quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Inebriante despedida

 

Lago George -EUA

Adolph Ochs, o famoso proprietário do New York Times, possuía uma linda casa de verão nas imediações do Lago George, onde Karl Abbott, proprietário de uma vasta rede de hotéis, se deleitava no terraço de seu Hotel Sagamore às margens da Lagoa. 

Os dois homens se conheciam vagamente, até que em pleno verão norte-americano Abbott recebeu estranho telefonema de Ochs, que a estas alturas, já velho e doente, estava impedido de sair de Nova York. 

- Escute Karl, disse Adolph - eu gostaria que me fizesse um favor. Sei que está sentado ao lado da janela grande do seu escritório, em frente ao lago. Peço-lhe apenas descrever-me o que vê. Não omita coisa alguma. As folhas já começaram a cair? São quatro horas mais ou menos. O sol deve estar bem por cima do morro e, se há brisa, as ondulações do lago estarão vibrando nos seus reflexos... Os pinheiros cresceram muito este ano, perto do ancoradouro dos barcos? Olhe pela janela, Karl, e descreva para mim tudo que vê.  

Abbott falou com Ochs bem uma meia hora, correspondendo ao desejo do enfermo. Descreveu as árvores, as nuvens, o céu, os matizes cambiantes do outono. Foi o pedido mais extraordinário que jamais lhe haviam feito, mas continuou falando até terminar a minuciosa descrição. O grande jornalista lhe agradeceu cordialmente, elogiou a nitidez do quadro que lhe fora descrito e desligou o telefone. 

Quando na manhã seguinte, Abbott recebeu os diários de Nova York, viu que Adolph Ochs falecera às 8 horas da noite anterior... 

§ § § § § 

(Almanaque do Correio do Povo de 1982)

Aquela noite

 

Aquela noite, foi uma noite de loucura,
bem o sei;
Deste tudo de ti,
E a ti, tudo de mim eu dei.

Em nada, em nada pensamos,
Apenas nossos corpos,
Nossos sentimentos,
Com emoção juntamos.

Promessas mil fizemos,
Juras e juras
De eterno amor trocamos;
E um ao outro,
tanto, tanto nos apertamos.

Teu coração batia
Tão forte como o meu!
Minha boca se perdeu na tua,
E meus olhos... ah meus olhos...
Encontraram os teus.

Foi inevitável...
Foi completo...
Foi eterno!
O amanhã nos surpreendeu
Murmurando palavras sem nexo,
frases soltas,
que teimosamente pairavam no ar,

Como a dizer, quase em suspiro:
Dentro em pouco temos que nos separar.
E a separação veio, inevitável,
Fria como um açoite,
Mas ficou a certeza;
Nunca mais, nunca mais,
Esqueceríamos aquela noite.
  

(Autor Desconhecido)

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Afinidade

 

Afinidade é um dos poucos sentimentos que resistem ao tempo e depois. A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos. É o mais independente. Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades. Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto no exato ponto em que foi interrompido. 

Afinidade é não haver tempo mediando a vida. É uma vitória do adivinhado sobre o real. Do subjetivo para o objetivo. Do permanente sobre o passageiro. Do básico sobre o superficial. Ter afinidade é muito raro. Mas quando existe não se precisa de códigos verbais para se expressar. Existia antes do conhecimento, irradia durante e permanece depois que as pessoas deixaram de estar juntas. O que você tem dificuldade de expressar a um afim, sai simples e claro diante de alguém com quem você tem afinidade. 

Afinidade é ficar longe pensando parecido a respeito dos mesmos fatos que impressionam, comovem ou mobilizam. É ficar conversando sem trocar palavras. É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento.

Afinidade é sentir com. Nem sentir contra, nem sentir para, nem sentir por, nem sentir pelo. Quanta gente ama loucamente, mas sente contra o ser amado. Quantos amam e sentem para o ser amado, não para eles próprios. Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo. É olhar e perceber. É mais calar do que falar, ou, quando é falar, jamais explicar: apenas afirmar. 

Afinidade é jamais sentir por. Quem sente por confunde afinidade com masoquismo, mas quem sente com, avalia sem se contaminar. Compreende sem ocupar o lugar do outro. Aceita para poder questionar. Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar. Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças. É conversar no silêncio, tanto nas possibilidades exercidas quanto das impossibilidades vividas.

Afinidade é retornar a relação no ponto em que parou sem lamentar o tempo de separação. Porque tempo e separação nunca existiram. Foram apenas oportunidades dadas (tiradas) pela vida, para que a maturação comum pudesse se dar. E para que cada pessoa pudesse e possa ser, cada vez mais a expressão do outro sob a forma ampliada do eu individual aprimorado. 

Arthur da Távola 

(do livro: Alguém que já não fui)

Canções da vida

 

CONTRABANDISTA: “cais do porto, eu estou sempre aqui...”

 

MACONHEIRO: “se eu quiser fumar eu fumo...”

 

LADRÃO CÍNICO: “dorme, que eu velo por ti...”

 

SOLTEIRONA NO CINEMA: “as tuas mãos onde estão?”

 

CHATO: “daqui não saio, daqui ninguém me tira...”

 

PESCADOR: “o peixe é pro fundo das redes...”

 

VIÚVO INCONSOLÄVEL: “ela toda noite aparece...”

 

MASOQUISTA: “a chama no peito ainda queima...”

 

JUÍZ: “e pela minha lei...”

 

ESPOSA AMOROSA: “quero ficar no teu corpo feito tatuagem...”

 

PESSIMISTA: “não é preciso você dizer, eu sei chegou a hora...”

 

VÍTIMA: “se eu morresse amanhã de manhã, não faria falta, ninguém sofreria...”

 

SOLITÁRIO: “eu grito e o eco responde... ninguém...”

 

BÊBADO: “eu bebo sim, e tô vivendo...”

 

PIVETE: “com seus olhinhos infantis, como os olhos de um bandido...”

 

POBRE: “às vezes passava fome ao meu lado...”

 

ESNOBE: “quem és tu, quem foste tu, não és nada...”

 

MENDIGO: “pedindo nas portas um pedaço de pão...”

 

DOENTE MENTAL: eu talvez esteja condenado a viver perto da loucura...

 

GUARDA NOTURNO: “sou do sereno, poeta muito soturno...”

 

ESPOSO APAIXONADO: Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu...

 

MÚSICO APAIXONADO: “você é dó, é ré mi fá, é sol lá si...”

 

TARADO: “só falta agora eu ficar nu pra chamar sua atenção...”

 

PREGUIÇOSO: “vejo o mundo bocejar...”

 

CIENTISTA: “nós estamos inventando a vida...”

 

PROSTITUTA: “eu te proponho, te dar meu corpo...”

 

OTIMISTA: “eu sei que vou te amar...”


Orações de alguns animais

 Oração do gato

Senhor,

Eu sou o gato.

Não precisamente

Que tenha alguma coisa a Vos pedir.

Não.

Não peço nada a ninguém,

Mas se por acaso, Senhor, tivésseis

Nos celeiros de Vosso paraíso

Um ratinho branco

Ou um pires de leite,

Sei de alguém que precisa essas coisas...

Amaldiçoareis, um dia,

A raça canina?

Ah, nesse caso, eu diria:

Amém.

Oração do rato

Sou tão cinzento,

Meu Deus.

Lembrai-Vos de mim?

Sempre vigiado,

Sempre caçado,

Vou roendo mediocremente a vida.

Por que me acusam de ser rato?

Não fostes Vós meu criador?

Só peço uma coisa: ficar escondido.

Dai-me apenas com que matar a fome

Longe das garras

Daquele demônio de olhos verdes.

Amém.

Oração do boi

Dai-me tempo, meu Deus.

Os homens são tão afobados.

Fazei-os compreender que não posso

Andar depressa.

Dai-me tempo de comer.

Dai-me tempo de caminhar.

Dai-me tempo de dormir.

Dai-me tempo de pensar.

Amém. 

(Autor desconhecido)

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Confrontos são coisas do dia a dia

 Debate

Claudia Tajes

Começa com um dos debatedores atirado do sofá, vendo o Instagram no celular. A outra debatedora entra na sala. 

− Jorge, amanhã eu quero o teu guarda-roupa arrumado, com tudo dobradinho nas prateleiras e nas gavetas. 

− Amanhã eu tenho outras prioridades. Vou encaixar o quarto no meu plano de ação para os próximos dias. 

− Vou te dar plano de ação. O teu quarto está virado em uma pocilga. A quantidade de meias sem par já passou de todos os limites. Juntei umas 12, todas duras, furadas, fedorentas. E o cheiro de cigarro, então? Tu tem* coragem de fumar dentro do quarto sabendo que o teu irmão pequeno tem asma? Eu nem sabia que tu fumava*! 

− Mãe, em primeiro lugar, eu exijo respeito ao meu espaço. Tu deter* o poder econômico nessa casa não faz de ti minha dona. 

− Aqui eu detenho os meios de produção, também. Porque tu, imprestável, não é* capaz de lavar um prato. Nunca arrumou* nem a tua cama, quanto mais juntar esse monte de copo que deixa* espalhado por aí. 

− Eu estudo, não é esse o combinado? Cada qual com o seu papel, um sem interferir no lugar do outro, todos dando o seu melhor por uma sociedade em equilíbrio. 

− Equilíbrio, menos no meu orçamento, com o tanto de aula particular que eu pago para tu passar* a cada trimestre. Tu pegou* oito recuperações, Jorge. OITO. Até de Educação Física, a única matéria que tu gostava*! 

− Agora eu estou mais ligado nas coisas da filosofia. Meu quarto é o reflexo do meu pensamento, é a tradução da minha preocupação com as minorias. 

− Só pode* estar de brincadeira com a minha cara. Minoria, naquela esculhambação, só as pulgas e as baratas. Isso se já não forem maioria. 

− Eu não vou entrar em uma discussão dialética contigo. 

− Jorge, custa tu arrumar* teu quarto? 

− Acho que nós temos as nossas diferenças mas, no fundo, queremos a mesma coisa: condições de vida melhores para todos. 

− Para a tua vida ficar melhor, só se tu reencarnar* como filho do Luciano Huck. 

− Nós temos que nos unir contra o mal maior, que é o Seu Olavo, o vizinho do bloco B, que chutou o Fidel porque achou que a coleira vermelha dele era uma indireta comunista. Eu estou fazendo um abaixo-assinado para levar na próxima reunião de condomínio. 

− O que o Seu Olavo tem a ver com o teu quarto, Jorge? Tu está* fugindo do assunto. Eu quero saber a que horas tu vai* arrumar aquela espelunca. 

− Os guris estão me chamando para jogar Call of Duty. Depois a gente conversa. 

− Vai* fugir do debate? Não tem* vergonha? Não honra* as calças que tu veste*? 

− Começou a baixar o nível. Não vou aceitar provocações baratas. Fui! 

− Não vai* nem fazer as considerações finais? 

− Preciso da minha camiseta do colégio. Se eu for sem ela amanhã, a diretora disse que eu não entro. Mais uma falta e fico de recuperação em Educação Artística também. Me ajuda a encontrar? 

− Valei-me, meu Paulo Freire. 

− A gente funciona melhor quando une as forças, né? Foi tu quem me ensinou* isso. 

− Amanhã a gente debate esse ponto. Agora tira esse tênis podre do meu sofá e baixa o volume da TV. 

Encerra com Seu Olavo, no bloco B, ouvindo os tiros do videogame e chutando a parede.  

(Do caderno donna de Zero Hora, outubro de 2022) 

* A linguagem utilizada nesta crônica é do porto-alegrês e gauchês puro, onde o “tu” concorda com o verbo na 3ª pessoa do singular, como se usasse o pronome de tratamento “você”, muito comum na linguagem coloquial dos gaúchos do Sul.

domingo, 23 de outubro de 2022

O patriotismo é o último refúgio do canalha

 “No Brasil, é o primeiro” 

(Millôr Fernandes)

A frase foi registrada pelo amigo e pupilo de Samuel Johnson, James Boswell, em Life of Samuel Johnson, amplamente reconhecida como a mais grandiosa biografia jamais escrita em língua inglesa.Ela teria sido proferida na tarde de 7 de abril de 1775. 

Em seu registro inicial, Boswell comentou que Johnson não se referia ao “amor real e generoso” pela pátria, mas ao “pretenso patriotismo que tantos, em todas as épocas e países, têm usado como um manto para os próprios interesses”. 

Como já se colocou, portanto, a frase de Johnson referia-se aos canalhas, e não ao patriotismo em particular. Em um nível mais superficial, ela observa que o patriotismo é um conceito que pode ser facilmente manipulado, e por todo tipo de indivíduo; ao apresentarem-se como patriotas, até mesmo canalhas podem prosperar. E, em um nível mais profundo, ela refere-se à tendência acentuada de que, quando confrontados, canalhas demonstrem um devotamento patriótico falso a fim de explorar esse sentimento alheio e, por meio dele, avançar seus interesses e proteger-se aos olhos do público.