terça-feira, 8 de agosto de 2023

A lista

Letra e música de Oswaldo Montenegro

Faça uma lista de grandes amigos.
Quem você mais via há dez anos atrás,
Quantos você ainda vê todo dia,
Quantos você já não encontra mais.
 

Faça uma lista dos sonhos que tinha,
Quantos você desistiu de sonhar,
Quantos amores jurados pra sempre,
Quantos você conseguiu preservar.
 

Onde você ainda se reconhece,
Na foto passada ou no espelho de agora.
Hoje é do jeito que achou que seria,
Quantos amigos você jogou fora.
 

Quantos mistérios que você sondava,
Quantos você conseguiu entender,
Quantos segredos que você guardava.
Hoje são bobos ninguém quer saber.
 

Quantas mentiras você condenava,
Quantas você teve que cometer,
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você.
 

Quantas canções que você não cantava,
Hoje assovia pra sobreviver,
Quantas pessoas que você amava,
Hoje acredita que amam você.
 

Faça uma lista de grandes amigos.
Quem você mais via há dez anos atrás.
Quantos você ainda vê todo dia.
Quantos você já não encontra mais.
 

Quantos segredos que você guardava,
Hoje são bobos ninguém quer saber.
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você...

P.S. Escute, na internet, essa música interpretada pelo próprio autor, Oswaldo Montenegro.  

Alma desnuda

 Paulo Mendes

Sempre que volto à Vila Rica, minha alma se desnuda por inteiro. O poncho do tempo retorna para a mala e aparece e corpo sem roupa, límpido e natural. Eu me vejo nos galhos mutilados do arvoredo, nos campos limpos, sem cercas e matagais, nas várzeas aterradas onde viviam as preás e onde nem os gritos estridentes dos quero-queros não se escutam mais. Resistem os bem-te-vis, os sabiás, as palomas e as torcaças. O progresso chegou e despiu de vez a terra que antes vicejava feliz e quieta, os campos exibiam a grama forquilha e, pelas macegas, nasciam terneiros, borregos e potros. A bicharada crescia correndo de cola erguida pelas coxilhas esverdeadas. Ah, minha terra querida, sofremos juntos, porque tudo que fizeram contigo sinto eu pelos meus internos, pelas minhas veias e nervos, músculos e ossos. Dói ver-te assim revirada, pisoteada pelas enormes rodas de tratores, plantadeiras e uma parafernália de equipamentos. 

Nos galpões não se sente mais o cheiro do suor dos fletes, não se enxerga mais um grupo de pavenas de pilchas puídas tomando mate ao redor dos fogões campeiros, nem arreios sobre os cavaletes, cordas penduradas, laços de doze braças enrodilhados no chão de saibro, nem se ouvem mais os causos de assombração, boitatá e patacões de ouro enterrados em marmitas de ferro. Nada, só vigora o silêncio por entre máquinas gigantes e o cheiro do salitre de adubos, fertilizantes, veneno para isso e aquilo, sobras de óleo diesel, muitos galões e latas, sementes, bombonas plásticas de todos os tamanhos, embalagens, pneus velhos, restos de maquinário estragado, tetos metálicos. Meu Deus, cadê os ranchos de pau a pique barreados, com tetos de santa-fé, de zinco e telhas? 

Onde foram parar os ventos alegres que embalaram minha infância na saudosa Vila Rica? A minha terra de outrora, onde se vibrava com os cavalos bons de pata no antigo Jockey Club naqueles ensolarados domingos. Eram gritos de incentivo desde a partida até a chegada. Onde estão os campeiros autênticos de pingos encilhados a preceito, as churrascadas em fogo de chão, o futebol nos campinhos ao lado das taquareiras? Vi gurizada treinando tiro de laço em bois de madeira sobre rodas ao lado das lavouras, em cenas que retratam os dias que estamos vivendo. A imitação da representação ou a caverna de Platão do Pampa moderno. Sem luzes, apenas sombras. 

Lá fora, os galhos descarnados mostram minha alma em carne viva, despojada do sonhadouro. Minha terra parece ser menos do que um lugar de ar, água e chão, mas um vau de vago e valor, onde se misturam abstração, sopro e espanto, um novo final de tarde e nova madrugada. Sinto-me um forasteiro que, depois de longa tropeada, desencilha sem ser reconhecido. Já não perguntam mais por mim, já não me reconhecem as laranjeiras das taperas, as avencas das velhas casas, os trancelins dos potreiros. Sobra a fugaz vontade de encontrar o passado, a reconstrução impossível estilhaçada pelo vento veloz. Retorno e o que fica no fundo do mato, na costa do rio, entre a despedida e regresso, é a consistência impalpável do aceno ou a beleza de um verso dentro do orvalho. Fica no movimento circular do tempo e do espaço, dorme na fresta invisível da saudade. 

(Da coluna “Campereada”, Correio do Povo, agosto de 2023)

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Fulano & Beltrano

 

Professora Etelvina e suas pílulas de sabedoria instantânea 

Fulano de Tal é o nome genérico que se dá a alguém incerto e não sabido. Fulanos somos todos nós, ou cada um de nós. A palavra original é hebraica – fuluni – e significava “um, dentre muitos”. O primeiro dos fulanos aparece já no Velho Testamento: “Fulano, vem assentar-te aqui” (Livro de Ruth, 4:1). Os árabes modificaram a grafia para fulan, os espanhóis adotaram o Fulán no século XVI. E foi daí que veio o português Fulano. Mas cada país do mundo tem seus próprios fulanos, com nome e sobrenome. O nosso é o Zé Ninguém, ou o Zé Povinho, ou o Zé da Silva. Aqui estão seus ilustres colegas. 

África do Sul: Piet Pompies 

Alemanha: Hans Mustermann 

América Latina: Juan Perez 

Austrália: Fred Nerk 

Áustria: Hans Maier 

Bósnia: Marko Markovic 

Brasil: Zé da Silva, Zé Ninguém 

Bulgária: Ivan Ivanov 

Canadá: John Jones 

Chile: Penco de Los Palotes 

Croácia: Pero Peric 

Estônia: Jaan Taam 

Estados Unidos: John Doe

Finlândia: Matti Meikäläinen 

França: Jean Dupont 

Hungria: Pista Jóska 

Inglaterra: Joe Bloggs 

Islândia: Jón Jónsson 

Índia: Aira Gaira 

Itália: Pinco Pallino 

Japão Taro Yamada 

Lituânia: Vardenis Pavardenis 

Noruega: Ola Nordmann 

Polônia: Jan Kowalski 

Romênia: Ion Popescu 

Suíça: Herr Schweizer

Com tanta gente fazendo tudo para ganhar alguns minutos de fama, é curioso – e até reconfortante – saber que as pessoas mais mencionadas no mundo na verdade não existem. 

A professora Etelvina está semanalmente nas páginas da revista Época, para brindar os leitores com seu saber enciclopedicamente inútil. 

(Época de 11 de setembro de 2006) 


No cotidiano dos idosos

 Larissa Rosa*

Inúmeros motivos contribuem para o desânimo, a tristeza, a ansiedade e até mesmo a depressão (dos idosos). 

Sinais de alerta 

► Impossibilidade de resolver questões e conflitos. 

► Dificuldade para dar conta dos sentimentos ou de compreendê-los. 

► Ter a sensação de perda ou de falta de sentido na vida, inutilidade. 

► Estar em sofrimento. 

► Mudanças significativas no sono e na alimentação (para mais ou menos). 

► Perda de interesse em atividades e hábitos antes prazerosos. 

► Pensamento excessivo em problemas, não conseguir se desligar. 

► Motivos que geram tristeza e ansiedade. 

► Aposentadoria sem organização prévia. 

► Viuvez. 

► Morte de familiares e de amigos. 

► Doenças crônicas, graves ou medo de adoecer. 

► Limitações físicas, depender de outras pessoas. 

► Perda de identidade: “Estou velho, e agora?”. 

► Solidão, afastamento de filhos e netos. 

► Dificuldade para retornar a rotina após pandemia. 

► Questionamento sobre o fim da vida, e balanço sobre realizações e, principalmente, o que não foi feito. 

 **********

*Parte da matéria “Preciso de terapia”, do caderno Vida, de Zero Hora, agosto de 2023.

domingo, 6 de agosto de 2023

Se quiser viver muito,

 Nunca diga:

● Não consigo. 

● Não posso. 

● Não tenho mais idade para isso. 

● Não vou porque estou cansado. 

● Não vou porque está muito frio. 

● Não vou porque não tenho roupa. 

● Não me pergunte com vai, pergunte onde dói. 

● Não vou porque não tenho ninguém para me levar. 

● Não vou porque posso pegar uma gripe. 

● Não gosto de tomar remédio. 

● Os remédios terminam me prejudicando. 

● Esqueceram de mim. 

● Se eu for, não atrapalharei? 

● Todos os meus amigos já morreram. 

● Tudo me faz mal. 

● Agora já é tarde. 

● No meu tempo que era bom... 

● Eu já vivi muito! 

● Eu já trabalhei demais nesta vida. 

● Não acredito em mais nada. 

● Não amo ninguém. 

● Ninguém me ama. 

Respostas erradas 

a uma simples pergunta: 

“Como vai?”

 

● Vai se levando. 

● Mais ou menos. 

● Vivendo. 

● Sobrevivendo. 

● Escapando. 

● Respirando. 

● Poderia ser melhor. 

● Se não sentisse tanta dor iria bem. 

● Aqui, sozinho... 

● Vou levando como posso. 

● Vou indo. 

● Vida de pobre é isso mesmo. 

● Como Deus quer. 

Do livro: 

“Pílulas para prolongar a juventude”, 

Dr. Fernando Lucchese.

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Regras para viver

Regras para viver

 Muito

● Aceite-se como você é. 

● Acerque-se de seus familiares e amigos. 

● Mantenha-se ativo e útil. Não se aposente. 

● Não entre em disputa ou competição (que não leve a nada). 

● Seja flexível. Aceite mudanças ao natural, sem ser forçado. 

● Aprenda a viver gastando pouco dinheiro. 

● Mantenha seu cérebro em atividade. Exercite-o. 

● Não cultive o passado. Dedique-se a planejar o futuro. 

● Não corra riscos desnecessários. 

● Caminhe e alongue-se. 

● Mantenha-se magro(a). 

● Cultive sua espiritualidade. 

● Mas, principalmente, queira viver muito. 

Regras para viver

 Pouco

● Sempre acredite que não acontecerá com você. 

● Não se exercite. Fume, coma muito, principalmente gorduras. 

● Estimule em você o “trio maléfico”: inveja, raiva, vaidade. 

● Seja mal-humorado, afaste-se de familiares e amigos. 

● Cultive o ócio e a apatia. 

● Faça dívidas, gaste mais do que ganha. 

● Arrisque-se. 

● Não valorize dores, não acredite em médicos, não faça revisão de saúde. 

● Não acredite em nada, em você mesmo, em seus amigos. Mas, principalmente, não acredite em Deus. 

● Seja solitário e deprimido. 

● Procure conviver com gente exatamente igual a você, amarga. 

● Cultive ardorosamente o pessimismo. Repita muitas vezes “não vai dar certo”. 

● Queira viver pouco. 

Do livro:

 “Pílulas para prolongar a juventude”,

Dr. Fernando Lucchese 

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Fábula fabulosa

 

Era uma vez um pinto e uma piava.

O pinto pintava e piava. Mas a piava não pintava nem piava. 

O pinto pintava, porque já tinha pinta de galo. E piava, porque todo pinto pia. Pia, a sério ou pia por pilhéria, por simples piada. 

A piava não pintava, porque era piava e não pintado. É o filhote do pintado que pinta. E a piava não piava, porque a piava não é pinto. E é o pinto que pia. 

Nem o pinto nem a piava eram pintados. Eram pinto e piava de verdade. 

O pinto piava sempre que andava com sede e queria beber água na pia, onde vivia a piava. 

Quando o pinto piava, a piava se irritava e pintava o sete na pia. 

E, assim, o pinto piava e a piava pintava. 

(Textos do Almanhaque do Barão de Itararé de 1955 – primeiro semestre)