−
Jorge, amanhã eu quero o teu guarda-roupa arrumado, com tudo dobradinho nas
prateleiras e nas gavetas.
−
Amanhã eu tenho outras prioridades. Vou encaixar o quarto no meu plano de ação
para os próximos dias.
−
Vou te dar plano de ação. O teu quarto está virado em uma pocilga. A quantidade
de meias sem par já passou de todos os limites. Juntei umas 12, todas duras,
furadas, fedorentas. E o cheiro de cigarro, então? Tu tem* coragem de fumar
dentro do quarto sabendo que o teu irmão pequeno tem asma? Eu nem sabia que tu
fumava*!
−
Mãe, em primeiro lugar, eu exijo respeito ao meu espaço. Tu deter* o poder
econômico nessa casa não faz de ti minha dona.
−
Aqui eu detenho os meios de produção, também. Porque tu, imprestável, não é*
capaz de lavar um prato. Nunca arrumou* nem a tua cama, quanto mais juntar esse
monte de copo que deixa* espalhado por aí.
−
Eu estudo, não é esse o combinado? Cada qual com o seu papel, um sem interferir
no lugar do outro, todos dando o seu melhor por uma sociedade em equilíbrio.
−
Equilíbrio, menos no meu orçamento, com o tanto de aula particular que eu pago
para tu passar* a cada trimestre. Tu pegou* oito recuperações, Jorge. OITO. Até
de Educação Física, a única matéria que tu gostava*!
−
Agora eu estou mais ligado nas coisas da filosofia. Meu quarto é o reflexo do
meu pensamento, é a tradução da minha preocupação com as minorias.
−
Só pode* estar de brincadeira com a minha cara. Minoria, naquela esculhambação,
só as pulgas e as baratas. Isso se já não forem maioria.
−
Eu não vou entrar em uma discussão dialética contigo.
−
Jorge, custa tu arrumar* teu quarto?
−
Acho que nós temos as nossas diferenças mas, no fundo, queremos a mesma coisa:
condições de vida melhores para todos.
−
Para a tua vida ficar melhor, só se tu reencarnar* como filho do Luciano Huck.
−
Nós temos que nos unir contra o mal maior, que é o Seu Olavo, o vizinho do
bloco B, que chutou o Fidel porque achou que a coleira vermelha dele era uma
indireta comunista. Eu estou fazendo um abaixo-assinado para levar na próxima
reunião de condomínio.
−
O que o Seu Olavo tem a ver com o teu quarto, Jorge? Tu está* fugindo do
assunto. Eu quero saber a que horas tu vai* arrumar aquela espelunca.
−
Os guris estão me chamando para jogar Call of Duty. Depois a gente conversa.
−
Vai* fugir do debate? Não tem* vergonha? Não honra* as calças que tu veste*?
−
Começou a baixar o nível. Não vou aceitar provocações baratas. Fui!
−
Não vai* nem fazer as considerações finais?
−
Preciso da minha camiseta do colégio. Se eu for sem ela amanhã, a diretora
disse que eu não entro. Mais uma falta e fico de recuperação em Educação
Artística também. Me ajuda a encontrar?
−
Valei-me, meu Paulo Freire.
−
A gente funciona melhor quando une as forças, né? Foi tu quem me ensinou* isso.
−
Amanhã a gente debate esse ponto. Agora tira esse tênis podre do meu sofá e
baixa o volume da TV.
Encerra
com Seu Olavo, no bloco B, ouvindo os tiros do videogame e chutando a parede.
(Do caderno donna de Zero Hora, outubro de 2022)
* A
linguagem utilizada nesta crônica é do porto-alegrês e gauchês puro, onde o
“tu” concorda com o verbo na 3ª pessoa do singular, como se usasse o pronome de
tratamento “você”, muito comum na linguagem coloquial dos gaúchos do Sul.