Filho Pródigo.

O retorno de uma filha


Uma jovem fora criada em um pomar de cerejas na parte superior de Traverse City, no Michigan. Seus pais, um tanto antiquados, costumavam reagir mal ao seu piercing no nariz, às músicas que ouvia e ao comprimento de suas saias; de vez em quando eles a repreendiam e ela fervia por dentro. “Odeio vocês!”, gritou para o pai quando ele bateu a porta do quarto dela depois de uma discussão. Naquela noite, a jovem realizou um plano que mentalmente já ensaiara dezenas de vezes. Ela fugiu de casa.

A jovem havia visitado Detroit apenas uma vez, em uma viagem de ônibus com os jovens da igreja para assistir ao jogo dos Tigers. Os jornais de Traverse City descreviam em chocantes detalhes as gangues, as drogas e a violência na cidade de Detroit; ela concluiu que provavelmente seria o último lugar onde seus pais a procurariam. Talvez na Califórnia, ou na Flórida, mas não em Detroit.

No seu segundo dia ali, ela conheceu um homem dirigindo o maior carro que já vira na vida. Ele lhe ofereceu carona, pagou-lhe um almoço e arranjou um lugar para ela ficar. O homem deu-lhe alguns comprimidos que a fizeram sentir-se melhor do que jamais se sentira. Ela se sentiu ótima e concluiu: seus pais não permitiam que ela se divertisse.

A boa vida continuou durante um mês, dois meses, um ano. O homem com o carrão ‒ ela o chamava de "chefe" ‒ ensinou-lhe coisas de que os homens gostam. Sendo menor de idade, os homens lhe pagavam mais. Ela morava em um apartamento pequeno e podia encomendar o que precisava. Ocasionalmente, pensava nos pais em casa, mas a vida deles lhe parecia tão chata e provinciana que mal acreditava que fora criada ali.

Ela se assustou ao ver sua foto na embalagem de leite com os dizeres: “Vocês viram esta criança?”. Agora, porém, com o cabelo tingido de loiro, e com toda a maquiagem que usava, ninguém a consideraria uma criança. Além do mais, a maioria dos seus amigos também fugira de casa, e ninguém dava com a língua nos dentes em Detroit.

Depois de um ano, os primeiros sintomas incipientes da enfermidade apareceram, e ela ficou surpresa com a crueldade do chefe. “Hoje em dia, a gente não pode facilitar”, ele rosna; antes que a jovem percebesse, estava na rua sem um tostão. Ela ainda conseguia ganhar alguma coisa de noite, mas não lhe pagavam muito, e todo o dinheiro era usado para manter o vício. Quando chegou o inverno, ela se encontrava dormindo nas grades de metal do lado de fora de uma loja de departamentos. "Dormir" não é a palavra certa - uma adolescente sozinha na noite em Detroit não pode nunca baixar a guarda. Estava com olheiras profundas. Sua tosse piorava.

Uma noite, ela se encontrava acordada, atenta ao barulho de passos; de repente, tudo ao seu redor pareceu diferente. Ela não se sentia mais como uma mulher do mundo. Sentia-se uma menininha perdida em uma cidade fria e assustadora. Começou a soluçar. Seus bolsos estavam vazios e estava com fome. Precisava de uma dose. Trêmula, encolheu as pernas debaixo dos jornais que empilhara sobre o seu casaco. Alguma coisa acionou uma série de lembranças e uma imagem preenchia sua mente: o mês de maio em Traverse City, quando milhares de cerejeiras estão em flor todas ao mesmo tempo, e ela via seu cachorro correndo no meio das fileiras das árvores em flor atrás de uma bola de tênis.

Deus, por que eu fugi? - ela disse para si mesma, e uma dor traspassa seu coração. Meu cachorro em casa come melhor do que eu agora. A jovem estava soluçando e, imediatamente, percebeu que desejava voltar para casa mais do que qualquer outra coisa no mundo.

Três telefonemas, todos caindo na secretária eletrônica. Nas duas primeiras vezes, ela desligou sem deixar uma mensagem; na terceira, porém, disse: “Papai, mamãe, sou eu. Estive pensando em voltar para casa. Estou pegando um ônibus e chegarei aí amanhã lá pela meia-noite. Se vocês não estiverem me esperando, bem, acho que ficarei no ônibus e irei para o Canadá”.

Foram sete horas de ônibus entre Detroit e Traverse City; durante aquele tempo ela percebia os erros no seu plano. E se os pais estivessem fora da cidade e nem tivessem ouvido a mensagem? Não deveria ter esperado outro dia para poder falar com eles? E, mesmo que estivessem em casa, provavelmente já a consideravam morta há muito tempo. Deveria ter-lhes dado um tempo para se recuperarem do choque.

Seus pensamentos pulavam de lá para cá entre as preocupações e o discurso que estava preparando para o pai. “Papai, sinto muito. Sei que estava errada. A culpa não foi sua; foi minha. Papai, você pode me perdoar?”. Ela repetiu as palavras muitas e muitas vezes, com a garganta apertada enquanto as ensaiava. Nos últimos anos não havia pedido perdão a ninguém.

O ônibus estivera andando com as luzes acesas desde Bay City. Floquinhos de neve batem no calçamento desgastado por milhares de pneus e o asfalto exala vapor. Ela havia esquecido como a noite é escura lá fora. Um cervo cruzou a estrada como uma flecha e o ônibus deu uma guinada. De vez em quando, aparecia um outdoor ao lado da estrada. Uma placa indicava quantos quilômetros faltavam até Traverse City. Oh, Deus!

Quando o ônibus finalmente entrou na rodoviária, os freios sibilando em protesto, o motorista anunciou no microfone: “Quinze minutos, pessoal. É tudo quanto vamos gastar aqui”. Quinze minutos para decidir sua vida. Ela se examinou em um espelhinho, alisou o cabelo e limpou o dente manchado de batom. Olhou para as manchas de fumo nas pontas dos dedos e ficou imaginando se os pais iriam perceber. Se estivessem lá.

A jovem entrou no saguão sem saber o que esperar. Nenhuma das milhares de cenas que passaram por sua cabeça a prepararam para aquilo que viu. Ali, naquele terminal de ônibus de paredes de concreto e cadeiras de plástico de Traverse City, em Michigan, estava um grupo de quarenta parentes, irmãos e irmãs, tios e primos, uma avó e uma bisavó para recebê-la. Todos eles estavam usando chapeuzinhos de festa e assoprando apitos; na parede do terminal havia um cartaz, dizendo: “Seja bem-vinda!”.

Da multidão que a recepciona irrompe o papai. Ela olhou para ele através das lágrimas que brotavam dos seus olhos como mercúrio quente e começou o discurso memorizado: “Papai, sinto muito. Eu sei...”.

Ele a interrompeu. “Quieta, filhinha. Não temos tempo para isso agora. Nada de pedidos de desculpas. Você vai chegar atrasada na festa. Lá em casa há um banquete esperando por você.”

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*Philip Yancey (1949) é um escritor e jornalista cristão americano. Seus livros venderam mais de 14 milhões de cópias, desde a sua estréia em 1977 e são lidos em 25 idiomas pelo mundo todo, fazendo dele um dos mais vendidos autores cristãos.