quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Vícios forenses

 

Dois zeladores do Fórum local, muito caipiras, mas extremamente observadores, numa certa manhã de pouco serviço, depois de vinte anos de trabalho no local, habituados aos linguajares forenses, mas nem sempre conhecendo o significado dos termos, postaram-se a prosear:

- Compadre João, hoje amanheci agravado. Tentei embargar esse meu sentimento retido, até que decaí. Cassei uma forma de penhorar uma melhora, arrestar um alento, sequestrar um alívio, mas a dor fez busca e a apreensão da minha felicidade. Tive uma conversa sumária com a minha filha sobre o ordinário do noivo dela. Disse que vou levar aquele réu pro Fórum, seja em que foro for. Vou pedir ao Juízo, ao Ministério Público, de qualquer instância ou entrância. Não importa a jurisdição, mas esse ano aquele condenado casa.

− Calma, compadre Pedro − interrompeu o zelador João. Preliminarmente, sem querer contestar ou impugnar sua inicial, aconselho o senhor a dar uma oportunidade de defesa para o requerido − atente para o contraditório. Eu até dou pro senhor uma jurisprudência a respeito: minha filha tinha, também, um namorado contumaz, quase revel. O caso deles, em comparação ao da sua filha, é litispendência pura; conexão, continência. E eu consegui resolver o incidente. Acho que o senhor tá julgando só com base na forma, sem analisar o mérito.

O zelador Pedro, após ouvir, retrucou:

− Mas, compadre, não tem jeito. O indiciado não segue o rito: se eu mostro razão, ele contrarazoa; se eu contesto, ele replica. Pra falar a verdade, tô perdendo a contrafé. Achei que, passada a fase instrutória, depois da especificação, a coisa fosse melhorar. Mas não. Já tentei de toda forma sanear a lide − tudo em vão. Baixei, outro dia, um provimento, cobrando custas pelo uso do sofá lá de casa, objeto material que os dois usam de madrugada. No entanto, ele, achando interlocutória minha decisão, apelou, e disse que não paga nem por precatório... Aí eu perdi as estribeiras: desobedeci o princípio da fungibilidade e deixei de receber o recurso...

− Nossa, compadre, o senhor chegou a esse ponto? − indagou o zelador João, que continuou: − Mas, compadre, o bem tutelado é sua filha − releve. Faça o seguinte, compadre Pedro: marque uma audiência, ouça testemunhas e nomeie perito. Só assim vamos saber se a menina ainda é moça. Se houve atentado ao pudor ou se a sedução se consumou.

Pedro ouvia atento, quando interferiu:

− É mesmo, compadre. Se ele não comparecer, busco debaixo de vara; ainda assim, se não encontrar ele, aplico a confissão ficta. Quando eu lembro que ele tá quase abandonando a causa... Minha filha naquela carência, e o suplicado sem interesse; ela com toda legitimidade, e ele só litigando de má-fé.

 − Isso mesmo, compadre Pedro − apoiou João, que completou: − O processo deve ser esse. O procedimento escolhido é o mais certo. Mas, antes de sentenciar, inspecione e verifique se tudo foi certificado. Dê um prazo peremptório, veja o direito substantivo e procure algum adjetivo na conduta típica do elemento. Cuidado para não haver defeito de representação, pois do contrário, tudo pode ser baixado em diligência. Só tem um problema − ponderou: − É que a comadre é uma tribunal − o senhor é " “a quo” e ela é  “ad quem”... Se sua mulher der apoio ao rapaz, tá tudo perdido: baixa um acórdão já transitado em julgado, encerra a atividade jurisdicional do senhor e manda tirar o nome do moço do rol dos culpados, incluindo o compadre.

− É... É, compadre − disse Pedro desanimado. O senhor tem razão. Eu vô é largar mão dessa minha improcedência, refrescar meus memoriais, e extinguir o caso, arquivando o feito, com baixa na distribuição. Acho, até, com base na verdade real, que a questão de fundo da menina já foi sucumbida pelo indiciado. Não cabe nem rescisória.

E no mesmíssimo momento, exclamaram os compadres:

− “Data vênia!” 


Velhice é fogo!

 


Na sala de TV, o velhinho levanta e a mulher pergunta:

− Aonde você vai?

− À cozinha − responde ele.

− Você não quer me trazer uma bola de sorvete? − pede ela.

− Lógico! − responde o marido, solícito.

− Você não acha que seria bom escrever isso no caderno?

− Ah, para com isso! − ironiza o velhinho − pode deixar que eu vou me lembrar disso!

Então, ela acrescenta:

− Então me coloca calda de morango por cima. Mas escreve para não ter perigo de esquecer.

− Eu lembro disso. Já sei que você quer uma bola de sorvete com calda de morango.

− Ah! Aproveita e coloca um pouco de chantili em cima! Mas lembra do que o médico nos disse... Escreve isso no caderno.

Irritado, o velhinho exclama:

− Ah, que saco, Gertrudes! Eu já disse que vou me lembrar!

Em seguida vai para a cozinha.

Depois de uns vinte minutos, ele volta com um prato com uma omelete.

A mulher olha para o prato e diz:

− Eu não disse que você iria esquecer? Cadê a torrada!?


A droga

 

A droga é maravilhosa. Nada faz você se sentir melhor, tanto que você nem precisa de sexo porque, quando a consome, você tem uma sensação orgástica que dura muito mais tempo que o orgasmo sexual. Você nunca se cansa, não sente fadiga, não dorme, não sente fome, nem sede, nem dor e muito menos preocupações...

Mas o preço que você paga é realmente muito alto. Se você a escolher, terá que desistir de todo o resto. Seus amigos, seu(sua) parceiro(a), sua família, suas finanças pessoais, suas habilidades cognitivas progressivamente diminuídas, sua saúde, sua sanidade mental, sua vontade, seu estado físico, sua capacidade de decidir, SUA LIBERDADE.

O preço é a solidão mais absoluta e uma vida cinzenta, um mundo em que as cores ficam acinzentadas, onde os sons da música não despertam mais nada em você. Nada o agrada, nada o enche de prazer, nada o satisfaz, porque nada é suficiente para fazê-lo feliz.

O cristal da droga é uma armadilha perigosa, um lobo disfarçado de Chapeuzinho Vermelho, e, gradualmente, comerá a coisa mais valiosa que você tem na vida: SUA ALMA. E quando você perceber e quiser fugir, será tarde demais, você ficará preso atrás das barras invisíveis que você mesmo criou, fazendo coisas que não o deixarão dormir à noite, porque, para descansar, não há melhor travesseiro do que uma consciência limpa. E você não terá isso nunca mais, porque além de se machucar, você causará muitos danos àqueles que mais ama e o amam, causará muita dor... e você passeará por lugares estranhos, lidando com pessoas que não se importam com sua vida, apenas seu dinheiro ou seu corpo.

E você verá com nostalgia e angústia e dor e culpa e vergonha tudo o que anteriormente enriqueceu sua vida e deu sentido aos seus dias e você perdeu por isso. E você estará sozinho com ele, amando e odiando-o... E quando você decidir recuperar sua vida, não poderá mais se libertar das correntes desse vício maldito.

O crack, o pó, a maconha e o álcool são as maiores armadilhas. Você precisa saber disso. E digo isso porque o número de atiradores e novos consumidores está crescendo a cada dia. Não se deixe levar pela curiosidade, não siga seus amigos ou seus parceiros se eles estiverem usando drogas e querem você experimente por curiosidade...

                                           NÃO EXPERIMENTE. 

                                                   NÃO USE.

Se você cometeu o erro de prová-la e já entrou na escuridão, procure ajuda. Com ela ao seu lado, sua vida só pode terminar de duas maneiras: preso ou morto. 

                                              (Autor desconhecido)


A Capela de Ipanema

Nossa Senhora Aparecida e a Capela de Ipanema 

Preocupada com o futuro religioso do novo bairro que surgia, Dª. Déa Cezar Coufal, responsável por inúmeros trabalhos sociais em Ipanema e devota de Nossa Senhora Aparecida, empreendeu também a construção da capela nos anos 30 do século passado. Atualmente conhecido por Santuário Nossa Senhora Aparecida, o local oferece a comunidade, todos os anos, uma das festas mais bonitas em homenagem a Santa Padroeira do Brasil.

A história da capelinha inicia em 1931 quando Déa Coufal pediu à Sociedade de Terrenos Balneário Ipanema LTDA a doação de alguns lotes para a construção da igreja. Conforme nos conta o padre Antônio Lorenzatto:

“Pediu à sociedade loteadora a doação dos terrenos 1 e 58 da quadra 13, com frente para a praça central, Avenida Tramandaí e rua Leme. Isto lhe foi concedido. Estando assegurado a espaço para a construção do templo, dona Déa viajou para Aparecida, em São Paulo. Adquiriu uma estátua de Nossa Senhora Aparecida com as mesmas dimensões da original, pediu para que um sacerdote a benzesse dentro do Santuário Nacional. Depois procurou o professor de arquitetura, o espanhol Fernando Corona e combinaram projetar e construir uma capela em estilo barroco”.

Com doações de fiéis e moradores do bairro, a capela foi sendo erguida. Devido ao grande número de veranistas, a festa de inauguração da nova igreja deu-se no verão de 1937. Depois disso, a festa da padroeira seria sempre realizada nos meses de janeiro ou fevereiro de cada ano. A primeira missa foi celebrada pelo Monsenhor Emílio Lottermann em janeiro e a primeira comunhão em novembro de 1937 com um grupo de crianças do Colégio Escolas Reunidas do Passo do Capivara.

Infelizmente, a simpática capelinha, em estilo barroco espanhol, não teria vida longa, pois junto à construção foram erguidos eucaliptos, cujas raízes, anos mais tarde, danificaram os alicerces da igreja. Conforme relembra Padre Antônio:

“No local onde foi feita a capela havia um pântano, era um banhado. Por isso havia na região o cultivo de arroz pelos antigos fazendeiros. Para drenar, o loteador mandou plantar nas imediações da igreja alguns eucaliptos. Não resolveu muito, pois tempos mais tarde toda a estrutura da capela ficou comprometida. Com o aumento das fendas, foi pedido um exame à Secretaria de Obras Públicas e em 30 de julho de 1960, após meticulosa vistoria, as autoridades condenaram o prédio”.

A demolição da capelinha foi sentida por todos, pois ela era um “mimo” da arquitetura colonial espanhola e durante muitos anos acompanhou o desenvolvimento do bairro, tornando-se referência em Ipanema. Nas palavras de Padre Antônio percebe-se uma nostalgia, um misto de tristeza e saudade causadas pelas transformações ocorridas na região. “Quando no começo dos tempos, Deus criou a terra (Gen.1,1) formou também a bela e extensa planície Ipanema. E o criador viu que era bom‟ (Gen. 1,31). Mas, Ipanema não era apenas um bom recanto, mas seria igualmente um bairro esplêndido, engastado por encantadoras praias e graciosos montes cobertos por mataria verde-escura”. (Padre Antônio D. Lorenzatto, 1º pároco de Ipanema, hoje com 92 anos).


                               Igreja de Nossa Senhora Aparecida

Foto atual

 Referências:

 LORENZATTO, Padre Antônio. Entrevista concedida à autora. Porto Alegre, abril de 2011.

                                 (Do blog Janete & Porto Alegre)

 

terça-feira, 29 de setembro de 2020

A Raposa e as Uvas

 


Versão de Millôr Fernandes

De repente, a raposa, esfomeada e gulosa, fome de quatro dias e gula de todos os tempos, saiu do deserto e caiu na sombra deliciosa do parreiral que descia por um precipício a perder de vista. Olhou e viu além de tudo, à altura de um salto, cachos de uvas maravilhosos, uvas grandes, tentadoras. Armou o salto, retesou o corpo, saltou, o focinho passou a um palmo das uvas. Caiu, tentou de novo, não conseguiu. Descansou, encolheu mais o corpo, deu tudo que tinha, não conseguiu nem roçar as uvas gordas e redondas. Desistiu, dizendo entre dentes, com raiva: “Ah, também, não tem importância. Estão muito verdes”. E foi descendo, com cuidado, quando viu à sua frente uma pedra enorme. Com esforço empurrou a pedra até o local em que estavam os cachos de uva, trepou na pedra, perigosamente, pois o terreno era irregular e havia o risco de despencar, esticou a pata e conseguiu! Com avidez colocou na boca quase o cacho inteiro. E cuspiu. Realmente as uvas estavam muito verdes!

Moral:

 A frustração é uma forma de julgamento tão boa

 quanto qualquer outra.


segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Clube da Guria

 Por Ricardo Chaves

A cantora Elis Regina com o radialista Ary Rêgo, apresentador do programa “Clube do Guri”, que marcou época no Estado ente agosto de 1950 a julho de 1966; A atração, que ia ao ar pela Rádio Farroupilha, abria o microfone para crianças e adolescentes, e um dos destaques foi Elis, que começou a se apresentar em 1957, aos 12 anos de idade.

(...)

Clube do Guri foi levado ao ar durante 16 anos (entre 1950 a 1966), nas manhãs de domingo, pelas ondas da Rádio Farroupilha. Nos seus primeiros meses, a nova atração foi chamada de Clube do Papai Noel, mas, logo depois, com patrocínio da Fábrica Neugebauer, o nome mudou para Clube do Guri, referência a um dos produtos da empresa, o achocolatado Guri.

Transmitido ao vivo (primeiro, da sede emissora na Rua Duque de Caxias; depois, a partir do incêndio que destruiu o prédio em 1954*, do auditório localizado num casarão da Rua Siqueira Campos)**, era um programa musical em que crianças e adolescentes de cinco a 15 anos se apresentavam cantando, tocando algum instrumento ou declamando. Na maioria das vezes, cantoras e cantores mirins interpretavam os sucessos de artistas famosos como Ângela Maria, Cauby Peixoto ou Nelson Gonçalves. Os participantes se apresentavam sempre acompanhados pelo pianista Ruy Silva e pelo Regional da Rádio Farroupilha (foto abaixo).

Um incidente ocorrido nos bastidores do palco daquele auditório quase alterou a configuração da constelação das grandes estrelas da música brasileira. Em 1957, uma menina de 12 anos, que havia sido aprovada na pré-seleção realizada na véspera, chegou de roupa nova para cantar o samba-canção Lábios de Mel. Porém, uma prosaica hemorragia nasal acabou por manchar o vestido dela, além de causar-lhe um constrangimento tal, que a candidata a cantora simplesmente desapareceu.

(...) Quase dois meses depois, Ary Rêgo ao entrar na Casa Sloper para comprar um presente de Dia das Mães para sua mulher, foi reconhecido por um das balconistas, que relatou-lhe o desastre sucedido com uma sobrinha quando esta estava prestes a se apresentar. Então, o radialista persuadiu a tia a aconselhar a sobrinha a voltar, pedindo que não atribuísse maior importância ao fato. Felizmente, foi o que aconteceu. A menina, chamada Elis Regina, voltou para ser, dali em diante, uma das principais cantoras da história da música popular brasileira.

Foi pelo rádio, numa edição extra de um noticioso do dia 19 de janeiro de 1982, que Ary ficou sabendo, para sua tristeza, da morte de Elis.

(Do Almanaque Gaúcho de Zero Hora)

*   As dependências da Rádio Farroupilha foram incendiadas no dia 24 de agosto de 1954, em represália à morte de Getúlio Vargas.

** O último auditório da Rádio Farroupilha estava situada na Rua Siqueira Campos, defronte a uma paineira, que está lá até hoje, chamada de a paineira do Bromberg, tombada pelo município.

Faleceu, na última quinta-feira (20.09.2007), aos 89 anos − cinco dias antes de seu aniversário, em Porto Alegre (RS), o radialista gaúcho Ary Rêgo. Conhecido pelo programa “Clube do Guri”, que revelou a cantora Elis Regina, morreu vítima de câncer no aparelho digestivo.

Sua carreia, iniciada em 1942 quando ingressou na Rádio Pelotense, foi bastante tranquila. Após sua inserção na rádio, assumiu mais tarde a direção da programação e, cinco anos depois, passou a atuar como locutor na Rádio Farroupilha, depois apresentador do Clube do Guri.

P.S. Eu, responsável por este blog, nasci no mesmo ano em que nasceu Elis Regina Carvalho Costa, nascida em 17 de março de 1945, e eu, em setembro do mesmo ano. Fui, aos 13 anos, ao programa “Clube do Guri”, apresentado todos os domingos das 10 às 12 horas no auditório da Rádio Farroupilha, com entrada gratuita para a garotada. A Fábrica Neugebauer dava envelopes com chocolate em pó para a meninada da plateia.

NSM

Não se trata cachorro como se fosse gente...

 

Cachorro é cachorro, gente é gente.

Cachorro tem que ser tratado como cachorro − com respeito à sua fidelidade, ao seu caráter, ao seu amor e sua pureza.

Cachorro não finge, não trai, não julga, não mente...

Cachorro o ama pelo que você é, seja lá quem você for, milionário ou indigente...

Cachorro é emocionalmente inteligente, não guarda mágoas. Perdoa sem que você tenha que implorar perdão.

E, uma vez perdoado, o perdão é permanente.

Por que haveríamos de tratar um ser assim como se fosse gente?

Gente a gente também não deve tratar como cachorro...

Porque não é qualquer um que merece carinho na barriga, cafuné na orelha, demonstração de amor sem motivo aparente.

Gente não morde. Mas há outras formas de se cravar o dente, no coração, no bolso, na alma. Por vezes com veneno de serpente.

Gente fofoca, calunia, beija-o enquanto o inveja, e o odeia, sorridente.

Cachorro obedece, respeita, se submete.

Gente ama com ressalvas, faz promessas que não cumpre.

Só cachorro (e uma ou outra mãe) é que ama incondicionalmente.

Por que tratar como cachorro − que fica ao seu lado até a morte − alguém que o abandona de repente?

É totalmente sem noção e incoerente tratar gente como se fosse cachorro – e tratar cachorro como se fosse gente.

Cachorro é um ser superior, em forma de amor que em qualquer circunstância, merece a nossa proteção...

Gente a gente conta nos dedos quem merece o nosso respeito, nosso amor e nosso perdão.

*Texto de Eduardo Affonso.