sexta-feira, 3 de julho de 2020

Maior pista de skate da América Latina terá símbolos urbanos de Porto Alegre


Local será um atrativo para os praticantes de skate
e também a visitantes da cidade ou de fora.



O complexo skate park, que integra a obra de revitalização do trecho 3 da Orla do Guaíba, começa a tomar forma e a mudar a paisagem à beira do lago. O conjunto de pistas, com obras 20% já concluídas pela prefeitura, terá elementos simbólicos do cenário urbano da Capital, mais um atrativo do local, que deve se tornar um ponto turístico voltado à prática de esportes e abrigar grandes eventos relacionados ao skate. A execução está a cargo de uma equipe formada por 12 integrantes ligados ao esporte.

A novidade de elementos urbanos da cidade foi incluída em um dos formatos de pista que atende à modalidade street, no street plaza. Essa categoria abrange os praticantes das ruas. “A partir dessa ideia, a empresa executora observou o que atrai os praticantes da Capital e trouxe para o projeto três equipamentos simbólicos: o corrimão da Câmara Municipal, a ponte ondulada da Praça Itália e os bancos do calçadão de Ipanema, na Zona Sul da cidade, com uma releitura desses espaços”, conta o secretário municipal de Infraestrutura e Mobilidade Urbana, Marcelo Gazen. Também serão utilizados equipamentos como hidrantes e tampas de bueiro elevadas, além de elementos como âncora, atracadouro e correntes de ferro, em alusão à atividade portuária da cidade.

“Foram observadas as preferências de quem pratica o esporte, e estamos preparando o local, em conjunto com o olhar sensível da empresa Spot Skateparks, para atrair também o turismo e para que a população venha a redescobrir Porto Alegre e ver que ela mudou para melhor. Sem dúvida, a pista vai consolidar a Capital como referência no esporte e colocar Porto Alegre na rota de grandes eventos, inclusive internacionais, depois que este momento de pandemia já estiver superado” – Prefeito Nelson Marchezan Júnior.

A obra da pista tem consultoria, acompanhamento técnico e execução da Confluência, uma parceria entre a Spot e a Rio Ramp Design, duas organizações do ramo, formadas por skatistas do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro. Conforme o projeto executivo, a área real de obra abrange 6.268 metros quadrados (m²) e a pista receberá 940,20m³ de concreto 19,50 toneladas de aço. O investimento contratual é de R$ 2.452.181,29.

Andamento – No momento, ocorrem os serviços de instalação da serralheria no Flow Park e de execução da infraestrutura de fundações no Street. Em cerca de 30 dias, devem ser iniciadas também as pavimentações do conjunto Bowl/Flow Park/Snake Run.

O diretor de projetos da Spot Skateparks, Frederico Cheuiche, que também é skatista, todos os colaboradores da empresa têm conhecimento não apenas de skate, mas qualificação também em engenharia, marcenaria e serralheria. “A equipe é formada por profissionais oriundos do skate devido ao comprometimento e dedicação necessários durante a construção. Eles sabem da responsabilidade e da expectativa sobre o resultado de cada obra e possuem qualificação para atingirem o êxito”, destaca Cheuiche.

Ele nasceu no Rio de Janeiro, mas reside em Porto Alegre há 30 anos. Ressalta que, após 15 anos projetando e executando skate parks por todo o país, considera gratificante participar deste projeto. “Esse imenso espaço será não só um local destinado ao esporte, lazer e convivência, mas também um grande playground para crianças de 8 a 80 anos”, diz.

Trecho 3 – A revitalização está com cerca de 27% dos serviços prontos. O canteiro de obras, a terraplenagem, a contenção em gabiões, as fundações (estacas), o enrocamento e o manejo vegetal estão 100% concluídos. Estão em fase final a rede de drenagem pluvial (93%) e o estacionamento (92%). Seguem em andamento a pista de skate (20%), blocos de fundações (50%), passeio e pavimentações (15%), quadras esportivas (6%), estruturas de concreto das edificações (13%) e rede elétrica e lógica (15%).

O trecho 3 está localizado em 15 hectares entre a foz do Arroio Dilúvio e o Parque Gigante. A revitalização contará com ciclovia, arborização, iluminação em led, três bares, 27 quadras esportivas e estruturas de apoio para prática de esportes. Os recursos para a obra são provenientes do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), do Fundo Municipal de Iluminação Pública e do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae). (PMPA).

(Do blog Porto Alegre 24 horas)

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Lambe-lambe

Lambe-lambe popularizou o retrato

Liz Batista

Atividade nasceu no início do século 20 
e impulsionou mudanças na fotografia


Fotógrafo lambe-lambe no Jardim da Luz em 17/2/1985. L. Gevaerd/ Estadão

Décadas antes dos “selfies” e da foto digital, bem antes que qualquer lance cotidiano e banal pudesse ser registrado com um celular, a fotografia, mais especificamente o retrato era algo que carregava certa formalidade. Inicialmente elas eram feitas em estúdios. Mas, no início do século 20 por volta de 1915, um novo ofício surgiu, o fotógrafo ambulante, ou “lambe-lambe”.

Munidos de uma câmera-laboratório portátil, os fotógrafos de praça clicavam a foto, a revelavam e entregavam as cópias aos clientes. No processo, eles lambiam a placa de vidro para saber qual era o lado da emulsão ou passavam a língua sobre a chapa para fixá-la, o gesto lhes rendeu o apelido de lambe-lambe.

O Estado de S.Paulo - 24/11/1974


Nas praças, parques, jardins, onde houvesse um espaço público com área de lazer, ali estavam os ambulantes, oferecendo aos transeuntes a chance de imortalizar aquele instante. A atividade ajudou na popularização da fotografia e tornou o retrato um produto mais acessível. Na década de 1970, a profissão entrou em decadência. A indústria da fotografia havia colocado no mercado uma variedade de câmeras portáteis e os hábitos de lazer da população urbana haviam passado por transformações. O mercado dos ambulantes se viu reduzido a retratos para documentos, como mostra a foto acima. 


Lambe-lambe tira foto para documento em 17/2/1985. L. Gevaerd/ Estadão

Os registros feitos pelos fotógrafos ambulantes são importantes fontes históricas. Eles refletem as transformações sociais e econômicas das cidades. A mudança de cenário, dos painéis usados como fundo nos estúdios, para as ruas e suas inúmeras possibilidades de paisagens ampliaram os significados do registro fotográfico. Imigrantes e migrantes poderiam registrar seus dias na metrópole para onde foram em busca de um sonho ou de dias mais prósperos e casais de namorados podiam eternizar um romântico passeio no jardim. Uma mudança comportamental também marcou esse tipo de registro. Muitas vezes feitas em um momento de lazer, a foto tirada por um ambulante refletia uma maior naturalidade, os retratos eram menos posados.

(Do Estado de S.Paulo de 02/12/2015)



quarta-feira, 1 de julho de 2020

A máscara que revela

Mário Corso


Sábado, dia 20 de junho, foi um anoitecer quente para esta época do ano em Vacaria. Um cliente entra em um supermercado para compras. Como estava sem máscara, o gerente pede que ele a coloque, ou então que se retire. O cliente rejeita ambas as sugestões. A discussão segue e o cliente puxa uma faca e desfere dois golpes no abdômen do gerente. Este reage com dois tiros no agressor.

O drama estilo Velho Oeste terminou no hospital.

O cliente morreu e o gerente, felizmente, passa bem. Mas a questão é: o que leva alguém a um ato extremo para evitar uma máscara?

As evidências de que a máscara previne a dispersão do vírus são claras. Porém, muitas pessoas, como nosso infeliz cidadão vacariense, teimam em não usar. O que essa atitude diz delas?

Quem também se fez essa pergunta foi o psicólogo Pavel S. Blagov. Ele recrutou 502 americanos adultos e aplicou uma bateria de perguntas. Mesclava questões sobre medidas básicas de proteção, incluindo o uso da máscara, com outras que indicavam traços de personalidade.

Cruzando os dados, obteve que as pessoas com altos traços de narcisismo, psicopatia e maquiavelismo são as que menos aderem às recomendações sanitárias. O leitor perguntará: então, quem não usa é psicopata?

Calma, são indicativos de traços de personalidade. Isso pode resultar em um leque de possibilidades, que vai de uma misantropia leve, um mero ermitão, até uma verdadeira personalidade antissocial e criminosa.

Acho precipitadas as conclusões com amostragem baixa, mas a pesquisa deixa-nos pensando. O falecido de Vacaria tinha antecedentes por ameaça e crime de trânsito. Ou seja, um comportamento no espectro da tendência antissocial. Essas pessoas que só pensam em si, não fazem nada para a coletividade, tampouco sentem empatia com o sofrimento alheio.

Ainda faltam ingredientes nesse caldo. Pouca escolaridade pesa muito, e o oposicionismo à ciência, que é uma escolaridade ao avesso, conta ainda mais. No caso dos homens, a masculinidade frágil é decisiva. Acreditam que para parecer bem homem − note que a dúvida é do próprio sujeito − tem que se evitar a máscara. Não querem passar por medrosos. O uso revelaria fraqueza, considerada algo feminino, na cabeça dessa mentes confusas quanto a sua identidade viril.

Pensem a respeito. É uma oportunidade de conhecer a índole e civilidade dos vizinhos e conhecidos.

Está na cara.

(Do jornal Zero Hora, de julho de 2020)

terça-feira, 30 de junho de 2020

Tempos loucos

Túlio Milman


1. Antes da pandemia, usar máscaras na rua era coisa de bandido.
    Agora, e de mocinho.

2. Agrotóxico era veneno.
    Agora é a salvação contra uma nuvem gigante de gafanhotos.

3. Cinema drive-in era coisa do passado.
    Agora é do futuro.

4. Não visitar os avós era ingratidão.
    Agora é amor.

5. Não ir a aula, só se ficasse doente.
    Agora, a ordem e não chegar nem perto da escola para não adoecer.

6. Abraçar os amigos era carinho.
    Agora é irresponsabilidade.

7. Antes, governo distribuir rendas para milhões de família era coisa de comunista.
    Agora é projeto defendido por um ministro liberal.

(Em Zero Hora, junho de 2020)


sábado, 27 de junho de 2020

A cidade guardada na memória



Histórias e personagens de Porto Alegre 
nas lembranças do poeta
que mais escreveu sobre a cidade, nos seus 85 anos.

Mário Quintana*

Encomendaram-me um texto sobre Porto Alegre antigo, logo para mim que não sou o tipo de velho rememorativo, não sou daqueles que vive suspirando: − Ah! Os bons velhos tempos!... − os tempos são sempre bons, os velhos é que não prestam mais. E temo também o perigo das falsas recordações, embora não acredite na observação direta. Acontece que tenho tal poder de visualização que às vezes não sei se aquilo que evoco eu vi mesmo, ou foi algo que me contaram, ou apenas imaginei.

Quando ginasiano vim para Porto Alegre interno no Colégio Militar. Aos sábados, eu ia para a Biblioteca Pública e lia até o anoitecer. O pessoal de casa começou a estranhar minhas ideias, meu pai, em uma de suas vindas a Porto Alegre, foi até a biblioteca descobrir que livros eu costumava ler, e descobriu: poetas franceses e filósofos russos. Frequentei a Biblioteca Pública por muitos anos, amigos meus foram seus diretores − o Augusto Meyer em 1930 e o Reynaldo Moura em 1939. No tempo do Reynaldo, quando a gente queria mesmo um livro e não tinha, fazia-se a solicitação por escrito e eles providenciavam diretamente de Paris. A gente só lia em francês, pois naquele tempo Paris era a capital do espírito humano, um autor para ser conhecido tinha que ser traduzido primeiro para o francês.

Voltando ao Colégio Militar estudei lá até 1924. Não completei os estudos porque só estudava Português, Francês e História. O resto absolutamente não me interessava. Era sempre reprovado em Matemática. Como via que não iria adiante por culpa da raiz quadrada, raiz cúbica e outras bobagens, resolvi me empregar como caixeiro na Livraria do Globo. Meu pai veio me buscar, de nada adiantou o Mansueto Bernardi dizer que eu era um bom caixeiro e que gostava de livros. Meu pai ficou indignado. Imagina, o filho, um bom caixeiro. Ele era extraordinário, mas como todos os burgueses queria um filho doutor.

Depois de três anos como prático de farmácia em Alegrete voltei a Porto Alegre. Me estabeleci em uma pensão. Sempre morei em pensões ou hotéis. Onde eram as pensões? Sei lá! − Na Barros Cassal, na Rua do Rosário, na Dona Laura... As pensões sempre eram casas antigas e seus donos eram velhos e, portanto, muito morredores e quando eles morriam os herdeiros vendiam as casas e nos seus lugares construíam-se arranha-céus. As pensões não existem mais. Morei treze anos no Hotel Majestic. Hoje é a Casa de Cultura que leva meu nome, e eu considero isto uma conquista da poesia no Rio Grande do Sul. Portanto me sinto orgulhoso, não vaidoso. Por volta de 1929 ingressei na redação do jornal O Estado do Rio Grande, órgão da oposição, dirigido por Raul Pilla. Nesta época Porto Alegre era uma cidade pequena onde todos, ou quase todos se conheciam e as diversões eram os bares, os cafés, as galerias de arte e o Theatro São Pedro. Uma vez, o Telmo Vergara e eu fomos a um vernissage na Galeria do Grande Hotel, que ficava na Rua da Praia, próximo à Caldas Júnior. Lá encontramos o Flores da Cunha, que era o presidente do Estado, frente a frente nos cumprimentamos e ele disse:

− Que pena rapazes tão inteligentes estarem do outro lado.

O Telmo respondeu:

− O mesmo pensamos nós do senhor.

Havia muita educação entre as pessoas, tanto que quando o Ovídio Chaves e eu, completamente altos, queríamos entrar no Cabaré Oriente − era um cabaré dançante − o porteiro nos chamou a atenção:

− Os senhores não devem entrar, os senhores estão visivelmente...

Naquele tempo todo mundo usava chapéu... Na Rua da Praia, entre a Marechal Floriano e Praça da Alfândega, passeavam as moças, sempre acompanhadas. Era um desfile de modas, e a gente ficava de um lado para o outro. Já na zona do Mercado Público ficavam o meretrício e os homossexuais.

O Theatro São Pedro já era tradicional quando eu, moço, comecei a frequentá-lo e foi envelhecendo com a gente. − Somos da SAB! − Assim entrávamos no Theatro São Pedro. O porteiro nos deixava passar pensando que a SAB era uma sociedade muito importante, mas SAB queria dizer: Sociedade dos Amigos do Barone. O Dante Barone, diretor do Theatro São Pedro naquela época, era nosso amigo e conforme o público, se havia lugares, ele nos fazia um sinal. Assim a gente assistia a peças locais, vindas de fora e operetas. Gostávamos muito de operetas, tínhamos pavor à ópera. Foi aí que eu inventei que dueto de ópera parecia namoro de gato que nunca chegava às vias de fato e não deixava a gente dormir.

Foi no final de um espetáculo que eu e várias pessoas fomos parar em uma mesa da Confeitaria Central, que ficava no Largo dos Medeiros, com o Procópio Ferreira. Ia e vinha gente. Quando ficamos sozinhos e faltou assunto, ele fez o ar de quem esperava que eu pedisse autógrafo a uma figura tão importante, mas eu tinha orgulho dos 17 anos e fiquei quieto. Ele então, com um sorriso interior, pediu o meu autógrafo. Naquela tarde o Procópio Ferreira comeu dezenove pastéis de Santa Clara.

O maior prazer meu e do Sérgio Gouvêa era tomar um bonde, ir até o fim da linha e voltar a pé. Chegamos à perfeição de um dia vir a pé do fim da linha do Menino Deus até o centro. E o mais engraçado é que pelo caminho vínhamos tomando um chope em cada boteco, e Porto Alegre nesse tempo, como em toda cidade que se preze, tinha um boteco em cada esquina. Não foi por falta de descuido que cheguei a esta idade, mas atribuo isto a estas caminhadas diárias...

Quando o Rei Eduardo VIII da Inglaterra abdicou para casar-se com Madame Simpson frequentamos o Clube da Chave, fundado por Ovídio Chaves. Ficava na Vasco da Gama numa esquina onde havia um chorão. Funcionava da seguinte maneira: a gente pagava um tanto por mês de aluguel de uma chave e podia levar quem quisesse, mas não era nada de suspeito. Lembro do salão de danças com mesas em volta, era frequentado por gente da sociedade. Além de dançar podia-se ouvir poesias. Havia a Pérola Paganelli que recitava admiravelmente. Um destes recitais chamou-se Dezenove Poemas Dentro da Noite. Não me esqueço dele porque uns amigos meus foram sentar na escada e me abandonaram na mesa com uma jornalista argentina, uma velhota maluca, destas que fazem versos eróticos e que pegavam as minhas mãos e dizia:

− Yo quisiera ser antropófaga y devorar tus carnes palpitantes...

Um dia o Clube da Chave foi à falência porque todos eram amigos...

Mas a vida não era só os bares. Nós todos tínhamos fôlego, passávamos as noites em claro e depois trabalhávamos. Foi nessa época que traduzi para a Editora Globo obras de autores de peso como Proust, Virginia Woolf, Molière e outros. Eu tradutor do francês, os tradutores trabalhavam em espaços delimitados por divisórias que chamávamos de “baias”. Devo o fato de ser tradutor de francês a um hábito do tempo da minha infância, todos os rapazes aprendiam francês, e todas as moças aprendiam piano, minha mãe lecionava francês.

Um dia eu estava na Globo, trabalhando na minha “baia” quando chegou um figurão que me disse com um ar protetor:

− Tenho gostado muito dos seus versinhos.

Respondi:

−.Eu fico-lhe grato, doutor, pela sua opiniãozinha.

Sou conhecido como poeta, mas poeta não é uma profissão. A poesia não é uma profissão, é um estado, assim como o estado de graça ou o estado de coma, conforme a poeta. Minha profissão é jornalista, trabalhei muitos anos na redação do Correio do Povo. Para falar sobre isso prefiro transcrever um depoimento do secretário do jornal Adail Borges Fortes da Silva:

“... Corri os olhos pela sala da redação e vi, na sua mesa, em atitude contemplativa, olhando para a tela apagada da televisão e fumando fleumaticamente, Mario Quintana. Deu-me, então, o estalo. Apresentei-lhe o texto e pedi-lhe: − Dá uma ʽpenteadaʼ nesta página histórica...

“O que voltou à minha mesa foi uma coisa primorosa, um trabalho enxuto, conservando, ainda, todo o conteúdo original. É que Mario, com poucas e simples emendas, mas colocadas com precisão e onde deveriam, deu à reportagem o colorido e a leveza de que precisava.

“Foi assim que ʽlanceiʼ o Mario na ʽcopidescagemʼ da redação, isto é, no trabalho de reescrever matérias de importância. E era exatamente uma das poucas coisas que ele ainda não tinha feito, porque tudo o mais já fizera.”

Passei muito do meu tempo na redação do Correio do Povo. Muitos dos meus amigos vivos e mortos são de lá...

Mas foi no Chalé da Praça XV onde todos − Augusto Meyer, Athos Damasceno Ferreira, Reynaldo, os irmão Gouvêa: o Sérgio e o Paulo, e vou parar por aqui para não cometer nenhuma omissão − nos conhecemos porque poeta é uma raça estranha, a gente se reconhece. A nossa principal “aguada” era o Chalé. O chalé fazia parte da gente. Me lembro do “Bilu”, com o seu perfil perpendicular de cegonho sábio, o longo bico mergulhado − não no gargalo do gomil da fábula, não propriamente no canecão de chope, que era de fato o que estava acontecendo − mas no poço artesiano de si mesmo.

Me lembro de Reynaldo, redondo, pacato, amável, tão amável, pacato e redondo que parecia um desses personagens de romance policial que ninguém desconfia que seja o autor do último crime da mala. Me lembro do Cavalcanti, com sua cara silenciosa e receptiva de mata-borrão. Me lembro de mim, silencioso. Sim, a determinada hora éramos todos silenciosos... essa hora em que não é preciso dizer nada, nem mesmo o verso inesquecível de Valéry: “Oh mon bon compagnon de silence!”

Esse silêncio era apenas quebrado quando chegava o Athos, o Athos centrífugo e pirotécnico. Mas isto não perturbava o nosso silêncio, nem o próprio silêncio do Athos... pois havia um profundo e misterioso rio de silêncio que corria subterraneamente a todas as nossas palavras.

Era o rio da poesia?

O rio da harmoniosa confusão das almas?





Agora é apenas o rio do tempo que passou.


(Da Veja Rio Grande do Sul, julho de 1991)

*Quando, em julho 1991, o poeta completou 85 anos.

Mário de Miranda Quintana (Alegrete, 30 de julho de 1906 − Porto Alegre, 5 de maio de 1994) foi um poeta, tradutor e jornalista brasileiro.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Explorando a criatividade

(The little boy – O menininho)

Conto de Helen E. Buckley


Era uma vez um menino. Ele era bastante pequeno. Ela era uma grande escola. Mas, quando o menino descobriu que podia ir à sua sala, caminhando através da porta, ele ficou feliz. E a escola não parecia mais tão grande quanto antes.

Uma manhã, quando o menino estava na escola, a professora disse:

- Hoje nós iremos fazer desenho.

- Que bom! pensou o menino. Ele gostava de fazer desenhos. Ele podia fazê-los de todos os tipos: leões, tigres, galinhas, vacas, barcos, trens, e ele pegou sua caixa de lápis e começou a desenhar. Mas a professora disse:

- Esperem! Ainda não é hora de começar. E ele esperou até que todos estivessem prontos.

- Agora, disse a professora, nós iremos desenhar flores.

- Que bom! pensou o menininho. Ele gostava de desenhar flores. E começou a desenhar flores com seu lápis de cor rosa, laranja e azul. Mas a professora disse:

– Esperem! Vou mostrar como fazer. E a flor era vermelha com o caule verde.

- Assim – disse a professora. Agora vocês podem começar.

Então, ele olhou para a sua flor. Ele gostava mais de sua flor, mas não podia dizer isso. Ele virou o papel e desenhou uma flor igual a da professora. Ela era vermelha com o caule verde.

Num outro dia, quando o menininho estava em aula, ao ar livre, a professora disse:

- Hoje, nós iremos fazer alguma coisa com barro.

- Que bom! pensou o menininho. Ele gostava de barro.

Ele podia fazer todos os tipos de coisas com barro: elefante, camundongos, carros e caminhões. Ele começou a juntar e amassar sua bola de barro. Mas a professora disse:

- Esperem! Não é hora de começar. E ele esperou até que todos estivessem prontos.

- Agora, disse a professora, nós iremos fazer um prato.

- Que bom! pensou o menininho. Ele gostava de fazer pratos de todas as formas e tamanhos. A professora disse:

- Esperem! Vou mostrar como se faz. E ela mostrou a todos como fazer um prato fundo. – Assim – disse a professora. – Agora vocês podem começar.

O menininho olhou para o prato da professora. Então olhou para o seu próprio prato. Ele gostava mais do seu prato do que o da professora. Mas não podia dizer isso. Ele amassou o seu barro numa grande bola novamente e fez um prato igual ao da professora. Era um prato fundo.

E muito cedo, o menininho aprendeu a esperar e a olhar, e fazer as coisas exatamente como a professora. E muito cedo, ele não fazia as coisas por si próprio.

Então, aconteceu que o menino e a sua família mudaram-se para outra casa, em outra cidade, e o menininho tinha que rir para outra escola.

E no primeiro dia ele estava lá. A professora disse:

- Hoje nós faremos um desenho. Quem bom! Pensou o menininho. E ele esperou que a professora dissesse o que fazer. Mas a professora não disse. Ela apenas andava na sala. Veio até ele e falou:

- Você não quer desenhar?

- Sim, disse o menininho, o que é que nós vamos fazer?

- Eu não sei, até que você o faça, disse a professora.

– Como eu posso fazê-lo? perguntou o menininho.

- Da maneira que você gostar, disse a professora.

– De que cor?‒ perguntou o menininho.

- Se todo mundo fizer o mesmo desenho e usar as mesmas cores, como eu posso saber quem fez o quê? e qual o desenho de cada um?

- Eu não sei, disse o menininho.

E ele começou a desenhar uma flor vermelha com o caule verde.


quinta-feira, 25 de junho de 2020

Fé na razão e Razão na sua Fé

Prof. Emilio Myra Y Lopez


Ponde o máximo esforço em conseguir a melhor conduta possível e não vos interessais tanto pelo resultado, que sempre depende de causas alheias à própria vontade.

Dedicai mais tempo a gozar o que possuis e o que alcançais, do que a sofrer pelo que não tendes e pelo que perdeis.

Recordai que não há “mal que por bem não venha” −: não há erro nem malogro do qual não se possa obter, no mínimo, uma lição proveitosa para o futuro.

Tomai a vida “sem pausa nem pressa”, isto é, sem paradas, sem saltos bruscos.

Preferi a agilidade à força; a tolerância à teimosia, ser credores a ser devedores de gratidões.

Buscai o equilíbrio entre impulso, razões e paixões.

Buscai o equilíbrio entre trabalhos, distrações e repousos.

Interessai-vos mais em “fazer o bem” do que em sair-vos bem.

Recordai-vos de que não sois nem “anjos” nem “diabos”, mas meros homens e que tendes em vosso ser um pouco de ambos.

Não sigais a rota de querer ser compreendido, mas a de querer compreender.

Não peçais ajuda para viver; procurai ajudar para viver, ou melhor, viver para ajudar.

Não tenteis combater um dano com outro.

A terapêutica moral não pode ser homeopática. Ao dano é preciso dissolvê-lo − como aconselha Leibnitz: − com superabundância de bem.

Segui em nossa vida a máxima: “suaviter in forma, fortitur in re” (suave na forma, firme nos propósitos).

Imagem do homem feliz

Como é o homem feliz? Certamente não podemos confundi-lo com o exaltado, nem com o otimista insensato, nem com o tolo conformista.

O homem feliz é aquele que, em primeiro lugar, se sente homem, isto é, vive em toda a sua plenitude, sua dignidade humana, sem orgulho nem humildade.

O homem feliz é, além disso, aquele que tem fé em si e na obra que realiza, a qual não a compara com a dos demais, mas a ela própria, tendo em conta sempre a equação de aptidões, créditos e resistências que a condicionam.

O homem feliz é aquele que cada dia renova sua tarefa com a serenidade eficiente de quem não teme nem a vida, nem a morte, pois se sente seguro no nível que lhe corresponde e no qual não se mantém pela graça dos demais, nem, tampouco, a expensas deles, mas pelo desenvolvimento perseverante do seu plano vital, conscienciosamente elaborado.

O homem feliz é o que desenvolveu um caráter flexível e, sem dúvida, inquebrantável como o aço.

O homem feliz é aquele que sabe, também, criar com seu exemplo: paz, confiança e bem estar em redor de si, sem exageros místicos.

O homem feliz é o que soube seguir a série de passos ascendentes que o levaram a merecer seu bem estar e que podemos resumir assim: “estudou para saber. Soube para fazer. Fez para valer. Valeu para servir. Serviu para merecer... viver feliz”.

É, portanto, quem tem: Fé na Razão e Razão na sua Fé.”

Do livro “Problemas Atuais de Psicologia”,
do Prof. Emilio Myra Y Lopez