segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Os Reis Magos

Paulo Mendes Campos


Existiam no Oriente três homens maduros, Gaspar, Melquior, Baltazar, que acreditavam em tudo; e porque viam em tudo uma linguagem estrangeira, eles se movimentavam entre os textos radiosos da esperança. E só acreditavam que estivéssemos no mundo, nem que o nosso tempo fosse o tempo, nem que a nossa vida fosse a vida, mas que o mundo, o tempo e a vida fossem portas trancadas, e a chave fosse a imaginação do homem. Pois é preciso imaginar para crer.

Gaspar, Melquior, Baltazar sabiam que o mundo significa outra coisa: e, se um grito de gralha se perde acima dos abetos, não é um grito de gralha, mas um augúrio para o sonho do homem: e se o próprio sol há de morrer, e o homem vive na escuridão, a verdadeira luz precisa ser adivinhada. Pois a luz que nos alumia também não é a verdadeira luz.

E enquanto todos ansiavam angustiadamente por um milagre, Gaspar, Melquior e Baltazar já estavam satisfeitos de todos os milagres que se realizam cada dia; o milagre do dia e da noite; o milagre da água, da terra e do fogo; o milagre de ter olhos e ver; o milagre de ter ouvidos e ouvir; o milagre de ter um corpo; então, já satisfeitos de viver em um mundo de milagres, eles viram a estrela que os aliviava das maravilhas de todos os dias, pois era uma estrela inventada, uma estrela que os outros homens não viam.

E os três reis magos seguiram a estrela ao longo de duras noites de inverno; e, chegando a Belém, a estrela parou acima do humilde lugar onde se encontravam um menino e sua mãe. E, abrindo os cofres de ouro, incenso e mirra, eles adoraram o símbolo que se fez carne, prostrados diante do nascimento, da glória, da crucificação e da morte. A vida deixou de ser um milagre. E Gaspar, Melquior e Baltazar puseram-se em marcha em busca de seus reinos contentes de terem visto uma criança que não era um milagre.


Texto extraído do livro “O Amor Acaba”,
Editora Civilização Brasileira - Rio de Janeiro, 1999, pág. 145.

O Melhor Presente

Letícia Thompson


Se tu andas preocupado porque não sabes o que vais oferecer como presente porque não tens condições, está desempregado, ou porque os amigos são tantos e tu não tens meios de oferecer alguma coisa a cada um…

Vou te dizer uma coisa:

Flores murcham, cartões se perdem, nem todos os presentes agradam, cartas amarelam com o tempo…

Pensa em oferecer algo que fique para sempre, que tu possuis e que muitas pessoas riquíssimas não mais possuem:

Um pouco do teu tempo!

Sejas, por uma hora, uma manhã, uma tarde ou mesmo um dia, o melhor amigo que alguém pode ter!

Dá-te inteiramente na amizade.

Quem sabe um bolo preparado com tuas próprias mãos com um café?

Momentos ficam para sempre!

Fazer alguém feliz é o maior presente que podemos oferecer.

E isso não compramos, não comercializamos, nós produzimos, com carinho nos olhos e amor no coração.

Faze com que daqui a dez anos alguém possa dizer: o melhor presente de Natal que eu recebi foram alguns momentos que tu me ofereceste naquele ano.

Somos nós, em nós, pessoas muito ricas em possibilidades.

Podemos dar de nós aos outros sem ter que adquirir.

Podemos fazer alguém sorrir.

Dá um bocadinho do teu tempo como presente.

Sem papel, sem surpresas, mas de todo teu coração.

Tu és o melhor presente que existe!

E que teu Natal seja lindo, assim como o de todos os que teu coração eleger para provar o carinho da tua amizade!

O matuto e o coroné

Texto  e interpretação de Jessier Quirino*


Biu das Quengas, você será candidato! Só que você vai ser o laranja!

− Eu Coroné? Pergunta o Matuto.

− Você mesmo! Irá defender os meus interesses na campanha. Pedir votos cruzados, perturbar eleição, você será o laranja! Eu participo da eleição, eu ganho e você perde.

O Matuto disse:

− Coroné! Eu vou dizer um negócio ao senhor: Eu que sou um cabra “experimentado”, vivido e viajado nas beiras da postulança “political”. Eu vou lhe dizer um retaio de “sabença” que é a pronúncia mais “apronunciada” sobre política que ”inxiste” nesse mundo “selvageado” pelos animais, “vegetariado” e barrido pelas praias do coqueiro e aguado pelas ondas do mar. Além de sintoma prefeituroso, embocadura “deputadal”, cancha de guvernador e senador e sustância de presidente, o caba pra ser político no Brasil precisa do mini, minimoro dos seguintes adjuntorios, dois ponto:

Primeiro: começar juntar dinhero, pra depois cumeça juntar gente. Engolir muita rimunheta de cabra falso, feladaputista e pidão. Desatar nó cego da convenção. Escutar caqueado dificultoso de partidário que só tem um voto e olhe lá. Entrar em embuança de campanha. Prometer como sem falta e faltar como sem dúvida. Ficar refém da língua do povo. Pegar roleta de boca com camobembe. Fazer conchavo com reservista da ditadura. Desgaviar o caminho mode os quixó da oposição. Receitar pra mais de monte. Desmurmurar mulher falsa e coiseira. Acompanhar enrolamento de papel de justiça. Levar fama de ter esfrabicado moça donzela. Levar fama de ser corno, baitola e ladrão. Aguentar fazimento de pouco de eleitor desbriado. Botar tamanca pro opositor bom da peia. Bater quinhentos quibomgo com xangoseiro. Gritar aleluia em igreja pegue-e-pague. Alegrar sessão espírita. Assistir meia missa e sair comungado. Batizar minino feio com o nome de Desmenielirson Jerry. Dar de cumer do bom e cumer porcaria. Almoçar em lata de goiabada. Despronunciar discurso mal feito de candidato tabacudo. Aplaudir discurso desvirgulado, sem rumo e sem ponto final. Aturar converseiro duplicado de mesmo depois de banzeiro. Aturar gente furona e desconhecida dentro de casa. Viver rindo e fumaçando pelo fundo feito ferro de engomar. Acabar sua Devintezinha na buraquera. Aturar babões civis e militares. Botar no braço menino novo do fundo cagado. Tomar cerveja quente de espuma murcha. Tomar uísque Drures, sem gelo numa xícara de louça cum tira-gosto de canjica. Beber naquelas mesonas de imbuia, numa saleta escura e abafada, encostado numa cristalera e cercado de cabos eleitorais com cada suvaqueira de torar. Entregar taça de campeão a time safado. Chorar em velório de desconhecido. Escrever bilhete com lápis de ponta quebrada. Professorar as iniciais de nome de campanha pra eleitor tapado. Escorregar em lama de esgoto. Gritar: Oh de casa! em casa oca. Se abrir pra eleitor disabrido. Pagar cana pra pinguço desocupado. Farejar poeira de bunda em palanque. Levar dedada, no “cá pra nós”, quando tá nos braços do povo. Escutar destampatório de foguetão no pé do ouvido. Magoar o dedo mindim em passeata. Dormir chiquerado da mulher e dos filho. Apertar mão de cotó! Ganhar abraço fedorento. Receitar caixão de defunto e ambulança. Enfiar a mão em saco de dentadura pra distribuir com a mundiça. Comprar votos em dia de eleição. Estelionatar votos em boca de urna. Entrar em embuança de apuração. Dar cobro de voto roubado. Apertar a mão de traidor oportunista. Levar choque de microfone desencapado. Cair do palanque e sair todo ralado, mas rindo pro povo, desconfiado que nem cachorro que caiu do caminhão de mudança. E depois de eleito começar essa camubemagem toda de novo. Deus me livre de eu sair candidato. Chega me faltou suspiração e eu vou parar por aqui, porque a conversa de político é feito coceira, só quer um pezinho e eu não me candidato não, pronto e acabou-se!

*****

* Paraibano de Campina Grande, o poeta, músico, arquiteto, declamador, Jessier Quirino diz que não se considera um estudioso, apenas um “prestador de atenção”. Arquiteto por profissão, poeta por vocação e matuto por convicção, como ele mesmo se define, vive subindo nos palcos de todo país, para apresentar sua poesia declamada e os causos matutos.

 



O Natal está chegando



Chegou o Natal!
Então esqueça os anjos, as árvores, a falsa neve dos enfeites.
Esqueça o burburinho do comércio.
Esqueça os brindes, as confraternizações, os presentes.
Olhe para dentro de você...
Não faça o certo porque um Deus vai castigá-lo.
Não sorria por conveniência.
Não acenda luzes por hábito.
Não coma apenas pela fome.
Não trabalhe só pelo dinheiro.
Não fique ao lado de alguém por solidão.
Não tenha medo de amar. 
Com medo se vive pela metade.
Não decore a Bíblia para se sentir salvo.
Não adie seus planos e atos, mude a estratégia.
Não aceite quem não aceita você.
Não ajude esperando gratidões e reconhecimentos.
Não esconda o que sente.
Não sofra antecipado.
Não reclame da vida. 
Só tem direita a ela quem está vivo.
Não creia só para ter verdades inexplicáveis.
Não tente ser perfeito, nem exija perfeição.
Não busque fatos externos para justificar sua falta de coragem.
Não se sinta o máximo na Terra, antes olhe as fotos dela no espaço.
Não critique alguém pelos seus conceitos pessoais.
Não procure culpados. 
Encontre soluções.
Não tente salvar a humanidade. 
Você é só mais um nadando junto.
Não use notícias da vida dos outros para preencher seu ócio social.
Esqueça a alma e fique pelado diante de um espelho.
Aprenda quando dizer sim. 
Aprenda quando dizer não.
Sua liberdade é interna. 
Ser livre é optar até pelo que não se quer,
Mas sempre saber por que o faz.
Então esqueça os símbolos e as muletas.
O tempo não existe. 
É mais uma regra das convenções humanas.
Você não precisa de uma data para fazer coisas boas ou ser feliz.
Simplesmente viva e deixe viver.
Eu desejo que você seja muito feliz...
Quando optar a ser feliz com qualquer sacrifício.

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sábado, 21 de dezembro de 2019

Bastos Tigre: Poemas Sérios

(1882-1957)


Bastos Tigre, 1944, com a revista “D. Quixote”

Mas o Bastos Tigre também ficou célebre por sua produção “séria”, lapidar tanto no acabamento do soneto como na filosofia quase proverbial encapsulada nos versos rigorosamente parnasianos, porém descomplicados e despojados do preciosismo de seus colegas de escola. Mesmo assim, o poeta não se furtou a defender o parnasianismo contra a ofensiva modernista, assinando este que é um autêntico manifesto antimoderno:

Envelhecer...

Entra pela velhice com cuidado,
Pé ante pé, sem provocar rumores
Que despertem lembranças do passado,
Sonhos de glórias, ilusões de amores.

Do que tiveres no pomar plantado,
Apanha os frutos e recolhe as flores;
Mas lavra, ainda, e planta o teu eirado,
Que outros virão colher quando te fores.

Não te seja a velhice enfermidade.
Alimenta no espírito a saúde,
Luta contra as tibiezas da vontade.

Que a neve caia, o teu ardor não mude.
Mantém-te jovem, pouco importa a idade;
Tem cada idade a sua juventude!...

Envelhecer... (II)

Boa noite, velhice, vens tão cedo!
Não esperava, agora, a tua vinda.
Eu tão despreocupado estava, ainda,
Levando a vida como num brinquedo...

Tens tão meigo sorriso e um ar tão ledo;
Nos teus cabelos como a prata é linda!
Ao meu teto, velhice, sê bem-vinda!
Fica à vontade. Não me fazes medo.

E ela assim me falou, em tom amigo:
- Estranha me supões, mas, em verdade,
Há muito tempo que, ao teu lado, eu sigo.

Mas, da vida na estúrdia alacridade,
Não me viste viver, seguir contigo...
Eu sou, amigo, a tua mocidade.


Canção da Saudade

Saudade, palavra doce,
Que traduz tanto amargor!
Saudade é como se fosse
Espinho cheirando a flor.

Saudade, ventura ausente,
Um bem que longe se vê,
Uma dor que o peito sente
Sem saber como e porquê.

Um desejo de estar perto,
De quem está longe de nós;
Um ai que não sei ao certo
Se é um suspiro ou uma voz.

Um sorriso de tristeza,
Um soluço de alegria,
O suplício da incerteza
Que uma esperança alivia.

Nessas três sílabas há de
Caber toda uma canção:
Bendita a dor da saudade
Que faz bem ao coração.

Um longe olhar que se lança
Numa carta ou numa flor,
Saudade – irmã da esperança,
Saudade – filha do amor.

Uma palavra tão breve,
Mas tão longa de sentir
E há tanta gente que a escreve
Sem, a saber, traduzir.

“Gosto amargo de infelizes”
Foi como a chamou Garrett;
Coração, calado, dizes
Num suspiro o que ela é.

A palavra é bem pequena,
Mas diz tanto de uma vez;
Por ela valeu a pena
Inventar-se o português.

Saudade – um suspiro, uma ânsia,
Uma vontade de ver
A quem nos vê à distância
Com os olhos do bem querer.

A saudade é calculada,
Por algarismos também:
“Distância” multiplicada
Pelo fator “Querer bem”.

A alma gela-se de tédio
Enchem-se os olhos de ardor...
Saudade – dor que é remédio,
Remédio que aumenta a dor.


Primeiro jogo oficial de futebol no Brasil



3 de maio de 1902 - Primeiro jogo oficial de futebol no Brasil: 
Mackenzie 2 x 1 Germânia.

Mantenha os olhos semicerrados e mentalmente retorne ao dia 3 de maio de 1902, quando o futebol tinha apenas oito anos de prática no Brasil, o presidente da República recém-eleito era Rodrigues Alves e o clássico Os Sertões, de Euclides da Cunha, ainda levaria sete meses para ser publicado. Imagine o Brasil em plena efervescência das imigrações e da epidemia de febre amarela, com Oswaldo Cruz assumindo naquele mesmo ano a direção geral do Instituto Manguinhos (hoje, Fiocruz-RJ). Lembre, finalmente, um tempo em que o bondinho começaria a entrar no período de expansão e de composição da paisagem urbana, bem antes da Primeira Guerra Mundial,quando o panorama de formação da Tríplice Aliança composta por Alemanha, Itália e Áustria apenas causava um certo desconforto ao mundo, enquanto, no final do mesmo ano, Cuba iria se tornar república.

Pois bem, no cenário de 3 de maio de 1902, a Associação Athlética Mackenzie College entrou em campo, pela primeira vez, para enfrentar, em jogo oficial, o Sport Club Germânia (hoje Clube Pinheiros). Antes, em 18 de agosto de 1898, tinha sido fundada a Associação Athlética Mackenzie College de São Paulo e os futebolistas que dela faziam parte - camisas listradas, de mangas longas, calções compridos cobrindo até parte das canelas - posaram para a foto histórica no pátio do Mackenzie onde havia apenas o Prédio 1.

Do outro lado estava o adversário, o S. C. Germânia, hoje atual Esporte Clube Pinheiros, fundado em 07 de setembro de 1899, que jogava com seu uniforme caracterizado pelas camisas com o lado esquerdo do peitoral em azul e o outro em preto, calções pretos e meias pretas.

Na época, os jogadores não tinham os números estampados na camisa, não havia penalidade e a meia-lua da grande área só viria anos mais tarde.

Nesse primeiro jogo do campeonato, a A. A. Mackenzie venceria o S. C. Germânia por 2 x 1 e o match seria o marco da história do futebol paulista e brasileiro. Além de jogo inaugural da Liga de Foot-Ball Paulista a disputa fazia parte do calendário da primeira competição do gênero organizada no Brasil.

Em 1902, os árbitros iam a campo trajando paletó, gravata, bermudas (até a altura das canelas) e meias. Além do desconforto dos uniformes usados pelos jogadores e árbitro da partida, o que mais chamava a atenção era o calçado usado para a prática esportiva. Os sapatos, pesados e pouco flexíveis, se assemelham aos atuais calçados de segurança, utilizados em fábricas. Tempos de bom futebol e de muitas dificuldades...

O primeiro gol do Brasil

O mackenzista Eppingaus marca goal histórico

O jornal A Província de São Paulo – mais tarde O Estado de São Paulo – na seção “Sport” publicou, no dia 4 de maio de 1902, a notícia que transcrevemos a seguir:

“Foot-ball. Match. Campeonato de 1902. Às três horas da tarde de ontem, no Parque da Antarctica Paulista, realizou-se, com grande número de famílias, o primeiro match organizado pela Liga Paulista de Foot-Ball entre S.C.Germânia e A.A.do Mackenzie College. No primeiro half-time, o sr. Mario Eppingaus fez um goal para o Mackenzie. Verdade é que o team do Mackenzie tem muito mais velocidade que o seu concorrente e, devido a isto, de começo a fim, a bola manteve-se mais favorável ao Mackenzie. Poucos minutos antes do half-time, o sr. Kirschner, centerforward do Germânia conseguiu fazer um scape dahi marcar o primeiro goal do S.C.Germânia. Infelizmente, o Club Germânia perdeu, no primeiro half-time, um dos seus melhores jogadores, o sr. Muss, que se feriu bastante numa queda; porém, este jogador foi substituído por outro.”

Mackenzie 2 x 1 Germânia
Local: Parque da Antarctica Paulista
Árbitro: Antonio Casimiro da Costa

Mackenzie:

Rehder, Belfort Duarte e Warner; Sampaio, Alício de Carvalho e Lourenço; Yelrd, Eppingaus, Pedro Bicudo, Armando Paixão e Lopes.

Germânia:

Brasche, Riether e Nobiling; Kawwal, Baumann e Muss; Linz, Russo, Kirschner, Nicolau Gordo e Hinghehardt.

Marcadores:

Eppingaus (M), Kirschner (G) e Alício de Carvalho (M).

  
Fonte: Revista do Mackenzie - “Cem Anos de Futebol
  - O Jogo da Saudade”. Pesquisas de Sidney Barbosa

O que faz um escritor

Fernando Sabino



12/10/1923 − 11/10/2004

“O que faz um escritor”, do livro “O gato sou eu”, ele conta a história de uma entrevista que concedeu a uma estagiária de um jornal do Rio.

- Me mandaram fazer com você uma entrevista sobre o marquês – e ela foi ligando logo o gravador.
- Que marquês? – estranhei.
- Esse que vocês editaram.
- Não editamos nenhum marquês que eu saiba.
- O autor desse Best-seller de vocês, Cem anos de perdão.
- De solidão.
- Ou isso: de solidão. Ele não é marquês?
- Não. Ele não é marquês. O nome dele é Gabriel García MÁRQUEZ. Com z no fim. Se duvidar, é capaz de ter até acento no A.
- Então é isso. Foi confusão minha – e ela não se deu por achada, muito menos por perdida, sempre empunhando um microfone junto ao meu nariz:
- Por que é que o livro dele está fazendo tanto sucesso?
- Porque é um livro muito bom.
- Foi por isso que vocês publicaram?

Respirei fundo:

- Por isso o que, minha filha? 

Ela me olhou como se estivesse entrevistando uma toupeira:

- O que estou querendo saber é por que vocês publicaram o livro dele.
- Porque nos foi recomendado como sendo um livro muito bom.
- Recomendado por quem?
- Pelo Neruda.
- Quem?
- Pablo Neruda. Quando ele esteve no Rio pela última vez, falou com o Rubem (Braga) que se tratava do romance mais importante em língua espanhola desde Dom Quixote.
- Quem é esse?
- Esse quem? O Rubem?
- Não, o outro.
- Dom Quixote?
- Não. Esse cara que você falou antes. O que recomendou o livro.

Resolvi deixar cair:

- Você vai me desculpar, minha filha, mas não dá. A entrevista fica para outra vez, quem sabe. É muita honra para um pobre marquês, mas infelizmente... Ou Márquez se você não se incomoda. No mais, muito obrigado.
- Eu é que agradeço!

Ela desligou o gravador, com ar satisfeito, despediu-se e foi-se embora.