quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Pra sempre

 Sérgio Vaz

Cadê o menino? 

É, o moleque de calças curtas que agora pouco corria sem destino por aqui, você não viu? 

Mas ele passou bem diante dos teus olhos e quase te derrubou, tamanha bagunça que fez no teu coração. 

E a menina? Como “Que menina?”, aquela com tranças enormes arrastando pelo chão, uma bonequinha. 

Passou chupando o dedo pulando de pé em pé jogando amarelinha. 

O menino, onde se escondeu aquele menino? 

É, esse barco sem rumo que te fez embarcação? 

O Traquina serelepe passou com uma pipa na mão: “Manda buscá! Manda buscá!” 

E a linha de cerol quase corta teu braço, quase arranca o sol do céu, viu não? 

A menina está vendo ela? Como “Qual?” 

Aquela ruiva de sarda pintada de lápis de cera ou a negra com dentes de estrelas no balanço da lua, tanto faz... Não viu nenhuma delas? 

Desataram na tua ladeira zombando das tuas rugas, das fugas que ficaram para trás. 

Está sentindo o mundo parar e o tempo que não almejo? 

Lá no silêncio do universo, sem passado nem presente, eles se encontram para o primeiro beijo. 

Pode vê-los jurando amor eterno? 

Não? Que pena. 

Estão diante dos teus olhos fazendo bagunça no teu coração. 

Bora viver, quanto mais se vive, menos se morre. 

(Do jornal “Caros amigos, a primeira à esquerda”, de 2014)

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