sexta-feira, 4 de abril de 2025

O Conquistador

 Juliano Martinz

Decidiu comprar um livro sobre como conquistar as mulheres. Taciturno, tortuoso, não lidava bem com elas. O pai, machista, o ensinara a tratá-las na base do tapa. A irmã, feminista, o ensinara a dizer sim para tudo o que elas dissessem. E até hoje, 35 anos nas costas, não fora capaz de conquistar um grande amor. Ao inferno com conselhos de pai e irmã. 

Comprou o livro de um especialista. “O Conquistador”, de Michelin Lucká. Que nome! Que sobrenome! 1048 páginas de sapiência amorosa derramado por cada entrelinha. Pulou o prefácio. Prefácios nunca dizem nada. Só enchem páginas, tomam tempo, e enriquecem escritores. Não tinha tempo a perder. Afinal, era um desesperado ansioso por colher cada conselho randômico ali distribuído, que mudaria sua vida amorosa por completo. ALL e DLL – Antes (e Depois) de Ler o Livro. Sua vida seria assim demarcada. Cobriu as páginas com uma voracidade selvagem em dois dias. Salivou a cada conselho, a cada página que o conduziria a uma nova existência. 

No terceiro dia, estava pronto. No terceiro dia, foi à caça… 

O especialista dissera: “Vista-se bem. Confira. Reconfira. Peça opiniões. Mulheres gostam de homens que se vestem bem. Se for pra sair com alguma camisa amarelo-cagado que seu avô te deu ano passado, fique em casa e vá assistir TV. Lembre-se: Vista-se muito bem”. Patético até o osso, foi à balada de terno. 

No bar, chegou balançando os braços. Isso demonstra segurança, dissera o especialista. Nada de mãos no bolso, movimentos curtos, passos miúdos. Isso é coisa de frouxo. Machos dominantes se movimentam exagerada e desnecessariamente. 

Parecendo mais um boneco biruta de posto de combustível, chegou ao balcão e pediu uma bebida. Gritou, na verdade. Lembrava-se do que havia lido: “Perdedores falam pra dentro. Vivem fazendo as pessoas dizerem: hã? quê? como?” Por garantia, esgoelou ao pedir um martíni. 

Deu mais umas balançadas epilépticas e olhou de lado, para uma morena arrebatadora. Tinha olhos flamejantes pra burro, pensou. Um inferno de bonita. Daquelas que fazem o cara esquecer toda a lição de casa. Mas conseguiu se lembrar do conselho: “Sempre faça barulho. Quando falar, grite. Quando pensar, grunha. Quando bocejar, gema. Quando não estiver fazendo nenhuma dessas coisas, comece a batucar uma mesa, balcão ou o que estiver na frente”. 

Coçou a cabeça, e gemeu; coçou o saco e grunhiu; se espreguiçou, e atroou um longo “ooouuuuuuuuuaaaaaaaiiiiiiaaaaaaaiiiii” bem rouco, parecendo um javali dominante da floresta. Olhou para a morena – correção: morenaça ‒, tentando imitar o olhar de James Bond. 

“No primeiro contato que tiver com uma mulher, nunca diga ‘oi’. Isso é coisa de perdedor. Fale no mínimo 3 ou 4 palavras. Fale frases. Mulheres gostam de homens que falam frases. Nada de interjeições imbecis. Se for pra ficar na base do ‘legal, hum, puxa, que coisa’, melhor voltar pra casa e comer farinha láctea”. 

– E aí, gata, que que rola? 

– Quê??? 

“Se a mulher perguntar ‘quê?’ com uma expressão de quem acabou de presenciar alguém vomitando, suas chances estão no fim. Se quiser continuar vá em frente – já lidei com muitos idiotas teimosos como você ‒, mas vou avisando: nesse ritmo, acho melhor ligar pra sua mamãe e pedir pra voltar a morar com ela”. 

– Posso te pagar uma bebida? 

– Eu já tenho uma – disse, apontando para o copo, evidentemente desinteressada ou fazendo tipinho. Sinceramente? Ela não estava fazendo tipinho. 

Lembrou-se que o especialista havia dito sobre fazer as mulheres rirem. Mulheres gostam de caras que as façam rir. Uma sacada engraçada era o que ele precisava agora. 

– Pois eu ainda não tenho uma bebida. Me paga uma? – E riu. Ele, claro. Ela, séria.“Se você fizer uma piada e a mulher fizer uma expressão de búfalo em época de seca, com o sol a pino, em pleno verão africano, pode levar este livro de volta na livraria e pedir reembolso. Trabalho com perdedores, mas você já passou da conta”. 

Mas ele não estava a fim de se entregar tão facilmente. Tinha nas mangas um grande trunfo, o grande conselho do sábio que lhe dera forças para estar ali. “Seja sincero. Isto derrete o coração de qualquer durona”. 

– Escute, eu… eu não sei lidar muito bem com as mulheres, entende? Até comprei um livro pra aprender um pouco sobre a arte da sedução, mas confesso, acho que não levo jeito pro negócio. A única coisa que sei é que você é de longe a mulher mais linda dentro deste bar, e se for pra levar um fora, quero levar um fora seu. 

Ela sorriu. Pensou no que dizer. Isso é bom. “Mulheres quando pensam no que vão dizer é sinal de que…”. De que…? de que…? Ah, dane-se. É sinal de alguma coisa. 

– Escute querido. Se está aplicando o conselho de algum especialista, te aconselho a trocar de escritor. Esse aí com certeza é charlatão. – E voltou-se para a bebida. 

Quanto a ele, magoado, voltou pra casa. Ainda sozinho. Ainda solitário. Para o dia de amanhã, não sabia muitas coisas, nem tinha esperanças. Mas ao menos tinha duas certezas. 

Iria à livraria para devolver o livro; e no caminho de volta, aproveitaria pra comprar mais uma lata de farinha láctea. 

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Do Livro: Contos e crônicas de humor sobre conquistadores 

Sobre o autor: Juliano Martinz é escritor, biógrafo e criador do site Literatura Corrosiva.

A construção do Cristo Redentor

 

O Cristo Redentor, localizado no alto do Morro do Corcovado, no Rio de Janeiro, é mais do que uma obra de engenharia: é um símbolo universal de paz, acolhimento e fé. Reconhecido como uma das Novas Sete Maravilhas do Mundo, o monumento atrai milhões de visitantes anualmente e continua a inspirar pessoas ao redor do globo. Neste artigo, exploramos a história, a construção e a importância cultural do Cristo Redentor. 

Depois que você ver o que vou te mostrar sobre a construção do Cristo Redentor, você pensará duas vezes antes de olhar para ele do mesmo jeito. O que parece hoje uma obra sólida e eterna já foi um projeto polêmico, arriscado e cercado de desafios quase impossíveis. O símbolo mais conhecido do Brasil nasceu no meio da neblina, da fé e da ousadia. 

O terreno era instável, o acesso era precário, e a tecnologia da época limitava tudo. Ainda assim, uma equipe de engenheiros, artistas e trabalhadores ergueu a estátua com precisão milimétrica, enfrentando ventos, chuvas e a solidão de estar no topo de uma montanha com nada além da vista infinita do Rio. A construção foi uma prova de resistência ‒ física e simbólica. 

O mais curioso é que o Cristo Redentor não foi unanimidade. Muitos duvidaram, criticaram, tentaram barrar a ideia. E mesmo depois de erguido, o monumento continuou sendo alvo de debates. Mas é justamente essa carga histórica e emocional que torna o Cristo tão poderoso. Ele não é só uma estátua: é a materialização de um sonho coletivo que teima em permanecer de pé. 

Hoje, ao olhar para ele com os braços abertos sobre a cidade, talvez você sinta mais do que admiração estética. Talvez sinta o peso de cada andaime, de cada pedra transportada, de cada silêncio suportado por quem acreditou que o Rio merecia esse marco. Porque o Cristo Redentor, antes de ser símbolo, foi desafio. E o desafio virou lenda. 

O Cristo Redentor não é apenas uma obra arquitetônica ou um ponto turístico: é um símbolo de união, acolhimento e espiritualidade que transcende fronteiras. Representando o Brasil com grandeza, o monumento segue inspirando milhões de pessoas todos os anos, reafirmando sua posição como um dos maiores marcos do mundo. 

Mais do que uma obra de arte, o Cristo Redentor simboliza a hospitalidade e a fé do povo brasileiro. Seus braços abertos representam um convite para a paz e o acolhimento. Ao longo das décadas, o monumento se tornou um marco de identidade nacional e um ponto de conexão entre diferentes culturas. 

Em 2007, o Cristo Redentor foi eleito uma das Novas Sete Maravilhas do Mundo Moderno, consolidando seu status como um dos monumentos mais importantes do planeta. 

Visitar o Cristo Redentor é uma experiência inesquecível, que conecta história, cultura e a beleza natural incomparável do Rio de Janeiro. 


Os chatos da língua

São os puristas. E ponha chato nisso. Principalmente para nós, que sabemos português de ouvido. Segundo um tio meu, gramático é um camarada que só entende de gramática. E, na opinião de um velho professor que tive no ginásio, para qualquer asneira que se escreva haverá sempre um autor clássico para nos defender. 

Pois, passando os olhos num dicionário de dúvidas da língua portuguesa, encontrei algumas expressões que os puristas (onde eles se escondem durante o dia?) dizem ser preferíveis a certas palavras honestas e humildes que usamos a toda hora. Por exemplo: babouches em vez de chinelas; açafate em vez de corbeille; premagem em vez de massagem; e frouxel em vez de edredom. 

Como bom aluno que sou e amante das coisas puras, comecei imediatamente a pôr em prática o purismo vernacular. 

Assim que minha empregada apareceu, pedi-lhe que pegasse embaixo da cama as minhas babouches. Nada feito. Ela me trouxe os mais variados objetos, desde a chupeta do caçula a uma vara de pescar. 

Depois pedi à esposa que providenciasse uma açafate para festejar o aniversário de uma amiga ‒ e também não fui compreendido. Por fim, já louco de ódio porque não conseguia devolver para a gaveta um frouxel vermelho, escorreguei e dei um mau jeito na perna. Quando pedi à enfermeira que me aplicasse uma premagem, ela encabulou disse que não estava ali para isso e que, se eu quisesse, o máximo que podia me aplicar era uma massagem. 

Massagem que, aliás, me fez um glorioso bem. 

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Do livro “O pescoço da girafa

pílulas de humor por Max Nunes”,

Seleção e organização Ruy Castro 

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Cartas para ler quando estiver sozinho

 

Eu tinha treze anos quando minha família se mudou. Eu era, como a maioria dos adolescentes, raivoso e rebelde, não dando importância ao que meus pais diziam, principalmente se tivesse alguma coisa a ver com meu comportamento. 

Lutava para contestar qualquer coisa que não correspondesse à minha ideia do mundo. De uma extrema autossuficiência, eu rejeitava qualquer manifestação pública de amor. Na verdade, ficava irritado com a simples menção da palavra amor. 

Na noite de um dia particularmente difícil, entrei no quarto como um furacão, tranquei a porta e me joguei na cama. Ali deitado, escorreguei as mãos por baixo do travesseiro e achei um envelope. Nele se lia: “Para ler quando estiver sozinho.” Como estava sozinho, ninguém saberia se eu lera ou não. Assim, abri e li: 

“Mike, sei que a vida está dura agora, sei que você se sente frustrado e que, apesar da nossa boa intenção, nem tudo que fazemos é certo. Mas sei principalmente que amo você demais e nada do que você faça ou diga vai mudar isso. Nunca. Estou aqui para conversar, se você precisar e, se não precisar, tudo bem. Saiba que não importa aonde você vá ou o que você faça na vida, sempre vou amá-lo e sentir orgulho de tê-lo como filho. Estou aqui por você e o amo. Isso não vai mudar nunca. Com amor. Mamãe.” 

Esta foi a primeira de muitas cartas “para ler quando estiver sozinho”. Jamais falamos sobre elas, até eu ser adulto. 

Hoje, eu corro mundo ajudando pessoas. Estava dando um seminário na Flórida e, no final da palestra, uma senhora veio falar comigo sobre os problemas que estava tendo com o filho. Fomos até a praia e falei para ela do enorme amor de minha mãe e das cartas “para ler quando estiver sozinho”. Semanas depois, recebi um cartão onde a senhora dizia ter escrito sua primeira carta para o rapaz. 

Naquela noite, passei a mão sob meu travesseiro e me lembrei do alívio que sentia sempre que encontrava uma carta. Nos anos atribulados de minha adolescência, as cartas eram a garantia silenciosa de que eu era amado, apesar de tudo, incondicionalmente. Essa gratuidade do amor de minha mãe me ajudou a superar as crises e revoltas da adolescência e fez vir à tona o que eu tinha de melhor. Agradeci a Deus por minha mãe saber do que eu – um adolescente raivoso – precisava. Por ela ter persistido apesar do meu silêncio, da minha aparente indiferença. 

Hoje, quando os mares da vida se tornam revoltos, sei bem que sob o meu travesseiro está a segurança de que o amor – consistente, durável, incondicional – é capaz de mudar vidas. 

Mike Straver 

Histórias para Aquecer o Coração das Mães

Cabaré processa igreja no Ceará

 Uma questão jurídica de alta complexidade

A história começou a circular nas redes sociais e em diversos sites e blogs no final de abril de 2013. Tarcília Bezerra, dona de um prostíbulo na cidade de Aquiraz (Ceará), teria se aproveitado do crescimento da cidade para ampliar as instalações de seu cabaré, especialmente após a criação de Seguro Desemprego para pescadores e vários tipos de Bolsas. 

As publicações continuam informando que a Igreja Universal local iniciou uma forte campanha de oração para bloquear a expansão, com sessões de oração de manhã, à tarde e à noite. O trabalho de ampliação progrediu até a semana antes da reabertura, quando um raio atingiu o cabaré, provocando um incêndio que destruiu grande parte da construção.                            

Após a destruição, o pastor e os crentes da igreja se gabavam do “grande poder da oração”. Mas Tarcília processou a igreja, o pastor e toda a congregação, alegando que eles foram responsáveis pelo fim de seu prédio e negócio. 

O juiz, descrito como “sábio e encafifado”, comentou na audiência de abertura: 

“Eu não sei como diabos eu vou decidir neste caso, mas parece que a partir do que li até agora, temos a proprietária de um puteiro que acredita firmemente no poder das orações, e uma igreja inteira que pensa que as orações não valem nada”. 

A verdade por trás da história 

Apesar de hilária e interessante, a história é falsa. Não há evidências de que Tarcília Bezerra exista, e não há registros do processo. A história parece ter sido publicada inicialmente em uma página do Facebook e se espalhou pela web como uma lenda urbana.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Memórias futuras

 Uma crônica de Ivan Carvalho

Qual foi mesmo o ano em que o verão não terminou? O primeiro? 

Acho que foi 2025. O calor virou o ano, emendou com o verão seguinte, e nunca mais esfriou em Porto Alegre. 

Foi um ano terrível, a gente não estava preparada. A partir daí, foi só calor e tempestades. As laranjas goraram e as uvas passaram a dar o ano inteiro. 

Dizem que antes havia inverno. E é verdade, eu vi. Tive casacos de lã! E conheci geada. Meus netos não acreditam. Muita gente duvida. 

Depois daquele verão em que as pessoas morriam se saíssem na rua certas horas, acho que foi 2034, os expedientes passaram a ser noturnos. As lojas e tudo o mais só funcionavam à noite. 

Hoje, as pessoas gastam metade do que ganham em conta de luz, pois vivem no ar condicionado, os mais novos nem conhecem outra vida. 

E quem não tem AC? Bom, isto não existe, quem não tem foi desta para a melhor, ou viraram moradores de shoppings, amontoados nos corredores. Dizem que os antigos moradores de rua foram cremados em vida, mas não sei se isto é totalmente verídico. 

Foi por 2053, acho eu, minha memória não anda muito boa (cabeça quente dizem), que surgiu o movimento “nudez necessária”. A gente concluiu que usar roupas era uma convenção besta, que só interessava às indústrias de roupas, todas chinesas, muita gente aderiu a essa moda, cada vez mais. 

Hoje fez só 63 graus. Está fresquinho, acho que vou passear na orla do riacho Guaíba de madrugada... 

terça-feira, 1 de abril de 2025

O peba malicioso

 

Peba na Pimenta 

João Vale e Zé Batista 

Seu Malaquias preparou

cinco pebas na pimenta,

só do povo de Campinas,

Seu Malaquias convidou mais de quarenta.

Entre todos os convidados

pra comer peba foi também Maria Benta. 

Benta foi logo dizendo:

‒ Se ardê, não quero não.

Seu Malaquias então lhe disse:

‒ Pode comê sem susto,

pimentão não arde não.

Benta começou a comê,

a pimenta era da braba,

danou-se a ardê.

Ela chorava, se maldizia:

‒ Se eu soubesse, desse peba não comia.

Ai, ai,

seu Malaquias!

Ai, ai,

você disse que não ardia.

Ai, ai,

tá ardendo pra daná.

Ai, ai, tá me dando uma agonia. 

Ai, ai,

você disse que não ardia.

Depois houve arrasta-pé,

O forró tava esquentando,

o sanfoneiro, então, me disse:

‒ Tem gente aí que tá dançando soluçando.

Procurei pra ver quem era,

pois era Benta

que inda estava reclamando.

Ai, ai, ai,

seu Malaquias.

Ai, ai,

você disse que não ardia.

Ai, ai,

que tá bom eu sei que tá.

Ai, ai,

mas tá fazendo uma arrelia.

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*Peba é um tatu. A gente caça e pra comer com pimenta, pois fica mais delicioso.