domingo, 21 de junho de 2026

Vacinas que protegem de doença respiratórias

 Sofia Lungui

Vírus influenza 

Além de proteger quem recebe a vacina, o imunizante contra influenza, vírus causador da gripe, também contribui para diminuir a circulação do vírus. 

A vacina aplicada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) protege contra três cepas: duas do tipo A (H1N1 e H3N2), e uma do tipo B. A campanha é prioritária para crianças, gestantes e idosos. Em redes privadas, pode-se aplicar o imunizante tetravalente. A dose costuma custar cerca de R$100,00. 

O pico de circulação do vírus ocorre normalmente entre março e maio. Por isso, o ideal é se vacinar antes disso, para garantir proteção durante o inverno. Mas a imunização traz benefícios o ano todo, e a vacina é indicada para todas as idades. 

‒ A influenza exige atualização anual para todo mundo, especialmente idosos e pessoas imunocomprometidas. A resposta da vacina declina ao longo do tempo, reduzindo a resposta imune, por isso é preciso tomar uma dose ao ano. 

Covid-19 

Apesar das mutações do vírus, os imunizantes disponíveis seguem eficazes contra as formas graves da doença. As vacinas nunca acompanham com exatidão a versão mais recente do vírus em circulação, mas mantêm proteção consistente contra hospitalização e morte, geralmente entre seis e 12 meses após a dose. 

No Brasil, a vacinação contra a covid-19 integra o calendário nacional para gestantes, idosos e crianças de seis meses a cinco anos. Grupos prioritários, como imunocompremetidos, trabalhadores de saúde, indígenas, quilombolas e pessoas com doenças crônicas também têm indicação de reforços periódicos. Em Porto Alegre, o imunizante está disponível gratuitamente na Clínica da Família Moab Caldas, na Clínica da Família IAPI, no Centro de Saúde Santa Marta, no Centro de Saúde Modelo e na Unidade de Saúde Tristeza. 

Para o restante da população adulta sem comorbidades, caso a pessoa já tenha tomado três doses, não há mais recomendação de atualização.  

Vacina contra bronquiolite (VSR) 

A vacina contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) previne infecções provocadas por esse vírus, que é uma das principais causas de bronquiolite em bebês e também pode levar idosos à internação. O imunizante contribui para prevenir pneumonia e o agravamento de doenças cardíacas ou pulmonares. No Brasil, o VSR é responsável por cerca de 75% dos casos de bronquiolite e 40% das ocorrências de pneumonia em crianças menores de dois anos. 

Na rede pública, o principal público alvo são mulheres grávidas, a partir da 28ͣ  semana da gestação. A vacinação protege não apenas as mães, mas também os bebês recém-nascidos. Não há restrição de idade para a mãe, e a orientação é tomar dose única a cada nova gestação. 

Idosos, portadores de doenças crônicas e imunosssuprimidos também podem fazer a vacina contra VSR disponível na rede privada para reduzir o risco de casos graves de doenças respiratórias. O custo médio é de 1,5 mil. 

Pneumocócicas 

A vacina pneumocócicas conjugada 20-valente (VPC20 ou pneumo 20), antes só encontrada na rede privada, agora estará disponível nos postos de saúde no RS. O novo imunizante protege contra 20 sorotipos da bactéria Streptococcus pneumoniae, principal causadora de pneumonia e meningite. As doenças são as que mais causam hospitalizações, sequelas e óbitos em crianças pequenas. 

Além das crianças de até cinco anos. A vacina também será oferecida via SUS aos povos indígenas sem histórico de imunização com vacinas pneumocócicas conjugadas, idosos acamados ou institucionalizados e pessoas com condições clínicas especiais atendidas através da Rede de Imunobiológicos Especiais do governo estadual. 

Idosos e pessoas com comorbidade ou imunossupressão também são mais vulneráveis e podem buscar a rede privada, onde a dose custa cerca de R$ 500.00. Há outros tipos da vacina com valores abaixo de R$ 100,00 nas clínicas, como a VPP23. A Unimed Porto Alegre oferece vacinação gratuita contra pneumonia para beneficiários idosos que façam parte do programa Viver Bem. 

Do caderno Vida do jornal Zero Hora,

20 de junho de 2026  

sábado, 20 de junho de 2026

A cigarra

 

A cigarra não come suas plantas. 

Ela canta porque só tem cinco semanas para viver. 

Deixa ela cantar. 

Passou de dois a cinco anos embaixo da terra se alimentando de raízes, mudou de casca quatro vezes, subiu à superfície, se agarrou ao primeiro tronco que encontrou e rompeu seu exoesqueleto. O que você escuta nesses meses é tudo o que verá dela acima da terra. 

Só os machos cantam e cantam para chamar parceira. Cinco semanas para encontrar fêmea, acasalar e morrer. As fêmeas depositam ovos em ranhuras finas de galhos jovens ‒ a árvore fecha a ferida sem problema. 

Não são praga. 

Enquanto isso, as cigarras alimentam sabiás, bem-te-vis e lagartixas. 

Seus túneis de ninfa oxigenam o solo. 

Se você encontrar uma presa numa janela, numa piscina ou no chão do quintal, segure-a com cuidado pelas laterais das asas e coloque-a num galho na meia-sombra. 

Só isso é o que ela precisa.

Carta aberta dos profissionais da Rádio Nacional

  Demitidos pela ditadura*

Logo após o golpe civil-militar de 1º de abril de 1964, começaram as perseguições em todo território nacional. O macartismo tomou conta até dos meios de comunicação com os dedos-duros apontando colegas como “comunistas” para estarem bem como os novos donos do poder. No rádio, dois nomes surgem em evidência como delatores: os dos apresentadores César de Alencar e Flávio Cavalcanti, apontados um e outro como responsáveis pela demissão, em um primeiro momento, de 149 funcionários da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, muitos deles arrolados posteriormente em Inquérito Policial Militar como participantes de uma suposta célula do PCB na emissora. 

Não era preciso provar, bastava fazer a acusação, que os militares encarregados do inquérito cuidavam do resto. Ainda que o resultado final fosse a absolvição, os radialistas, a essa altura, já tinham perdido seus empregos, sem condições de retorno à profissão, num campo de trabalho restrito e, de certa maneira, controlado pelo Ministério das Comunicações, que podia aplicar sanções às emissoras, suspendendo temporariamente as transmissões e até cassando seu alvará de funcionamento. 

Entre os profissionais da Rádio Nacional estão Oduvaldo Viana (pai), o criador da radionovela brasileira, encontrava-se entre as primeiras vítimas. Foi demitido da Rádio Nacional num “listão” que incluía também Heitor dos Prazeres, Ghiaroni, Mário Lago, Jararaca e Dias Gomes. As novelas de Oduvaldo continuaram sendo retransmitidas pela Rádio Nacional, mas o nome do autor foi omitido, configurando-se em apropriação de direitos autorais. Oduvaldo Viana Filho teve censurada a sua obra-prima, “Rasga Coração”, pelo que a divulgação do texto era feita em serões literários. 

******* 

*A “Carta aberta dos profissionais da Rádio Nacional demitidos pela ditadura” refere-se à mobilização histórica de repúdio e ao manifesto lançado pelos artistas e jornalistas perseguidos logo após o golpe de 1964. Em abril de 1964, a sede da emissora no Rio de Janeiro foi ocupada por militares. A repressão demitiu sumariamente 36 funcionários na primeira “lista de expurgo”, número que logo alcançou 67 nomes de profissionais sob a acusação de subversão e comunismo. 

A carta aberta e os manifestos elaborados pelos demitidos exigiam o fim da perseguição e a retratação do Estado pelas cassações arbitrárias. Anos depois, em 1980, os profissionais ainda vivos que integraram o movimento de resistência foram oficialmente reintegrados aos quadros da emissora. 

Em 23 de julho de 1964, foi expedido um decreto demitindo da Rádio Nacional os seguintes funcionários: Heitor dos Prazeres, Dalísio Machado, Edmo do Vale, Elias Haddad, Gerdal Renner dos Santos, Iracema Ferreira Maia, Jorge Neves Bastos, José Rodrigues Calasans (o Jararaca), José Marques Gomes, Mário Lago, Penha Marion Pereira, Rodnei Gomes, Severino do Brasil Manique Júnior, Antônio Ivan Gonzaga de Faria, Adelaide Andrade Teixeira, Epaminondas Xavier Gracindo (Paulo Gracindo), Fernando Barros da Silva, Francisco de Assis Pires, José Palmeira Guimarães, Jairo Argileu de Carmo e Silva, José Geraldo da Luz, João Anastácio Garreta Prates, Jorge Viana da Silva, Mário Farias Brasini, Newton Marin da Mata, Oduvaldo Viana, Ovídio Chaves, Paulo Grazioli, Sérgio Moura Bicca, Vanda Lacerda, Alfredo de Freitas Dias Gomes, Antônio Teixeira Filho, José Gomes Talarico, João de Sousa Lima, João Fagundes de Meneses e Helmicio José Fróis. As investigações continuaram e o resultado foi o de 67 funcionários afastados e 81 demitidos.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Você sabia?

 (Por Marcelo Duarte – autor do livro “O Guia dos Curiosos)

No passado, o ano era dividido em apenas duas estações: veris (bom tempo, estação da floração) e hiems (mau tempo, estação do frio). O Diccionário Etimológico de la Lengua Castellana, de Juan Corominas, diz que o sistema de quatro estações foi adotado a partir do século XVII. Derivados do latim, o nome das estações significam: 

Primavera Þ de primo vere, quer dizer princípio da boa estação;

Verão Þ de veranus tempus, significa tempo da frutificação;

Outono Þ de tempus autumnus, é o mesmo que tempo de ocaso;

Inverno Þ de tempus hibernus, quer dizer tempo de hibernar. 

A Primavera é responsável também por outra pequena confusão comemorativa. É que no Brasil tem duas datas para homenagear a árvore. No Norte e no Nordeste do país a comemoração é feita na última semana de março. A data, chamada de Festa Anual da Árvore, foi instituída pelo presidente Castelo Branco, por meio de um decreto-lei, em 24 de fevereiro de 1965. A escolha foi baseada nos fatores climáticos da região, pois coincide com o início das chuvas. Nas outras regiões do Brasil, o Dia da Árvore é celebrado em 21 de setembro, que precede o início da primavera. 

O primeiro governo a oficializar o Dia da Árvore foi o de Nebraska, nos Estados Unidos. A comemoração passou a ser feita no dia 22 de abril. Ela coincidia com o aniversário de J. Morton, que incentivou os moradores do Estado a plantar árvores para mudar a paisagem da região. O Brasil foi o primeiro a contrariar o padrão internacional, preferindo homenagear a árvore durante o período de chuvas ou a entrada da nova estação em todo o país. 

Hoje em dia, a primavera é chamada também de “estação das flores”. E, se você estiver pensando em presentear alguém, flores e livros combinam muito bem.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Troca de lado Comigo?

 

Autores: (Koka Pereira/ Gera SP/ Edu Batata) 

Arranjos: Rildo Hora 

Quer falar de vitimismo,

Troca comigo de lado.

Se não lhe causa prejuízo,

Troca comigo de lado.

Sinta na pele o que eu sinto,

Depois venha me falar.

Se mi mi mi não é conflito,

Troca de lado comigo.

Não estrague minha festa,

Sinhô, sinhazinha, ôôô...

Esse tempo já passou, ôôô...

Não faça da minha alegria

Um grão de areia em seu deserto,

Racista, fascista, panaca se enxerga...

Em minha alforria mando eu!

Não desdenha do meu sofrer,

Meu suor inundou o mar,

Nessa sua arrogância e intolerância

Irá se afogar.

Não suporta me ver feliz,

Do que é meu quer se apropriar,

Mas não aguenta um dia o peso

Da pele que vem de além-mar.

terça-feira, 16 de junho de 2026

O salto para a morte

 

A ponte retratada na charge acima não representa apenas um local físico. Ela simboliza uma sociedade em que acontecimentos humanos são cada vez mais transformados em imagens, conteúdos e espetáculos para consumo coletivo. 

Na cena, uma pessoa ocupa o centro da ação, enquanto celulares ocupam o centro da atenção. Esse contraste revela uma característica marcante do mundo contemporâneo: a tendência de observar a realidade através das telas. Em vez de vivenciar diretamente os acontecimentos, muitas vezes nos tornamos espectadores preocupados em registrar, compartilhar e consumir imagens. 

Essa reflexão dialoga com as ideias do filósofo Guy Debord, autor de A Sociedade do Espetáculo. Para Debord, as relações humanas passam a ser mediadas por representações, fazendo com que a imagem adquira mais importância do que a própria experiência vivida. Nesse contexto, o valor de um acontecimento deixa de estar apenas no que ele significa e passa a estar também em sua capacidade de atrair atenção, engajamento e visibilidade. 

Entretanto, a crítica presente na charge não se dirige à tecnologia em si. Celulares e redes sociais podem informar, educar, mobilizar e conectar pessoas. O problema surge quando a busca por registros e compartilhamentos se sobrepõe à reflexão, à responsabilidade e à percepção da dimensão humana dos acontecimentos. Quando isso ocorre, corre-se o risco de transformar experiências reais em meros produtos de consumo instantâneo. 

Assim, a imagem convida o observador a questionar sua própria relação com a cultura da exposição permanente. Em uma época em que quase tudo pode ser filmado, publicado e viralizado, torna-se cada vez mais importante preservar a capacidade de olhar para além das telas. Afinal, uma sociedade que observa tudo como espetáculo pode acabar perdendo justamente aquilo que torna cada acontecimento significativo: sua humanidade. 

(Do blog: Em cada Ser)

A Ponte do Esqueleto, de onde uma jovem de 21 anos morreu no sábado, 13 de junho de 2026, após ser lançada sem estar presa à corda de segurança durante um salto de rope jump, na zona rural entre Limeira (SP) e Cordeirópolis (SP), acumula uma série de acidentes nos últimos anos. 

Desativada para tráfego de veículos há 30 anos, a estrutura tem cerca de 40 metros de altura e é conhecida por receber atividades de esportes de aventura, como ciclismo e salto em queda livre. 

O rope junp é uma modalidade que usa cordas estáticas sem elasticidade, e após a queda faz um movimento de balanço, como um pêndulo. No bungee jump, modalidade mais conhecida, a corda elástica faz a pessoa cair e quicar para cima e para baixo repetidas vezes.

P.S.: Dos três funcionários que equiparam a lançaram a moça da ponte, nenhum deles notou que ela estava sem a corda de proteção para atenuar a sua queda. Um erro primário e fatal.

Em que prestar atenção? 

Evandro Schütz, gerente técnico da Abeta, elaborou um checklist com pontos essenciais. 

► Confira se a empresa tem CNPJ e atuação formalizada. Segundo o especialista, isso aumenta as chances de que seja uma operação regularizada. 

► Peça certificados, comprovações de cursos dos condutores, alvarás e apólices de seguro. Não deve haver receio em solicitar esses documentos antes da contratação. 

► Observe se os riscos são comunicados antes da atividade. A ausência de orientação pode indicar falhas nos protocolos de segurança. 

► Verifique o estado dos equipamentos. Capacetes sujos, cordas desgastadas e coletes danificados são alertas. 

► Preste atenção às instruções da equipe. As empresas devem explicar claramente como a atividade será realizada, o que está sendo feito, quais as etapas que estão sendo realizadas e onde o participante está sendo fixado. 

► Em atividades verticais, deve haver redundância de segurança, como duas cordas ou dois mosquetões. 

► Confirme sempre o encaixe dos equipamentos antes do início da atividade, como cintos, cordas e mosquetões. 

(Do jornal Zero Hora, 17 junho de 2026)

A corda, fatalidade 

Às vezes, a vida é um salto. 

Você fecha os olhos, entrega o corpo, entrega a alma, entrega amor e acredita que alguém também fez a parte dele. 

Acredita que alguém conferiu a corda. Só acredita porque confiar é mais fácil do que desconfiar. 

E então fecha os olhos e salta. 

Muitas vezes sem conferir se está tudo seguro, confiando a vida nas mãos de outros. 

Só que a vida também tem suas “cordas”. 

Tem gente que entrega o coração sem conferir caráter. Entrega sonhos sem medir intenções. Entrega segredos sem pesar lealdades. Entrega a própria paz na mão de quem mal sabe carregar a própria. 

E depois despenca. 

Porque confiou a vida nas mãos de quem não se importa. 

Porque há pessoas que sorriem enquanto te empurram. Há pessoas que não se preocupam. Há pessoas que te levantam só para te ver cair. 

Confiar cegamente é isso. Se jogar. E permitir que te joguem. 

Porque nem todo mundo cuida. Nem todo mundo ama. Nem todo mundo tem responsabilidade com a vida que toca. 

O problema é que, muitas vezes, a queda não mata o corpo. Mata a inocência. Mata a fé. Mata a paz. Mata a coragem de acreditar de novo. Mata o amor nos outros. Mata o amor-próprio. 

Por isso, antes de se lançar, seja no amor, na amizade, nos negócios, na vida... 

Acorda! 

Olhe para a corda. Veja se ela existe. Veja se está presa. Veja se quem a segura merece segurar. Assegure-se de que existe reciprocidade. 

Porque há quedas das quais, tragicamente, ninguém volta. 

E há outras em que, mesmo voltando, a alma fica para sempre lá no chão. 

Texto da internet sem autoria

Aventuras, likes e horrores 

Oscar Bessi 

A morte de uma jovem de apenas 21 anos durante um salto de rope jump em Limeira chocou o país. Não se trata de apenas mais uma tragédia para as tristes e absurdas estatísticas brasileiras; trata-se de um evento que exige que nos coloquemos no lugar dessa família e façamos uma reflexão profunda. Em poucos segundos, o que deveria ser uma experiência de adrenalina e diversão transformou-se em uma cena de horror. 

O mais perturbador, contudo, vai além do erro fatal de não prenderem as cordas de segurança. O que assombra é a sequência de falhas humanas que permitiu o desfecho. Havia pessoas organizando o salto, pessoas assistindo, pessoas filmando. Mas ninguém percebeu o detalhe mais importante: a ausência do equipamento que separava a aventura da morte. Em uma época em que tudo precisa ser registrado em tempo real para as redes sociais, a atenção ao essencial parece ter ficado em segundo plano. A pressa de aparecer nos torna cegos ao fundamental. A pressa de aparecer para o mundo virtual nos torna tragicamente cegos ao fundamental no mundo real. 

Precisamos discutir, urgentemente, a banalização do risco. A busca por experiências cada vez mais radicais tem atraído jovens e adultos para atividades que prometem emoções intensas, muitas vezes sem a fiscalização adequada ou estruturas compatíveis com o perigo envolvido. No local da tragédia, segundo informações divulgadas, a prática ocorria em uma área onde já havia proibição devido à insegurança da estrutura. Ainda assim, a atividade continuou acontecendo normalmente ‒ até que a fatalidade se impôs da forma mais cruel. 

É a velha lógica brasileira da tolerância ao improviso: enquanto nada acontece, os riscos são solenemente ignorados e o poder público dorme em berço esplêndido. Somente após a morte da jovem surgiram anúncios de medidas rigorosas, restrição de acesso e promessas de demolição. Por que somente agora? A prevenção, que deveria ser a regra, é sistematicamente substituída por uma reação. Sempre tardia, sempre reativa. 

O episódio de Limeira não é isolado. Assistimos rotineiramente a acidentes em parques de diversão com falhas de manutenção, mortes em trilhas sem controle de segurança e fatalidades em atrações turísticas onde a supervisão foi insuficiente. E, por trás de cada um desses cenários, há alguém lucrando. 

A aventura tem seu valor e a busca por emoções faz parte da natureza humana. Mas absolutamente nada vale mais do que a vida. A morte precoce desta jovem é um alerta doloroso de que segurança não é mero detalhe, não é burocracia desnecessária e muito menos um obstáculo para um like. A segurança é, justamente, o que permite que a aventura termine em lembrança, e não em luto. 

Do Correio do Povo, 20 de junho de 2026

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Copa literária

 Rodrigo Celente

Escalamos 15 jogadores, entre eles vencedores do Nobel, que exibem a mesma genialidade com a caneta e a chuteira. 

A maior Copa do Mundo da história ‒ com 48 seleções e três países-sede (EUA, Canadá e México) ‒ também pode ser jogada com as palavras. Enquanto a bola rola nos gramados, a literatura resolveu fazer a sua própria convocação. 

Selecionamos representantes de todos os continentes, campeões mundiais e vencedores de Nobel, misturando potências do futebol e gigantes da escrita. 

O estilo literário de cada autor dita a sua função tática no gramado. Romancistas de fôlego ocupam posições que exigem resistência; contistas e poetas jogam na velocidade e no passe curto. 

É dessa intersecção entre a estética do drible e o peso da palavra que nasce a Copa literária. 

 1 Goleiro: Miguel de Cervantes (Espanha) O goleiro vive no limite entre a realidade do gol e o milagre da defesa impossível. Da Mancha ninguém passa. 

 2 Lateral-direito: Machado de Assis (Brasil) Joga com a cabeça erguida e antecipação irônica. Domina o “olhar oblíquo” para desarmar o ponta adversário na base da psicologia e da elegância. 

 3 Zagueiro direito: Thomas Mann (Alemanha) Uma muralha de solidez germânica. O autor de A Montanha Mágica constrói uma defesa intransponível através do fôlego e da imposição física. 

 4 Zagueiro esquerdo: Marcel Proust (França) O zagueiro do tempo e do espaço. Enquanto o atacante tenta correr, Proust o envolve em uma teia de minúcias e desacelera o jogo. 

 5 Lateral-esquerdo: Nadine Gordimer (África do Sul) Uma lateral de forte apoio social e atenta à realidade do campo. A Nobel sul-africana traz para a ala esquerda a precisão de quem corta linhas adversárias com rigor. 

 6 Primeiro volante: Franz Kafka (República Tcheca) O cão de guarda. Cria um labirinto defensivo no meio-campo. O adversário cai em um processo sufocante de faltas táticas e cercamentos inexplicáveis. 

 7 Segundo volante: Jorge Luis Borges (Argentina) O volante cerebral que enxerga as infinitas bifurcações do campo. Seus passes geométricos transformam o meio-campo em biblioteca de jogadas ensaiadas. 

 8 Armador: William Shakespeare (Inglaterra) O dono do time, mestre em ditar o drama e a comédia da partida. Shakespeare distribui o jogo e rege o elenco porque entende a alma humana. 

 9 Ponta-direita: Fernando Pessoa (Portugal) Confunde os marcadores porque ninguém sabe qual heterônimo está com a bola. Em lance corre com a fúria de Álvaro de Campos; no outro, tabela com a calmaria de Alberto Caeiro. 

10 Centroavante: Ernest Hemingway (Estados Unidos) Estilo direto, sem firulas ou adjetivos. Hemingway vai direto ao gol. Aguenta a pancada dos zagueiros e decide a partida com um único chute seco. 

11 Ponta-esquerda: Gabriel García Márquez (Colômbia) A velocidade do realismo fantástico. Gabo corre pela esquerda flutuando sobre o gramado, com dribles que desafiam as leis da física. 

Banco de reservas 

Juan Rulfo (México): o reserva imediato para o meio-campo. Entra quando o jogo precisa ficar cadenciado, silencioso e denso. 

Yukio Mishima (Japão): atacante focado no sacrifício. Dá agressividade ao ataque. 

Eduardo Galeano (Uruguai): o ponta lírico, mestre das narrativas curtas. Incendeia a partida pelo lado esquerdo com paixão latino-americana. 

Katherine Mansfield (Nova Zelândia): atacante de transição rápida. Precisa de apenas um lampejo para definir o jogo no detalhe psicológico. 

Margaret Laurence (Canadá): zagueira firme. Entra quando o time precisa de resiliência e profundidade na defesa. 

(Do jornal Zero Hora, 15 de junho de 2026)