domingo, 7 de maio de 2017

Primeiras aulas de sexo na TV


Texto de Arnaldo Branco


Hoje todos estão familiarizados com programas que tiram dúvidas sobre sexo na TV. Mas poucos se lembram da primeira tentativa de levar ao ar uma atração desse tipo, no tempo em que não se podia nem usar a palavra “sexo”.

Segredos da Alcova (1962), com esse nome lúbrico, enganava o telespectador sedento por informações e, quem sabe, a visão de alguma coisa que pudesse servir como enredo masturbatório. Mas a censura da época, que obrigava os apresentadores (Glória Menezes e José Lewgoy) a usar termos científicos e parábolas, fazia com que muitos se perguntassem se estavam mesmo falando sobre relações sexuais.

Eram tempos em que ainda não havia farta disponibilidade de pornografia e a virgindade era um item tão valorizado em um casamento quanto hoje são os acordos pré-nupciais. Portanto algumas das dúvidas dos telespectadores eram bem básicas; boa parte delas tinha a ver com a exata localização do órgão sexual feminino.

Além de responder as perguntas dos telespectadores, havia um “Quiz”* com convidados famosos. Alguns deles pagaram vexames incríveis por desconhecimento de causa, como o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, que disse que Trompa de Falópio era uma prática sexual condenada pela Bíblia.

É preciso lembrar que o relatório Kinsey e outras pesquisas na área começavam a se popularizar ‒ portanto os próprios apresentadores também nem sempre sabiam do que estavam falando. Glória certa vez afirmou que masturbação (“coito solitário” foi o termo que ela usou) realmente provocava o crescimento de cabelos na palma da mão e Lewgoy perguntou, em voz alta para a produção, se cunilingus era mesmo o que ele estava pensando.

Segredos de Alcova
acabou porque os produtores entenderam que o público respondia melhor a estímulos audiovisuais do que ao intelecto. No lugar do programa entrou a novela Senhora de Engenho, que apelou para várias cenas sensuais em que Yoná Magalhães lavava demoradamente as mãos.

*Quiz termo americano para programa de perguntas e respostas.


sexta-feira, 5 de maio de 2017

Malandros e a pernada carioca

                 

Foto: JM Arruda/Ensaio ‘Malandros I’

(Falando de Ismael Silva)

No Bar Apolo e no Café do Compadre, ele se juntaria a uma turma da pesada, criaturas que atendiam pelos nomes e alcunhas de Brancura, Baiaco, Bide, Francelino, Julinho do Violão, Gaguinho, Geraldo Vagabundo, Henrique Cabeça Grande, Mãozinha, Nanal, Nino do Estácio, João Mina e Saturnino.

Alguns, naquele grupo, pegavam pesado no batente. Na lista, tinha de bombeiro hidráulico a fundidor, de feirante a lustrador de móveis, de torneiro mecânico a sapateiro. Mas o grosso do pessoal vivia mesmo de biscates e eternas virações. Eram fortuitos jogadores de chapinha, punguistas de ocasião, cafetões profissionais. Quase todos se definiam, com muita honra e orgulho, pelo epíteto de “malandros”. Não viam nisso nenhuma espécie de mancha moral. A malandragem, entendiam, era uma maneira de não ceder à lógica perversa que condenava negros e mestiços à mendicância, ao desemprego e à pobreza extrema.

Eram adeptos do chamado “samba duro”, da velha “pernada carioca”, também conhecida como “batucada”. Nesse jogo unindo música e luta física, os batuqueiros formavam uma roda e entoavam refrões em coro. Um jogador se plantava no meio da roda com as pernas unidas e rijas, enquanto o adversário gingava em torno dele, aguardando a ocasião propicia para lhe desferir a “pernada” – podia ser tesoura, a banda de frente, a encruza, a banda jogada ou qualquer outro tipo de golpe aplicado com a intensidade necessária para tentar derrubá-lo.

Se o oponente caísse, estava fora, desmoralizado, passando atestado de frouxo. Quem permanecia de pé trocava de lugar e recebia o encargo de fazer o outro desabar de traseiro no chão. Os mais seguros de si vestiam-se a caráter, como o típico terno branco de linho irlandês S-120, o melhor tipo disponível na praça. Era como se, com isso, proclamassem aos quatro ventos que não cogitavam a simples hipótese de vir a cair e, por consequência, macular a roupa, considerada símbolo máximo da malandragem.

Não à toa, viviam enrascados com a polícia. A maioria deles foi presa e respondeu a inquéritos em mais de uma oportunidade ao longo da vida. Em geral, faziam da valentia uma regra de conduta. Mais tarde, seriam romantizados na figura do malandro folgazão, um sujeito sempre simpático, sedutor incorrigível e anti-herói libertário, invariavelmente boa-praça. Mas, na vida de carne e osso, as adversidades da malandragem não ofereciam margens para apologias e idealizações idílicas. Vários terminaram seus dias precocemente, em trocas de navalhadas e sangrentas brigas de rua. Outros tiveram o organismo arruinado pela sífilis ou pela tuberculose, moléstias adquiridas nas infindáveis noitadas de arruaças e boemia.

(Do livro Uma História do Samba ‒ As Origens”, de Lira Neto – Companhia das Letras) 




quinta-feira, 4 de maio de 2017

Algumas respostas de famosos

em entrevista, inquéritos...

Pergunta de um repórter ao pintor Di Cavalcanti

 – A que horas o senhor acorda?
Di Cavalcanti:
– Depende da hora que eu me deito.
Repórter:
– E a que horas o senhor deita?
Di Cavalcanti:
– Depende da hora que eu me acordo...


Entrevista do caricaturista Jaguar para o pessoal do Casseta & Planeta:


– (...) depois que ele ficou com cirrose, eu comecei a evitar o Tarso de todo jeito que eu podia. Quando eu soube que ele estava internado no CTI, eu fui às sete horas da manhã, lá na Clínica São Vicente, porque soube que ele estava tendo hemorragia e precisava de sangue, porque ele estava perdendo muito sangue. Aí o médico falou assim: “Jaguar, você não me leve a mal, mas até que horas você bebeu?” Eu falei: “Porra! Sei lá, que horas fecha o Lamas?” Ele disse: “Olha aqui, seu eu der uma transfusão de sangue seu pro Tarso é a mesma coisa que dar a ele uma dose de bloody mary.”*

*bloody mary: vodka com suco de tomate.


O poeta Vinicius de Moraes respondendo por que foi exonerado do Itamaraty, em 1968:

Vinicius de Moraes:
      

– O Otto (Lara Resende) sabe de uma história muito engraçada que aconteceu: quando o decreto veio de Brasília, assinado pelo presidente Costa e Silva, o despacho dizia: “Ponha-se esse vagabundo para trabalhar”. Aí, dizem que o Magalhães Pinto botou a mão na cabeça e chamou o Otto imediatamente, comentando: “Ih, isso vai dar um barulho dos diabos. Escreve um arrazoado aí para mandarmos para Brasília”. O Otto escreveu e, por isso, o despacho não se tornou público. Mas a exoneração veio de qualquer maneira. O que para mim foi ótimo, porque eu já não aguentava mais aquilo, mas tinha um problema moral devido aos filhos, pois com 24 anos de carreira eu estava mais ou menos próximo da aposentadoria. Tinha certo medo de jogar aquilo tudo pra o alto. Mas quando me livraram desse problema moral, fiquei muito satisfeito. 
                                                                                                                                                                                             
Um repórter de rádio entrevistando Garrincha:


– Dê um bom dia ao microfone.
E Garrincha:
– Bom dia, microfone!

  
Pergunta feita ao jogador brasileiro Neymar pela revista Capricho:


Se seu quarto estivesse pegando fogo e você tivesse tempo de salvar uma coisa, o que seria?
– Meu celular, claro. (risos)


Federico Fellini sabia o que queria, quando completou 72 anos, em 20 de janeiro de 1992, ele disse numa entrevista:


‒ Sei, com certeza que não quero fazer um filme com Dustin Hoffman na Amazônia.


Um vez, num jornal, Jânio Quadros chamou o PTB de “cáfila de postulantes”. O partido não gostou e Gastone Righi tentou uma interpretação:


‒ O ex-presidente valeu-se de um raciocínio dialético e que, portanto, só poderia comportar tese e antítese, e não exceção.


Tim Maia sendo sincero numa entrevista:


“Este país não pode dar certo. Aqui prostituta se apaixona, cafetão tem ciúmes e traficante se vicia.”  



Histórias de paraquedistas XXIII

Um simples sinal de fé

Nilo da Silva Moraes – Pqdt -11779 – 1964/4


Um padre católico e um rabino foram juntos assistir a uma luta de boxe. Era uma luta de pesos-pesados que daria ao vencedor uma vultosa soma em dinheiro.

Ao entrarem no ring, um dos lutadores fez o sinal da cruz. O rabino, curioso, perguntou ao padre:

- O que significa isso que ele acabou de fazer?

Respondeu o padre:

- Nada, se ele não souber lutar.

Conto essa pequena história, que ouvi de um personagem de um filme (O Voo do Fênix) contar a outro, porque me lembrei da emoção que sentíamos dentro de um avião antes de saltar: a tensão, a expectativa, a adrenalina e a força da fé realçada por um simples sinal da cruz.

Fui muito religioso na minha infância e juventude. Aos domingos, quando de folga, eu ia com grupo de pqdts gaúchos à missa numa igreja de Marechal Hermes, antes de irmos nos divertir ou passear. Eu sempre que estava sentado no banco de uma aeronave, já com o avião esquentando os motores, para não dar na vista, fazia, discretamente, um sinal da cruz cheio de sutilezas: um dedo na teste, simulando coçar; um pequeno toque no peito, outro dedo no ombro esquerdo, outro toque no ombro direito e, finalmente, a mão nos lábios. Pensava, fervorosamente, em Nossa Senhora Aparecida e me considerava pronto para o que desse e viesse. Estava protegido pelo sinal da cruz, pela minha fé e a confiança no equipamento de salto: o paraquedas.

Quando uma equipe recebia os comandos: Preparar! Levantar! Enganchar, Verificar equipamento! Contar!, sabíamos que iríamos para uma aventura sem retorno. Você só pensa nos comandos recebidos. Você é uma máquina executando ordens por puro reflexo condicionado. Você chega à porta e, recebendo o já, nem por um momento você vacila. Você se joga, sem pensar, olhos arregalados, punho no reserva e, de repente, você estanca no ar. Um enorme cogumelo verde infla sobre a sua cabeça. Então, você grita de felicidade: puta que pariu! O que vem pela frente não tem a menor importância. Você está vivo! O equipamento funcionou. O paraquedas desce lentamente, e, dependendo do vento, você flutua suavemente. É um momento que gostaríamos que demorasse uma eternidade. Gritos de alegria de todos os saltadores; centenas de paraquedas abertos por todos os lados. Você se julga um pássaro, o próprio guerreiro alado da canção. Você já quer fazer tudo de novo, por vibração, pela adrenalina, pela intensa felicidade de ser um corpo que flutua no espaço.

Alguém já disse uma vez, com certa propriedade, que saltar de paraquedas é um suicídio controlado. Você está saltando para a morte por poucos segundos, quando um objeto o salva no ar. Objeto que, algumas vezes, já falhou, ocasionando a morte do paraquedista.

Por que muitos de nós nunca tiveram medo? Somente pelo dever, pelo amor, pela fé, pela certeza da proteção do sinal da cruz e por sermos, simplesmente, paraquedistas treinados a ferro e fogo para cumprir qualquer missão!

Adendo:

É claro que cada um de nós, jovens recrutas do antigo Regimento Santos Dumont, tinha a sua própria fé no seu Deus particular. Cada um de nós tinha a sua crença, podia ser católico, evangélico, espírita, umbandista, ou até mesmo quem cresse num orixá. Mas todos pediam proteção divina. Digo isso, porque, na hora do salto, na porta de uma aeronave, olhando para baixo, quem não confiaria no seu Deus e no seu paraquedas?

*******

P.S. Um homem que salta de paraquedas semiautomático de um avião pode voar alguns segundos...

Um homem que salta de paraquedas, em um salto livre, de um avião pode voar até alguns minutos...

Um homem que salta sem paraquedas de um avião pode voar até o fim da sua vida...

Opinião de uma velha águia Paraquedista

Amigo Nilo, fui um Pqdt “calejado”, cheio de tarimba e sem modéstia alguma. Porém foi o melhor depoimento de um salto de aeronave em voo que até hoje li, mostrando nossa “cara de salto”. Para uns, esta “cara de salto” se manifestava no cheque dos motores na cabeceira da pista, era o meu caso; para outros, ao acender a luz vermelha e assim por diante...

Nilo, quando o avião taxiava em direção à cabeceira da pista e lá chegando, piloto com avião freado, conferindo os instrumentos, avião contido como bagual na raia de largada, trepidando, pronto para a decolagem... este velho guerreiro pensava com seus botões; ou melhor, ajustando a queixeira do capacete... estou pronto! Nada mais me atemorizava. Pulso voltava a normalidade, o salto deixava de ser um problema, só os deveres com a equipe afloravam em minha cabeça. Nilo, eu ficava tão tranquilo, que um Tenente, meu aluno de básico, vendo-me sair numa equipe de Prec**, ele pensava: “Um dia ainda vou ser tão tranquilo como aquele Sargento.” Dito pelo General Siqueira, numa festa dos Precs Veteranos na Colina Longa.

Seu depoimento achei bonito, sinceramente. Que tal cada um falar sobre sua maior tensão no momento que antecedia o seu salto?

Ly Adorno de Carvalho*

*Ly Adorno: Pqdt 503 - do Turno do 1951/3 - Mestre de Salto 197, Precursor 16, Força Especial 15 e Comando 14.

** Prec: Precursor é o paraquedista com curso e treinamento especiais para se lançar com qualquer tempo em um ZL e dar, ou não, condições de lançamento de uma equipe de paraquedistas. É ele que assinala com um T a vertical do ponto para a visualização do MS (Mestre de Salto), na porta do avião, e comandar uma equipe a saltar numa Zona de Lançamento (ZL).


Um equipe de Precursores,
e seus Gorros Vermelhos com a Tocha Alada,
símbolo do Precursor.


Fotos de saltos:


Um equipe de paraquedistas militares brasileiros
preparando-se para entrar na aeronave.


Antes do salto, cada um com a sua fé.


Salto de um recruta, o chão é o limite...


E quando o salto é na água, o perigo é redobrado.


Salto em equipe, esperando a abertura do paraquedas.


Salto na ZL do Campo dos Afonsos.


Salto noturno, um mergulho na escuridão...


E, finalmente, a alegria de ver todos os paraquedas abertos...

(Fotos de Blogs da Brigada de Infantaria Paraquedista)



quarta-feira, 3 de maio de 2017

Uma pergunta, uma senhora resposta...


Pergunta:


Alguém sabe me explicar, num português claro e direto, sem figuras de linguagem, sem enrolação, sem filigranas, o que quer dizer a expressão “no frigir dos ovos”?*

Resposta:

Quando comecei, pensava que escrever sobre comida, seria sopa no mel, mamão com açúcar. Só que, depois de um certo tempo, dá crepe, você percebe que comeu gato por lebre e acaba ficando com uma batata quente nas mãos. Como rapadura é doce, mas não é mole, nem sempre você tem ideias, e, pra descascar esse abacaxi, só metendo a mão na massa.

E não adianta chorar as pitangas ou, simplesmente, mandar tudo às favas.

Já que é pelo estômago que se conquista o leitor, o negócio é ir comendo o mingau pelas beiradas, cozinhando em banho-maria, porque é de grão em grão que a galinha enche o papo.

Contudo é preciso tomar cuidado para não azedar, passar do ponto, encher linguiça demais. Além disso, deve-se ter consciência de que é necessário comer o pão que o diabo amassou para vender o seu peixe. Afinal, não se faz uma boa omelete sem antes quebrar os ovos.

Há quem pense que escrever é como tirar doce da boca de criança e vai com muita sede ao pote. Mas, como o apressado come cru, essa gente acaba falando muita abobrinha, são escritores de meia tigela, trocam alhos por bugalhos e confundem Carolina de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão.

Há também aqueles que são arroz de festa, com a faca e o queijo nas mãos, eles se perdem em devaneios (piram na batatinha, viajam na maionese... etc.). Achando que beleza não põe mesa, pisam no tomate, enfiam o pé na jaca, e, no fim, quem paga o pato é o leitor que sai com cara de quem comeu e não gostou.

O importante é não cuspir no prato em que se come, pois quem lê não é tudo farinha do mesmo saco. Diversificar é a melhor receita para engrossar o caldo e oferecer um texto de se comer com os olhos, literalmente.

Por outro lado, se você tiver os olhos maiores que a barriga, o negócio desanda e vira um verdadeiro angu de caroço. Aí, não adianta chorar sobre o leite derramado, porque ninguém vai colocar uma azeitona na sua empadinha, não. O pepino é só seu, e o máximo que você vai ganhar é uma banana, afinal, pimenta nos olhos dos outros é refresco...

A carne é fraca, eu sei. Às vezes dá vontade de largar tudo e ir plantar batatas. Mas quem não arrisca não petisca, e, depois, quando se junta a fome com a vontade de comer as coisas mudam da água pro vinho.

Se embananar, de vez em quando, é normal, o importante é não desistir mesmo quando o caldo entornar. Puxe a brasa pra sua sardinha, que, no frigir dos ovos, a conversa chega na cozinha e fica de se comer rezando. Daí, com água na boca, é só saborear, porque o que não mata, engorda.

Está respondido?

(Autor desconhecido)


*No fim de tudo. Na conclusão. Na hora do vamos ver. “No frigir dos ovos é quando a manteiga chia”. Provérbio lusitano.

Conversando com Noel Rosa



Noel Rosa por Bertoni

O amor, a vida e a cidade segundo o gênio da Vila.

Texto de Sérgio Cabral (O pai)

(Noel Rosa: 11.12.1910 – 4.5.1937)

Noel Rosa faria 100 anos neste 11 de dezembro de 2010*, razão pela qual tratei de procurá-lo para uma entrevista. Sua reação inicial quase me levou ao desânimo, pois, alegando que tudo que tinha a falar já estava em sua obra, não quis dar entrevista. Não me restou outra saída senão recorrer à fonte que ele mesmo sugeriu: as letras de suas músicas.

*Na verdade o texto é 2007.

Você acha que...

Noel – “... quem acha vive se perdendo.”

Estou querendo saber se você não se considera um machista. Algumas de suas letras são nitidamente machistas.

Noel – “Meu Deus do céu, que palpite infeliz!”

Mas não se pode negar que é contra o trabalho da mulher fora de casa.

Noel – “Todo cargo masculino, desde o grande ao pequenino, hoje em dia é pra mulher.”

Pelo jeito, você está mesmo é com a velha dor-de-cotovelo.

Noel – “Pobre de quem já sofreu neste mundo a dor de um amor profundo.”

Segundo Vinicius de Moraes, ninguém tem nada de bom sem sofrer.

Noel – “Provei do amor todo o amargor que ele tem.”

Até traição?

Noel – “Um amor pra ser traído só depende da vontade.”

Pelo jeito, você sofreu muito.

Noel – “Quem é que já sofreu mais do que eu?”

Mas nunca o vi chorando.

Noel – “Quem é que já me viu chorar? Sofrer foi o prazer que Deus me deu. Eu sei sofrer sem reclamar.”

E daí? Vai cantar o samba de Carlos Cachaça e Cartola Não Quero Mais Amar a Ninguém?

Noel – “Nunca se deve jurar não mais amar a ninguém.”

Será que esse sofrimento tem a ver com a sua feiura, Noel?

Noel – “Eu, nascendo pobre e feio, ia ser triste o meu fim. Mas, crescendo, a bossa veio, Deus teve pena de mim.”

Mudando de assunto, e o nosso Rio de janeiro?

Noel – “Cidade notável, inimitável, maior e mais bela do que outra qualquer.”

Mas você gosta mesmo é do subúrbio.

Noel – “O subúrbio é ambiente de completa liberdade.”

Tem ido à Penha?

Noel – “Não há quem não tenha mais saudades lá da Penha do que eu, juro que não.”

Há quanto tempo você não aparece no bairro?

Noel – “No ano que passou não pude ir à Penha.”

Não vai voltar lá?

Noel – “Tenho vontade de ir à Penha, mas me falta o principal.”

Se não tem o dinheiro da condução, vai a pé.

Noel –“Pra ver a minha santa padroeira, eu vou à Penha de qualquer maneira.”

Em que outros bairros você andou?

Noel – “Na Pavuna tem turma reúna, na Gamboa, gente boa.”

Onde mais?

Noel – “Já saí de Piedade, já mudei de Cascadura.”

Por quê?

Noel “A polícia em toda a zona proibiu a batuca.”

E vai pra onde?

Noel – “Eu vou pra Vila, onde a polícia é camarada.”

Vila Isabel realmente tem tantos bons sambistas?
Noel – “Andando pela batucada, onde vi gente levada foi lá em Vila Isabel.”

Quais são os maiores rivais da Vila?

Noel – Salve Estácio, Salgueiro e Mangueira, Oswaldo Cruz e Matriz, que sempre souberam muito bem que a Vila não quer abafar ninguém. Só quer mostrar que faz samba também.”

O que você diz desse pessoal que não gosta do samba?

Noel – “Falou mal do samba, pisou no meu calo. O samba, a prontidão e outras bossas são nossas coisas, são coisas nossas.”

Você é bem remunerado como compositor?

Noel – “O samba mata a fome.”

Mas nada disso impede que você procure outros meios de sobrevivência.

Noel – “E o que queres tu que eu faça, se o samba é minha cachaça?“

Você se sente infeliz por isso?

Noel – “Não maldigo a minha sorte. Vou agindo com cadência.”

O espaço está acabando e só resta uma pergunta: como é que você está vendo o Brasil atualmente?

Noel – Comparo o meu Brasil a uma criança perdulária, que anda sem vintém, mas tem a mãe que é milionária.”

As falas de Noel Rosa foram tiradas de suas várias composições musicais.




segunda-feira, 1 de maio de 2017

Ele foi apenas um rapaz latino-americano



(Belchior: 1947 - 2017)

A notícia

Foi na madrugada de ontem, sábado, 29, para domingo, 30 de abril de 2017, que o cantor e compositor cearense Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, conhecido simplesmente como Belchior foi encontrado morto, na casa em que vivia no bairro Santo Inácio, em Santa Cruz do Sul, RS.

Desde 2008, o artista não tinha paradeiro certo. Morou em hotéis e, em um deles, chegou a deixar um carro no estacionamento ao desaparecer. Em 2013, passou por Porto Alegre e se encontrou com o jornalista Juremir Machado da Silva, o que resultou em uma coluna que descreve o quanto o músico parecia confuso quanto à sua carreira e destino. Procurado pela justiça por falta de pagamento de pensão alimentícia e outras dívidas, Belchior, ao lado de sua namorada, vivia se escondendo, fugindo de dívidas e na busca de um isolamento.

Suas letras, para muitos de seus fãs, são mais atuais do que nunca, pois abordam questões sociais e políticas, são contestatórias, melancólicas, sem deixar o amor e a irreverência de lado. Nos últimos anos, mesmo cultuado, Belchior recusou convites para voltar aos palcos. Popularizam-se no Ceará e em outras cidades os dizeres “Volta, Belchior” em muros.

 Ele estava morando há pelo menos meio ano em Santa Cruz do Sul junto com sua companheira, Edna Assunção Araújo. Antes disso, teria passado semanas na Ecovila Karaguatá, de Rio Pardinho e meio ano na casa do amigo Dogival Duarte.

O resultado da necropsia apontou rompimento da aorta, principal artéria humana. Segundo a polícia, o músico teria morrido dormindo no sofá, sem sinas de violência.


Apenas um rapaz

Juremir Machado da Silva

Farei uma frase extremas: Belchior foi o melhor compositor que o Brasil já teve. Melhor do que Chico Buarque, Caetano Veloso e todos os outros. Morreu em Santa Cruz do Sul. Era um dos meus poucos ídolos. Guardarei a imagem do homem tranquilo e inteligente que conheci em Porto Alegre, em 2013, quando fui procurado, na Rádio Guaíba, por sua mulher Edna. Arrependo-me de não ter sabido ajudá-lo. Não sei se era possível. Gostaria de ter penetrado no mistério da sua decisão de não cantar mais. Tenho escrito muitos livros. Adoraria escrever duas biografias, a de Lupicínio Rodrigues e a de Belchior, que obviamente intitularia “Apenas um Rapaz Latino-Americano”. Não as escreverei.

(...)

O que se quebrou dentro de Belchior em algum momento que o fez abandonar tudo? Não sei. A minha hipótese é que ele resolveu viver profundamente o que cantou. Penso nele como um daqueles filósofos da antiguidade. Ele cantou os sonhos e desesperança da minha geração como ninguém. (...)

Algo que me impressionou nas poucas conversas com Belchior foi a sua cultura. De que fugiu? De que se escondia? Não creio que fosse de dívidas. Com facilidade teria voltado a ganhar dinheiro em shows lotados. Creio que fugia da sociedade e do espetáculo e da vulgaridade da indústria cultural.

(Partes de uma crônica publicada em sua coluna
 no jornal Correio do Povo)


Quando Belchior ainda era um estudante de Medicina sem bigode, no começo dos anos 1970, ele assistiu a uma aula inaugural do filósofo cearense Augusto Pontes, que, logo de saída, apresentou-se assim:

– Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem parentes militares.

Dizer essas coisas no tempo da ditadura era uma rara rebeldia. Fagner, que, mais tarde, seria primeiro parceiro e depois desafeto de Belchior, também estava na aula. Achou aquilo tão engraçado, que caiu na gargalhada, fazendo com que todos os alunos se voltassem para ele. Belchior, quietinho que era, quietinho ficou. Mas guardou a frase com cuidado, a fim de usá-la em outra oportunidade. E a usou, construindo um dos clássicos da MPB.

(...)

David Coimbra, em Zero Hora, setembro de 2018.

 Apenas um Rapaz Latino-Americano*

Belchior

Eu sou apenas um rapaz Latino-Americano,
Sem dinheiro no banco,
Sem parentes importantes
E vindo do interior.

Mas trago de cabeça uma canção do rádio,
Em que um antigo compositor baiano
Me dizia: Tudo é divino, tudo é maravilhoso.

Mas trago de cabeça uma canção do rádio
Em que um antigo compositor baiano
Me dizia: Tudo é divino, tudo é maravilhoso.

Tenho ouvido muitos discos,
Conversado com pessoas,
Caminhado meu caminho,
Papo, som, dentro da noite
E não tenho um amigo sequer,
Que ainda acredite nisso não,
Tudo muda!
E com toda razão.

Eu sou apenas um rapaz Latino-Americano,
Sem dinheiro no banco,
Sem parentes importantes
E vindo do interior.

Mas sei, sei que tudo é proibido
Aliás, eu queria dizer
Que tudo é permitido
Até beijar você
No escuro do cinema
Quando ninguém nos vê.

Mas sei que tudo é proibido,
Aliás, eu queria dizer
Que tudo é permitido
Até beijar você
No escuro do cinema
Quando ninguém nos vê.

Não me peça que eu lhe faça
Uma canção como se deve:
Correta, branca, suave
Muito limpa, muito leve
Sons, palavras, são navalhas
E eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém.

Mas não se preocupe, meu amigo,
Com os horrores que eu lhe digo,
Isso é somente uma canção.
A vida, realmente, é diferente
Quer dizer, ao vivo é muito pior.

E eu sou apenas um rapaz Latino-Americano
Sem dinheiro no banco
Por favor, Não saque a arma no "saloon"
Eu sou apenas o cantor.

Mas se depois de cantar,
Você ainda quiser me atirar.
Mate-me logo!
À tarde, às três que à noite
Tenho um compromisso
E não posso faltar,
Por causa de vocês.

Mas se depois de cantar,
Você ainda quiser me atirar,
Mate-me logo!
À tarde, às três, que à noite
Tenho um compromisso
E não posso faltar
Por causa de vocês.

Eu sou apenas um rapaz Latino-Americano
Sem dinheiro no banco,
Sem parentes importantes
E vindo do interior.

Mas sei que nada é divino
Nada, nada é maravilhoso
Nada, nada é secreto
Nada, nada é misterioso, não
Na na na na na na na na...

*A música acima pode ser ouvida na voz do próprio Belchior, ela está na Internet.


Belchior não era apenas um rapaz latino-americano

Professor relembra convivência com o cantor durante 40 dias
 em seu apartamento em Porto Alegre


Uma das últimas fotos de Belchior,
por César Augusto Ferrari Martinez, 2012

Quando me aconteceu o improvável, reagi com uma ética que surpreendeu até mesmo a mim. Ele estava na minha casa e eu não contei nada a ninguém! Ele era capa de jornais, reportagem em rede nacional, assunto nas redes sociais: afinal, onde estava o Belchior? Sentado no balcão da minha cozinha, tomando uma taça de vinho e conversando comigo sobre João Cabral de Melo Neto, Bob Dylan e João Goulart (“sempre pensavam que éramos parentes”).

Não, não foi sonho ou delírio (nem mesmo alucinação!). As geografias do Belchior nunca foram simples. Na voz do cantor o espaço, mais do que o tempo, era possibilidade. Ele saiu da nortista Sobral para o centro do país, rodou o Brasil e o mundo como embaixador de uma voz que era simultaneamente cearense, nordestina, brasileira e latina, até refugiar-se na pacata e uruguaia Artigas. Quando fomos nos topar, em novembro de 2012, Belchior era o trend topic da imprensa nacional. Um dia antes, havia sido visto circulando no bairro Moinhos de Vento. Eu recém havia defendido minha dissertação de mestrado sobre jovens em situação de rua quando encontrei o cantor e sua companheira Edna após uma noite vagando pelo bairro Floresta, Porto Alegre.

Levei-os para meu apartamento, ofereci cama, banho, roupas, comida, descanso e o mais importante: blindagem à cobertura jornalística. Aí ficaram por cerca de 40 dias, tempo em que compartilhamos jantares, dedilhados de violão, narrativas de vida e outros momentos assustadoramente íntimos. Prometi a mim mesmo e selei o pacto com meus familiares e amigos mais íntimos que não falaríamos nada. Futuramente, uma reportagem de uma revista de circulação nacional viria à tona mapeando os últimos passos de Belchior. Havia uma lacuna, um espaço de tempo não coberto, justamente o quando Belchior havia sido meu hóspede. Na foto da reportagem, ele aparecia com meu blusão, que com alegria cedi quando foram embora. Pensei comigo que no momento da sua morte eu compartilharia tudo publicamente.

Ocorre que ele se foi e eu me peguei desprevenido. Parte de mim ainda imaginara que eu poderia encontrá-lo, revê-lo, voltar às conversações que tanto me fizeram felizes nessas poucas semanas juntos. Não reclamo! Tive a oportunidade de ter em minha casa o meu grande ídolo. Mas por outro lado, lamento imensamente, pois sei que a tristeza e a impotência tiveram participação no fim de sua jornada terrena. Obrigado, Mestre! Ainda ressona forte o grave da tua voz me dizendo “Professor”. Espero que teu legado artístico e político nos dê fôlego para respirar em tempos que vivemos comedimento democrático. Aos antigos, relembremo-lo. Aos jovens, escutemo-lo. Quanto a mim, posso dizer que “pela Geografia aprendi que há no mundo um lugar onde um jovem como eu pode amar e ser feliz”.

César Augusto Ferrari Martinez
Professor na Universidade Federal de Pelotas
De Santiago (Chile)

(Correio do Povo, de 2 de maio de 2017)

Belchior em Murta, Sobradinho, RS


Belchior teve um grande protetor em Santa Cruz do Sul, o radialista Dogival Duarte. Quando Dogival precisou de ajuda para abrigar o ídolo, recorreu ao professor de filosofia Ubiratan Trindade.

Bira recebeu Belchior em sua casa. Depois de três meses, deu problema com Edna, mulher do cantor, sempre de temperamento difícil e querendo proteger o marido de perigos imaginários. Surgiu uma solução: transferi-los para uma chácara, em Murta, interior de Sobradinho.

Edna não queria que a identidade de Belchior fosse revelada. Ele foi apresentado ao caseiro como um professor cearense de filosofia. Colou. Belchior podia falar horas sobre Santo Tomás de Aquino.

Bira lembra com saudades das grandes conversas com Belchior sobre Fernando Pessoa, grandes filósofos, literatura. O cantor vivia de vinho, peixes e azeite de oliva.

O caseiro viu Belchior, com um violão emprestado, compor e cantar como um pássaro.

– Esse professor de filosofia canta muito – disse.

Eu estive na casa de Bira, em Santa Cruz, há algum tempo. Ele se lembra:

– Fiz um galeto. Me estressei um pouco. Queria te contar sobre Belchior, mas esqueci.

Outros me contaram que ele estava em Santa Cruz. Acompanhei de longe.

Bira tem uma galeria de fotos de Belchior em Murta.

Pode-se começar por este bilhete do ídolo para Marina, filha do anfitrião, estudante de Artes.


(Do Blog do Juremir Machado da Silva)

O ato final


(Foto do Cultura ao Minuto)

Às 9h50min desta terça (2 de maio de 2017), Antonio Carlos Belchior, morto no último domingo (30 de abril), foi enterrado enquanto seus familiares cantavam "Mucuripe", uma de suas primeiras composições, em parceria com Raimundo Fagner, e também nome de uma praia de Fortaleza, no Ceará.

O enterro aconteceu no cemitério Parque da Paz, em subúrbio ao sul da cidade. Cerca de 300 pessoas estiveram presentes, entre familiares, amigos e imprensa.

Edna Prometeu, a companheira de Belchior nos últimos anos, chegou e passou o tempo toda sentada em uma cadeira de rodas. Sua mão direita tremeu incessantemente.

Também estavam lá alguns irmãos do cantor e Mikael e Camila Belchior, os dois filhos que ele teve com Angela Henman, a única mulher com quem ele se casou no papel.

Missa

Um pouco mais cedo, boa parte das cerca de 300 pessoas que acompanhavam a missa para Belchior choraram quando o conjunto que tocava canções religiosas entoou clássicos do compositor.

"Hora do Almoço", "Alucinação", "Como Nossos Pais" e, finalmente, "A Palo Seco", quando o caixão foi fechado, arrancaram lágrimas, coro e aplausos dos presentes no anfiteatro ao ar livre do Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza, no Ceará, entre 7h30min e 8h30min.

Chorando o tempo todo, Edna Prometeu, já não se sustentava sozinha em pé. A cerimônia aconteceu após o velório, que atraiu 8.010 pessoas e durou a noite toda na capital cearense, desde as 15h de segunda.

No palco, além do padre e do corpo do artista, cerca de 30 familiares e amigos acompanharam sentados a leitura de textos bíblicos. "Eu sou o alfa e o ômega, o princípio e o fim", disse certo trecho.

(Folhapress)

O recado de Belchior que ninguém ouviu

(Excerto)

Por Carlos Guimarães*

Belchior morreu no anonimato, aos 70 anos, numa despedida até certo ponto previsível de quem não fez muita concessão às tentações do sucesso fácil. Nunca foi midiático, nunca foi agradável e nunca fez média para se tornar mais ou menos bem-sucedido. No final da vida, entre idas e vindas, parecia um peixe fora d´água neste mundo pós-moderno de ostentação, problematização, relativização e chatices e tal. Perdido em sua alucinação de suportar os dia a dia, possivelmente não suportava mais um mundo onde importa muito mais aparentar algo do que ser algo. Belchior não conseguiu fazer um retrato deste cotidiano, provavelmente por não se importar muito com ele. Morreu do mesmo jeito que surgiu para a música: um itinerante, um andarilho trôpego entre paixões arrebatadoras, deslizes efêmeros e devaneios concretos. Morreu punk, como fora punk. Morreu com um recado ao seu estilo, de que toda sinceridade é possível nas tentações das relações fugazes, como, de fato, pode se traduzir o mundo atual. Morreu jovem, talvez em alguma curva no seu próprio caminho, com todo som, toda a fúria e toda a pressa de viver, gritando desesperadamente em português, mas sem ninguém ouvir.

*Jornalista da Rádio Guaíba.

(No Correio do Povo de 6 de maio de 2017)