quinta-feira, 19 de maio de 2022

Filosofia das besteiras “inteligentes”

 

01. No Havaí, todas as sandálias são havaianas. 

02. A primeira missa do Brasil foi o maior programa de índio. 

03. Mulher grávida reclama de barriga cheia. 

04. Os filósofos têm um problema para cada solução. 

05. Lixo: coisas que jogamos fora. Coisas: lixo que guardamos. 

06. As fitas eram virgens porque o gravador era estéreo. 

07. Herói é o covarde que não teve tempo de fugir. 

08. Pinte os cabelos de preto para encontros amorosos e de branco para encontros de negócio. 

09. Nasci careca, pelado e sem dente. O que vier é lucro. 

10. Se você acredita em reencarnação, me dê R$ 5.000,00 que eu pago na próxima. 

11. Um chato nunca perde o seu tempo. Perde o dos outros. 

12. Não brinque com fogo, ele não sabe brincar. 

13. Uma celebridade é alguém que trabalha duro muito tempo para se tornar conhecido, e depois passa a usar óculos escuros para não ser reconhecido. 

14. Não há pior inimigo que um falso amigo. 

15. Canela: dispositivo para achar móveis no escuro. 

16. A fé remove montanhas. Os ecologistas são contra. 

17. Ser canhoto é muito fácil, difícil é ser direito. 

18. Você sabe que está ficando velho quando as velas custam mais caro que o bolo. 

19. A primeira amnésia a gente nunca esquece. 

20. A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com a mesma coisa boa como se fosse a primeira vez. 

21. Não existem ateus numa pane de avião. 

22. No avião o medo é passageiro. 

23. Único final feliz que eu conheço é o final de semana. 

24. A esperança é a última que morre, e a minha paciência é a primeira.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Frases de Fabrício Carpinejar

 

Sobre o amor 

Paixão é o encontro de duas pressas. Amor é o encontro de duas paciências. 

Quando você foge de alguém por medo de amar, acaba preso pela saudade. 

O que é feito por amor não precisa de devolução. Gratidão não faz dívidas. 

Amor é destinado para pessoas diferentes com sonhos iguais. 

Liberdade na vida é ter um amor para se prender. 

A gente não cansa de amar, a gente cansa de não ser amado. 

Não há nada mais bonito do que o milagre de alguém tocado pelo amor, transformado pelo amor. 

Para facilitar o amor, seja sempre claro. A clareza é o sol do convívio. 

O amor sempre muda as regras para a gente nunca aprender a jogar. 

Não tenha pressa de encontrar alguém para amar. Use o tempo livre para amar a si mesmo. 

Dividir o teto não garante proximidade, o que assegura o amor é dividir o destino. 

Perder tempo pelo outro é amor. Esperar o outro é amor. A paciência é o que temos de mais valioso para oferecer. 

Sobre a amizade 

Amizade requer coragem para dizer ao amigo que ele está errado e gentileza para ele não se sentir culpado. 

Os amigos são para toda a vida, ainda que não estejam conosco a vida inteira. 

Amigo é destino, amigo é vocação. 

Todo amigo manda sinais de socorro. Só não entende quem não é amigo. 

Depois das decepções amorosas, deixe ao menos a porta da amizade aberta. Por lá pode vir o amor quando tudo em você está fechado. 

Amigo ajuda antes mesmo de saber o que aconteceu. 

Meus amigos não me enxergarão no topo porque estarão sempre ao meu lado. 

Feliz é quem tem alguém para repartir as suas tristezas. Triste é quem não tem um amigo sequer para repartir as suas alegrias. 

Facilite as amizades. De complicado, já chega o amor. 

Sobre amar e ser amado 

Para o amor, um banco de praça já basta. Ou ficar na frente de um portão. Ou uma xícara de café. Amor mesmo é um filme de baixo orçamento. 

Aconselho a quem não tem tempo: apaixone-se. Perca a cabeça na guilhotina. 

Entregue seus pés para a espuma. Permita a cintura subir como um chafariz. Não pense que vai dar errado. O que pode dar errado já aconteceu antes. 

O amor tem uma consciência louca do futuro, de fazer passado com o futuro. A paixão vive fora do tempo. O amor vive no tempo porque deixa rastros. Paixão se esquece, e amor nem enterrando acaba. 

Não se apaixonará pela pessoa ideal, mas por aquela que não conseguirá se separar. A convivência é apenas o fracasso da despedida. O beijo é apenas a incompetência do aceno. 

Amor é uma paz ensandecida, uma guerra calma, uma curiosidade insaciável. 

Amar demais não deveria assustar. É como impor cor ao crepúsculo, intimidar a mancha luminosa da lua, censurar um pássaro no alvorecer, trancar o rebanho de estrelas no estábulo de uma nuvem. 

Amor é o que fica depois da raiva. Amor é o que fica depois dos erros. Amor é o que fica depois da cobrança. Amor é o que fica depois do cansaço. Amor é o que fica depois de ir embora... Se o amor ficou depois de tudo, não finja que ele é nada. 

Não podemos sequestrar a felicidade do outro no casamento ou no namoro, como se fosse nossa, como se só dependesse de nossa proximidade, vinculando a alegria ao egoísmo dos laços. Maturidade é ser indispensável justamente por deixar a porta aberta. 

A armadilha das vírgulas

 Nilson Souza

Sei que os 7 milhões de candidatos que farão a prova de redação do Enem amanhã (27/10)* já devem ter lido e ouvido centenas de recomendações sobre como fazer um bom texto. São muitos os nãos: não faça períodos longos, não use gírias, não repita argumentos, não escreva menos de sete linhas, não ouse afrontar os direitos humanos e nem pense em brincar, fazer desenhos ou escrever palavrões. Os infratores serão punidos sumariamente com um impiedoso zero. Diante de tantas restrições e ameaças, não é de admirar que a garotada sinta calafrios para preencher a folha em branco. 

Calma, gente, não é tudo isso. Escrever é como falar: basta pensar um pouco antes. Sempre que algum jovem vem me dizer que não consegue elaborar um texto, costumo perguntar: como você contaria essa história para um amigo? Se o ouvinte entender, rir ou duvidar, é porque a história teve começo, meio e fim. Fez sentido. A redação tem que fazer sentido. Alguém, do outro lado da leitura, tem que entender a mensagem que você escreveu. Simples assim. Portanto, conte a sua história da melhor maneira que você sabe contar. Seja autêntico. Defenda sua tese, suas ideias, argumente e chegue a uma conclusão. 

A única recomendação técnica que ouso fazer nesta véspera de prova é tão simplória, que os candidatos melhor preparados vão pensar que estou debochando. Peço apenas que tenham cuidado especial com as vírgulas. Isso mesmo, muita gente boa tropeça nas vírgulas. Os experientes, inclusive. Vírgula é um pouco como crase: na dúvida, não use. A falta da crase, já disse um analista espirituoso, pode ser interpretada como esquecimento. Já a sua colocação indevida só pode ser interpretada como ignorância. Com a vírgula é mais ou menos assim. Uma vírgula desastrada coloca o texto todo sob suspeita. 

Por fim, vale lembrar uma lição do poeta Mario Quintana: “Os velhos, quanto mais velhos, mais vírgulas usam”. Não se deduza daí que os jovens podem dispensar as vírgulas quando elas forem necessárias. Há vários casos em que esse sinal de pontuação é obrigatório. Aprendi com o professor Ledur que o entendimento de um princípio é suficiente para resolver mais da metade das dúvidas: não se separa sujeito do predicado, nem verbo e nome de seus complementos.

Portanto, caros candidatos, menos vírgulas, menos riscos. 

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* Crônica de 26 de outubro de 2013.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

O lanche do tropeiro*

 Paulo Mendes

As memórias vêm e vão como essas andorinhas de dezembro que chegam em bandos, fazendo piruetas e desenhos alongados no céu do verão. Ah, meus amigos e minhas amigas, quando passo em frente a essas lancherias no Centro de Porto Alegre e sinto o cheiro dos sanduíches, dos salgados, torradas e outros lanches rápidos, logo recordo do meu tempo de bolicheiro lá na saudosa Vila Rica. Era uma época verdejante, de infância e adolescências junto à natureza, ao canto da passarada pela manhã, ao berro dos terneiros na mangueira no final das tardes compridas de janeiro. Sempre que me lembro do balcão penso na gauchada que chegava cansada, ávida por um trago longo e “forrar a barriga”. Para isso, tínhamos na prateleira a tradicional sardinha com molho de tomate e, para acompanhar, biscoitos comprados na padaria da cidade, ou bolachões doces, em pacotes, que dona Mirica, minha mãe, adquiria dos antigos vendedores viajantes de Santa Maria. 

Foi o colega Alfredo Possas, que viveu parte de sua infância na Zona Sul do Estado, que dia desses tocou no assunto das sardinhas. Era o “lanche do tropeiro”, e naquele tempo, armazém ou bolicho que tivesse essa refeição era considerado “sortido”. Seu Neto, antigo tropeiro que participava de jornadas com meu pai José Mendes, era um dos que se preparava todo para degustar se “lanche” preferido. Pedia duas latas, meia dúzia de biscoitos e um guaraná frisante Polar, garrafa de 600 ml. Um prato, garfo e faca, e um pano de prato que usava como toalha sobre o balcão engraxado de banha e recendendo a querosene. Comia e de tanta satisfação dava umas pequenas tossidas, para limpar a garganta. E, alegre, me dizia: “Seu Paulinho, um homem pobre tem poucas alegrias nesta vida guapa. Eu sou feliz quando reponto tropa e quando me sento para comer.” Largava o garfo, empinava o copo de guaraná, e soltava uma gargalhada. 

São essas imagens e lembranças que trago daquela gente humilde e simples. Povo sofrido, pobre mas lutador, que nunca perdia a esperança de dias melhores. A peonada chegava cansada, assoleada, com dores pelo corpo, desmontava, atava os cavalos nas tramas debaixo dos cinamomos e já estampava um sorriso de orelha a orelha, dizendo versos, improvisando uma trova, declamando partes de poemas conhecidos. Só para não desanimar perante suas jornadas duras, longas e incertas que sempre estavam de tocaia na curva da estrada. 

Hoje, tranço os dedos e faço uma prece para os campeiros que já se foram e estão campereando na estância grande da eternidade. Para os novos funcionários de granjas, empresas rurais e citadinas que trabalham de sol a sol, machucando mãos e braços, entortando a coluna, fazendo força dias e noites por esses confins da querência. É para essa gente sem voz nem vez que faço o meu canto de gratidão e solidariedade. Que todos possam trabalhar alegres, felizes e tenham a mesma satisfação que os tropeiros da Vila Rica quando apeavam no bolicho. E que possam, de vez em quando, destapar um guaraná fresquinho, abrir uma lata de sardinha e degustar com um biscoito recém saído do forno. E gritar como fazia seu Neto ao final do “banquete”. “Não te mixa, lagartixa”. 

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* Da coluna de crônicas Campereada, do Correio do Povo, maio de 2022

Voto fantasma

 Ou a importância da urna eletrônica

Essa aconteceu num desses currais eleitorais do interior do Brasil de antigamente. Sem urna eletrônica, dizem que essas coisas sempre ocorreram e iriam continuar a ocorrer. Como os eleitos eram os mesmos de sempre, os mortos continuavam a votar e nada acontecia. A não ser a frustração que aconteceu com uma triste viúva de uma dessas cidades. 

No dia seguinte à eleição, a mulher foi ao cemitério. Chegando ao túmulo do falecido marido, ela falou muito irritada: 

− Seu desgraçado, insensível, miserável! Você não tem mais a menor atenção comigo. Ontem você foi votar lá na cidade e não teve sequer a consideração de me procurar!


domingo, 15 de maio de 2022

Tiradas de um estadista

 Winston Churchill

Tirada 1

Telegramas trocados entre Bernard Shaw (maior dramaturgo inglês do século 20) e Churchill (maior líder inglês do século 20).

Convite de Bernard Shaw para Churchill:
 

 

“Tenho o prazer e a honra de convidar o digno primeiro-ministro a para primeira apresentação minha peça Pigmalião. Venha e traga um amigo se tiver.” Bernard Shaw. 

Resposta de Churchill para Bernard Shaw:

“Agradeço ao ilustre escritor o honroso convite. Infelizmente não poderei comparecer primeira apresentação. Irei à segunda se houver.” Winston Churchill.

 Tirada 2

O General Montgomery estava sendo homenageado, pois venceu Rommel na batalha da África, na Segunda Guerra Mundial. Discurso do General Montgomery: 

“Não fumo, não bebo, não prevarico e sou herói.

Churchill ouviu o discurso e com ciúmes, retrucou:

Eu fumo, bebo, prevarico e sou chefe dele (Montgomery)

Tirada 3

Bate boca no parlamento inglês e aconteceu num dos discursos de Churchill, e estava uma deputada oposicionista, Lady Astor, a primeira mulher a ocupar uma cadeira no parlamento britânico, que pediu um aparte. Todos sabiam que Churchill não gostava que interrompessem os seus discursos. Mas foi dada a palavra à deputada e ela disse em alto e bom tom. 

− Senhor Ministro, se Vossa. Excelência fosse o meu marido, colocava veneno em seu café!

Churchill, com muita calma, tirou os óculos e naquele silêncio em que todos estavam aguardando a resposta, exclamou: 

Se eu fosse o seu marido, eu tomava este café! 

Tirada 4 

Um repórter pergunta ao velho Churchill, aos 80 ou 90 e poucos anos...

− Senhor Churchill, qual o segredo dessa longevidade?

− O esporte, meu caro, o esporte... nunca o pratiquei. 

Tirada 5 

Quando Churchill fez 80 anos um repórter de menos de 30 foi fotografá-lo e disse:

− Sir Winston, espero fotografá-lo novamente nos seus 90 anos.

Resposta de Churchill:

− Por que não? Você me parece bastante saudável. 

Tirada 6 

Certa vez perguntado sobre os requisitos que um político deveria preencher, Churchill respondeu: 

− A capacidade para prever o que vai acontecer amanhã, na próxima semana e no ano que vem. E a habilidade de explicar depois por que nada daquilo acorreu. 

Tirada 7 

Numa entrevista coletiva concedida no Cairo em 1943, ele admitiu: 

− Sempre evito profetizar com antecedência porque a melhor política é predizer depois que o evento já teve lugar. 

Tirada 8 

Em uma festa, Chuchill bebeu demais e foi acusado pela dona da festa de estar bêbado, ele então com sua calma e elegância respondeu: 

− Eu estou bêbado, mas a senhora está feia, amanhã vou acordar sóbrio, mas a senhora continuará feia. 

Tirada 9 

Num discurso no Parlamento inglês, Churchill disse a seguinte frase: 

− Lembrem, senhores, não é apenas pela França que lutamos, é pelo Champagne! 

Tirada 10 

Num de seus discursos durante a guerra: 

“Hitler sabe que terá de nos vencer nesta ilha ou perder a guerra. Se pudermos resistir a ele, toda a Europa poderá ser livre e a vida no planeta poderá seguir adiante para horizontes abertos e ensolarados. Mas, se nós cairmos, então o mundo inteiro, incluindo os Estados Unidos, incluindo tudo o que conhecemos e do que gostamos, vai afundar no abismo de uma nova Idade das Trevas, ainda mais sinistra e talvez mais prolongada pelo uso de uma ciência pervertida.

Que nós nos unamos para cumprir nosso dever, e desta forma nos elevemos de tal forma que, se o Império Britânico e sua comunidade britânica durarem mil anos, as pessoas ainda digam: “aquele foi seu melhor momento!” 

Frases de Winston Churchill 

A maior lição da vida é a de que, às vezes, até os tolos têm razão. 

Estou sempre disposto a aprender, mas nem sempre gosto que me ensinem. 

Gosto de porcos. Os cães olham-nos de baixo, os gatos de cima. Os porcos olham-nos de igual para igual. 

Se Hitler invadisse o Inferno, eu faria uma referência favorável ao diabo na Câmara dos Comuns. 

Não há mal nenhum em mudar de opinião. Contanto que seja para melhor. 

Um prisioneiro de guerra é um homem que tentou matá-lo, não conseguiu e agora implora para que você não o mate. 

Construir pode ser a tarefa lenta e difícil de anos. Destruir pode ser o ato impulsivo de um único dia. 

O orgulhoso prefere perder-se a perguntar qual é o seu caminho. 

O que eu espero senhores, é que depois de um razoável período de discussão, todo mundo concorde comigo. 

Um apaziguador é alguém que alimenta um crocodilo esperando ser o último a ser devorado. 

Minha conquista mais brilhante foi a habilidade de persuadir minha mulher a se casar comigo. 

A diferença entre um estadista e um demagogo é que este decide pensando nas próximas eleições, enquanto aquele decide pensando nas próximas gerações.

Um otimista vê uma oportunidade em cada calamidade. Um pessimista vê uma calamidade em cada oportunidade.

sábado, 14 de maio de 2022

Deus existe?

 Paulo Germano

Escrevi esses tempos que a verdade é a verdade e acabou. Quer dizer: não existe isso de “cada um tem a sua verdade”. Cada um pode ter sua opinião sobre uma verdade, claro, mas a verdade em si, por definição, é indiscutível – porque ela é justamente o que não pode ser posto em dúvida. Ela é o retrato inquestionável dos fatos, ela é inegociável, ela é absoluta. Ela é a verdade. 

Por exemplo: Paulo Germano é jornalista. Isso é uma verdade, não há como discutir, eu realmente me formei em jornalismo e exerço a profissão. Agora, se sou bom ou mau jornalista, aí é uma avaliação de cada um. 

Dito isso, bem, existem casos em que a verdade ainda não apareceu. Nem a ciência, nem a polícia, nem o jornalismo, nem qualquer estudo, auditoria ou investigação foram capazes até hoje de revelar a verdade sobre determinados temas. Deus é um bom exemplo. Qual é a verdade sobre Ele? Um dia, quando entrevistei para Zero Hora o padre Fábio de Melo, perguntei-lhe exatamente isso: 

− Como o senhor tem certeza de que Deus existe? 

E ele respondeu que, “se tivesse certeza, não precisaria ter fé”. 

− A experiência da fé nos dispensa das certezas − sorriu o padre. − Fé é confiança, não é certeza. É o que você pode experimentar, por exemplo, como filho. Você tem certeza do amor da sua mãe? 

− Claro que tenho − respondi depressa. 

− E você tem provas científicas desse amor por você? 

− Não... 

− Mas você confia. Você acredita. E basta. 

Achei perfeito. Por isso as pessoas dizem “eu acredito em Deus”. Porque acreditam que esta seja a verdade. Se houvesse plena convicção sobre a verdade, não faria sentido “acreditar” nela. Uma pessoa só acredita naquilo que julga provável, aceitável, possível, mas a verdade NÃO é isso. A verdade é irrefutável. A verdade é. 

Talvez por isso, por considerar falaciosa a conversa de “cada um tem a sua verdade”, uma das grandes inquietudes da minha vida se refira justamente a essa pergunta: Deus existe? 

− Não há nenhuma evidência concreta disso – ouço dos ateus e até concordo, mas logo vem o adendo: – Quem acredita nele é que precisa provar. 

Mas desde quando quem sente algo precisa provar qualquer coisa? Se uma pessoa de fato sente a existência de Deus – como sinto o amor da minha mãe –, quem sou eu para contestá-la? Ora, vai ver Ele existe. Só que alguns fiéis desaforados, tentando impor sua fé como verdade, preferem desdenhar: 

− Você aceitará Deus quando realmente precisar dele. 

Olha, já precisei Dele uma meia dúzia de vezes e não creio que um momento de extrema dor ou desespero seja o mais indicado para avaliações sensatas. Nem o mais indicado para encontrar a verdade. 

E o fato é que essa verdade a humanidade não vai descobrir. O máximo a que podemos chegar é “acreditar” na existência de Deus − ou não acreditar também. Paciência. Talvez o que importe, mesmo, seja o que o padre Fábio de Melo me disse ao final daquela entrevista: 

− Conheço muitos ateus que agem como se tivessem Deus no coração. No fim, é isso o que Ele quer. 

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(Do jornal Zero Hora, maio de 2022)