sábado, 4 de abril de 2020

13 curiosidades bizarras sobre a literatura brasileira



De casamento em cemitério a defesa da escravidão, conheça histórias insólitas de grandes escritores nacionais.

Dia 29 de outubro, é celebrado no Brasil o Dia Nacional do Livro. A data remete ao dia de fundação da Biblioteca Nacional do Brasil − localizada no Rio de Janeiro − quando a Real Biblioteca Portuguesa foi transferida para a colônia em 1810.

Berço de grandes escritores, a literatura brasileira é marcada por obras inesquecíveis e personagens singulares, que fazem com que nossa cultura seja rica. Entretanto, sob o pano de fundo desses grandes livros, também há muitas curiosidades que permeiam a vida dos grandes autores.

Com a ajuda do livro História Bizarra da Literatura Brasileira, de Marcel Verrumo, separamos 13 história bizarras − e engraçadas − que todo fã de literatura vai adorar saber.

01. O pedido de Carta de Pero Vaz de Caminha na carta de descobrimento do Brasil.

Pero Vaz de Caminha, popularmente chamado de Pedro Vaz de Caminha, se destacou como escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral. O fidalgo português foi o grande responsável por escrever a carta de descobrimento do Brasil. No entanto, além do documento que se tornou histórico, Pero aproveitou a oportunidade de escrever para o rei de Portugal e fez um pedido um tanto peculiar: ele suplicou ao monarca que libertasse do exílio seu genro, Jorge de Osório, que foi sentenciado por ter roubado uma Igreja Católica e agredido um padre.

02. Álvares de Azevedo previu o ano de sua morte.

Manoel Antônio Álvares de Azevedo estudava direito na em São Paulo, no Largo de São Francisco. Apesar de jovem, ele logo ganhou fama por suas brilhantes e precoces produções literárias. Porém, seu futuro brilhante terminou com seu trágico e premonitório fim.

Tudo começou quando Álvares de Azevedo estava no terceiro ano da faculdade e viu um de seus amigos do quinto ano se suicidar. No ano seguinte, outro quintanista, que era seu amigo, também morreu de maneira trágica. As duas mortes fizeram com que ele pensasse haver uma maldição com os estudantes de quinto ano. Se tal maldição existia, ninguém sabe afirmar, o único fato que sabemos é que o autor faleceu no ano seguinte de sua profecia, quando justamente estava no quinto ano da faculdade.

03. Apenas no século 19 uma mulher publicou um livro no Brasil.

Apesar de hoje em dia as mulheres terem grande relevância na literatura nacional, com nomes consagrados como Cecília Meirelles, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, entre outras, nem sempre foi assim. Isso porque a primeira mulher a publicar um livro no Brasil foi Nísia Floresta Brasileira Augusto.

A obra, que se chama Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens, foi publicada somente no século 19 e, como o próprio título sugere, falava sobre o machismo na sociedade, o que fez com que Nísia fosse considerada a primeira feminista brasileira.

04. Machado de Assis foi vendedor de bala de coco.

Nascido no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, Joaquim Maria Machado de Assis veio de uma família muito pobre e desde cedo teve que lidar como a morte precoce de sua mãe. Para ajudar sua família, ele começou sua carreira vendendo balas de coco que eram feitas por sua madrasta.

Machado de Assis só começou a se dedicar à literatura anos depois, quando começou a trabalhar como aprendiz de tipógrafo e revisor de imprensa. Com incentivo de Manuel Antônio de Almeida, o escritor começou a desenvolver um estilo próprio de escrita, que culminaria em grandes clássicos como Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro.

05. A origem do verbo brochar.

Os primeiros livros eróticos brasileiros, chamados de Romances para Homens, eram impressos em formato brochura, que o miolo do livro é coberto por uma capa mole. Por esse motivo, ao que tudo indica, um sujeito olhou para a encadernação − e provavelmente para o próprio órgão − e associou as duas coisas. Daí surgiu a expressão “pênis brochado”, “homem brocha” e o verbo “brochar”.

06. Olavo Bilac sofreu o primeiro acidente de carro.

No século 19, o Rio de Janeiro passava por diversas mudanças urbanas, principalmente com a chegada dos carros ao Brasil. Um dos primeiros proprietários de automóveis foi o jornalista José do Patrocínio.

Patrocínio, que era muito amigo de Olavo Bilac, convidou o escritor para dar uma voltinha no seu novo possante. O problema de toda essa situação é que seria Bilac o responsável por conduzir o veículo.

Porém, Olavo não tinha a mesma habilidade de dirigir quanto tinha de escrever — talvez pelo fato de que não havia carros no Brasil − e, em uma curva de 'alta' velocidade, bateu em uma árvore a incríveis 4km/h.

Apesar do susto, os dois saíram bem, o mesmo não pode ser dito do carro, que teve perda total.

07. Oswald de Andrade se casou no cemitério.

Apesar de ser casado com a pintora Tarsila do Amaral, Oswald se envolveu em outro relacionamento amoroso com a escritora Patrícia Galvão, a Pagu, que acabou engravidando. Como os dois queriam manter as aparências e disfarçar as evidencias, Pagu acabou se casando com outro homem.

Mas na lua de mel a jovem abandonou seu cônjuge e fugiu com o modernista. Os dois protagonizaram um dos casamentos mais bizarros de toda a história literária. No dia 5 de janeiro de 1930, os pombinhos trocaram alianças diante do túmulo da família Andrade para registrar a união perante os antepassados do noivo.

08. Graciliano Ramos multou o próprio pai.

O autor de Vidas Secas viveu na cidade alagoana de Palmeira dos Índios. Lá, ele foi diretor de uma escola da cidade e ganhou muita popularidade na região. Por consequência, foi convidado para se candidatar à prefeitura da cidade.

Pode até parecer marmelada, mas não é que Graciliano foi eleito?! Empossado, ele criou um código de postura moral com 82 artigos, dentre eles estava a proibição de animais na rua. Lutando contra o clientelismo e o nepotismo, não poupou ninguém, muito menos seu pai, que foi multado por criar gado em um terreno baldio.

09. Guimarães Rosa salvou a vida de centenas de judeus.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Guimarães Rosa era embaixador do Brasil na Alemanha. Na mesma ocasião, Aracy Moebius trabalha como secretária no país. Foi lá que os dois se conheceram em 1930.

Anos depois, o país seria liderado pelo revanchismo e puritanismo nazista e os dois foram incapazes de aceitar tudo isso sem fazerem algo para ajudar os judeus. Então, eles decidiram bolar um plano para levar os judeus que vivam na Europa para o Brasil − ato considerado ilegal pelo presidente Getúlio Vargas.

Mesmo assim, eles não hesitaram. Enquanto o escritor falsificava os passaportes, sua amada conseguia os carimbos e assinaturas falsas para liberaram a entrada dos fugitivos. Aracy chegou a salvar quase cem pessoas, e como forma de gratidão, ela teve seu nome gravado no Museu do Holocausto, em Israel.

10. Gonçalves Dias foi a única vitima de naufrágio.

O escritor estava muito doente quando decidiu sair do Brasil e buscar tratamento na Europa. Ao chegar na França, uma notícia equivocada chegou ao Brasil dando conta de que Gonçalves Dias teria sido encontrado morto na embarcação. Fãs do poeta romântico ficaram muito tristes e até mesmo foi declarado luto oficial no Brasil.

Mas a informação verdadeira chegou depois de alguns dias, ele não estava morto. Apesar de passar dois anos por lá, ele não achou uma cura para sua doença e decidiu retornar ao Brasil. Gonçalves dias decidiu ficar a maior parte do tempo isolado no navio, já que não se sentia muito bem.

Porém, ele chegou a ficar tão recluso que muitos esqueceram que ele estava na embarcação. Sua ausência não foi notada nem mesmo quando o navio colidiu em um banco de areia na costa do Maranhão. A população fugiu e todos saíram ilesos, menos o escritor que esquecido acabou morrendo afogado.

11. José de Alencar foi tenaz defensor da escravidão.

Notável por ser o fundador do romance de temática nacional e por se tornar o patrono da cadeira fundada por Machado de Assis na Academia Brasileira de Letras. Mas os ideais de José de Alencar não agradariam nenhum pouco Machado, ele defendia que o sistema escravocrata ajudava no progresso humano e que um possível fim da escravidão resultaria em uma enorme crise econômica.

Documentos históricos relatam cartas do autor enviadas ao Imperador Dom Pedro II. Inclusive, algumas delas tinham um tom mais arrogante, já que Alencar acreditava saber mais sobre política do que o próprio rei.

12. Carlos Drummond de Andrade achava que a homossexualidade era um desvio.

Considerado por muitos como o mais influente poeta brasileiro do Século 20, Carlos Drummond de Andrade tinha uma opinião um tanto quanto polêmica: ele declarou mais de uma vez que acreditava que a homossexualidade era um desvio de personalidade. Ele pensava que ser gay era coisa de garotos que se sentiam atraídos pela vida noturna e boêmia.

13. Rachel de Queiroz apoiou a Ditadura Militar.

Rachel de Queiroz ficou nacionalmente conhecida aos dezenove anos ao publicar O Quinze, em 1927. Nessa mesma época a autora se aproximou do Partido Comunista Brasileiro (PCB) no começo da década de 1930.

Mas uma critica do partido ao seu livro de sucesso fez ela se desiludir com o partido e mudar totalmente de lado. No início da ditadura ela chegou a receber em sua casa alguns políticos e intelectuais que planejaram o golpe. Rachel até se voluntariou para pintar alguns folhetos e, posteriormente, se filiou à Aliança Renovadora Nacional (Arena).

(Do blog AH Aventura na História)

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Os 18 da Bossa Nova

Saiba quem foram alguns dos personagens
 que mudaram a história da música popular brasileira.


Bossa Nova sua história sua gente
 capa de um disco histórico

01. João Gilberto (1931-2019) Cantor, violonista e compositor, formou com Tom Jobim e Vinicius de Moraes o trio que deu personalidade à bossa nova. Baiano de Juazeiro, fã de Orlando Silva, afinadíssimo, gravou pela primeira vez uma nova batida de samba, marca registrada da bossa nova, nas faixas Chega de Saudade e Outra Vez do disco Canção do Amor Demais (1958), de Elizete Cardoso. Entre os anos 60 e 70, fez carreira nos Estados Unidos. Morreu no Rio de Janeiro.

02. Antônio Carlos Jobim (1927-1994) Compositor, cantor, instrumentista e arranjador, nascido no Rio, é um dos gênios da música brasileira de todas as épocas. É autor da trilha sonora básica da bossa nova com Vinicius de Moraes (Chega de Saudade, Garota de Ipanema, Amor em Paz, O Nosso Amor) e Newton Mendonça (Desafinado, Samba de uma nota só).

03. Vinicius de Moraes (1913-1980) Poeta de formação erudita, diplomata, cronista e crítico de cinema, Vinicius, com a bossa nova, uniu seu caminho ao da música popular. Suas letras, associadas às melodias de Tom Jobim, contribuíram para dar ao movimento o otimismo e a delicadeza de seus primeiros tempos. Fez parcerias também com Carlos Lyra, Baden Powell, Chico Buarque, Francis Hime e Toquinho.

04. Carlos Lyra (1936-) Cantor, compositor e violonista, teve suas primeiras canções gravadas pela cantora Sylvinha Telles. Alguns de seus maiores êxitos nasceram da parceria com Vinicius de Moraes (Coisa mais Linda, Minha Namorada, Marcha da Quarta-feira de Cinzas). Propôs a criação de um novo movimento, o sambalanço, em resposta à influência da música americana na bossa nova.

05. Johnny Alf (1929-2010) Pianista de casas noturna de Copacabana, considerado um dos precursores da bossa nova por sua técnica de instrumentista e cantor. Compôs O que é Amar (1952) e Rapaz de Bem (1953). Sua Eu e a Brisa, apresentada pela primeira vez no Festival da Música Popular da TV Record, em 1967, tornou-se um clássico nas vozes de gerações de cantores.

06. Dick Farney (1921-1987) Cantor influenciado pelo jazz e pela música popular americana, foi um dos criadores do samba-canção romântico e um dos antecessores da bossa nova. Inspirou o Sinatra-Farney Fan Club. Fez gravação antológicas de canções como Copacabana, de João de Barro e Alberto Ribeiro, e Marina, de Dorival Caymmi.

07. Lúcio Alves (1927-1993) Rival de Dick Farney no coração dos fãs do rádio nos anos 50. Foi integrante do conjunto Namorados da Lua e um dos personagens da pré-história da bossa nova. Uniu-se a Dick Farrney em Tereza da Praia, de Tom Jobim e Billy Blanco, numa interpretação que ironiza a antiga disputa entre os dois.

08. Astrud Gilberto (1940-) Cantora, primeira mulher de João Gilberto. Participou do histórico LP Getz/Gilberto, numa interpretação magistral da versão em inglês de Garota de Ipanema. Consagrou-se como intérprete nos Estados Unidos, onde se tornou o nome mais conhecido da música brasileira, ao lado de Sérgio Mendes. Nos anos 80, tornou-se a musa da new bossa inglesa (Style Council, Matt Bianco, Everything but the Girl).

09. Baden Powell (1937-2000) Um dos mais exímios violonistas da história da MPB, destacou-se em sua parceria com Vinicius de Moraes, especialmente pela série conhecida como “afro-sambas” (Berimbau, Canto de Ossanha), mas também por outras canções que se tornaram clássicos da bossa nova (O Astronauta, Samba da Bênção, Samba em Prelúdio).

10. Marcos Valle (1943-) Ao lado do irmão, Paulo Sérgio Valle, ganhou projeção como compositor e intérprete da chamada segunda geração da bossa nova. Compôs Samba de Verão e Preciso Aprender a Ser Só, entre outras.

11. Maysa (1936-1977) Cantora, rompeu com a família para fazer carreira na noite e consagrou-se como uma das grandes intérpretes de sambas-canções dos anos 50. Separada do primeiro marido, protagonizou um tumultuado casamento como Ronaldo Bôscoli, que rendeu histórias para o folclore do movimento. Fez gravações definitivas de O Barquinho e outras composições da primeira fase da bossa nova.

12. Nara Leão (1942-1989) Somou-se ainda adolescente à maré da bossanovista. O apartamento da família Leão foi sede de algumas das famosas reuniões musicais dos primeiros tempos do movimento. Cantora e violonista de sensibilidade, comandou a revalorização de compositores da velha guarda do samba, como Nelson Cavaquinho, Zé Kéti e Cartola, ou da música regional, como João do Vale. Protagonizou o histórico show Opinião, depois substituída por Maria Bethânia. Nos anos 80, gravou o disco Abraços e Beijinhos e Carinhos sem Ter Fim, com um repertório de bossa nova no qual se destacavam Telefone, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, e Você e Eu, de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes.

13. João Donato (1934-) Pianista, compositor e arranjador, já disse que não fez parte da bossa nova. Tornou-se, porém, um intérprete refinado do mood do movimento, em canções como A Rã (com Caetano Veloso), A Paz e Lugar Comum (com Gilberto Gil). Viveu 13 anos nos Estados Unidos.

14. Newton Mendonça (1927-1960) Amigo de infância de Tom Jobim, pianista de boates na zona sul carioca, compôs com seu mais famoso parceiro temas como Desafinado − em que ironiza os críticos do uso de acordes dissonantes e emprega a expressão “bossa nova” pela primeira vez numa letra −, Samba de uma Nota Só, Discussão, Caminhos Cruzados e Meditação. A morte prematura não foi suficiente para apagar sua presença da história do movimento.

15. Ronaldo Bôscoli (1929-1994) Jornalista e letrista, oriundo de família tradicional do Rio, participou de alguns dos momentos mais importantes da bossa nova. Neto da compositora Chiquinha Gonzaga, era um profundo conhecedor da música americana − “Gosto mais de Frank Sinatra do que de mulher”, costumava afirmar. Com amigo Roberto Menescal, compôs sucessos como O Barquinho, Telefone, Você e Tetê. Foi autor da reportagem da revista Fatos e Fotos que revelou a identidade da musa de Garota de Ipanema, de Tom e Vinicius − a adolescente Heloísa Eneida Pinto, futura Helô Pinheiro.

16. Roberto Menescal (1937-) Compositor, arranjador e produtor. Na adolescência, dividia seu tempo entre a música e a pesca submarina, paixões que nunca abandonou. Foi um dos responsáveis pela propagação da batida inventada por João Gilberto. Convidado a trabalhar no Exterior, preferiu permanecer no Rio e tornar-se uma espécie de sacerdote da bossa nova junto às novas gerações de músicos e arranjadores.

17. Sylvinha Telles (1934-1966) Cantora, integrante da primeira geração da bossa nova, à qual se incorporou ainda adolescente, com os amigos Carlos Lyra, Luiz Eça, Maurício Einhorn e Durval Ferreira, e primeira estrela do movimento. Foi pioneira na interpretação de músicas de Tom Jobim e Newton Mendonça no programa Música e Romance, da TV Rio, que apresentava com o marido, o músico Candinho.

18. José Ramos Tinhorão (1928-) Crítico e historiador da MPB, ficou conhecido como o mais ferrenho adversário da bossa nova, que acusa de ser uma imitação do jazz. Como redator da revista O Cruzeiro, a mais prestigiada da década de 50, deu forma final às reportagens de um correspondente cubano tidas como francamente desfavoráveis ao show da bossa nova no Carnegie Hall, em Nova York. Atraiu a ira dos criadores da bossa nova, de seus seguidores e da maioria da crítica da época. Reconhece a originalidade da batida de violão de João Gilberto.

(Cultura: Bossa 40 anos* – jornal Zero Hora, abril de 1998)

* Ano da reportagem, pois a Bossa Nova já fez 50 anos, em 2008, e 60 anos, em 2018.


Crônica do Tempo

Rolando Boldrin


Pra mim, o mundo é um relógio, e o dinheiro é a mola que controla os relógios desta vida.

Se o senhor tivé tempo pra ouvir a minha história, eu começo lhe contando que toda a minha vida foi um grande desencontro entre o tempo do relógio e as oportunidades.

Deus Nosso Senhor, que perdoe a minha sinceridade, como um segredo, mas inté hoje não entendi pru que é que pra tudo na minha vida eu sempre cheguei muito tarde... ou muito cedo.

Pra começa, nasci fora do tempo, sou de sete meses e se foi cedo demais pra dar dores e tristezas à minha mãe com essa minha pressa de nasce, foi tarde demais pra dar alegria ao meu pai, coitado, ele morreu antes de me conhece e aí começa o meu rosário com o tempo do relógio.

Já na idade de ir pra escola foi um tormento. Minha mãe, coitada, corria pra lá e pra cá comigo de mão dada e sempre recebendo o mesmo desengano, coitada: não pode, dona, só pro ano, é cedo ainda, ou, então, tarde demais, dona, as matriculas já tão todas fechadas.

Com o tempo, eu fui crescendo. Já mocinho, eu procurava emprego: porta de oficina, serviço diferente, coisa de pequena paga e aquelas palavras do tempo me seguindo, sempre acontecendo comigo como um relógio do destino.

− Olha, moço não tem vaga, se você tivesse sido esperto, agora o quadro de funcionários já tá completo

Eu me lembro que inté pro amor eu me atrasei, quando pra aquela cabocla que eu gostava me declarei. Ela falou pra mim:

− Você chegou tarde demais, já dei meu coração pra outro rapaz.

Mesmo assim, um dia me casei e desse casamento nasceu um menino bonito que só vendo. Foi a única coisa que me chegou na hora certa, porque ele foi a porta aberta pro meu riso, riso que eu já nem sabia mais como era o jeito.

Dei a ele o nome de Vitório. Ia ser meu grande vingador pra me vingá do tempo, pra me vingá das horas dos relógio e inté dos segundo e de tudo me vingá dos donos desse relógio que é o mundo.

Vitório, o meu grande vingador. Vitório foi crescendo como pode, logo já tinha cinco ano e a vida, o tempo. O tempo como um inimigo traidor sempre me espiando. Um dia, Vitório adoentou-se, como acontece com quarqué criança, e eu trabalhava num faz de tudo ao mesmo tempo, pra nenhum remédio lhe fartá, eu tinha esperança.

Num dia só fui camelô, bilheteiro, entregadô de encomenda, jardineiro, tudo e chegava em casa moído e fedorento de suor pra lhe abraçá e lhe beija e o coitadinho, encuído, magrinho, dava dó, tava sofrendo.

Então, o doutô truxe pra vê ele, é home bão atencioso, que logo dispois de examiná, falô assim:

− Corre, vá depressa comprar essa receita, seu filho não tá bão, quem sabe se com isso ele se ajeita. − e chacoalhando a cabeça foi-se embora, quem sabe aconseiando uma promessa. Como eu não tinha dinheiro pro remédio, dei de garra num véio despertadô lá de casa, a única coisa de valor, pensando que podia vendê ele num brechó e saí correndo, bem correndo, mas inté hoje não entendi pru que ouvi uns grito na rua:

− Pega, ladrão, pega, ladrão!

E gente amuntuando pro meu lado, quem sabe imaginando que eu era argum malfeitor. E foi soco, bordoada, pontapé e quando eu pude percebê, já tava de pé na frente de um delegado.

− Doutô, meu filho tá doente, tá morrendo, por favô, eu tenho aqui uma receita ó − supliquei chorando.

O tár delegado, então, acreditando, falô pro guarda:

− Pega o carro da rádio patrulha, leva o moço ! − e me entregando um toco de dinheiro do seu borso, arrematô:

− Corre, corre, compra o tal remédio pro seu filho na farmácia.

Eu fui embora correndo, correndo, comprei o remédio e vortei feito um raio, feito um raio lá pra casa, mas, como sempre na vida, eu corri contra o tempo, esse covarde, quando abracei meu filho é que eu vi, mais uma vez, que eu tinha chegado tarde!

*****

P.S. A gravação desse monólogo está na internet na voz de Rolando Boldrin

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Fique bem.



Fique em casa.
Pense no coletivo.
Mesmo com escolas e universidades fechadas,
nunca aprendemos tanto.

Das nossas janelas e sacadas,
estamos vendo a vida se reinventar.

Estamos aprendendo a pensar em conjunto.
Em tempos de crise,
é preciso abandonar  velhas prioridades
e substituí-las por solidariedade,
criatividade e empreendedorismo.

Para quem precisa estar na rua,
no trabalho e, especialmente,
nos hospitais, nossa gratidão.
Aos que podem ficar em casa,
é preciso reforçar:
manter a distância agora é um exercício de empatia.
Manter a vida em movimento,
um exercício de cidadania.

Siga com seus exercícios,
suas compras,
seus estudos,
suas atividades,
seus cuidados
e seus sonhos em dia.

Nada será como antes.
Mas pode ser melhor.
O que está em jogo é a nossa vida.
Nossa vida juntos.
Cada um fazendo a sua parte.

Juntos, ficaremos bem.
Você só vive uma vez.

Texto do Grupo RBS*

*Esse é um texto de advertência da RBS que, pela qualidade e concisão da sua informação para um momento dramático que estamos vivendo, merece constar neste almanaque.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Lição de vida



Um dia uma professora escreveu assim no quadro:

9 X 1  = 07
9 X 2  = 18
9 X 3  = 27
9 X 4  = 36
9 X 5  = 45
9 X 6  = 54
9 X 7  = 63
9 X 8  = 72
9 X 9  = 81
9 X10 = 90

Na sala de aula não faltou piadas, porque ela tinha errado o 9 X 1 = 7, sendo que a resposta certa seria 9... Todo mundo riu dela. Ela, então, esperou todo mundo se calar, e somente depois disse:

− É assim que tu és visto no mundo. Errei de propósito para mostrar a vocês como o mundo se comporta diante de algum erro. Ninguém te elogiou por ter acertado nove vezes. Ninguém te viu acertando e te deu os parabéns. Mas todo mundo te ridicularizou, blasfemou, te humilhou e zombou de ti, porque tu erraste apenas uma vez.

Assim é a vida:

Devemos aprender a valorizar as pessoas pelos acertos. Há pessoas que acertam muito mais do que erram e acabam sendo julgadas por apenas um erro, e não são valorizadas pelos outros nove acertos. Isso serve para todos nós. Mais elogios e menos críticas. Mais amor e carinho e menos ódio e crueldade.


Como minha avó me ajudou a superar a inveja.



A inveja é um sentimento que nunca vai trazer benefícios a ninguém. Tente pensar em você e em ser melhor a cada dia. Viver comparando o que não somos e outras pessoas são, é um belo atalho para a tristeza e insatisfação.

*****

− Argh! Odeio o Pedrinho! Ele é queridinho dos professores. Todas as meninas da classe são gamadas nele. Até os meus melhores amigos gostam mais dele do que de mim.

− Você é um bom aluno?

− Humm, mais ou menos.

− Você penteou os cabelos, tomou banho antes de ir pra escola hoje?

− Não...

− Você divide as suas coisas com seus amigos?

− Claro que não!

− Então você nunca será o Pedrinho! Contente-se em ser só você mesmo...
  
(Texto e um desenho de Will Tirando, no blog Sa tirinhas)

O Alambrador



Na serra, no planalto, no pampa gaúcho, nas missões, zona sul entre outras regiões do Rio Grande do Sul, esses valorosos homens deixaram suas marcas através de seu trabalho árduo...

Alambrador, aramador, fazedor de cerca, são homens que passam acampados no mato, à beira de uma sanga, só com uma lona por cima, dormindo na grama e pelegos, fazem sua própria alimentação ao pé do fogo.

Pronta a cerca, é feita a medição, realizado o pagamento e assim é a vida do deste profissional artesão.

Uma cerca tradicional é composta pelos palanques normais, os palanques mestres e os palanques contramestres, as tramas, os arames onde antigamente usava-se um fio farpado. Geralmente são 6 ou 7 fios ou cordas como são chamados popularmente.

A altura de uma cerca mede em média 1,30 m. A distância entre palanques é de 10 m. e o vão entre os palanques é complementado por 4 tramas.

Os buracos para assentar (socar) os palanques são feitos com uma profundidade média de 3 palmos, ou seja, em torno de 70 centímetros. Numa cerca também é empregado o morto (que é o sustentáculo que segura o canto da cerca, o rabicho (que é pego do contramestre no morto), o travesseiro. Onde tem pedra usa-se a sapata.

As madeiras mais utilizadas para os palanques são pau-ferro, guajuvira, angico, aroeira. As tramas em geral são de angico, guajuvira, tarumã (que é bem resistente ao fogo), guamirim.

Antigamente, as tramas e alguns palanques eram beneficiados diretamente no mato através de machado e serrote e quando a viga (madeira) era muito grossa ela era rachada por cunhas de ferro e até mesmo com estopim de pólvora.

Atualmente, com a escassez de madeira e certas proibições bem aplicadas, utiliza-se eucalipto e inclusive eucalipto tratado, tanto para palanques quanto para tramas.

Normalmente, trabalham 3 pessoas numa cerca, pois inicialmente é preciso fazer o alinhamento, geralmente a olho, fazer os buracos para os palanques, mestres e contramestres, furar os palanques e tramas, mocear as tramas, estender as tramas, estender os arames. Cada quadra de cerca mede 132 metros de comprimento.

Em chão macio e em condições ideais três pessoas constroem em média uma quadra de cerca por dia.

Resumo de textos retirados da internet e de livros por Paulo Mena, pesquisador.