Seu Ricardo, Jangadeiros, Padre Reus e um desejo.
Evandro Farias
O ano exato me escapa, mas devia ser por volta de 1968 ou 1969. Era um tempo maravilhoso no bairro Tristeza, um subúrbio que parecia carregar no nome o oposto do que oferecia: uma vida cheia de encantos e descobertas.
Minha família havia se mudado há poucos meses do interior, mais precisamente do balneário de Torres, a joia do litoral gaúcho, onde os despenhadeiros beijam o mar de maneira única. Meu pai, funcionário dedicado de um banco, foi transferido para Porto Alegre, trazendo consigo a esposa e seis filhos menores, todos ansiosos e um tanto apreensivos com a nova vida na capital. Nosso novo lar era uma casa simples, mas acolhedora, situada no número 800 da rua Landel de Moura. E na frente, o famoso clube Bandeirantes, chamado carinhosamente de Bandeira pelos frequentadores mais assíduos. Aquele local, cheio de vida, festas e eventos, rapidamente se tornaria um ponto de referência na nossa rotina.
Com a mudança, veio a inevitável tarefa de matricular os filhos na escola. Meu irmão mais velho e eu fomos inscritos no Colégio Padre Reus, para estudar no turno da tarde. Já minhas irmãs mais novas foram matriculadas no Colégio Três de Outubro. A adaptação à nova rotina escolar foi um misto de desafios e curiosidades, cada um de nós buscando encontrar seu espaço naquele ambiente desconhecido, mas que logo começaria a se tornar familiar. As novas amizades, os professores que se tornariam marcantes em nossas vidas, e até mesmo os caminhos que percorríamos diariamente de casa para a escola, formaram as primeiras páginas do capitulo da nossa história no bairro Tristeza.
Tudo corria bem... Até que conheci o seu Ricardo.
Figura emblemática na minha memória, ele era o dono de uma Kombi velha, daquelas que pareciam ter vivido muitas histórias, estacionada estrategicamente em frente ao portão principal do Colégio Padre Reus. A cor da Kombi oscilava entre o verde e o azul, dependendo de como o sol batia nela, mas o que realmente importava não era a aparência do veículo, e sim o que ele abrigava:
‒ O cachorro-quente mais delicioso que eu já tinha experimentado.
Seu Ricardo era mestre na arte de fazer um lanche irresistível. O cheiro do pão quentinho, da salsicha mergulhada no molho, misturado ao frescor da alface e ao toque final do molho caseiro, era simplesmente inebriante. E ao lado daquele cachorro-quente de dar água na boca, um refrigerante gelado, completando o que parecia ser um verdadeiro banquete. Um banquete que, para mim, era tão inalcançável quanto o topo do Everest.
As condições financeiras eram apertadas. Meu pai, com a responsabilidade de sustentar uma esposa dona de casa e seis filhos menores, já fazia milagres para pagar o aluguel da nossa nova casa. Mesada? Ah, isso era algo que sequer existia no nosso vocabulário. Uma palavra impronunciável, uma ideia distante, quase absurda.
E lá no recreio, dia após dia, estava ele:
Seu Ricardo na Kombi, pronto para servir aqueles lanches que pareciam ter sido feito para torturar meus sonhos infantis. Para piorar, alguns colegas, mais afortunados, desfilavam na minha frente com seus cachorros-quentes, mordendo com prazer e bebendo seus refrigerantes como se fosse a coisa mais natural do mundo. Eles comiam ali, bem perto de mim, sem sequer imaginar o quanto aquela cena me fazia sofrer. E o pior de tudo: ‒ Não ofereciam nem um pedaço, nem por educação, menos ainda por misericórdia. Se tivessem oferecido, mesmo que por piedade, eu teria aceitado de bom grado, e com a maior educação possível teria dado uma mordida que me levaria ao céu. Mas não, nem isso me era permitido. Assim, restava-me apenas olhar e imaginar como seria aquele sabor, enquanto o cheiro dos cachorros-quentes se misturava ao som da sineta que anunciava o fim do recreio.
Eu precisava, de qualquer maneira, encontrar uma forma de comprar o tão desejado combo do seu Ricardo.
Aquilo havia se tornado mais que um simples desejo ‒ era um sonho ‒, algo que começava a pulsar em mim com força crescente. O combo: cachorro-quente e refri. Na minha mente, ele já tinha forma, cheiro, gosto... Faltava apenas uma coisa: ‒ Os cruzeiros, a moeda da época. De onde tirar Cr$ 10,00, quantia exata para o combo?
A pergunta me acompanhava o tempo todo. Procurar emprego, na minha idade, com apenas 14 ou 15 anos, era praticamente impossível. Mas eu precisava tentar.
O seu Adail, da ferragem, foi o primeiro em quem pensei. Mas logo a realidade me lembrou do desastre que fora a minha última visita à ferragem. Ao tentar comprar pregos para meu pai, acabei furando a mão com eles, pois estavam embrulhados em um jornal mal dobrado. Isso, certamente, não ajudaria o meu caso.
O Bar de Pedra, onde alguns meninos, às vezes, conseguiam algum bico, também não era uma boa opção. Nunca fui bem recebido lá.
No bar Tolotti, que ficava na esquina e era comandado pelo pai do Cezinha Pardal, a vaga de ajudante já tinha dono ‒ justamente o Cezinha ‒ que, por ser da casa, tinha prioridade.
Na Loja Atenas, eu nem cogitei, sabia que era impossível.
E a Mecânica Delta? Perigoso demais, ainda mais para alguém com as minhas habilidades limitadas.
O bar Internacional só funcionava à noite, e meus pais jamais permitiriam que eu trabalhasse até tarde.
A fábrica de material de limpeza Kurt Keller era longe demais para um adolescente como eu.
Tentei o Cartório Salvatori, onde muitas vezes passei para ver como era a rotina de trabalho, mas lá só contratavam maiores de idade.
No Rony Francês, uma confeitaria que vendia de tudo um pouco, não havia vaga para um rapazote sem experiência.
A Auto Viação Guarujá Ltda – AVGL ‒, parecia ser a última esperança, mas lá também, só maiores de idade podiam conseguir algum trabalho.
A cada porta fechada, o desânimo ameaçava me vencer, mas a fome de realizar meu sonho, de comprar o combo do seu Ricardo, era maior.
Pensei, pensei e pensei. A solução tinha que estar em algum lugar, esperando ser descoberta. E, de repente, uma ideia surgiu, quase como um clarão na escuridão, ela tomou forma na minha mente. Sim, isso poderia funcionar.
Lembra do professor Pardal e sua fiel Lampadinha? Pois é, ali estava minha própria “Lampadinha”. Uma ideia, finalmente, brilhou na escuridão das minhas tentativas frustradas. Meu tio Flávio era ecônomo do Clube dos Jangadeiros, um dos clubes mais prestigiados da cidade. Era minha última e única chance de conseguir algum dinheiro e, quem sabe, finalmente experimentar o combo do seu Ricardo.
Decidi visitá-lo no clube:
‒ Aí, tio Flávio! Tudo bem? ‒ perguntei, tentando soar casual, mas com o coração disparado.
‒ Oi, garoto! Tá perdido? O que fazes por aqui? ‒ ele respondeu com um sorriso de surpresa, enquanto secava um copo com um pano de prato.
Eu respirei fundo, sabendo que aquele momento poderia mudar tudo.
‒ Quero ajudar o senhor lavando copos e limpando as mesas ‒ disse, tentando parecer confiante.
Meu tio me olhou de cima a baixo, avaliando a seriedade da minha proposta.
‒ Mas tu sabes fazer isso? Sem quebrar e me dando prejuízo? Perguntou, um pouco desconfiado, mas sem perder o bom humor.
Eu sabia que aquela era minha chance, então respondi rápido:
‒ Claro que sei, tio. Lá em casa sou eu que lava a louça e nunca quebrei nada.
Ele continuou me olhando, agora com expressão mais ponderada:
‒ Podemos pensar no assunto, disse ele, deixando a possibilidade no ar. E os estudos? Não vai prejudicar?
‒ Não, tio, estava pensando em trabalhar só sábado e domingo ‒ respondi, aliviado por ele não ter descartado a ideia de imediato.
Ele franziu a testa, refletindo por um momento, e, então, assentiu devagar:
‒ Realmente, é quando tem mais movimento. Vamos fazer um teste no sábado. Aparece aqui pouco depois do meio-dia.
O alívio e a emoção quase me fizeram saltar de alegria, mas me contive, mantendo a postura:
‒ Combinado ‒ disse, tentando esconder a felicidade que já brilhava nos meus olhos.
Saí do clube com o coração leve, já imaginando o momento em que finalmente poderia juntar os cruzeiros necessários para o combo do seu Ricardo. Tinha conseguido uma chance, e isso era tudo o que eu precisava (agora estava empregado de verdade).
A expectativa para o sábado era enorme, pois seria o dia em que começaria minha primeira relação patrão/empregado. Quando meu pai ficou sabendo, ficou um pouco preocupado. Ele também fazia uns bicos como garçom no clube Jangadeiros para ajudar a complementar a renda familiar. Afinal, com esposa, seis filhos menores e o aluguel para pagar, cada centavo contava muito. Mas eu estava determinado, e ele sabia disso.
No sábado, depois do almoço, lá fui eu, com o coração acelerado, mas cheio de alegria. Era meu primeiro emprego, mesmo sem carteira assinada, mas com a promessa de uma compensação financeira que, para mim, significava o mundo. Quando cheguei ao clube, meu tio me recebeu com um sorriso de satisfação.
‒ Gostei, guri! ‒ disse ele, dando um tapinha no ombro. ‒ Estava precisando mesmo. Toma conta da pia e dos copos. Vou te pagar Cr$ 5,00 (cinco cruzeiros) no sábado. Se vieres domingo pago Cr$ 10,00.
Meu Deus do céu! Sair daqui com 10 pilas no bolso para gastar no combo do seu Ricardo... Não tinha preço! Eu mal conseguia conter a emoção. A visão daquele combo, tão inalcançável até então, finalmente estava ao meu alcance.
No primeiro fim de semana, lavei copos como se minha vida dependesse disso. Sábado e domingo, sempre com cuidado, sempre atento para não quebrar nada e provar que eu era capaz. Quando meu tio entregou aqueles Cr$ 10,00 no final do domingo, me senti rico! Talvez não exatamente rico, mas certamente muito melhor do que antes. Agora eu tinha o dinheiro para realizar meu sonho.
A expectativa para a segunda-feira foi indescritível. Imaginava a cara da turma:
‒ Lorpa, Telminho, Sapo, Pereira, Ponta, Otto, Kardec, Netinho, Fernando, Schmidt e todos os outros. (Eles iriam “babar” de inveja quando me vissem com o combo nas mãos).
E então, finalmente, ela chegou. A tão esperada segunda-feira! Eu mal podia esperar para gritar, com todo orgulho do mundo, de dentro do pátio do colégio:
‒ Seu Ricardo! Um cachorro-quente e uma Pepsi!
Gritei me sentindo o maioral, como se naquele momento eu tivesse conquistado o mundo. E, de certa forma, tinha mesmo. O combo do seu Ricardo era mais que um lanche... Era a prova que podia alcançar o que quisesse na vida com esforço e determinação.

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