Millôr Fernandes
Era um desses meninos modelos. Desses, é modo de dizer, pois nunca existiu outro igual. O seu primeiro choque com o mundo foi com o próprio pai. Estava um dia brincando com o seu trenzinho, fazendo barulho, enquanto o pai lia. De repente o pai gritou: “‒ Para com isso, menino!” Ele parou. Olhou para o pai e disse: “− Talvez, meu pai, outro menino de minha idade perguntasse por que o senhor dá essa ordem. Eu não. Obedeço e pronto!”
Outra feita subiu numa escada-de-mão para tirar mangas de uma mangueira. A escada escorregou no tronco da árvore molhada e lá veio ele ao chão, num tombo perigoso. Ficou caído, todo machucado, enquanto a mãe se aproximava chorando e gritando. Levantou-se e disse: “− Minha mãe, espero que isto me sirva de lição.”
Às visitas ele se apresentava rapidamente sempre que sua mãe o chamava. Para não embaraçá-las, dizia logo: “− Realmente estou muito crescido, não estou? Agora posso retirar-me para brincar lá fora e não perturbar a conversa das senhoras?”
Certa vez saía de casa para ir ao cinema. Sua mãe ajeitou-lhe o laço do sapato. Ele disse, olhando a expressão do rosto dela: “− Realmente, a gente tem um filho, cria-o com tanto carinho e logo ele tem atitudes e vontades próprias. Isso é muito triste, a senhora não acha?”
Quando falavam qualquer coisa de mais sério ou picante à sua frente, ele se levantava, pedia licença para se retirar: “− Os senhores sabem; eu ainda não tenho idade para ouvir certas coisas.”
Quando o pai lhe dava dinheiro para comprar livros ou divertir-se, comentava invariavelmente: “− Na minha idade o senhor já ganhava a vida sozinho.”
Se surpreendia a mãe trabalhando fora de horas, não se esquecia de dizer: “‒Oh! A senhora trabalha como uma escrava para sustentar-me e a verdade é que eu jamais saberei reconhecer isso.”
Quando se esquecia e discutia um problema, voltava logo a si e ordenava: “− Bem, e agora creio que a senhora não quer ouvir mais uma palavra sobre esse assunto!”
Se errava, dizia ao pai: “− Na verdade não sei o que está acontecendo com os meninos da minha idade. No seu tempo não era assim.”
Ou então: “− Realmente eu já tenho idade para não fazer mais isso!”
Ou ainda: “− Nunca serei nada na vida se continuar assim.”
Quando entrou para a faculdade, disse ao pai: “− O senhor nunca teve as oportunidades que está me dando.”
Quando teve o seu primeiro amor, falou a ambos, pai e mãe: “− Acho que estou numa idade crítica.”
Quis casar cedo, mas reconheceu-o diante da progenitora: “− Sim Senhora, depois de todos os sacrifícios que a senhora fez por mim!”
Era um cínico ou era um sábio.

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