terça-feira, 29 de setembro de 2026

Isso é Fundo de Quintal

 Leci Brandão 

O que é isso, meu amor, venha me dizer!

Isso é Fundo de Quintal, é pagode pra valer! 

E lá vem o Sereno trazendo um recado do Ubirany.

Vem contando pra gente, Bira Presidente vai chegar aqui.

Com uma cara de anjo tocando seu banjo o Arlindinho Cruz,

E Dona Ivone Lara, esta joia tão rara, tão cheia de luz.

E lá vem o Sombrinha fazendo harmonia com seu cavaquinho,

Vai versar um partido com um cara chamado Zeca Pagodinho. 

O que é isso meu amor, venha me dizer!

Isso é fundo de quintal, é pagode pra valer! 

Do Cacique de Ramos, vai chegar o Cléber com seu violão.

Tia Doca, bonita, cantando gostoso e batendo na mão.

Olha a rapaziada fazendo o rateio comprando a bebida.

Deixa pra Vicentina, esta negra divina, fazer a comida.

É tantã, é repique, é pandeiro e cavaco pra ficar legal.

Todo mundo cantando, sambando e tocando no maior astral. 

O que é isso, meu amor, venha me dizer!

Isso é fundo de quintal, é pagode pra valer! 

Sambistas citados na música 

Fundo de Quintal é um grupo de samba brasileiro formado no Rio de Janeiro na década de 1970. Surgido a partir das rodas de samba do bloco carnavalesco Cacique de Ramos,  agremiação criada por Bira Presidente, Ubirany e Sereno em 1961, o Fundo de Quintal tornou-se ao longo dos anos uma das maiores referências do gênero, em especial no pagode, vertente a qual o grupo se tornou o seu grande paradigma. 

Sereno: Jalcireno Fontoura de Oliveira, mais conhecido como Sereno, (Rio de Janeiro, 24 de maio de 1940, é um compositor, cantor e instrumentista brasileiro, notabilizado por ser um dos fundadores do bloco carnavalesco Cacique de Ramos e do grupo de samba Fundo de Quintal. 

Ubirany Félix do Nascimento (Rio de Janeiro, 16 de maio de 1940 – Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 2020) foi um compositor, cantor e instrumentista brasileiro, notabilizado por ter sido um dos fundadores do bloco carnavalesco Cacique de Ramos e do grupo de samba Fundo de Quintal.   

Bira Presidente (Ubirajara Félix do Nascimento) Rio de Janeiro 23.3.1937– Rio de Janeiro14.1.2025, foi um dos maiores expoentes do samba brasileiro, fundador do célebre bloco carnavalesco Cacique de Ramos e um dos criadores do icônico grupo Fundo de Quintal. 

Arlindo Domingos da Cruz Filho (Rio de Janeiro, 14 de setembro de 1958 – Rio de Janeiro, 8 de agosto de 2025) foi um cantor, compositor e músico de samba e pagode. Após doze anos integrando o conjunto Fundo de Quintal, Arlindo construiu uma bem-sucedida carreira solo, tornando-se um dos maiores nomes do samba de todos os tempos e uma figura proeminente no cenário do carnaval carioca, tendo composto sambas-enredo para escolas clássicas, como Império Serrano e Acadêmicos do Grande Rio. 

Yvonne Lara da Costa, mais conhecida como Dona Ivone Lara (Rio de Janeiro, 13 de abril de 1921 – Rio de Janeiro, 16 de abril de 2018), foi uma cantora e compositora brasileira. Conhecida como Rainha do Samba e Grande Dama do Samba ela foi a primeira mulher a assinar um samba-enredo e a fazer parte da ala de compositores de uma escola, o Império Serrano. 

Montgomery Ferreira Nunis (São Vicente, São Paulo. 30 de agosto de 1959), mais conhecido no meio musical como Sombrinha, é um cantor, compositor e multi-instrumentista brasileiro. É um dos membros fundadores do grupo Fundo de Quintal  e atuou no desenvolvimento do pagode na década de 1980. 

Jessé Gomes da Silva Filho, conhecido pelo nome artístico de Zeca Pagodinho (Rio de Janeiro, 4 de fevereiro de 1959), é um cantor e compositor brasileiro atuante desde o final da década de 1980 e atualmente tido pela crítica e pela imprensa especializada como um dos mais exponenciais nomes do samba. 

Cléber Augusto da Cruz Bastos, ou apenas Cléber (Rio de Janeiro, 4 de agosto de 1950) é um compositor, cantor e violonista brasileiro. É ex-integrante do grupo de samba Fundo de Quintal. 

Jilçária Cruz Costa, mais conhecida como Tia Doca da Portela ou apenas Tia Doca (Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 1932 ‒ Rio de Janeiro, 25 de janeiro de 2009), foi uma cantora, compositora e pastora brasileira. Obteve projeção no cenário musical por integrar a Velha Guarda da Portela e por ter fundado o Pagode da Tia Doca, um dos principais redutos de preservação do samba carioca. 

Tia Vicentina foi uma das maiores e mais importantes matriarcas da história do samba carioca. Irmã mais nova de Natal da Portela, ela era conhecida tanto por sua bela voz quanto pelos seus dotes culinários, que alimentavam os bambas do samba nas décadas de 1960 e 1970.

A primeira formação do grupo Fundo de Quintal: Ubirany - Sombrinha - Sereno - Neoci - Jorge Aragão - Bira Presidente e Almir Guineto.

domingo, 27 de setembro de 2026

Comunidade Carente

 Barbeirinho do Jacarezinho, Marcos Diniz e Luiz Grande 

Canta Zeca Pagodinho

Eu moro numa comunidade carente,

lá ninguém liga pra gente,

nós vivemos muito mal.

Mas este ano nós estamos reunidos,

se algum candidato atrevido

for fazer promessas vai levar um pau! (bis) 

Vai levar um pau pra deixar de caô

e ser mais solidário.

Nós somos carentes, não somos otários,

pra ouvir blá, blá, blá em cada eleição. 

Nós já preparamos vara de marmelo e arame farpado,

cipó-camarão para dar no safado 

que for pedir voto na jurisdição.

É que a galera já não tem mais saco pra aturar pilantra.

Estamos com eles até a garganta,

aguarde pra ver a nossa reação.

Escritor árabe?

Em 1918, no Rio de Janeiro, um rapaz de 23 anos entregou cinco contos ao editor do jornal O Imparcial. O editor nem olhou.

Dias depois, o rapaz voltou com os mesmos textos e disse que eram traduções de R. S. Slady, um autor americano que fazia sucesso em Nova York. O editor acreditou, e os contos foram publicados. 

R. S. Slady nunca existiu. O episódio foi contado depois pelo próprio autor dos contos. 

O nome dele era Júlio César de Mello e Souza. Nasceu no Rio em 6 de maio de 1895 e era professor de matemática. Acreditava que um escritor brasileiro não chamaria atenção escrevendo contos árabes. 

Então criou um autor árabe, com nome comprido e tudo: Ali Iezid Izz-Eduim Ibn Salim Hank Malba Tahan. Inventou até o tradutor dos livros, o Professor Breno Alencar Bianco. Também não existia. 

Em 1938, Malba Tahan lançou “O Homem que Calculava”, as aventuras de Beremiz Samir, um calculista da Pérsia que resolvia problemas com números e histórias. O livro vendeu mais de 2 milhões de exemplares só no Brasil. 

Com o tempo, o nome Malba Tahan entrou até na carteira de identidade do professor. 

E um dos alunos dele foi Tom Jobim. Em 1958, Tom compôs uma música chamada Aula de Matemática. 

Júlio César de Mello e Souza morreu em 28 de dezembro de1974, aos 79 anos. 

Em 2013, uma lei federal transformou 6 de maio, dia do aniversário dele, no Dia Nacional da Matemática. No texto da lei, o homenageado aparece como Malba Tahan. 

O Homem que Calculava, Malba Tahan, está marcado na foto abaixo.


Você leu esse livro na escola? 

Literatura Ilimitada

É preciso seguir na peleia

 Paulo Mendes

Passada a Semana Farroupilha os dias de acampamento, das noites de acordeón e guitarras, milongas e chamamés, é hora de entendermos a identidade gauchesca construída com muitos sacrifícios. Não fomos forjados numa semana, num mês ou num ano. São séculos de edificação diária, de determinação e perseverança. 

Se neste setembro (de 2026) nos debruçamos sobre o povo guarani e a ele dedicamos tantas homenagens, que sigamos reverenciando os povos originários, os verdadeiros donos da terra, que foram trucidados, os charruas, os caigangues, todos eles, hoje vivendo esmolando pelas calçadas das grandes cidades. Muitos ainda questionando alguns poucos programas sociais a eles destinados. 

Os valores e os sentimentos tão difundidos e exaustivamente cultuados nos folguedos de setembro, como amizade, honra, companheirismo, fidalguia, respeito, alegria e tantos outros deveriam ser continuados e celebrados sempre e não somente numa época festiva. Quem sabe, aproveitamos para lermos mais sobre nosso Estado, fazendo uma lista de livros e escritores, poetas, por exemplo. 

Podemos começar lendo ou relendo desde “Antônio Chimango”, de Ramiro Barcellos, seguindo por João Simões Neto, Apparício Silva Rillo, Aureliano de Figueiredo Pinto e terminando em nomes atuais como Alcy Cheuiche, Tabajara Ruas e Sérgio Metz. 

As peleias diárias seguem, assim como as nossas demandas como seres preocupados e interessados na cultura gaúcha, além dos nossos usos e costumes. É necessário termos sempre em mente que devemos ter disciplina, para que possamos com nosso corpo e com nossa mente ampliar nossa capacidade de sermos respeitados. Assim, gente próxima de nós dará mais atenção ao que fizermos ou dissermos sobre qualquer assunto. 

Lembro de uma frase do escritor Ricardo Güiraldes, no famoso “Don Segundo Sombra”, em que o argentino diz que o gaúcho se carrega na alma. É exatamente isso, o sentimento “gaucho” não reverbera nas pilchas que usamos, mas na nossa postura sempre na defesa consciente de nosso passado, tendo discernimento e, além de tudo, muito respeito pelas demais culturas de todos os povos. Não somos melhores e nem piores do que ninguém, apenas somos diferentes. 

Que venham novos dias e surjam novos horizontes. Seguiremos aqui neste meridiano, sentindo a friagens dos invernos implacáveis, os calorões dos janeiros suarentos. Esta é nossa vida, nosso chão e nosso destino. Estaremos preparados para novos combates. 

Crônica “Campereada” do jornal Correio do Povo,

de 27.09.2026. 

sábado, 26 de setembro de 2026

Como ser uma pessoa assertiva

 

Uma pessoa assertiva é aquela que consegue expressar seus pensamentos, sentimentos, opiniões e necessidades de maneira clara, direta, firme e respeitosa, sem ser passiva nem agressiva. 

Características Principais: 

● Equilíbrio: Defende seus próprios direitos e convicções enquanto respeita o espaço e os direitos dos outros. 

● Clareza na comunicação: Fala com segurança, mantendo contato visual adequado e um tom de voz firme, mas sem hostilidade. 

● Saber dizer não: Recusa pedidos que não possa ou não quer atender, sem culpa excessiva, entendendo que colocar limites é saudável. 

● Lidar bem com críticas: Sabe diferenciar comentários construtivos de ataques pessoais e aceita erros com naturalidade para aprender com eles. 

● Autocontrole: Regula suas emoções para buscar soluções pacíficas e racionais em vez de reagir por impulso 

Para ser assertivo, você deve expressar suas opiniões, sentimentos e necessidades de forma clara, direta e respeitosa, sem ser passivo nem agressivo. 

Dicas Práticas para Desenvolver a Assertividade 

● Fale em primeira pessoa: Use frases como “eu sinto” ou “eu penso” em vez de culpar o outro com “você sempre faz...”. 

● Aprenda a dizer não: Defina seus limites com firmeza e sem culpa quando algo não for bom para você. 

● Foque em fatos: Evite julgamentos precipitados ou tentar adivinhar o que os outros estão pensando. 

● Cuide da linguagem corporal: Mantenha a postura erguida, ombros retos e faça contato visual firme, transmitindo segurança. 

● Pratique a escuta ativa: Ouça o ponto de vista alheio com atenção antes de responder ou defender sua posição. 

O Equilíbrio da Comunicação 

A assertividade fica no meio do caminho entre dois extremos ruins: 

● Passividade: Quando você se omite e guarda tudo para si. 

● Agressividade: Quando você ataca ou desrespeita o outro para impor sua vontade. 

Entenda melhor a diferença entre respostas passivas, agressivas e assertivas no dia a dia:


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O Amor

 

Então, Almitra disse: “Fala-nos do amor”.

E ele ergueu a fronte e olhou para multidão, e um silêncio caiu sobre todos, e com uma voz forte, disse: 

‛Quando o amor vos chamar, segui-o,

Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;

E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,

Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;

E quando ele vos falar, acreditai nele,

Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos como o vento devasta o jardim. 

Pois, da mesma forma que o amor vos coroa, assim ele vos crucifica. E da mesma forma que contribui para vosso crescimento, trabalha para vossa poda. 

E da mesma forma que alcança vossa altura e acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol, assim também desce até vossas raízes e as sacode no seu apego à terra. 

Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.

Ele vos debulha para expor vossa nudez.

Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.

Ele vos mói até a extrema brancura.

Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.

Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma no pão místico do banquete divino.

Todas essas coisas, o amor operará em vós para que conheçais os segredos de vossos corações e, com esse conhecimento, vos convertais no pão místico do banquete divino. 

Todavia, se no vosso temor, procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor, então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez e abandonásseis a eira do amor. 

Para entrar num mundo sem estações, onde rireis, mas não todos os vossos risos, e chorareis, mas não todas as vossas lágrimas. 

O amor nada dá senão de si próprio e nada recebe senão de si próprio.

O amor não possui, nem se deixa possuir.

Pois o amor basta-se a si mesmo.

Quando um de vós ama, que não diga: 'Deus está no meu coração', mas que diga antes: 'Eu estou no coração de Deus.' 

E não imagineis que possais dirigir o curso do amor pois o amor, se vos achar dignos, determinará ele próprio o vosso curso.

O amor não tem outro desejo senão o de atingir a sua plenitude. 

Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos, sejam estes os vossos desejos:

‛De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho que canta sua melodia para a noite;

De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;

De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor;

E de sangrardes de boa vontade e com alegria;

De acordardes na aurora com o coração alado e agradecerdes por um novo dia de amor;

De descansardes ao meio-dia e meditardes sobre o êxtase do amor;

De voltardes para casa à noite com gratidão;

E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado, e nos lábios uma canção de bem-aventurança’. 

De Gibran Khalil Gibran, no livro “O Profeta”.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O cachorro fantasma

 Mário Corso

Os primeiros dias de Ana em Porto Alegre foram difíceis. Precisava se adaptar à faculdade e à cidade ao mesmo tempo. Seu consolo, e único elo com o passado, era Tarzan ‒ um cachorro minúsculo, mas esperto e devotado a sua dona. Seu latido era tão fraco que nem para ser esganiçado servia. Faziam dez anos que viviam em harmonia, embora ele detestasse os namorados de Ana. 

Mas nada é tão ruim que não possa piorar. Tarzan estava jurado de morte, na verdade, de expulsão. O condomínio não permitia cães. Hoje a história espanta, mas estávamos nos anos 1980, no tempo que linguiça ainda tinha trema, e a tolerância com animais de estimação era outra. 

A maioria dos moradores do prédio até tinha uma simpatia pelo Tarzan, mas a subsíndica estava numa cruzada, e o síndico tinha que seguir a convenção. A queixa era os latidos anêmicos quando pessoas passavam perto da porta. A pressão foi tanta que Ana chamou os pais para levar o cachorro. 

Ana tinha pouca chance de ir ver sua família e o Tarzan. O Alegrete não fica na esquina, mas a 492 quilômetros daqui. Nem para seu aniversário conseguiu ir. 

Uma semana depois da data, Ana recebeu pelo correio uma fita cassete com mensagens de aniversário dos parentes e amigos. No final uma brincadeira, a última mensagem era latidos do Tarzan. 

Ana ouviu a fita várias vezes, sempre emocionada. No outro dia, constrangido, o sindico bate na porta. A Dona Mercedes, a subsíndica, reclamou outra vez dos latidos do Tarzan. 

Ana deu-se conta do que aconteceu, mas não comentou nada. Fez o síndico entrar e ver que não havia cachorro. Na cabeça, bolava a vingança que o destino lhe entregou de graça. 

Dona Mercedes era de hábitos. Cedo de manhã, levava o lixo para fora. Controlando pelo olho mágico, Ana aproveitava a passagem dela, de ida e de volta, para reproduzir os latidos do Tarzan. 

Passados uns dias, o síndico veio com Dona Mercedes para mostrar a ela que não havia nem Tarzan, nem outro cão. Acrescentou que só ela no prédio escutava os tais latidos. 

Ana aproveitou a ocasião para, com uma mentira, dar o golpe final. 

‒ Dona Mercedes, só se a senhora é sensitiva para ouvir o Tarzan. Ele morreu de tristeza logo que foi embora. 

Crônica inserida no jornal Zero Hora de 23.09.2026.