quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

O menino prodígio

 Millôr Fernandes

Era um desses meninos modelos. Desses, é modo de dizer, pois nunca existiu outro igual. O seu primeiro choque com o mundo foi com o próprio pai. Estava um dia brincando com o seu trenzinho, fazendo barulho, enquanto o pai lia. De repente o pai gritou: “‒ Para com isso, menino!” Ele parou. Olhou para o pai e disse: “− Talvez, meu pai, outro menino de minha idade perguntasse por que o senhor dá essa ordem. Eu não. Obedeço e pronto!” 

Outra feita subiu numa escada-de-mão para tirar mangas de uma mangueira. A escada escorregou no tronco da árvore molhada e lá veio ele ao chão, num tombo perigoso. Ficou caído, todo machucado, enquanto a mãe se aproximava chorando e gritando. Levantou-se e disse: “− Minha mãe, espero que isto me sirva de lição.” 

Às visitas ele se apresentava rapidamente sempre que sua mãe o chamava. Para não embaraçá-las, dizia logo: “− Realmente estou muito crescido, não estou? Agora posso retirar-me para brincar lá fora e não perturbar a conversa das senhoras?” 

Certa vez saía de casa para ir ao cinema. Sua mãe ajeitou-lhe o laço do sapato. Ele disse, olhando a expressão do rosto dela: “− Realmente, a gente tem um filho, cria-o com tanto carinho e logo ele tem atitudes e vontades próprias. Isso é muito triste, a senhora não acha?” 

Quando falavam qualquer coisa de mais sério ou picante à sua frente, ele se levantava, pedia licença para se retirar: “− Os senhores sabem; eu ainda não tenho idade para ouvir certas coisas.” 

Quando o pai lhe dava dinheiro para comprar livros ou divertir-se, comentava invariavelmente: “− Na minha idade o senhor já ganhava a vida sozinho.” 

Se surpreendia a mãe trabalhando fora de horas, não se esquecia de dizer: “‒Oh! A senhora trabalha como uma escrava para sustentar-me e a verdade é que eu jamais saberei reconhecer isso.” 

Quando se esquecia e discutia um problema, voltava logo a si e ordenava: “− Bem, e agora creio que a senhora não quer ouvir mais uma palavra sobre esse assunto!” 

Se errava, dizia ao pai: “− Na verdade não sei o que está acontecendo com os meninos da minha idade. No seu tempo não era assim.” 

Ou então: “− Realmente eu já tenho idade para não fazer mais isso!” 

Ou ainda:  “− Nunca serei nada na vida se continuar assim.” 

Quando entrou para a faculdade, disse ao pai: “− O senhor nunca teve as oportunidades que está me dando.” 

Quando teve o seu primeiro amor, falou a ambos, pai e mãe: “− Acho que estou numa idade crítica. 

Quis casar cedo, mas reconheceu-o diante da progenitora: “− Sim Senhora, depois de todos os sacrifícios que a senhora fez por mim!” 

Era um cínico ou era um sábio.

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