quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Professor



Um professor sempre será melhor do que o Google.

Porque o professor não dá uma informação, conta histórias.
Porque o professor funciona mesmo sem wi-fi, mesmo sem luz, mesmo no temporal.
Porque o professor não facilita a busca, exercita a memória.
Porque o professor não cria dependência, mas possibilita amizades.
Porque o professor pode mudar o destino de um assunto, voltar atrás, recomeçar de novo, dependendo das necessidades da turma.
Porque o professor não realiza só o que você deseja, vai além com detalhes e comparações.
Porque o professor lê a sua alma quando levanta o dedo para a pergunta, não apenas recebe uma dúvida.
Porque o professor também se importa com aquilo que não entendeu mais do que aquilo que quis perguntar.
Porque o professor escolhe falar do que ama. Você não está apenas tendo uma aula sobre um conteúdo, e sim testemunhando uma história de amor.
Porque o professor não coloca o seu salário acima da vocação, não coloca as circunstâncias acima dos indivíduos.
Porque o professor não julga, é todo feito para compreender, e enxerga a nota como um retrato provisório de sua curiosidade. Aposta na recuperação milagrosa quando nem mais a família tem esperança.
Porque o professor não pratica nenhuma competição, não patenteia as suas frases, não sonega o que viveu, repassa tudo o que assimilou na carreira.
Porque o professor vislumbra o que você pode vir a ser, não se fixa em sua idade.
Porque o professor já foi aluno e entende que a atenção é resultado da confiança.
Porque, quando dá as costas, o professor continua enxergando com os ouvidos.
Porque o professor não tem pressa, já que cada um tem o seu ritmo.
Porque o professor não é onipotente. Faz humor quando erra. Você aprende a ser humano como ele.
Porque o professor fica feliz quando alguém demonstra saber mais do que ele.
Porque o professor realiza trabalhos em grupo para os alunos se admirarem pelo conhecimento.
Porque o professor cede o seu espaço para apresentações, torcendo para que um aluno goste de ser professor no futuro.
Porque o professor sofre com elegância. Nunca saberá quando está triste. Ele inspira a seguir adiante ainda que sem ânimo, a não parar a rotina devido a algum descontentamento.
Porque o professor é o próprio livro falado, encadernado de expectativas de que vá até o fim.
Porque o professor repassa a lista de chamada para você se pertencer dia após dia.
Porque o professor diferencia a ignorância da burrice. Ignorância é falta de vontade, burrice termina com o esforço.
Porque o professor corrige as suas provas com comentários, personalizando as falhas e os acertos.
Porque o professor acredita em você.

O Google acredita apenas em algoritmos.*










          (Texto de Carpinejar, em Zero Hora, setembro de 2019)


* Algoritmo é uma sequência lógica, finita e definida de instruções que devem ser seguidas para resolver um problema ou executar uma tarefa. Um algoritmo nada mais é que a descrição de um passo a passo para a realização de uma tarefa, como o modo de preparo de uma receita simples de bolo.


terça-feira, 24 de setembro de 2019

Bossa nova e Bossa-nova

João Gilberto no céu
  
Por Josué Machado


“Não basta escrever certo. Elegância e fluência também contam.”
  
O céu está em festa. Só se escutam os acordes do violão com a batida do mestre. Vinicius, Tom, Nara, Elis, Miúcha cantarolam baixinho. Ele se aproxima. Com jeito tímido, dá notícias do mundo. Pergunta pelos outros que foram na frente. Estão todos lá, preparados para o grande concerto. Deus, que andava por perto, se juntou ao grupo. Aproveitou uma pausa e pediu licença pra fazer uma pergunta:

− Estudei português há muito tempo, lá pelo século 12. Desde então, dedico um tempinho diário pra me aprofundar na língua. Mas tenho dúvidas, muitas dúvidas. Uma delas tem a ver com nosso novo morador. Ele criou a bossa nova. Ora vejo a duplinha escrita com hífen, ora sem hífen. Qual a diferença entre uma e outra?

Silêncio. Ninguém soube responder. Chamaram o Houaiss e o Aurélio, que se divertiam com a questão. Os dois sorriram e mataram a curiosidade do Senhor:

− O adjetivo se escreve com hífen. O substantivo não: João Gilberto criou a bossa nova. A bossa nova revolucionou a MPB. Gosto de música bossa-nova. É bom cantor bossa-nova.

João Gilberto ouviu a explicação. Sorriu discreto. E, lá com seus botões, sussurrou como se estivesse cantarolando: “Isso é lá coisa de artista?” Feliz, o dono da casa se afastou. Anjos, arcanjos e querubins o acompanham. Tocavam uma música bossa-nova. Com hífen.

Na origem

O Houaiss, sempre curioso, acrescentou:

Bossa vem do francês bosse. Na língua de Voltaire, a dissílaba quer dizer inchaço, protuberância. Aqui tomou outro rumo. Significa jeitão, estilo de cada um ser ou fazer. Na metade do século passado, Tom Jobim, Nara Leão, Vinicius de Moraes & cia. lançaram a bossa nova. É o gênero musical verde-amarelo que mais sucesso faz mundo afora.

Quem é quem

João Gilberto era... ops! São quatro substantivos muito parecidos. Todos se referem a instrumentos musicais de corda. Confundir é proibido. Quem toca...

Violão é violonista.

Violino é violinista.

Viola é violista.

Violoncelo é violoncelista.

É isso. João Gilberto era violonista.

Chefe X Líder

Qual é a gestão ideal?

Escrito por Henrique Carvalho


Chefe

Só se preocupa em ter a tarefa realizada em curto prazo.

Usa as pessoas.
  
Coloca-se na posição de superior.

Diz “eu”.

Controla pelo medo.

Toma o crédito.

Procura culpados.

Não aceita sugestões.

Deixa a equipe no escuro.

Quer controlar cada passo dos funcionários.

Reclama constantemente sem tomar uma ação.

Observa.

Manda.

Faz fofocas e elege favoritos.

Não conhece a equipe.

Procrastina as tarefas.

Pressiona e estressa os funcionários.

Prende todos a procedimentos imutáveis.

Chefes se frustram.

Líder

Investe nos membros da equipe a longo prazo.
  
Trabalha no desenvolvimento de cada membro da equipe.

Trata os membros da equipe com iguais.

Diz “nós”.

Conquista respeito e admiração.

Dá reconhecimento público.

Trabalha para corrigir o erro.

Ouve a ideia de todos.

Orienta claramente.

Demonstra confiança na equipe.

Toma uma atitude para melhorar a situação.

Ensina.

Participa.

Desaprova fofocas e procura unir a equipe.

Procura conhecer os talentos de cada um.

Foca em produtividade.

Motiva a equipe.

Encoraja a criatividade e inovação.

Líderes prosperam.

Aspectos da liderança

Pessoal: → O líder se preocupa em desenvolver sua capacidade de gestão da equipe.

Sustentação: → Protege a equipe, luta por recursos, dá feedbacks.

Contextual: → Constrói uma identidade para o time deixando claros a missão, papéis e práticas de cada um.

Direcionamento: → Instrui e tem uma liderança ativa para quem tem pouca ou nenhuma experiência.

Motivacional: → É uma fonte de otimismo e entusiasmo.

Compartilhamento e liderança: → Quando um membro da equipe demonstra experiência em uma tarefa, o líder delega a liderança do assunto.

O que torna uma pessoa um chefe ou um líder?

Qual é a grande diferença?

Uma equipe precisa de uma liderança, alguém que irá tomar a frente dos projetos e orientar todos os envolvidos.

Um chefe pode ser a pessoa responsável pelo trabalho a ser realizado, mas a forma como guia o time por esse processo não é nada saudável, e deixa as pessoas frustradas e estressadas.

O melhor rendimento de qualquer equipe é encontrado através da função de um líder que busca o melhor de cada um dos envolvidos e coloca o projeto e o profissionalismo acima de vaidades pessoais.

Liderar um grupo não é uma tarefa fácil, mas precisamos sempre tomar o cuidado de não cair em maus hábitos que nos tornam o tão odiado chefe.

Todo chefe tem capacidade de crescer para se tornar um líder, e consequentemente melhorar os resultados e satisfação de sua equipe.

Mas para isso é importante identificar as características que são um problema e precisam ser melhoradas.

Para isso montamos para você um infográfico com os principais aspectos de um chefe em comparação a um líder.

Se você identificar comportamentos típicos de um chefe, é bom prestar atenção no seu time e nos seus projetos, pois as chances são grandes de seus funcionários estarem infelizes e o trabalho não estar atingindo o potencial que poderia.

“O líder é aquele que conhece o caminho,
percorre o caminho e mostra o caminho.”
John C. Maxwell


segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Dez músicas de Lupicínio Rodrigues

que você precisa conhecer


Por Maria Fernanda Moraes

Quando Vinícius de Moraes escreveu que “todo poeta só é grande se sofrer” (do poema Eu não Existo sem Você, de 1957), mal sabia ele que, anos antes, em 16 de setembro de 1914, já havia nascido um compositor gaúcho que cantaria melhor que ninguém seus sofrimentos amorosos. Não é à toa que Lupicínio Rodrigues ficou conhecido como “o rei da dor de cotovelo”.

Os amores desfeitos e as dores de cotovelo sempre estiveram presentes em seus sambas-canção, conhecidos também como “samba triste” ou “samba de meio do ano” (pois eram lançados e faziam sucesso fora da época do Carnaval). Invariavelmente, as letras ligavam a sua desgraça sentimental à mulher e foram interpretados pelos maiores cantores populares do país, como Herivelto Martins, Orlando Silva, Caetano Veloso, Elis Regina e muitos outros.

Autobiográficas, suas músicas acompanhavam as fases de sua vida. Ainda jovem, um episódio amoroso influenciaria seu estilo para o resto da vida: em 1933, depois de entrar para o exército, Lupicínio foi transferido para a cidade gaúcha de Santa Maria. Foi lá que conheceu Iná, sua primeira grande paixão e a musa que inspiraria muitas composições. Entretanto, a vida boêmia do compositor fez com que Iná desistisse do noivado, depois de cinco anos de relacionamento.

No livro “Foi Assim” (Editora L&PM), Lupicínio Rodrigues Filho conta que o pai não tocava instrumentos, apenas fazia sons com uma caixa de fósforos. E na hora de compor tinha um método peculiar: assobiava. Lupicínio costumava dizer que não era músico ou compositor, assumia-se apenas como “um boêmio profissional”.

Lupicínio morreu aos 59 anos, com problemas no coração. Com cerca de 150 canções, muitas delas ficaram famosas pelas vozes de cantores prestigiados. Acompanhe algumas:

01. “SE ACASO VOCÊ CHEGASSE”

→ Foi com esse samba, em 1938, que Lupicínio alcançou seu primeiro grande sucesso, em parceria com Felisberto Martins e gravado na RCA Victor por Ciro Monteiro. Em 1957, foi regravado por Elza Soares e se transformou numa das mais importantes músicas do repertório dela (a música está no disco Se Acaso Você Chegasse, que faz parte do box Negra).

A letra do samba refere-se ao episódio em que Lupicínio conta a Heitor Barros que estava tendo um caso com uma ex-namorada do amigo, sugerindo que mantivessem a amizade apesar disso.

02. “NERVOS DE AÇO”

→ Em 1947, Francisco Alves fez a primeira gravação desse samba-canção, que se tornaria um clássico da música popular brasileira. Mas foi na voz de Paulinho da Viola que a música arrebatou as gerações mais recentes (pode ser encontrada no disco Argumento).

Essa é uma das canções inspiradas por Iná, a noiva que desistiu do casamento com Lupicínio por conta da vida boêmia dele. Os versos de “Nervos de Aço” nasceram quando Lupicínio viu a ex-noiva casada com outro homem.

03. “VINGANÇA”

→ Em 1951, a cantora Linda Batista gravou dois sambas de Lupicínio na RCA Victor: “Dona divergência”, com Felisberto Martins, e “Vingança”. Este último é um dos grandes exemplos de suas canções ao estilo dor de cotovelo e rendeu ao compositor grande projeção. Posteriormente, a música ficou famosa também na voz de Maria Bethânia (no disco Memória da Pele).

Na história da letra, Mercedes (também conhecida como Carioca), então namorada de Lupicínio, tenta seduzir um empregado dele, que conta ao patrão o caso. Ele rompe com ela e, logo em seguida, no carnaval, os amigos dele a veem num bar e, sem saberem do rompimento, perguntam por Lupicínio. A moça se põe a chorar copiosamente, o que o inspira a escrever a música logo após saber do episódio.

04. “NUNCA”

→ Depois da letra de “Vingança”, outro episódio com a Carioca também virou canção. Trata-se de uma resposta negativa às tentativas da moça de reconquistar Lupicínio. Em certo momento, o compositor diz que “nem se Deus mandar” ele faria as pazes com ela. Segundo dizem, a moça havia levado uma foto dele para um pai de santo fazer um trabalho.

Na década de 1980, a canção voltou a ganhar notoriedade com a regravação de Zizi Possi.

05. “ESSES MOÇOS (POBRES MOÇOS)”

→ Outro grande exemplo de uma bela dor de cotovelo, mas desta vez destinada a um amigo. A canção ficou famosa na voz de Francisco Alves, e Lupicínio Rodrigues a escreveu ao saber que seu grande amigo e parceiro Hamilton Chaves iria se casar. Segundo contam, Lupicínio achava o companheiro ainda moço para se casar – ele estava com 22 anos. O conselho, entretanto, não foi ouvido, mas se tornou uma canção popular na época.

06. “FELICIDADE”

→Essa é uma das canções mais populares de Lupicínio: “Felicidade foi-se embora e a saudade no meu peito ainda mora”. Em 1947, o Quarteto Quitandinha foi o primeiro a gravá-la. Depois, na década de 1970, virou hit com a regravação de Caetano Veloso.

Segundo o diretor e dramaturgo Artur José Pinto, que estudou a vida de Lupicínio para fazer Lupi, o Musical, há um episódio em que Lupicínio encontrou Caetano num bar em Porto Alegre depois de um show na cidade. Caetano ainda estava com a maquiagem do show e causava estranheza nas pessoas ao redor. Lupicínio então o acolheu e passaram a madrugada toda conversando.

07. “CADEIRA VAZIA”

→ Imortalizada na voz de Elis Regina, a letra dessa canção fala da história de uma moça que saiu de Porto Alegre para ir atrás de outras oportunidades no Rio de Janeiro. Como as coisas não andaram bem, ela precisou retornar ao Sul. Na volta, o ex-namorado Lupicínio a acolheu. Mas o sofrimento da separação foi tanto que ele não conseguiu mais amá-la como antes.

08. “ZÉ PONTE”

→ Orlando Silva foi um dos grandes intérpretes de Lupicínio. Em 1947, o compositor deu a Orlando duas canções: “Brasa” e “Zé Ponte”.

Na letra de “Zé Ponte”, Zé é um alter ego do compositor, e a cabocla presente na letra é Iná. A canção é a primeira que ele compôs para ela, ainda antes de namorarem e antes da desilusão.

09. “EXEMPLO”

→ É uma das muitas canções de Lupicínio que ganharam vida na voz de Jamelão, grande parceiro e intérprete das dores do compositor gaúcho.

A música foi feita para comemorar os dez anos de casamento de Lupicínio e dedicada à sua mulher Cerenita. A esposa e o filho também aparecem em outra música, “Nossa Senhora das Graças”.
10. “HINO OFICIAL DO GRÊMIO”

“Até a pé nós iremos, para o que der e vier. Mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio, onde o Grêmio estiver”.

→ Apaixonado por futebol e torcedor fanático do Grêmio, é de Lupicínio a letra e melodia do hino oficial do clube, composto em 1953 em um guardanapo de papel num restaurante, segundo contam. A história é que ele e mais alguns amigos aguardavam o horário do bonde para ir até o estádio assistir ao jogo, mas souberam que o serviço estava em greve. Tiveram, então, que seguir a pé até o estádio, e lá, vendo seu time jogar, o compositor teve a ideia da letra. A canção venceu um concurso em comemoração ao cinquentenário do time e depois se tornou o hino oficial.

(Do Blog da Livraria Saraiva)

sábado, 21 de setembro de 2019

A Rádio Nacional, PRE-8 – Programa César de Alencar


Uma estação de rádio, com um elenco maior do que o de qualquer emissora de televisão no Brasil. Praça Mauá, nº 7, Rio de Janeiro. Sábado, 14h58min. Dentro de dois minutos estará no ar o maior programa de todos os tempos do rádio brasileiro. A Rádio Nacional transmite alguns anúncios, depois de ter apresentado o Consultório Sentimental, de Helena Sangirardi, e a reprise do “Balança, mas não cai”, cuja audiência de 35 pontos no Ibope é incrível, tendo em vista que o programa foi apresentado ontem à noite.

O auditório, de pouco mais de seiscentos lugares, está superlotado. No mínimo, umas mil pessoas aguardam ansiosas o início do programa. Seu apresentador e principal responsável, César de Alencar, acerta com um dos produtores, Hélio do Soveral, os últimos detalhes para que tudo ocorra bem. A orquestra, com os integrantes todos sentados e o maestro Chiquinho, com seu enorme lenço no bolsinho de cima do paletó, preparado para comandar os primeiros acordes do prefixo do Programa César de Alencar. No ar, o último jingle comercial: é a valsa do Phimatosan, composta por Lourival Marques, que retirou a melodia de uma música europeia do século passado (séc. XIX).

O operador acende a luz vermelha indicando que, dentro de quinze segundos, estará no ar o Programa César de Alencar. Milhões de aparelhos de rádio, em todas as cidades brasileiras, do Amazonas ao Rio Grande do Sul, estão ligadas, oferecendo uma audiência esmagadora. Aliás, o ponteiro desses aparelhos poucas vezes sai da Rádio Nacional.

À tarde, pode haver jogo da Seleção Brasileira, que a Nacional não deixa de transmitir o Programa César de Alencar.

Esta canção nasceu para quem quiser cantar,
Canta você, cantamos nós até cansar.
É só bater e decorar, para recordar,
Vou repetir o seu refrão,
Prepare a mão, bate outra vez,
Este programa pertence a vocês.

Curiosidades

Þ Trabalhou durante trinta anos na Rádio Nacional, apresentando o Programa César de Alencar, em que desfilam as grandes estrelas da época, como Emilinha Borba, Linda Batista, Isaurinha Garcia, Vicente Celestino, Nelson Gonçalves, entre tantos outros.

Þ Segundo Luis Vieira, “Ele tinha o raciocínio rápido, era engraçado, sabia extasiar um auditório. Foi o maior animador que já apareceu no Brasil”.

Þ Em março de 1964, na tomada do poder pelos militares, César, então diretor da Rádio Nacional, é acusado de denunciar como comunistas vários companheiros de trabalho, denúncia nunca comprovada.*

Þ Poucas vezes ele rebate as acusações, mas com certeza morre com essa mágoa.**

Þ Nos últimos tempos, ainda apresentava seu programa todas as manhãs de sábado na Rádio Nacional.

Þ No cinema, participa de inúmeros filmes, sendo sua estréia em 1944, no filme Corações Sem Piloto.

Þ Morre em 14 de Janeiro de 1990, aos 73 anos de idade, de enfisema pulmonar, no Rio de Janeiro.

*   Mário Lago, um dos expurgados da Rádio Nacional, confirmou que ele denunciou ao regime militar todos esquerdista da Rádio Nacional.

** Nunca rebateu porque elas eram verdadeiras.


César de Alencar e as irmãs Linda e Dircinha Batista

César de Alencar (1917-1990), apresentador brasileiro de rádio e televisão foi uma das peças fundamentais para o sucesso de nossa música popular apresentando os futuros "monstros" da MPB, na época calouros ou já famosos.

Com voz e estilo cativantes, foi campeão de audiência no rádio por mais de 15 anos, popularizando, no Brasil, fórmulas que faziam sucesso nos Estados Unidos, como a parada de sucessos, em Parada dos maiorais, e o programa de calouros, em Cantinho dos novos.

Entre as inovações que trouxe para o rádio brasileiro está a entrevista ao vivo por telefone, recurso usado até hoje. Fez a transição para a TV logo nos primeiros momentos do novo veículo, no início da década de 1950, mas nunca conseguiu igualar o imenso sucesso de seus programas de rádio.

Desde 1993, com a publicação do livro “César de Alencar: a voz que abalou o rádio”, de Jonas Vieira, vem sendo lembrado mais por sua colaboração com os órgãos de repressão a partir do golpe militar de 1964 do que por seus feitos no rádio.


Auditório da Rádio Nacional

P.S. No regime militar que se instalou no Brasil em 1964, 67 profissionais da Rádio Nacional foram demitidos e 81 ficaram sob suspeita.

Os 36 demitidos e outros que foram sendo aos poucos afastados tomaram caminhos diversos. A televisão, que se fortaleceu nos anos seguintes, sobretudo com a inauguração da TV Globo, em 1965, absorveu grande parte do cast expurgado da Rádio Nacional, como os novelistas Dias Gomes e Mário Brasini, os atores Mário Lago e Gracindo Júnior, e o apresentador Paulo Roberto.

 Na luta pela anistia, no final da década de 70, os expurgados da Nacional formaram uma comissão, tendo à frente Mário Lago. O decreto de anistia veio em 1979, no governo do general Figueiredo. Gerdal lembra que o escritor Guilherme Figueiredo, irmão do presidente, defendia a reintegração dos demitidos, na época 30 nomes, porque seis já haviam falecido: Paulo Roberto, Oduvaldo Vianna, Jararaca, Heitor dos Prazeres, Jairo Argileu e Ovidio Chaves. A reintegração só ocorreu em 1980.

                                            (Do blog Agência Brasil)


sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Tudo bem, assumo a idade que tenho.

(excerto)*

David Coimbra


(...)

É preciso envelhecer com dignidade, afinal, sem essas vaidades de pintar o cabelo e outros que tais. Você haverá de entender que não tem mais aquela elasticidade e que começará a se preocupar com coisas nas quais antes nem pensava, como as articulações.

Você terá de mudar.

Dormir mais cedo. Beber menos. Comer menos também. Nas atividades amorosas, nada de acrobacias. Pensando bem, nada de acrobacias em nenhuma atividade. Esporte? O xadrez. Emoções? As literárias. O que nós queremos, nós que nos aproximamos da idade provecta, é paz e um plano de saúde confiável.

Sei que, falando assim, tudo parece sombrio, mas há uma vantagem. Uma só. E não é essa tolice de “melhor idade”. Também não é a experiência. Nada disso. A vantagem da madureza passa por algo que citei acima: as críticas. O homem mais velho, se sorveu com sabedoria o tempo que lhe coube, pouco se importa com elas. Ele sabe que tem ser quem é, a despeito do que querem que ele seja. Ele sabe que sempre haverá quem desaprove o que ele faz, por melhor que seja feito. Ele sabe que a opinião dos outros não vale um minuto de inquietação do seu dia.

Esse é o verdadeiro e único proveito do entardecer da existência: você gosta de ser quem é. Eu gosto.

*****
  
*Parte da crônica “O que o sapato diz de quem você é”, de David Coimbra, Zero Hora, setembro de 2019.




quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Outra tragédia no Maracanã...



Maracanã 2014


Num Domingo, dia 10 de fevereiro de 2008, fui, com minha mulher, ao Maraca assistir a um Flamengo e Fluminense, o clássico Fla-Flu. Paguei uma nota preta, pois no pacote que comprei na portaria no hotel, onde estava hospedado, incluía ingressos em cadeiras numeradas, transporte ida e volta com guia e motorista à disposição. No ônibus refrigerado, havia canadenses, franceses, americanos, equatorianos, russos e brasileiros. A guia resolveu fazer um bolão entre os passageiros (uns 30) com o palpite do jogo a dez reais por cabeça. Quem acertasse o resultado exato levava tudo (uns 300 pilas, em moeda gaúcha). Fui o primeiro a dar um palpite. Falei para minha mulher que um dia o Joel Santana, técnico do Flamengo, disse que o Renato Gaúcho, técnico do Fluminense, não servia nem para engraxar a sua prancheta. O Renato devia estar puto da cara com essa declaração e faria tudo para ganhar o jogo. Mandei-a cravar 2 X 1 para o Fluminense. Não, apaga tudo, põe 3 X 1 para o Fluminense!

Já acomodados no belo e agora bem conservado Estádio Mário Filho (irmão do Nélson Rodrigues), mas todos o conhecem como Maracanã. Com banheiros modernos e limpos, um belo gramado, dois telões, cadeiras coloridas por setor com as cores da bandeira do Brasil. Verde, amarelo, azul e branco. Boa iluminação e drenagem.

Estou num setor onde há turistas do mundo inteiro. Parece que estou na Torre Eiffel, em Paris, tal o número de turistas com suas máquinas fotográficas e câmeras. Sinto que todos estão embasbacados com o tamanho e a beleza do Estádio. Todos compraram camisas dos dois times, e ficam encantados com a coreografia das torcidas, que é um espetáculo à parte.

Começa o jogo, gritos, foguetes e canções dos dois lados. Primeiro tempo zero a zero. Há nuvens negras no céu. No intervalo do jogo desanda um forte temporal, raios cruzam os céus, um deles cai perto do Estádio fazendo num barulhão infernal, o que anima mais a galera. Falta luz por um breve momento. Terminada chuva, voltando a luz, recomeça o jogo. 

Logo a seguir o Mengo faz um gol, para o meu palpite dar certo, o Flu terá que marcar três. Falta a favor do Fluminense, longe, fora da área. Chute forte, um a um. Passam alguns minutos, falta do mesmo lugar, vai chutar o mesmo batedor, dois a um. Logo a seguir mais um gol do Fluminense: três a um. 

Começo a sair do Estádio, estou agora junto com a torcida do Fluminense, próximo ao meu portão de saída. Falta um minuto para terminar a partida. Comento com a minha esposa “Vamos comer uma bacalhoada e tomar um bom vinho gaúcho da melhor qualidade!”

Último escanteio para o Nense, como a torcida grita, penso comigo mesmo “Só falta a gora um filha da puta desses marcar um gol...” Não dá outra, gol do Fluminense, quatro a um! A torcida delira ao meu lado, todos se abraçam, só eu fico sentado, cabisbaixo. Puta que pariu! Adeus bacalhoada, adeus vinho gaúcho... Ganhou o bolão uma canadense que nunca tinha entrado num estádio e não entendia porra de nenhuma de futebol, Ah! Vão se ferrar!

(NSM)