terça-feira, 7 de agosto de 2018

Poemas e prosa


Não

Xavier de carvalho

Se Deus um dia, lá da imensa altura,
Aos animais acaso perguntasse,
E à planta e ao mineral interrogasse
Se queriam ter alma por ventura...

Se desejavam que Ele os transformasse,
De repente do mundo pela agrura,
Nivelando-os da terra sobre a face
À condição de humana criatura...

Se queriam também pela existência,
Como o homem gozar da inteligência,
Como o homem ter uso da Razão,

Todos em bando nesse atroz tormento,
Unidos sob o mesmo pensamento,
Responderiam, trêmulos, que não!

Amor

O amor e uma árvore ampla e rica
De frutos de ouro e de embriaguez;
Infelizmente, frutifica
Apenas uma vez

Olavo Bilac

Dizem que ela envelheceu
Mas pra mim é sempre linda;
Que há sóis já mortos no céu
E a gente vê-os ainda...

Augusto Gil
  
O espelho da vida

O mundo ao seu redor é um reflexo, espelho que mostra quem você é. O que você acha de bom nos outros, está também em você. Os defeitos que você encontra nos outros são os seus defeitos também. Afinal, para reconhecer algo, você tem que conhecê-lo.

As potencialidades que você vê nos outros, são possíveis também para você. A beleza que você vê ao seu redor é a sua beleza. O que você vê nos outros lhe mostra você mesmo. Veja o melhor nos outros, e você será uma pessoa melhor.

Doe aos outros e estará doando a si mesmo. Aprecie a beleza, e você será belo. Admire a criatividade, e você será criativo. Ame, e você será amado. Procure compreender, e será compreendido. Ouça, e sua voz será ouvida. Ensine, e você aprenderá. Mostre ao espelho sua melhor face, e você ficará feliz com o que ele vai lhe mostrar.


domingo, 5 de agosto de 2018

O último discurso

(Extraído do filme “O Grande Ditador”, de Charles Chaplin)


Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, gentios, negros, brancos...

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo, não para seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e a morte. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.

Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas feições a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximam-nos muito mais.

A própria natureza dessas coisas é um apelo eloquente à bondade do homem, um apelo à fraternidade universal, à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas por este mundo afora. Milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas, vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir, eu digo: “Não desesperais!” A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia, da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão. Os ditadores sucumbirão e o poder que do povo roubaram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.

Companheiros, não vos entregueis a seres brutais que vos desprezam, que vos escravizam, que arregimentam as vossas vidas, que ditam os vossos atos, as vossas idéias, os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano, que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquinas! Homens é que sois! E, com amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar, os inumanos.

Companheiros, não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou de um grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos deste poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... Um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém, escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Em nome da democracia, unamo-nos.

Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo. Um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!


sábado, 4 de agosto de 2018

Fulano & Beltrano


Professora Etelvina e suas pílulas de sabedoria instantânea


Fulano de Tal é o nome genérico que se dá a alguém incerto e não sabido. Fulanos somos todos nós, ou cada um de nós. A palavra original é hebraica – fuluni – e significava “um, dentre muitos”. O primeiro dos fulanos aparece já no Velho Testamento: “Fulano, vem assentar-te aqui” (Livro de Ruth, 4:1). Os árabes modificaram a grafia para fulan, os espanhóis adotaram o Fulán no século XVI. E foi daí que veio o português Fulano. Mas cada país do mundo tem seus próprios fulanos, com nome e sobrenome. O nosso é o Zé Ninguém, ou o Zé Povinho, ou o Zé da Silva. Aqui estão seus ilustres colegas.

África do Sul: Piet Pompies

Alemanha: Hans Mustermann

América Latina: Juan Perez

Austrália: Fred Nerk

Áustria: Hans Maier

Bósnia: Marko Markovic

Brasil: Zé da Silva

Bulgária: Ivan Ivanov

Canadá: John Jones

Chile: Penco de Los Palotes

Croácia: Pero Peric

Estônia: Jaan Taam

Estados Unidos: John Doe
Finlândia: Matti Meikäläinen

França: Jean Dupont

Hungria: Pista Jóska

Inglaterra: Joe Bloggs

Islândia: Jón Jónsson

Índia: Aira Gaira

Itália: Pinco Pallino

Japão: Taro Yamada

Lituânia: Vardenis Pavardenis

Noruega: Ola Nordmann

Polônia: Jan Kowalski

Romênia: Ion Popescu

Suíça: Herr Schweizer

Com tanta gente fazendo tudo para ganhar alguns minutos de fama, é curioso – e até reconfortante – saber que as pessoas mais mencionadas no mundo na verdade não existem.

A professora Etelvina está semanalmente nas páginas da revista Época, para brindar os leitores com seu saber enciclopedicamente inútil.

(Época de 11 de setembro de 2006)


A árvore da serra

Augusto dos Anjos


− As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

− Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
− Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh´alma!...

− Disse − e ajoelhou-se, numa rogativa:
“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!

As Árvores e o Machado

Esopo


Um homem foi à floresta e pediu às árvores, para que estas lhe doassem um cabo para o seu machado novo. O conselho das árvores então concorda com o seu pedido, e lhe dá uma jovem árvore para este fim.

E logo que o homem coloca o novo cabo no machado, começa furiosamente a usá-lo, e em pouco tempo, já havia derrubado com seus potentes golpes, as maiores e mais nobres árvores daquela floresta.

Um velho Carvalho, observando a destruição à sua volta, comenta desolado com um Cedro seu vizinho:

- O primeiro passo significou a perdição de todas nós. Se tivéssemos respeitado os direitos daquela jovem árvore, também teríamos preservado os nossos, e poderíamos ficar de pé ainda por muitos anos.

Moral da História:

Quem menospreza seu semelhante,
não deve se surpreender se um dia lhe fizerem a mesma coisa.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Um caso de viajante

Rolando Boldrin


Ninguém conhece e conta mais piadas do que os viajantes, aqueles representantes de empresas que saem pelo interior do Brasil, fazendo suas visitas aos clientes e renovando seus pedidos. Como passam por muitos lugares e convivem com muita gente, é bem explicável o carroção de histórias engraçadas que eles passam a contar.

Essa gente maravilhosa deixa suas famílias para trabalhar viajando por este País grande e, pra empurrar a vida, tem de aprender histórias engraçadas para repassá-las adiante.

Conheci um viajante japonês que era um verdadeiro artista na arte de contar piadas e fazer imitações. Tem uma história dele que quero contar agora.

Um viajante, seguindo por uma estrada, tenta localizar uma pousada, pois já passava da meia-noite. Sem encontrar uma casa especializada, arrisca pedir pouso na casa de um caipira que já ia para o quinto sono.

Viajante [bate na janela da casinha]:

- Ô de casa? O senhor poderia deixar eu dormir esta noite em sua casa? Eu pago bem. Não consigo nenhuma pensão por esta estrada.

Caipira [de dentro da casa, meio sonolento]:

– O sinhô por acaso trouxe cobertô?

Viajante:

– Não, senhor. Não tenho cobertor comigo, não.

Caipira:

– O sinhô por acaso trouxe lençór?

Viajante:

– Claro que não, meu amigo. Estou viajando apenas a trabalho.

Caipira:

– O sinhô trouxe então trabicêro?

Viajante:

– Meu senhor, por favor, eu preciso de uma noite de sono e não trouxe nada disso que o senhor está falando.

Caipira [na bucha]:

– Qué dizê que de drumí o sinhô só trouxe os óio, né?


Antigos cinemas



Religiosamente, todo santo domingo, eu, minha irmã e meu primo íamos à matinê. Eu tinha, na época, de 10 para 11 anos.

Todo arrumado, calça curta, ao chegarmos ao cinema íamos sempre à bomboniére comprar alguns doces. Se um de nós não pudesse ir naquele dia, o porteiro e dono do cinema peguntava: “Cadê o outro?”, e nós o informávamos, com a maior inocência, os motivos da ausência.

Era um dia de gala.

O cinema era o único da região. Tela para Cinemascope (hoje chamaríamos de widescreen) e suntuoso para os padrões da época.

A tela era coberta por uma grossa cortina vermelha e o início do programa se dava com o som grave de um gongo, enquanto a cortina ia se abrindo e uma lâmpada colorida se acendia na base da tela, (como o farol dos carros antigos) mudando para outra lâmpada, de outra cor, à medida que o gongo tocava notas diferentes. E hoje, quando vejo os sinais de trânsito lembro delas, eram iguaizinhos (como se escreve isso?).

Então, o gongo parava, tudo ficava às escuras e a tela se iluminava com os noticiários da “Atlântida”, com aquela fonte enorme no centro. Depois, passava um desenho animado e, em seguida, os trailers dos próximos filmes a serem exibidos. Então, vinha um capítulo do seriado (geralmente de 12 a 15 episódios eram mostrados, um por semana) e, finalmente, o filme principal (algumas vezes eram dois).

Saíamos do cinema calados, tentando manter na memória tudo que havíamos visto. Não havia televisão e, em casa, um radinho era tudo que se tinha, para ouvir “O Anjo”, “Jerônimo, o Herói do Sertão” e, mais tarde, os humorísticos da Rádio Mayrink Veiga.

E, claro, todos ouviam, atentos, o Júlio Louzada, às seis horas, a “Hora da Ave-Maria”; esse posto foi tomado, mais tarde, pelo Alziro Zarur, da “Legião da Boa Vontade”.

Saudade que me machuca hoje, ao relembrar isso.

Clarival Vilaça

O Submarino



A base aérea estava engalanada para comemorar mais um aniversário. Foram convidados oficiais de uma base naval das proximidades com quem ombrearam em várias batalhas. Após os comes e bebes, os discursos, as homenagens e condecorações, os oficiais da Marinha foram convidados para participar de um rápido voo pelos arredores para conhecerem os novos aviões recebidos. Depois da decolagem, os pilotos iniciaram uma série de acrobacias: loopings, tuneaus, folhas secas, etc, às quais os marujos não estavam acostumados. Após muita judiação, os aviões aterraram e os convidados saíram tontos, trocando as pernas e maldizendo a hora em que aceitaram aquele convite.

Alguns meses depois, os oficiais da base aérea foram convidados a participar de uma comemoração na base naval. Os aviadores trocaram opiniões sobre a possibilidade de uma desforra, mas compareceram seguros e sem receios porque navio não faz piruetas.

Passaram um dia muito agradável em um ambiente de sincera confraternização, e para fazer um rápido passeio de submarino. Prontamente os aviadores se encaminharam para o cais e embarcaram confiantes.

O comandante deu ordem para desatracação, e com a máquina devagar adiante, foram demandando e cruzaram a barra ainda na superfície.

Enquanto navegavam, os aviadores recebiam informações técnicas do funcionamento do sonar, do ecobatímetro, do sistema de comunicação, números de torpedos e seu alcance, armamento antiaéreo, enquadramento para ataque, utilização dos motores a diesel para navegação na superfície e com geradores elétricos para navegação imersa. Foi descrita a estrutura monobloco do submarino que suportava a pressão hidrostática de até 100 metros de profundidade, etc. Já em alto mar, enquanto prosseguia mostrando os compartimentos, as seções e os equipamentos, foi determinada a profundidade de 50 metros para nivelamento.

O profundor foi marcando 10, 20, 30, 40, mas não parou em 50 metros e continuou afundando sem controle. Foi dado o alarme. O chefe de máquinas foi chamado, porém não atinou com a avaria: algo estava travando o leme de profundidade. Mandou cambar o óleo de peak tank para a popa.

- 60 m...

A bomba não funcionou, estava em curto. Os aviadores ficaram assustados. As máquinas foram paralisadas, estourou uma válvula hidráulica e a praça dos torpedos foi alagada. Estourou outra válvula no paiol e o corre-corre foi geral.

- 70 m...

A luz ficou bruxoleante e acabou apagando. Alguém gritou: “Liga o gerador de emergência!”. “Só temos bateria para mais 20 minutos! Desliga o ar!”

A atmosfera estava pesada.

- 80 m...

Um cheiro nauseabundo de óleo e fumaça tomava conta do ambiente. Os aviadores já estavam desesperados. Foi comunicada a situação à base, pedindo socorro.

- 85 m...

Entre a precária iluminação, o ar poluído, as válvulas estourando e alagando os compartimentos, o pavor e a sensação de impotência demonstrada pela tripulação, ocorreu o pior: o ronco do casco resistindo à pressão. Os aviadores prostrados no chão mordiam o boné e se ajoelhavam chorando. Estavam maldizendo a hora em que entraram naquela arapuca.

- 90 m...

 - Comandante! O paiol está alagado! - gritou um marujo.

- Tranca a porta estanque!

- Não pode, Comandante. Os bombeiros estão lá dentro!

- TRAAANCAAAAAAA!!!

O desespero era geral e ninguém sabia o que fazer. Os tripulantes, como baratas tontas, corriam para todos os lados desnorteados e os roncos provocados pela pressão sobre o casco eram cada vez mais tenebrosos: a situação estava totalmente fora do controle.

Os aviadores já imploravam, aos prantos, para que a pressão esmagasse o casco logo de uma vez para terminar aquela angustia.

De repente surgiu um alento: o chefe de máquinas conseguiu fazer uma manobra e o submarino parou de submergir e começou a voltar à superfície lentamente: 98, 97, 96... E com esse pequeno alívio, o navio foi se deslocando lentamente emergindo de volta à base.

Uma hora depois, cruzaram a barra já na superfície e, no cais, lançaram os cabos e atracaram. As escotilhas foram abertas e os aviadores se comprimiam para fugir daquela lata de sardinhas.

O cais estava deserto. O submarino estava seco e bem amarrado. Não havia nem desatracado...

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Este conto, que poderíamos chamar de “Sacanagem contra Sacanagem”, foi retirado do livro “Coisas do Arco do velho”, livro de memórias de Jack Manel, pseudônimo de João Carlos Moraes Aranha, Pqdt 155 do 1949/7.

Contacto para a compra do livro: jackmanel@yahoo.com.br

O autor do livro mora no Rio de Janeiro.

P.S-1. No livro há histórias sobre a Escola de Paraquedistas, Nacional Transportes Aéreos, Escola da Marinha Mercante, Marinha Mercante, Corretor de Imóveis, Historietas e Crônicas.

P.S-2. Segundo o autor do livro, o Pqdt Aranha, o conto também poderia se chamar “O simulador também faz essas gracinhas...”