quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Cuidado com as curiosidades

 

Estive, na semana passada, na COP-30, em Belém do Pará. Fui ao cais da cidade onde há inúmeros bares e restaurantes. Num deles, pedi um prato à base de peixes da região. 

Quando chegou o prato, que parecia muito delicioso, perguntei ao garçom: 

‒ Pirarucu? 

E ele, solicito: 

‒ Tiraram sim. 

Achando estranha a resposta, chamei o chefe da casa, fazendo a mesma pergunta, apontando para o prato. 

‒ Pirarucu? 

E ele, colocando a mão no ouvido, respondeu: 

‒ Da cozinheira, comeram sim!

Não entendi mais nada...

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Que diferença faz uma estação...

 

Um homem tinha quatro filhos. Ele queria que seus filhos aprendessem a não julgar as coisas de modo apressado, por isso, ele mandou cada um em uma viagem, para observar uma parreira que estava plantada em um distante local. 

O primeiro filho foi lá no Inverno, o segundo na Primavera, o terceiro no Verão e o quarto e mais jovem, no Outono. Quando todos eles retornaram, ele os reuniu e pediu que cada um descrevesse o que tinham visto. 

O primeiro filho disse que a árvore era feia, torta e retorcida. O segundo filho disse que não, que ela era recoberta de botões verdes e cheia de promessas. O terceiro filho discordou: Disse que ela estava coberta de flores, que tinham um cheiro tão doce e eram tão bonitas, que ele arriscaria dizer que eram a coisa mais graciosa que ele jamais tinha visto. O último filho discordou de todos eles; ele disse que a árvore estava carregada e arqueada, cheia de frutas, vida e promessas... 

O homem, então, explicou a seus filhos que todos eles estavam certos, porque eles haviam visto apenas uma estação da vida da árvore. Ele falou que não se pode julgar uma árvore, ou uma pessoa, por apenas uma estação, e que a essência de quem eles são, e o prazer, a alegria e o amor que vêm daquela vida podem apenas ser medidos ao final, quando todas as estações estiverem completas. 

Não permita que a dor de uma estação destrua a alegria de todas as outras. Não julgue a vida apenas por uma estação difícil. Persevere através dos caminhos difíceis e melhores tempos certamente virão, de uma hora para a outra! 

Se você desistir quando for Inverno, você perderá a promessa da Primavera, a beleza do Verão, a expectativa do Outono.

Melancia e Coco Mole

 (Sergipe)

Havia um homem que gostava muito de uma moça e queria casar com ela. Um dia ele foi chamado pras guerras e disse à moça que não casasse com outro, que quando ele voltasse casaria com ela. Para ninguém desconfiar o rapaz tratava a moça por – Melancia – e a moça o tratava por – Coco Mole. 

Um dia se despediram muito chorosos e ele partiu para as guerras. Todo dia aparecia casamento para esta moça, porém ela não queria, com sentido no seu querido. Passados alguns anos e, aparecendo um dia um casamento, o pai da moça decidiu que ela havia de aceitar. Ela fez o gosto do pai, e, quando foi no dia do casamento, o seu namorado chegou das guerras, indagou logo pela moça e soube que ela casava-se naquele mesmo dia. O rapaz ficou muito triste e não quis comer. Um caboclo, que era pajem dele, perguntou-lhe por que estava tão triste. Sabendo da história, disse-lhe: “Não tem nada, meu amo. Deixe estar que eu arranjo tudo!” 

Havia uma árvore no fundo do quintal da casa da moça, onde ela costumava ir conversar com o antigo namorado. O caboclo ensinou ao amo que fosse para debaixo da árvore, que lhe garantia que a moça iria lá ter. Ele fez o que o caboclo recomendou, e este se dirigiu para casa da noiva. Chegando lá encontrou já todos os convidados, o noivo e a noiva já preparados, só faltando o padre para os casar.  O caboclo pediu licença para fazer uma saúde à noiva, chegou-se para junto dela e disse: 

“Eu venho lá de tão longe
Corrido de tanta guerra.
Melancia, Coco Mole
É chegado nesta terra.”
 

Todos bateram palma e disseram: “Bravo! Caboclo, faça outra saúde”. O caboclo retrucou: 

“Não há bebida tão boa
Como seja o aluá.
Melancia, Coco Mole
Vos espera no lugar.”
 

Todos bradaram: “Muito bem! Caboclo!… faça outra saúde!” 

O caboclo entusiasmado continuou: 

              “Moça, que estais tão bonita,
               Não vos lembrais do passado.
               Melancia, Como Mole
               Vos manda muito recado.”
 

Aí a moça levantou-se e disse que ia beber água. Saiu caladinha pela porta do quintal e foi direitinho à árvore onde ela costumava ir conversar com seu antigo namorado, que era o do peito. Chegando aí, encontrou-o e ao mesmo tempo a um padre que já ali se achava apalavrado para os casar.

(Sílvio Romero. Contos populares do Brasil)

Conheça a história por trás

 da criação de Frankenstein

As obras literárias têm, ao longo do tempo, dado voz aos medos e esperanças provocados pelas descobertas científicas, além de retratar imagens e mitos em torno da própria ideia de ciência. 

Diversos fatores contribuem para essas representações da ciência, como a cultura e a classe social em que estão inseridos os autores. Não se pode ignorar, também, a influência do gênero: por ser tradicionalmente dominada por homens, a ciência tende a ser representada de formas diferentes quando narrada por vozes femininas ou masculinas. 

Publicado em 1818, o romance Frankenstein permite discussões de temas relevantes tanto para a sociedade inglesa do século XIX quanto para a visão de mundo que hoje possuímos. A obra, que também traz percepções sobre a rejeição do diferente, é primariamente uma análise da vontade do homem de transpor os limites da natureza e das consequências que tal poder pode trazer. 

O livro foi pioneiro e precursor da literatura de horror e ficção científica. Mas você sabe como nasceu essa história? 

A ideia para Frankenstein surgiu em uma noite chuvosa de verão na Suíça, onde Mary Shelley passava férias ao lado de dois poetas ingleses: Percy Bysshe Shelley, seu futuro marido, e o célebre Lord Byron, locatário da residência onde o casal estava hospedado. Como os três estavam presos em casa em função da tempestade, Lord Byron sugeriu um passatempo. O poeta, ícone do romantismo, desafiou cada um dos presentes a escrever uma história de fantasmas (e não poderia haver atmosfera mais adequada à temática!). 

Em um primeiro momento, Mary Shelley relutou em aceitar o desafio. Alguns dias depois, entretanto, na madrugada de 16 de junho de 1816, a escritora teve a visão de um jovem estudante dando vida a ossos que havia recolhido de uma sepultura. Assim, com apenas 18 anos, Mary Shelley criou Frankenstein. A ideia virou um conto e foi apresentado aos demais presentes na casa. 

Incentivada por Percy Bysshe Shelley, Mary trabalhou para desenvolver o conto e transformá-lo em um romance, essencialmente próximo da história original. No livro, o jovem estudante de medicina Victor Frankenstein (que, na cultura popular, acabou por emprestar ao monstro seu nome) dá vida a uma criatura a partir de cadáveres. O monstro, abandonado pelo criador, começa a assimilar os sentimentos humanos e a compreender sua triste condição, revoltando-se e perseguindo Frankenstein. 

A primeira edição de Frankenstein foi publicada anonimamente, pois muitos duvidavam que uma mulher tão jovem pudesse criar algo tão original e perturbador. O reconhecimento veio aos poucos, e Mary Shelley se firmou como autora em um cenário literário amplamente dominado por homens.  

Sua inspiração feminista veio, em parte, de sua mãe: a filósofa Mary Wollstonecraft, autora de A Vindication of the Rights of Woman (1792), uma obra fundamental na luta por direitos iguais entre homens e mulheres. As ideias da mãe ecoam na escrita da filha, especialmente na crítica aos papéis sociais impostos pelo patriarcado. 

Na terceira edição do livro, revisada e publicada em 1831, a autora agradece a Percy, que assina o primeiro prefácio que Frankenstein recebeu, por incentivá-la a desenvolver a história que nasceu naquela noite de tempestade. Duzentos e dois anos depois, essa obra recheada de questionamentos morais nunca saiu de circulação e está imortalizada na literatura, no teatro e no cinema. 

Na Netflix, há um filme sobre a vida de Mary Shelley, que retrata os desafios e conquistas da autora em meio às pressões sociais e intelectuais da época. 

Também há, na Netflix, um filme “Frankenstein” de Guillermo del Toro, imperdível. 

Biblioteca Universitária

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

Mary Wollstonecraft Shelley, nascida Mary Wollstonecraft Godwin (Somers Town, Londres, 30 de agosto de 1797 – Chester Square, Londres, 1ͦ de fevereiro de 1851), mais conhecida por Mary Shelley, foi uma escritora britânica, filha do filósofo William Godwin e da feminista e escritora Mary Wollstonecraft. 

Mary Shelley foi autora, dramaturga, ensaísta, biógrafa e escritora de literatura de viagens, mais conhecida por seu romance gótico, Frankenstein: ou O Moderno Prometeu (1818). Ela também editou e promoveu os trabalhos de seu marido, o poeta romântico e filósofo Percy Bysshe Shelley, com quem se casou em 1816, após o suicídio de sua primeira esposa.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Por que o gaúcho chama dinheiro de Pila

 

Poucas expressões são tão características do falar gaúcho quanto “me empresta uns pilas” ou “não tenho um pila no bolso”. O curioso é que essa palavra, tão comum no Rio Grande do Sul, tem uma origem que vai muito além da simples gíria popular ‒ ela carrega uma história política e cultural genuinamente gaúcha. 

O termo “pila” surgiu em referência ao médico e político porto-alegrense Raul Pilla (1892–1973), uma figura marcante da política rio-grandense e nacional nas primeiras décadas do século XX. Fundador do Partido Libertador, Pilla defendia ideias liberais e federalistas e foi um dos grandes opositores do governo de Getúlio Vargas. 

Durante períodos de turbulência política, especialmente nas décadas de 1920 e 1930, correligionários de Raul Pilla passaram por graves dificuldades financeiras. Em meio à repressão e ao exílio, alguns partidários chegaram a emitir títulos e vales com o nome de Pilla, usados entre eles como forma de pagamento ou crédito ‒ uma espécie de “moeda simbólica” entre os libertadores. 

Esses papéis, conhecidos popularmente como “pilas”, começaram a circular de mão em mão dentro do grupo, e o sobrenome do líder acabou se transformando em sinônimo de dinheiro. Com o tempo, o uso se espalhou entre a população gaúcha, especialmente em Porto Alegre e na Campanha, e o termo se firmou no vocabulário cotidiano. 

Assim, o que começou como uma referência a um político histórico virou uma das marcas da fala gaúcha. Mesmo depois do fim do Partido Libertador e da morte de Raul Pilla, a palavra seguiu viva ‒ atravessou gerações, mudanças de moeda e fronteiras linguísticas. 

Hoje, quando o gaúcho diz que “ganhou uns pilas”, ele está, sem perceber, repetindo um pedaço da própria história do Rio Grande do Sul. A gíria sobreviveu ao tempo e se tornou um símbolo da identidade linguística e cultural do povo gaúcho ‒ uma herança que une política, humor e tradição em uma única palavra. 

(Bairrismo gaúcho)

Raul Pilla (Porto Alegre, 20 de janeiro,  de 1892 – Porto Alegre, 7 de junho de 1973) foi um médico, jornalista, professor e político brasileiro. Um dos maiores defensores da adoção do regime parlamentarista no nosso País. Pilla era chamado de O Papa do parlamentarismo no Brasil. 

******* 

P.S.: Há uns dez atrás, eu, editor deste almanaque, estou num domingo ensolarado na praia de Ipanema, zona sul do Rio de Janeiro, quando uma turista se encantou com a túnica alaranjada do vendedor de Mate Leão. Ela fez várias propostas até fechar o negócio em 100 reais, um bom valor para a época. O vendedor acabou topando na hora. 

Mais tarde, eu resolvo também tomar um mate leão e comento com o vendedor que me atendeu da proposta que um colega seu recebeu de vender a sua túnica por 100 pilas. O cara arregalou os olhos, comentando: “Cem pilas! E isso em reais dá quanto?”. Respondo: “Já vi que não entendes nada de gauchês!”

Pedido interessante

 

Eu cheguei no açougue do meu bairro e perguntei ao dono: 

‒ O senhor tem coração? 

Ele respondeu interessado: 

‒ Tenho. 

Eu falei, olhando bem nos olhos dele: 

‒ Então baixa o preço da carne pra nós! 

domingo, 16 de novembro de 2025

A primeira música censurada de Chico Buarque

 

(...) 

O Chico que escrevera “Tamandaré” e que agora se via diante dessa instituição (DCDP)* com poder para censurar uma obra de sua autoria era jovem, mas não um novato. Articulado e com capacidade de argumentação, ele sabia que poderia usar as páginas do mesmo Jornal do Brasil para protestar contra a medida, na sua opinião, injusta e arbitrária. Conforme o que foi sustentado pelo compositor, “a música não ofende a ninguém, porque ofensivo no Almirante é sua efígie na insignificante nota de um cruzeiro”. 

Chico defendia-se argumentando com base no que a música popular carregava de mais significativo: a capacidade de interpretar o sentimento das ruas. Para Chico, sua composição contava a história de “um Zé qualquer, sem samba, sem dinheiro”, que encontra no chão uma nota de um cruzeiro e, diante da insignificância, do pouco valor da nota, resolve perguntar ao Almirante: 

Tamandaré 

Chico Buarque 

Zé qualquer tava sem samba, sem dinheiro,
Sem Maria sequer,
Sem qualquer paradeiro
Quando encontrou um samba,
Inútil e derradeiro,
Numa inútil e derradeira
Velha nota de um cruzeiro. 

“Seu” Marquês, "seu" Almirante,
Do semblante meio contrariado,
Que fazes parado
No meio dessa nota de um cruzeiro rasgado.
"Seu” Marquês, "seu" Almirante,
Sei que antigamente era bem diferente,
Desculpe a liberdade
E o samba sem maldade,
Deste Zé qualquer,
Perdão, Marquês de Tamandaré,
Perdão, Marquês de Tamandaré. 

Pois é, Tamandaré,
A maré não tá boa,
Vai virar a canoa
E este mar não dá pé, Tamandaré.
Cadê as batalhas,
Cadê as medalhas,
Cadê a nobreza,
Cadê a marquesa, cadê?
Não diga que o vento levou
Teu amor até. 

Pois é, Tamandaré,
A maré não tá boa,
Vai virar a canoa
E este mar não dá pé, Tamandaré.
Meu marquês de papel,
Cadê teu troféu,
Cadê teu valor?
Meu caro almirante,
O tempo inconstante roubou.Zé qualquer tornou-se amigo do marquês,

Solidário na dor.
Que eu contei a vocês
Menos que queira ou mais que faça
É o fim do samba, é o fim da raça
Zé qualquer a caducando
Desvalorizando
Como o tempo passa, passando
Virando fumaça, virando
Caindo em desgraça, caindo
Sumindo, saindo da praça
Passando, sumindo
Saindo da praça 

Do livro: “O que não tem censura nem nunca terá – Chico Buarque e a repressão artística durante a ditadura militar”, de Márcio Pinheiro – L&PM.

*DCDP: Divisão de Censura de Diversões Públicas