terça-feira, 6 de outubro de 2020

Algumas músicas brasileiras sobre prostituição

                                             Boneca de Pano

                                                 Assis Valente

 (1935) 

Boneca de pano,

Gingando num cabaré.

Poderia ser bonequinha de louça,

Tão moça, mas não é.

Poderia ser bonequinha de louça,

Tão moça, mas não é.

Um dia alguém a chamou de boneca,

E ela, sendo mulher, acreditou.

O tempo foi passando

E ela se desmanchando

E hoje,

Quem olha pra ela não diz quem é.

Em vez de boneca de louça,

Hoje é boneca de pano,

De um sombrio cabaré.

 Dama do cabaré

   Noel Rosa

   (1936)

 

Foi num cabaré na Lapa
Que eu conheci você.
Fumando cigarro,
Entornando champanhe no seu soirée.

Dançamos um samba,
Trocamos um tango por uma palestra,
Só saímos de lá m
eia hora depois de descer a orquestra.

Em frente à porta um bom carro nos esperava,

Mas você se despediu e foi pra casa a pé.

No outro dia, lá nos Arcos eu andava,
À procura da Dama do Cabaré.

Eu não sei bem se chorei no momento em que lia,
A carta que eu recebi, não me lembro de quem.
Você nela me dizia que quem é da boemia,
Usa e abusa da diplomacia,
Mas não gosta de ninguém.

 Quem há de dizer

 Alcides Gonçalves e Lupicínio Rodrigues

 (1948)

 

Quem há de dizer,

Que quem você está vendo,

Naquela mesa bebendo

É o meu querido amor.

Repare bem que toda vez

Que ela fala,

Ilumina mais a sala

Do que a luz do refletor.

O cabaré se inflama

Quando ela dança,

E com a mesma esperança

Todos lhe põe o olhar.

E eu, o dono,

Aqui no meu abandono,

Espero morto de sono

O cabaré terminar.

Rapaz! Leva esta mulher contigo,

Disse uma vez um amigo,

Quando nos viu conversar.

Vocês se amam,

E o amor deve ser sagrado,

O resto deixa de lado,

Vai construir o teu lar.

Palavra! Quase aceitei o conselho,

O mundo, este grande espelho,

Que me fez pensar assim.

Ela nasceu com o destino da Lua,

Pra todos que andam na rua,

Não vai viver só pra mim...

 Dolores Sierra

 Wilson Batista e Jorge de Castro

 (1956)

 

Dolores Sierra
Vive em Barcelona,
Na beira do cais.
Não tem castanholas
E faz companhia
A quem lhe der mais.

 Nasceu em Salamanca,

Seu pai lavrador,

Veio a maioridade.
Como quem nasce na roça
Tem sempre a ilusão
De viver na cidade.

Sua mãe chorou

No dia em que ela partiu,
Pra conhecer Dom Pedrito,
Que prometeu e não cumpriu.
Com frio e com sede,
Só na sarjeta,
Sorriu para um homem,
E ganhou a primeira peseta.

O navio apitou, paguei a despesa,

E a história se encerra.
Adeus. Barcelona, adeus,
Adeus. Dolores Sierra.

Eu vou tirar você desse lugar

 Odair José

 (1972)

 

Olha, a primeira vez que eu estive aqui,

Foi só pra me distrair,

Eu vim em busca do amor.

Olha, foi então que eu lhe conheci,

Naquela noite fria, em seus braços,

Meus problemas esqueci.

Olha, a segunda vez que eu estive aqui,

Já não foi pra distrair,

Eu senti saudades de você.

Olha, eu precisei do seu carinho,

Pois eu me sentia tão sozinho,

E já não podia mais lhe esquecer.

Eu vou tirar você desse lugar.

Eu vou levar você pra ficar comigo.

E não me interessa o que os outros vão pensar. (bis)

Eu sei que você tem medo de não dar certo,

Pensa que o passado vai estar sempre perto,

E que um dia eu posso me arrepender.

Eu quero que você não pense em nada triste,

Pois quando o amor existe,

Não existe tempo pra sofrer.

Cabaré

 Aldir Blanc e João Bosco

 (1973)

 

Na porta, lentas luzes de néon.
Na mesa, flores murchas de crepom.
E a luz grená filtrada entre conversas,
Inventa um novo amor, loucas promessas.

De tomara-que-caia,

Surge a crooner do Norte,
Nem aplausos, sem vaia,
Um silêncio de morte.

Ah, quem sabe de si nesses bares escuros,
Quem sabe dos outros, das grades, dos muros.

No drama sufocado em cada rosto,

A lama de não ser o que se quis.
A chama quase morta de um sol posto,
A dama de um passado mais feliz.

De tomara-que-caia,

Surge a crooner do Norte,
Nem aplausos, sem vaia,
Um silêncio de morte.

Ah, quem sabe de si nesses bares escuros,
Quem sabe dos outros, das grades, dos muros.

Um cuba-libre treme na mão fria,

Ao triste strip-tease da agonia,
De cada um que deixa o cabaré,
Lá fora, a luz do dia fere os olhos...

                                                     Folhetim

 Chico Buarque

 (1978)

 

Se acaso me quiseres,
Sou dessas mulheres
Que só dizem sim.
Por uma coisa à toa,
Uma noitada boa,
Um cinema, um botequim...

E, se tiveres renda,
Aceito uma prenda,
Qualquer coisa assim.
Como uma pedra falsa,
Um sonho de valsa,
Ou um corte de cetim.

E eu te farei as vontades,

Direi meias verdades,
Sempre à meia luz.
E te farei, vaidoso, supor,
Que és o maior e que me possuis.

Mas na manhã seguinte,

Não conta até vinte,
Te afasta de mim,
Pois já não vales nada,
És página virada,
Descartada do meu folhetim.

P.S. As gravações dessas músicas estão na internet:

1. “Boneca de pano”, com os Demônios da Garoa;

2. “Dama do cabaré”, com Orlando Silva;

3. “Quem há de dizer”, com Francisco Alves;

4. “Dolores Sierra”, com Roberto Vidal;

5. “Eu vou tirar você desse lugar”, com Odair José;

6. “Cabaré”, com João Bosco;

7. “Folhetim”, com Gal Costa.


segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Samba pro Luiz Carroceiro

 Por Fábio Mazza


Ele parou o tiozinho, que todo dia passa em frente a sua casa catando papelão há anos, e resolveu usar do seu talento para homenageá-lo, aliás, justa homenagem a todos os cidadãos humildes que dão duro pra sobreviver de maneira digna, sem se desviar do caminho do bem e mesmo com todas as adversidades e preconceitos que sofrem todos os dias, muitos são felizes, demonstrando um sorriso no rosto e a esperança de um amanhã melhor...

Sou eu quem acorda bem antes do sol,

Sou eu quem dou corda pro galo cantar

E puxo a carroça pra ir trabalhar.

Sou eu, sou eu, sou eu, sou eu.

Carregando o mundo no meu calcanhar,

Empurrando a vida do jeito que dá.

Favela, o Meu Deus e no meu Orixá.

Vou eu, vou eu, vou eu, vou eu.

Em meio a avenida lotada,

Vou eu!

E se a subida é pesada,

Vou eu.

Às vezes pela contramão desta vida

E mesmo com tempo fechado vou eu.

De peito aberto não ando sozinho,

Sou grato por tudo que o bom Deus me deu.

A felicidade é o próprio caminho,

Coitado daquele que não entendeu.

Reciclo aquilo que mais não lhe serve.

Até por que nada neste mundo é meu.

Assim esse peso tão fica mais leve

Pesado é carregar o que não é seu.

A gente deve ser feliz,

É complicado eu sei, viver.

Daquilo que você não quis,

Eu fiz algo de bom nascer. (bis)

A sua diretriz é o coração quem diz

Deixo aporrinhar você!

(Recitando)

Luiz carroceiro, meu parceiro,

Você é o verdadeiro herói brasileiro,

Empurrando o mundo na sua carroça,

Inspirando com a sua luta também a nossa.

E desde pequeno que eu te vejo por aí,

Ouvindo na carroça um samba de raiz.

Levando a fé de combustível pra ser feliz

E com você eu aprendi, Luiz,

Que o maior tesouro na vida são os amizade que eu fiz.

E com mais de 70 anos e problema na coluna

Transforma o lixo da cidade na sua fortuna.

Quer saber onde estão os nossos heróis?

Eles nunca estão em capas nem ganharam copas

Eles estão aí, no meio de nós!

(Cantando)

A gente deve ser feliz,

É complicado eu sei, viver.

Daquilo que você não quis,

Eu fiz algo de bom nascer. (bis)

 

P.S. Este samba deve estar na internet...

domingo, 4 de outubro de 2020

Samba de Rap

                                            (Música Samba)

Fabio Brazza

(Cantando)

Não me critique se eu não sou lá do Cacique,

Se eu não sei tocar repique nem viola nem tam tam.

Mas oras bolas! Fiz do samba minha escola

Sempre ouvindo Cartola, Noel Rosa e Adoniran.

E aí quando eu era bem moleque,

Foi que eu conheci o Rap e não consegui parar.

Misturei a levada do Tupac junto com um samba de breque

Só pra ver no que ia dar e vi malandro arrepiar!

O meu samba chegou assim abrindo caminhos,

Que até o Zeca Pagodinho

Foi na TV me elogiar, dá pra acreditar?

Fui lá nos Estados Unidos, na MTV, fiz uma rima pro Jay-Z

Que depois de me ouvir quis se aposentar,

E a Beyonce parou pra olhar.

E foi tamanho sucesso e vendi tanto ingresso

E ganhei livre acesso nas festas globais,

Que todos os jornais foram atrás de mim.

O Chico Buarque brigou com o PC Pinheiro,

Pois os dois queriam virar meus parceiros

E até invadiram o meu camarim.

(Recitando)

Mas não é bem assim...

É que hoje em dia é muito truque, muito deboche.

Todo notebook quer ser Macintosh,

Artista de Facebook que não passa de fantoche, marionete,

Compra views na internet, ao ridículo se submete

Só pra virar manchete!

Pode ou não pode, Lafaiete?

(Cantando)

Amigos desculpas aqui brincadeiras à parte,

Eu venho somente exaltar minha arte,

A mesma qual Mauro Duarte exaltou.

Arte da qual faço parte desde bem moleque,

Que é o rap com samba, o samba com rap,

O bumbo e o clap, o cavaco e o tambor

E olha só como ficou...

P.S. As músicas do Fábio Brazza estão na internet. 

Escute a que ele faz uma gozação com o ator George Cloney.

Casas de Machado de Assis

 

Morro do Livramento, onde nasceu Machado de Assis,

O Morro do Livramento é um acidente geográfico da cidade do Rio de Janeiro. Localiza-se entre os Morros da Conceição e da Providência, área central da cidade, próximo à região portuária.

Da casa onde nasceu Machado de Assis, na Ladeira do Livramento 65, só restam ruínas do que poderia ter sido a residência, mas sem comprovação. 

Durante o ano de 1874, Machado de Assis com sua esposa Carolina moraram em um sobrado na Rua da Lapa cujo bairro tem o mesmo nome. Foi nesta casa que ele escreveu o livro “A Mão e a Luva”. Esta casa ficava próxima ao largo da Lapa, onde existiam bons hotéis e ficava próximo ao Passeio Público. Era um endereço nobre e de classe média. Esta casa-sobrado possuía dois apartamentos, um no pavimento térreo e outro no segundo piso. O escritor com sua esposa moraram no segundo andar.

Desde o final do século 20, o Bairro da Lapa se tornou uma área um pouco degradada e abandonada pela Prefeitura. Em 2018, podemos notar que estes antigos sobrados da segunda metade do século 19 estão em péssimo estado de conservação e degradados, assim esta rua.


Atualmente, a casa de 17 cômodos é habitada por diversas famílias. Os ocupantes não sabem quem é o proprietário do imóvel e a prefeitura ainda não conseguiu localizá-lo. 

                                           Cosme Velho

Desde 1883 Carolina e Machado de Assis moravam no Cosme Velho. A casa em que haviam habitado por vários anos, na Rua do catete, 206, fora pedida de volta pelo proprietário, e, na busca de nova, haviam acabado alugando a casa que a família S. Mamede − isto é, Miguel de Novais − possuía perto de seu grande solar, na Rua do Cosme Velho, chalé n° 18, do número 174. 

A casa, sem ser bonita, era agradável e simpática. Tinha jardins em toda a volta, um riachinho à frente, árvores, uma varanda simples. No andar de baixo duas salas, no de cima três quartos, um dos quais transformado em gabinete de trabalho, completavam a sua modéstia.

(Do livro “A vida de grandes brasileiros: Machado de Assis)


Rua do Cosme Velho, n° 18

A foto seria da mesma casa? 

Notem a janela do meio do andar de cima.

Casa onde Machado de Assis viveu com sua família de 1883 até falecer, em 1908. Essa residência estava localizada no início da Rua Cosme Velho. Ela foi demolida e nos anos 1980 foi construído um edifício de dez andares, dois pavimentos de garagem e algumas lojas no térreo. Uma dessas lojas é ocupada há anos pelo Bistrô Assis. Ao lado da porta desse bistrô foi colocada uma placa em homenagem ao escritor mais importante que o Brasil já viu.


Mas Machado de Assis teve ainda outros quatro endereços na cidade do Rio:

Rua São Luiz Gonzaga, número 48, em São Cristóvão, após a morte da mãe;

Rua Matacavalos (atual Rua Riachuelo), no Centro do Rio, que dividiu com o amigo Ramos Paz, entre os anos de 1860 e 1861;

Carolina e Machado casaram-se em 12 de novembro de 1869. Em 1871, o casal mudou-se para o segundo andar do imóvel situado na Rua Santa Luzia, número 54, e lá ficaram por três anos;

Entre 1874 e 1875, o escritor e sua mulher, Carolina, viveram por 11 meses no imóvel, da Rua da Lapa 242 (à época em que o escritor ocupou o imóvel, o número era 96), um casarão agora tombado pelo Patrimônio Histórico. Foi nesta casa que ele escreveu o livro “A Mão e a Luva”;

Em 1875, mudou-se para a Rua das Laranjeiras, número 4, no Largo do Machado, onde com Carolina permaneceu por três anos no imóvel;

Entre 1876 e 1882, o escritor Machado de Assis morou no número 206 da Rua do Catete, sendo a sua morada mais preservada (sua última residência, no Cosme Velho, já foi demolida).

No antigo número 206 da Rua do Catete, que ficava em frente à Rua Almirante Tamandaré, funcionou a “Sociedade Dançante e Recreativa Progresso do Catete”, de onde alguns integrantes fundaram, posteriormente, o Ameno Resedá. 

Das casas de Machado de Assis, a da Rua dos Andradas é hoje um estacionamento. Da original, restou a fachada. Na da Rua da Lapa, hoje o casarão é tombado pelo Patrimônio Histórico e o chalé do Cosme Velho, demolido, e o edifício construído no local, além de levar o nome do escritor, tem também uma placa em sua homenagem.

                                             Largo do Machado

“Muitos das novas gerações, à primeira vista, podem imaginar que o nome é uma homenagem à Machado de Assis, um dos maiores escritores do Brasil, fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. Outros podem imaginar que, além de uma homenagem, o nome poderia vir do fato do escritor ter morado lá. Hipóteses erradas! Machado de Assis teve seu mais conhecido endereço no Bairro do Cosme Velho, exatamente na Rua Cosme Velho, relativamente perto da Estação de Trem do Corcovado” relata o site de pesquisa Rio de Janeiro Aqui.

O Machado veio de outro lugar. No século XVIII, o local passou a ser chamado Campo ou Largo do Machado, em referência ao oleiro André Nogueira Machado, proprietário de terras no local. E a nomenclatura se fortificou depois:

“Um açougueiro de sobrenome Machado montou um estabelecimento no Largo. Isso se deu por volta deu por volta de 1810. Na fachada do açougue dele tinha um grande machado. Não sei se ele pensou nisso, mas acabou sendo uma boa jogada de marketing para época”, destaca o historiador Maurício Santos.

No entanto, o nome mudou outra vez. A partir de 1843, o Largo do Machado passou a se chamar Largo da Glória, devido ao início da construção da Igreja de Nossa Senhora da Glória, que viria a ser inaugurada em 1872 em frente ao Largo.

Contudo, nem só de mudanças de nomes viveu o Largo do Machado. Outras novidades, fundamentais para a história da cidade do Rio de Janeiro, passaram por lá. Em 1868, foi inaugurada (no Largo do Machado) a estação central da primeira linha de bondes do Rio, que ia do Largo até a Rua dos Latoeiros (atual Gonçalves Dias).

No ano 1869, o largo foi renomeado Praça Duque de Caxias, em homenagem ao famoso militar brasileiro. Em 1899, foi instalada, na praça, uma estátua em homenagem ao Duque. Quase um século depois, quando o calendário datava 1953, a estátua foi transferida para seu endereço atual, na Avenida Presidente Vargas.

“Nesse período o lugar voltou a se chamar Largo do Machado. Talvez todas essas mudanças confundam as pessoas, que muitas vezes acham que o nome Largo é uma homenagem ao escritor Machado de Assis”, diz Maurício Santos.

Como boa parte da cidade do Rio de Janeiro, o Largo do Machado também tem seus problemas, mas não perde o encanto: “Ás vezes a segurança deixa a desejar, alguns dias está meio sujo e uma restauração cairia muito bem. Apesar de tudo, passo aqui todos os dias e sempre admiro a beleza desse lugar” diz Mariana Rodrigues, que trabalha próximo ao histórico Largo.

(Do blog Diário do Rio.com)

P.S. No Largo do Machado há um bloco de carnaval chamado de “Largo do Machado, mas não largo da bebida”.


sábado, 3 de outubro de 2020

O Falcão e o Passarinho

O Poeta e o Falcão

Por Roberto Vieira

 

Mário Quintana observa as suas malas nas ruas de Porto Alegre. O Hotel Majestic mostrou ao passarinho o olho da rua. Passarão. É a miséria chegando absoluta nesse relativo universo dos poetas. Poetas não foram feitos para a riqueza, quando muito podem conquistar uma princesa com seus versos. Depois voltam ao pântano.

Porto Alegre nunca parecera tão fria e deserta. Um vento sopra do Guaíba e encobre toda a cidade em salinas. Não olhe pra trás. Uma cidade que expulsa um poeta pode te transformar em estátua de sal. Da primeira vez que me feriram.

Mário está só. O Correio do Povo faliu. O passado faliu. As palavras faliram. Como diria o Érico, um imenso megatério se ergue na província rumo aos céus. Um império sem homens e sem sentimentos. O porteiro aproveita e sacode um agasalho que tinha ficado no quarto.

“Toma, velho!”

Mário recita ao porteiro: A poesia não se entrega a quem a define.

Mário Quintana estava só.

Cadê os passarinhos?

A sarjeta aguardava o ancião.

Cadê os passarinhos?

Paulo Roberto Falcão fora avisado do acontecido com Quintana. O Internacional cobre de vermelho os Pampas. Quando passa em frente ao Hotel Majestic, Falcão observa aquela cena absurda, patética, inglória. Tudo o que sai impresso é epitáfio. Falcão estaciona e caminha até o poeta com as malas na calçada.

Cadê os passarinhos?

“Senhor Quintana, o que está acontecendo?”

Mário ergue os olhos e enxuga uma lágrima. Ah, essas patéticas lágrimas que insistem em povoar os olhos dos poetas. Quisera não fossem lágrimas, quisera eu não fosse um poeta, quisera ouvisse os conselhos de minha mãe e fosse engenheiro, médico, professor. Mas ninguém vive de comer poesia.

“Senhor Quintana, o que está acontecendo?”

Mário lhe explica que o dinheiro acabou. Está desempregado, sem família, sem amigos, sem emprego. Restaram apenas essas malas nas ruas de Porto Alegre e esse agasalho sacudido pelo moço que trabalha na portaria.

Os passarinhos se foram no inverno de Porto Alegre. Mário observa Falcão colocando suas malas dentro do carro em silêncio. Em silêncio, Falcão abre a porta para Mário e o convida a sentar. No silêncio de duas almas na tarde fria de Porto Alegre, o carro ruma na direção do arquipélago, na direção do infinito. Ser poeta não é dizer grandes coisas.

Falcão para o carro no Hotel Royal, desce as malas, chama um dos empregados:

“O Senhor Mário agora é meu hóspede!”

“Por quanto tempo, Senhor Falcão?”

Falcão observa o olhar tímido e surpreso do poeta e enquanto o abraça comovido, responde:

“Por toda a eternidade”.

O poeta faleceu em 1994.

Todos esses que aí estão.

Atravancando meu caminho.

Ele Falcão!

Eu passarinho!

                                                       *****

                                            (Do blog Roberto)

P.S. E o Hotel Majestic, ao encerrar suas atividades hoteleiras, se tornou e recebeu o nome Casa de Cultura Mário Quintana.

Falcão recorda encontro com Mario Quintana

No dia em que são completados 26 anos da morte do poeta (5 de maio de 1994 - 5 de maio de 2020), o “Rei de Roma” elenca poemas favoritos e fala da humildade e da simplicidade do autor do “Poeminha do Contra”.

− Eu estava em Roma quando a sobrinha do Mário falou com meu irmão que ele tinha deixado outro hotel, e fizemos questão que ele ficasse hospedado conosco. Um tempo depois, eu vim para o Brasil e coincidiu dele estar no hospital, após ter se submetido a uma cirurgia na vista. Fui visitá-lo e, ali, pude ver a humildade impressionante que o Mário tinha − recorda Falcão, ao LANCE.

O ex-meia dimensionou o quanto foi marcante o encontro com Quintana. Segundo ele, o futebol não entrou em pauta.

− Diante de uma pessoa admirável como ele, você escuta mais do que fala, né?! E ele sempre humilde, fazendo piadas sobre a cirurgia. Mário é um poeta muito intuitivo, escreve com naturalidade sobre a vida − disse.

Mario Quintana se candidatou por três vezes a uma cadeira na ABL. Entretanto, não conseguiu em nenhuma delas alcançar os 20 votos necessários para se eleger. Ao ser convidado para uma quarta candidatura, o poeta recusou. Logo depois, lançou o “Poeminha do Contra”, que tem os versos:

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
E eu passarinho.


Casa de Cultura Mário Quintana:

Em 1982, o governo do Estado comprou o prédio do então hotel Majestic e, um ano mais tarde, o prédio foi declarado como patrimônio histórico, tendo início, a partir dai, sua transformação em Casa de Cultura. No mesmo ano, através da Lei 7.803 de 8 de julho, recebeu a denominação de Mario Quintana.

A obra de transformação física do Hotel em Casa de Cultura, entre elaboração do projeto e construção, desenvolveu-se de 1987 a 1990. O projeto arquitetônico foi assinado pelos arquitetos Flávio Kiefer e Joel Gorski. Em 25 de setembro de 1990 a casa foi finalmente aberta.

Os espaços da Casa de Cultura Mario Quintana estão voltados para o cinema, a música, as artes visuais, a dança, o teatro, a literatura, a realização de oficinas e eventos ligados à cultura. Eles homenageiam grandes nomes da cultura do Estado do Rio Grande do Sul.


Antigo Hotel Majestic - hoje Casa de Cultura Mário Quintana

O campo não sonha. Floresce

 

O campo não sonha,

floresce,

mas quando o campo

decide, acontece!

Vem o sol

é uma oração.

Vem a chuva,

é uma prece.

A quem traz sementes

nas mãos

até o vento obedece.

Quem viaja

em noite escura

sabe que a luz aparece.

Quem remenda

a solidão, sabe

o tecido que tece.

Quem apascenta

os rebanhos, enquanto

a chaleira aquece,

revolve o chão da

lavoura

e a plantação logo

cresce.

Cai o suor

por nosso rosto,

pequeno rio

que nos desce.

No ventre das estações

os frutos amadurecem.

A quem traz sementes

nas mãos

até o vento obedece.

O campo não sonha,

floresce.

               (Luiz Coronel, Correio do Povo, outubro de 2020)

  

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

O brinquedo das sílabas

 

Atribuí-se a Shakespeare a construção da palavra latina:

Honorificabilituditatibus.

Dessa forma, o escritor inglês enriqueceu o idioma latino de um vocábulo novo e, sobretudo, comprido.

Os espanhóis possuem uma palavra grande:

Transubstaciacionalidad.

O inglês construi, com auxílio do latim, a palavra:

Proantitansuabatantiationistical.

Agora, já m foi criada por Everett M. Smith, presidente da National Puzzlers' League, para ser a mais longa palavra de língua inglesa.

Pneumonoultramicroscopicsilicovolcanoconiosis, o nome da suposta doença em inglês, é a maior palavra daquele idioma, com 45 letras.

Rabelais teve a paciência de formar o vocábulo:

Antipericatametaanaparbengedamphicribraciones.

Esse “monstro”, entretanto, nada significa. A sua maior parte rediz-se a uma combinação de preposições grega.

Em português existia o conhecido: anticonstitucionalissimamente; agora há outra palavra:

Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose (44 letras) é uma palavra fictícia que significa “uma doença pulmonar causada pela inalação de pó de sílica muito fina, que causa inflamação nos pulmões”. Esta condição médica descrita nesta definição é normalmente chamada de silicose.

O portador da suposta doença é chamado de:

Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico. (46 letras)

A palavra ganhou registro oficial pela primeira vez, em 2001, no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Aparece descrita como uma doença pulmonar causada pela inspiração de cinzas vulcânicas, tornando-se, dessa forma, a maior palavra da língua portuguesa registrada em dicionário.

Leia-se agora esta palavrinha que Aristófanes, na comédia “As mulheres no parlamento”, pôs na boca de um personagem:

Lapadotemachoselachogaleokranioleiphanodrimapotrimatosilphioparaomelitokatakekpenomhiclehpikossuphophattopeisteraliktruonoptekephtthakingklopeleiologoosiraiobaphimtragranoptrugon.

Se o leitor tiver paciência, conte uma a uma, e diga quantas sílabas são. Esse colosso, entretanto, forma, no original grego, quatro versos e significa um festim completo. A tradução é a seguinte:

“Ostras, peixe salgado, lixa, tubarão, restos de cabeça com molho de vinagre,  salsa, alhos misturados com mel, tordo, melro, pomba-rola, miolos de galo assado, aveloa, pombo-torcaz, lebre com vinho novo e temperada com milho verde e batatas fritas”.

Em uma palavra, trata-se de um prato chamado “salpicão”.

A propósito de palavras compridas, cita-se sempre, para desenferrujar a língua, a frase italiana, que traduzida no nosso idioma, é a seguinte:

Se o Arcebispo de Constantinopla se quisesse

desarcebispoconstantinopolizar,

quem o desarcebispoconstantinopolizaria?

Seria o desarcebispoconstantinopolizador?

Repita o leitor essa lenga-lenga e verá que não é tão difícil.

Texto do Almanach do Correio da Manhã de 1941

(Adaptado)