segunda-feira, 23 de maio de 2022

Declaração dos Direitos Desumanos

 Fraga*

Esta versão atualizada da Declaração Universal dos Direitos do Homem é a propósito de um original muito conhecido da boca pra fora e que andou circulando nas mãos de um sorridente presidente americano, que o exibiu como modelo de teoria e até como cunha em negociações internacionais. Omiti alguns artigos apenas por falta de espaço e não, como fazem certos países, por falta de interesse neles. 

Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direito. Mas não podem morrer assim. 

Todo homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidas na Declaração original, desde que esteja disposto a correr o risco. 

Ninguém será mantido em escravidão ou servidão. A não ser por vínculo empregatício. 

Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento ou castigo cruel que não possa aguentar. 

Todos são iguais perante a lei. Isto é, todos tremem. 

Todo homem tem direito à vida, à liberdade e à segurança. Sem exageros. 

Todo homem tem direito a receber remédio efetivo para os atos que violem os direitos fundamentais: mercurocromo, gaze, esparadrapo... 

Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado, salvo honrosas exceções. 

Todo homem tem direito a um julgamento justo e imparcial de vez em quando. 

Todo homem é inocente até prova em contrário, forjada ou não. 

Todo homem tem direito à vida privada e à proteção. Nem que para isso tenha que ir parar numa cela. 

Todo homem, quando perseguido, tem direito a procurar asilo em outros países que perseguem menos. 

Todo homem tem direito a uma nacionalidade, embora isso não lhe traga direito algum. 

Todo homem tem direito à propriedade ou, pelo menos, ao aluguel dela. 

Todo homem tem direito à liberdade de pensamento. Mas que isso não lhe suba à cabeça. 

Todo homem tem direito à liberdade de expressão. Corporal, bem entendido. 

Todo homem tem direito ao trabalho, mesmo que não queira. 

Todo homem tem direito à instrução. Inclusive quem ensina. 

Todo homem tem direito de participar do governo do seu país. De preferência votando ou sendo votado. 

(Publicado originalmente em 1979, em parceria com o querido e saudoso amigo Carlos Carvalho, escritor e dramaturgo.)

(Do livro Punidos Venceremos) 

* Fraga. Jornalista e humorista, editor de antologias e curador de exposições de humor. Colunista do jornal Extra Classe.

domingo, 22 de maio de 2022

Hino à Proclamação da República

 Letra: Medeiros e Albuquerque (1867-1934)

Música: Leopoldo Augusto Miguez (1850-1902)

Proclamação da República-Benedito Calixto-1993

Seja um pálio de luz desdobrado.
Sob a larga amplidão destes céus
Este canto rebel que o passado
Vem remir dos mais torpes labéus!
Seja um hino de glória que fale
De esperança, de um novo porvir!
Com visões de triunfos embale
Quem por ele lutando surgir!

Liberdade! Liberdade!

Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!

Nós nem cremos que escravos outrora
Tenha havido em tão nobre País…
Hoje o rubro lampejo da aurora
Acha irmãos, não tiranos hostis.
Somos todos iguais! Ao futuro
Saberemos, unidos, levar
Nosso augusto estandarte que, puro,
Brilha, avante, da Pátria no altar!
 

Liberdade! Liberdade!... 

Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!

Se é mister que de peitos valentes
Haja sangue em nosso pendão,
Sangue vivo do herói Tiradentes
Batizou este audaz pavilhão!
Mensageiros de paz, paz queremos,
É de amor nossa força e poder
Mas da guerra nos transes supremos
Heis de ver-nos lutar e vencer!
 

Liberdade! Liberdade!... 

Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!

Do Ipiranga é preciso que o brado
Seja um grito soberbo de fé!
O Brasil já surgiu libertado,
Sobre as púrpuras régias de pé.
Eia, pois, brasileiros avante!
Verdes louros colhamos louçãos!
Livre terra de livres irmãos!
 

Liberdade! Liberdade!...

Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!

Histórico 

Movimento político-militar que acaba com o Brasil imperial e instaura no país uma República federativa. A Proclamação da República é feita pelo Marechal Deodoro da Fonseca no dia 15 de novembro de 1889, no Rio de Janeiro. 

O último abalo da monarquia é o fim da escravidão, em 13 de maio de 1888. O império perde o apoio de escravocratas, que aderem à República. Liderados pelos republicanos “históricos”, civis e militares, conspiram contra o império. Comandante de prestígio, o Marechal Deodoro da Fonseca é convidado para comandar o golpe. 

A 15 de novembro de 1889, no Rio de Janeiro, à frente de suas tropas, o militar proclama a República. O antigo regime não resiste, mas também não há euforia popular. Dom Pedro II e a família real embarcam para Portugal dois dias depois. Deodoro da Fonseca assume a chefia do novo governo. 

Vocabulário 

Audaz: corajoso
Augusto: majestoso
Aurora: nascer do sol
Brado: grito
Estandarte: bandeira
Hostis: inimigos
Labéus: desonras
Lampejo: clarão
Louçãos: vistosos
Louros: glórias
Mister: necessário
Outrora: em outro tempo
Ovante: triunfante, jubiloso, vitorioso
Pálio: manto
Pendão: bandeira
Porvir: tempo futuro
Púrpuras: vermelhos-escuros
Rebel: revoltoso
Régias: reais
Remir: redimir
Rubro: vermelho
Soberbo: orgulhoso
Tiranos: governantes cruéis
Torpes: repugnantes
Transes supremos: momentos decisivos

Campereada

 Alma andante de tropeiro 

Paulo Mendes

O mundo, meus amigos, gira, gira e gira, roda, roda e roda, passam os dias, as noites, meses e anos, mas continua sempre igual. Minto? Não, não minto, o senhor e a senhora sabem disso. O que muda somos nós, o nosso corpo, às vezes, nossos pensamentos. Tenho a impressão de que nunca mudei, apesar de tantos anos já terem se passado desde aqueles longínquos anos em que fui bolicheiro na Vila Rica. Parece que foi ontem. Havia tardes que seu Neto, o tropeiro, passava pelo bolicho, ele e seu filho, um tal de Pelado, um guri que havia ficado careca precocemente, e que ele criara como filho desde pequeno. O Pelado fora “cria enjeitada”, os pais o abandonaram dentro de uma caixa de papelão na porta de um colégio de freiras. O caso ganhou repercussão e seu Neto se apiedou e se apresentou para assumir a criança. Era um homem conhecido, pobre, mas honesto e trabalhador. O juiz homologou a adoção. 

Apeavam, atavam os cavalos nos cinamomos e entravam na bodega. Eu os esperava na porta, faceiro, pois eram alegres e brincalhões. Seu Neto pedia um aperitivo de canha, um copo pequeno e o filho, um guaraná. Eu os servia e ficávamos conversando, os dois me contando suas aventuras com as tropas que costumavam repontar para a “Charqueada”, como chamávamos o frigorífico. Muito tempo atrás era mesmo uma charqueada, mas ficara o costume e o nome. Viviam juntos, os dois, pelos caminhos ermos do Planalto, pelos corredores sem fim, dia e noite. Seu Neto tinha uma casinha simples no arrabalde da Vila Rica, onde morava a esposa, dona Antônia. O casal de filhos já adultos, tinha batido as asas, “se foram” como dizia, para outros pagos, ganhar a vida. O tropeiro fora morar na cidade justamente para que os filhos pudessem estudar “e não passar os sacrifícios de um tropeiro”. 

O Pelado não quis estudar de jeito nenhum, preferiu seguir o ofício do pai, como se precisasse pagar um favor. No segundo ano primário, pediu para acompanhar o pai nas lides. “Esse guri nasceu pra viver comigo mesmo”, conformou-se o velho tropeiro e, assim, fizeram uma vida juntos. Um ajudando o outro. O velho, ensinando ao guri as artimanhas da atividade, o guri ensinando ao velho que ainda era possível ser guri de novo. E, apesar de parecer o contrário, o Pelado era flor de sabido. Gostava de ver as figuras em meus livros escolares que mostrava a ele nas horas em que seu Neto proseava com meu pai nas tardes domingueiras. Ele se animava , indagava o nome dos lugares, das cidades grandes, das imagens de botânica, de ciências e do corpo humano. Depois emudecia, mirava vazio e eu, sem saber o que fazer, guardava os livros e ficava sentado ao seu lado, solidário em seu mutismo campeiro. 

Seu Neto e o Pelado foram criaturas raras que conheci no tempo de bodegueiro. Foram felizes na culatra das tropas até serem engolidos pelo progresso e pelos caminhões boiadeiros. Seu Neto morreu de velho, sentado em frente da casa escutando Gildo de Freitas. O Pelado se empregou num aviário e aos finais de semana participa de rodeios. Na última vez que o vi, abraçou-me com os olhos encharcados e pediu: “Conte no jornal um pouco do que fizemos”. Conto sim, Pelado, porque jurei que faria isso e porque há muito me tornei um tropeiro das palavras. 

(Do Correio do Povo, 26 de dezembro de 2016)

sábado, 21 de maio de 2022

Velhas e lindas e livres

 Magali Moraes

Com que idade a gente fica velha? Dizem que o corpo humano começa a envelhecer a partir do momento em que se nasce. Mal comparando (e sendo bem racional), é como um carro 0 km, que já desvaloriza assim que sai da revenda. Pesquisadores mais otimistas afirmam que o organismo inicia o processo de envelhecimento aos 20-30 anos. Desesperador? Injusto? Quando a gente se dá conta, a coisa está rolando há muito tempo. E você com medo dos 40, 50, 60. 

Pra que se iludir? Seria menos estressante aceitar o fato e se preparar com antecedência. Pena que a sociedade insiste em cobrar a juventude eterna. Se é um processo fisiológico pelo qual todos nós passamos, não ter essa vivência significa sair de cena precocemente (o que não é uma boa opção). Alguns lidam melhor com o envelhecer, mas as mulheres sofrem mais pela pressão envolvida. Pensei duas vezes se colocava “velhas” lá no título. Que o choque da palavra sirva pra ativar o colágeno. 

Rugas adoram jogar na nossa cara a passagem do tempo. Marcas de expressão que vincam a pele são resultado de infinitos sorrisos, preocupações, boas e más experiências – basicamente o viver. Vem incluído no kit as paralelas na testa, o bigode chinês, as linhas de marionete (boca de ventríloquo), o código de barras ao redor da boca. Saudade de quando a gente só esperava os pés de galinha. Ah, se fosse apenas o rosto a revelar a quilometragem alta. Tem o pescoço plissado (inventei essa), manchas nas mãos, pele soltando do osso, dores nas juntas. 

Reformulando a pergunta inicial: com que idade a gente realmente fica velha? A idade do corpo ou da mente? Aí que o jogo vira. O emocional é tão poderoso quanto o condicionamento físico. Precisa de mais leveza, bom humor e menos paranoia pra transitar nessa fase da vida. Lembrando que jovens de alma idosa existem aos montes. Se sentir bem na própria pele (enrugada ou não) é uma baita vantagem competitiva. 

Já é notícia antiga que a população brasileira está envelhecendo. Sem tempo pra etarismo, gente. Podemos ser velhas e lindas, livres, sábias, gostosas, produtivas, orgulhosas da nossa trajetória. Com ou sem botox. De cabelo branco ou pintado. Buscar o que nos faz bem, começar projetos desafiadores, usar a roupa e a make que quisermos. Amar na idade que for. Ter vida social intensa ou preferir o sossego. Assumir que não temos mais paciência pra gente chata e escolher quem merece a nossa companhia (virou mantra, Manu). 

Se foi tranquilo pro Brad Pitt dizer que ele está velho e não aguenta mais gravações à noite (o vídeo circula na internet), pra cantora Adele deve ter sido libertador falar que ela não quer fazer hits pro Tik Tok. Que prefere criar músicas pra quem é da sua geração, “pessoas que estão no meu nível em termos da quantidade de anos que passamos na terra e as coisas que passamos”. Acho justo. 

******* 

(Do jornal Zero Hora, maio de 2022) 

Punidos venceremos

 Por Fraga*

Arte: Rafael Sica 

Num dia de junho, ao dar de cara com uma charge que era a sua cara, Bozonaro engrenou verbos reativos: emburreceu, emputeceu, enlouqueceu. 

Como não bastou gritar basta! pela nona vez, decidiu invocar a Lei de Segurança Nacional. Aquela mesma que, se o senhor não tá lembrado dá licença de alarmar: a da Ditadura. Lei que, na matilha das leis que ameaçavam as liberdades, era um pitbull hidrófobo contra o livre pensar. 

Mandou abrir investigação contra o autor. Onde se viu chargista ousar um perfeito retrato falado da presidência? Danação! Dias antes, ódio nos olhos por charges certeiras contra a violência policial, já interpelara na justiça outros 4 chargistas. Se pretos e pobres das periferias continuam na preferência para apanhar e serem mortos, nunca irão faltar charges. 

Bozonaro já não sabe o que fazer com o enxame de chargistas ao redor da sua estupidez. São Aroeiras, Laertes, Benetts, Montanaros, Mors, Santiagos, Vasques e Hals, entre outros ferrões. Eles esvoaçam pela mídia e redes à procura do néctar ácido da realidade, com o qual produzem a crítica que tanto azeda Bozonaro e mobiliza a opinião pública. Charge é serviço à sociedade. 

Aos zumbidos, Bozonaro até se faz de surdo. Ele mesmo é mais barulhento que qualquer abelheira. As últimas ferroadas é que doeram na alma do desalmado. Aroeira picou mais fundo, ao transformar a cruz vermelha dos hospitais invadidos numa suástica bozonazista. Enquanto o impeachment não vem, serve pichação gráfica. 

Ao apelar à Lei de Segurança Nacional, o inseguro chefe do Executivo (que nada executa pro bem do país) mexeu com o vespeiro todo: mais de 150 chargistas aferroaram esse crente da morte e descrente na ciência. Por incitar as viróticas invasões hospitalares, fez jus ao repúdio a traço. 

O deprimente da república esquece o óbvio: só uma lei pode impedir charges contra desmandos de governantes e contra a violência policial – basta governar democraticamente e policiar sem truculência. De resto, os ataques de Bozonaro à democracia são mais virulentos que charges denunciadoras dos seus desatinos; e as canetas contra cassetetes, muitíssimo menos violentas que a própria PM. 

Bozonaro blefa em vão: não há como conter a inteligência ferina do humor. Nem como inibir centenas de artistas e coibir tantos espaços para manifestação. Tampouco censurar as artes da charge, do cartum, da tira, da caricatura. Ou decretar o uso exclusivo de nanquim rosa para suavizar a imagem do pior presidente que o Brasil já teve. 

Quanto menos democracia, mais chargistas e charges. 

Publicado em 15 de julho de 2020 

* Fraga é escritor, humorista, publicitário. Escreve mensalmente para o jornal Extra Classe.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Versinhos revisitados

 Por Fraga*

I

Batatinha quando nasce

esparrama pelo chão,

aí vem o intermediário

e começa a inflação. 

II

Atirei um limão verde

de pesado foi ao fundo.

E os peixinhos gritaram:

“Tem DDT, seu imundo!” 

III

Lá atrás daquele morro

corre água com  sabão.

Meu verso acabava em sexo

se não tivesse ´poluição. 

IV

Quando eu era pequeninho

minha mãe me dava leite.

E agora que eu sou grande

a carestia me dá porrete. 

V

Ciranda, cirandinha,

vamos todos cirandar.

Vamos dar a meia volta,

que a ordem é circular! 

VI

O anel que eu te dei

era falso e se quebrou.

O carnê que tô pagando

é de verdade e me ralou. 

VII

Eu fui no itororó

buscar água e não achei.

Encontrei só detergente

e de raiva eu espumei. 

VIII

Se essa rua fosse minha

eu mandava ladrilhar

com recibos de impostos

pra Prefeitura se lembrar. 

IX

Cassetete que bate-bate,

cassetete que já bateu.

Quem gosta dele é o PM,

quem detesta ele sou eu. 

X

Atirei um pau no gato,

mas o gato não morreu.

A Protetora indignou-se

com um animal como eu. 

XI

Se eu fosse um peixinho

e soubesse negociar,

enriquecia com o óleo

que há nas ondas do mar. 

XII

O cravo brigou com a rosa

debaixo duma sacada.

O prédio não foi tombado

e a história foi especulada. 

XIII

Marcha soldado,

cabeça de papel.

Se não marchar pra direita,

vai preso pro quartel.

 

* Do livro “Punidos venceremos.”

Poeta Fabrício Carpinejar responde

 Alexandre Frota com texto sobre Pernambuco

Poeta gaúcho escreveu em rede social texto que relembra qualidade cultural de Pernambuco em resposta a comentário polêmico do deputado eleito. 

Poeta, jornalista e escritor, Fabrício Carpinejar, se manifestou através da sua conta no instagram contra o comentário polêmico do deputado eleito Alexandre Frota. No texto, Carpinejar reafirma a qualidade cultural e artística presentes em figura icônicas que nasceram em Pernambuco para fazer alusão de forma irônica a forma pejorativo em que Frota respondeu a um seguidor no twitter nos últimos dias. 

Carpinejar é filho dos poetas Maria Carpi e Carlos Nejar e tem mais de 324 mil seguidores no instagram. A publicação do escritor foi curtida e aclamada, em uma hora, por mais de 4.500 pessoas. 

Relembre o caso

Ao postar, na última terça-feira (25.12.2018), afirmando que 'o Twitter é a rede que mais tem professores, estudiosos, cientistas e lacradores culturais', Frota foi surpreendido por um comentário: 'Também tem ator pornô que não paga a pensão do filho'. De forma pejorativa, respondeu: 'só podia ser de Pernambuco’. A publicação gerou uma repercussão negativa entre os usuários da rede. 

Confira o texto na íntegra: 

Só podia ser mesmo de Pernambuco

Fabrício Carpinejar

Só podia ser de Pernambuco a poesia geométrica de João Cabral, o teatro da vida real, a morte e vida severina. Só podia ser de Pernambuco o frevo, o maracatu, o Galo da Madrugada, a alegria ecumênica. Só podia ser de Pernambuco os bonecos de Olinda, o olhar oceânico do alto das igrejas e dos muros brancos. Só podia ser de Pernambuco a literatura de cordel, o raciocínio rápido do repente, a magia dos violeiros. Só podia ser de Pernambuco Manuel Bandeira e a Estrela da Manhã. Só podia ser de Pernambuco Nelson Rodrigues e o seu carinho pelos vira-latas mancos. Só podia ser de Pernambuco a infância misteriosa de Clarice Lispector, a descoberta da leitura. Só podia ser de Pernambuco Chico Science e o movimento manguebeat. Só podia ser de Pernambuco a cerâmica de Francisco Brennand e seus 1001 dias iluminados de esculturas e azulejos. Só podia ser de Pernambuco o modernismo de Cícero Dias, que já dizia em sua pintura: “Eu vi o mundo... ele começava no Recife”. Só podia ser de Pernambuco a pedagogia de Paulo Freire (do oprimido, da libertação, do compromisso, da autonomia e da solidariedade). Só podia ser de Pernambuco o cinema inovador de Kleber Mendonça Filho (“O Som ao Redor” e “Aquarius”) e de Cláudio Assis (“Amarelo Manga” e “Febre do Rato”). Só podia ser de Pernambuco a irreverência contagiante de Chacrinha. Só podia ser de Pernambuco a sociologia de Gilberto Freyre, profeta do multiculturalismo. Só podia ser de Pernambuco Vavá, o peito de aço, bicampeão mundial de futebol. Só podia ser de Pernambuco Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Só podia ser de Pernambuco o abolicionista Joaquim Nabuco. 

Tem razão. Só podia ser mesmo de Pernambuco, 

(Do Blog do Diário de Pernambuco)