sábado, 11 de julho de 2020

Quando alguém fala do outro

O que você acha do outro é projeção sua!


Projeções: Como lidar?

“Quando Pedro me fala de Paulo, 
sei mais de Pedro do que de Paulo”

Freud

Paula Corrall*

Confesso que demorei para entender a profundidade dessa frase, e hoje eu sei por quê… eu não me enxergava!

O que você acha do outro é projeção sua. E quando a ficha caiu… meu Deus, quem sou eu? Eu encaro essa sombra?

Percebi que a maior parte do tempo eu projetava, era reativa. Fazemos isso por defesa, inconscientemente.

Observei questões em mim, mas a ficha caiu mesmo quando, certa vez, fui acusada de agir e ser de tal maneira, que eu não me identifiquei, e aquilo ficou martelando na minha cabeça… eu queria entender por que uma pessoa querida estava me vendo daquela maneira.

Sofri com o julgamento dela, até entender que aquilo não era meu e sim dela.

Essa é a maneira mais fácil de você saber se a carapuça serve ou não: pelo sentir.

Se naquela época eu soubesse quem eu era, não sofreria nem por um minuto, pois saberia que essas características não eram minhas.

Não teria dúvidas, mas foi excelente, pois me fez observar que há momentos em que os outros projetam coisas em nós que não somos e também há momentos que projetam o que em partes também somos.

Enxergamos no outro o que não enxergamos em nós mesmos.

E também tem a projeção positiva, quantas vezes adoramos pessoas que falam a mesma língua que nós, sentimos afinidade. Parte das qualidades da pessoa também está em nós.

Estava vendo um vídeo com o Prem Baba e ele disse algo assim: “Se a vida é uma escola, os relacionamentos são a universidade”, aproveite a oportunidade de trabalhar aspectos seus através do outro.

Quando alguém lhe incomodar, aceite e não reaja. Procure saber o que isso tem a ver com você.

Conforme expandimos em consciência e trabalhamos o nosso autoconhecimento, deixamos de nos incomodar com o outro, curamos nossas feridas, damos novo significado às nossas relações.

Que essas palavras toquem seus corações e sirvam para alguns insights.

Gratidão!

*****

*Paula Rosa é Consultora de Numerologia. Reikiana, e apaixonada pelo autoconhecimento. Aprendendo sempre sobre Espiritualidade e Física Quântica

(Do blog O Segredo)

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Vinicius



Vinicius por Romero

Poeta, diplomata, cantor, compositor, boêmio e mulherengo, não necessariamente nessa ordem, Vinicius de Moraes morreu em 9 de julho de 1980. Lá se vão quatro décadas cravadas. Artista admirável em todos os sentidos, tenho comigo que a melhor criação é o poema “O haver” do poetinha. (...)

Juremir Machado da Silva

O Haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
− Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento 
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade 
Do tempo, essa lenta decomposição poética 
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius. 

Resta esse coração queimando como um círio 
Numa catedral em ruínas, essa tristeza 
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria 
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história... 

Resta essa vontade de chorar diante da beleza 
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido 
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa 
Piedade de si mesmo e de sua força inútil. 

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado 
De pequenos absurdos, essa capacidade 
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil 
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade. 

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza 
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser 
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar 
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade 
De aceitá-la tal como é, e essa visão 
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante 

E desnecessária presciência, e essa memória anterior 
De mundos inexistentes, e esse heroísmo 
Estático, e essa pequenina luz indecifrável 
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança. 

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos 
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória 
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade 
De não querer ser príncipe senão do seu reino. 

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade 
Pelo momento a vir, quando, apressada 
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante 
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada... 

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto 
Esse eterno levantar-se depois de cada queda 
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha 
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo 
Infantil de ter pequenas coragens.





quarta-feira, 8 de julho de 2020

Um soneto para os tempos de pandemia



Não negues nunca o pão

Não negues nunca o pão ao que te bate à porta,
nem o trates jamais de maneira violenta.
Amar é o sumo bem e, se o pão alimenta,
o gesto vivifica e a palavra conforta.

Vê no desconhecido a velha folha morta
que, às tontas, voluteia agarrada à tormenta;
ama-o como a ti mesmo. O amor constrói, sustenta,
encoraja, encaminha, ensina, instrui e exorta.

Não o faças, porém, visando recompensa:
o interesse amesquinha e desvirtua a crença.
Ama pelo prazer que o próprio amor produz.

Ao que te pede o pão não o negues jamais,
nem queiras ver, depois, teu nome nos jornais;
faze-o, com humildade, em nome de Jesus!

Gioia Junior


terça-feira, 7 de julho de 2020

Eu coronavírus

(Uma homenagem ao outro)

Gilberto Schwartsmann*


Eu jamais imaginaria que viveríamos, em pleno 2020, uma nova peste como a tão bem descrita na literatura por Giovanni Boccaccio, em seu “Decameron”, no século XIV. Em meus sonhos, ao contrário da peste real, a minúscula e viral criatura, invisível aos olhos, mas perceptível ao coração, ao integrar-se à matéria, não assustaria ninguém. Montaigne o chamaria vírus “Alii”, uma homenagem ao “outro”, no latim.

E aqueles que o vírus infectasse, fossem pessoas, animais, plantas ou países, sofreriam uma súbita inversão de perspectiva − tornar-se-iam instantaneamente empáticos. Fosse homem, ele se sentiria mulher. Fosse mau, tornar-se-ia generoso. Fosse preconceituoso, transformar-se-ia num ser aberto às diferenças. E se fosse avarento, ficaria indiferente aos bens materiais.

A pandemia faria com que uma pessoa pudesse assim ver o mundo segundo o olhar do outro, dando à humanidade a oportunidade de uma reaproximação. Surgiria uma nova fraternidade de infectados. É claro que meu vírus só faria conversões quando estas produzissem como resultado algo melhor, jamais o contrário.

Entre animais, um predador atacaria suas presas com as patas abertas em forma de abraço. Entre plantas, os polens de uma espécie fecundaria as demais, produzindo combinações de belezas e perfumes inimagináveis. Numa perspectiva geopolítica, fosse um país liderado por um tirano, este país passaria a amar a liberdade e a respeitar a democracia. Fosse uma terra habitada por retrógrados, as pessoas perderiam seu medo e passariam a adorar o novo.

Veríamos realizada a utopia do respeito às diferenças e da tolerância entre os seres humanos. E os infectados nunca mais julgariam os outros sem conhecê-los pessoalmente. Coisas como cor da pele, credo religioso ou opinião política não seria mais motivo de inimizade ou afastamento. Os indivíduos seriam julgados por seus valores e grandeza das suas almas.

Haveria uma cumplicidade cósmica − como a minha e do cosmonauta Yuri Gagarin. O vírus “Alii” mataria a pobreza, a desigualdade e a injustiça. E se replicaria nos corações doces e amorosos com enorme intensidade. Ao atingir uma população, ele simplesmente eliminaria os solitários, pois todos acabariam amados por alguém. Poderia demorar alguns dias, mas até os feios, os rabugentos e os desajeitados encontrariam sua alma gêmea.

Nossa peste não seria uma doença, mas uma esperança. Um alento de que, em princípio, todos os seres humanos seriam recuperáveis para a felicidade. E não necessitaríamos vacinas ou terapêuticas, pois as infecções seriam sempre benéficas. E quando o clima mudasse, surgisse a primavera, e viesse a fase de contágio, a humanidade entraria em êxtase, só em pensar que uma nova carga de amor estaria por chegar.

*Médico e escritor.

(Correio do Povo, julho de 2020)

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Torcedores símbolos do Inter

Gaúcho do Beira-Rio


Morreu na quinta-feira (2 de julho de 2020) Noé Melo Fernandes, torcedor do Sport Club Internacional conhecido como “Gáucho do Beira-Rio”. Seu Noé tinha 85 anos e era um dos símbolos da torcida colorada, frequentando os jogos do clube havia mais de 50 anos.

O Inter se manifestou em suas redes sociais, com nota de pesar.

“Com pesar recebemos a notícia da morte de Seu Noé, o Gaúcho do Beira-Rio, torcedor símbolo do Inter há mais de cinco décadas. Aos 85 anos, deixa um vazio entre amigos, familiares e, também, no povo vermelho, que sempre simbolizou cm grande paixão. Obrigado por tudo, colorado”, publicou o clube.

A família informou que Noé morreu por volta das 18 horas por insuficiência respiratória, mas não estava com suspeita de covid-19.

O velório ocorreu na sexta-feira no Cemitério Belém Novo, em Porto Alegre.

(Do jornal Zero Hora, 4 de julho de 2020)

Outros torcedores símbolos do Inter


O gaúcho Davi Parizotto, mais conhecido como FanátiColorado, leva cerca de duas horas para encarnar o personagem que o tornou um torcedor símbolo do Internacional.

“A parte mais difícil é fazer a pintura do rosto. Em média, levo duas horas para me transformar no FanátiColorado”, disse Davi, que começou a se pintar aos 16 anos, mas foi em 1994, no jogo entre Internacional e Boca Juniors, no Beira-Rio, que ele ganhou o apelido.

Casado, Davi disse que o fato de ir aos jogos não atrapalha a relação em casa. “No início, minha esposa não entendia muito esse meu fanatismo. Mas, hoje, ela compreende e vai, inclusive, ao estádio comigo. Espero que meu filho herde esse amor pelo time.”


Segundo ele, o personagem é muito querido pelos torcedores de todas as idades. “O FanátiColorado se identifica muito com as crianças por causa das pinturas. Já os adultos se identificam com ele devido ao fanatismo e amor pelo clube”, destacou.

O Macaco do Beira-Rio


Me chamam de macaco
E não é pela minha cor
É porque sou colorado
E pelo Inter tenho amor.

Ei você que é gremista,
Agora preste atenção:
Tua torcida é racista
E a minha é do povão.

E eu como sou do Inter,
Agora vou cantar
E pular como um macaco,
Com a Guarda Popular!

Torcida de verdade
Como do inter ninguém viu.
Bem-vindo ao inferno,
inferno do Beira-Rio!


P.S. Os três citados cima, eram os mais fotografados pelos pais, com seus filhos ao lados dos personagens em questão, em dias de jogos no Beira-Rio. Agora com a falta saudoso do Gaúcho do Beira-Rio...

Na porteira

Paulo Mendes


Carrego comigo a ideia de que as porteiras se fecham, mas também nos abrem o caminho para o mundo. Minha mãe dizia: “olha, meu filho, quando Deus fecha uma porta, Ele abre duas janelas”. Eu via assim. Quando era bem guri, tínhamos um portãozinho de ferro, que se quebrou quando um boi brabo se desgarrou de uma tropa e entrou intempestivamente em nosso pátio. Depois que a mãe abriu o bolicho, derrubaram a cerca da frente. Primeiro colocaram uns varões de eucaliptos, mais tarde deixaram aberto mesmo, facilitando a chegada dos clientes, para que pudessem atar os cavalos nas tramas ao lado da porta da venda. Lembro ainda que o pai se preocupava muito com as porteiras das pequenas lavouras que fazia, de azevém, de cana, de milho e de mandioca, tudo para servir de forragem para as vacas leiteiras no inverno. Às vezes, quando esquecíamos uma delas abertas, era sermão, era briga, era promessa de surra, mas ele tinha coração brando, nunca cumpria.

Porteiras também são sinônimo de espera. “Te aguardo na porteira, tal hora.” Todos lembram, nos recados das rádios do interior, era comum, antes do advento do celular e das redes sociais, a mensagem tradicional de “fulana diz que vai para a fazenda no dia tal, favor alguém esperar na porteira, chegará no ônibus das seis horas”. Então, alguém ia com um cavalo encilhado, com uma charrete, com automóvel buscar essa pessoa que vinha da cidade. E esperava na porteira. Quantas horas um coração apertado não sofreu e bateu descompassado ao lado do grosso moirão da porteira, em vão, pela volta do amado ou da amada? Ah, meus senhores, minhas senhoras, se essas porteiras falassem, livros e livros seriam escritos de tanta coisa que se passou por essas imediações.

Quantas porteiras se abriram, quantas porteiras se fecharam por esse Rio Grande de São Pedro. E continuam se abrindo e fechando, todos os dias, deixando passar pessoas, sonho e vidas que vão e voltam. Quantas vezes abrimos uma porteira receosos, mas sem saber que ali ficaremos anos e anos? Essa porteira, no caso, se abre para um rancho lá na frente, onde está outra alma, igual à outra, que anda à espera de um abrigo. O viajante também tem sede de descansar. E as duas almas fincam morada ali e não “hay” nada que abra aquele laço de ferro que se ata depois da porteira. Porém, existem dias em que a gente fecha a porteira e se manda estrada afora, para sempre, sem olhar para trás. Depois, após muitos anos, algum de nós volta, mas daí não é mais a mesma coisa, tudo será diferente, algo se partiu, se rompeu, será diferente.

Criei-me vendo gaúchos abrindo e fechando porteiras de todos os tipos e modelos. E as enxergava como equipamento dentro de um processo de movimentos e deslocamentos. Era isso, isso e mais alguma coisa, um símbolo sutil dos espaços e das medidas, do nosso, do alheio, do conhecido, do nem tanto perceptível e até do desconhecido. Para além das porteiras está o mundo do improvável. Nas porteiras ficam vestígios de lágrimas, de tristeza sem fim, ficam as saudades emaladas de alguém que se foi no lombo de um cavalo bragado, na boleia de uma caminhoneta, de uma charrete. Ficaram até os passos delicados de quem se foi, sumindo ao longe, na tarde gris de um domingo.

(Da coluna “Campereada”, Correio do Povo,
julho de 2020)

domingo, 5 de julho de 2020

Vinhos: Mitos e Verdades

Por Natália Frighetto*


Vinho bom é vinho caro

Apesar de alguns rótulos carregarem o peso de vinícolas reconhecidas e, por isso, serem mais caros, existem vinhos com ótimas propostas de bom custo-benefício. Nossa dica é apostar em bebidas jovens, frutadas e para consumo rápido.

Quanto mais velho, melhor é o vinho

Existem vinhos que, em função da variedade da uva e do método de produção, são elaborados para guarda. Porém, também há vinhos que apresentam características jovens, frutadas e fáceis de beber, excelentes para serem consumidos no ano em que foram elaborados.

Quando tem aroma de frutas é porque a bebida leva frutas

Uma das principais características de um vinho são os aromas varietais, que vêm a partir das variedades das uvas. Por exemplo, chardonnay tem aroma de abacaxi e de maçã verde enquanto carbenet sauvignon tem de amora, ameixa e cassis. Mas atenção: as frutas que dão os aromas não estão na composição das bebidas, ok?

Quanto menor a acidez, melhor é o vinho

A acidez é importante para a longevidade e a sanidade do produto. Em vinhos espumantes, brancos e rosés, ela está relacionada ao frescor. Em safras ruins, há um excesso de ácido nas uvas por elas não conseguirem atingir a maturação completa. Isso resulta em um desequilíbrio em relação ao açúcar e ao tanino da bebida, deixando-a desagradável. Mas isso não quer dizer que a acidez não seja superimportante para o vinho.

Quanto mais álcool tem o vinho, melhor ele é

O álcool é um produto natural do processo de fermentação dos vinhos, que transforma o açúcar presente na uva em etanol. O que não nos damos conta é de que nas safras em que a uva não atinge a maturação completa, é permitida a adição de açúcar para elevar o teor alcoólico. Muitas vezes, esse exagero pode desequilibrar o vinho, deixando-o mais alcoólico do que a estrutura permite.

Vinho bom é vinho importado

Temos muitos vinhos importados de qualidade, mas também temos muitos produtos nacionais excelentes e reconhecidos pelo mundo. Precisamos quebrar o preconceito com a bebida brasileira, lembre-se de que até o rótulo importado chegar às prateleiras, pode passar por variações de temperatura e luminosidade que podem comprometer a sua qualidade. Acreditamos que vinho bom é o vinho do local, e os brasileiros são incríveis!


O vinho precisa ser guardado em ambiente escuro
e com temperatura controlada

O ideal é evitarmos ao máximo a diferença de temperatura do produto, pois isso prejudica a estabilização dele. Locais com pouca luz evitam a deterioração do vinho e evitam que ele fique com aroma de enxofre. Se você não tem uma adega climatizada, a dica é guardar as garrafas em um ambiente ao abrigo da luz (natural ou artificial), onde não ocorram mudanças de temperatura.

Vinho rosé é resultado da mistura de
 vinho tinto e de vinho branco

O vinho rosé pode ser elaborado tanto com uma mistura de uvas quanto a partir das variedades tintas − neste caso, deixamos o líquido em contato com a casca por pouco tempo, assim não ocorre a extração da cor em grande intensidade.

Rolha de cortiça é melhor do que o sistema screw cap

A rolha de cortiça demora anos para ficar pronta e acaba sendo desperdiçada logo após a abertura da garrafa. Por isso, a screw cap, ou tampa de rosca, foi uma tecnologia que veio para solucionar o fechamento das garrafas e ainda deixar tudo mais fácil. Tecnicamente falando, ela evita problemas de umidade, evitando a entrada de excesso de oxigênio e o vazamento da bebida. É uma ótima alternativa para rótulos de consumo jovem, aquele que não vão ficar muito tempo na garrafa.

Uva branca faz vinho branco, uva vermelha faz vinho tinto

Uva branca faz vinho branco e em contato com a casca pode resultar em um vinho de cor alaranjada. Por outro lado, as variedades tintas podem fazer vinhos brancos, como é o caso do blanc de noir. O clássico champagne é elaborado a partir da pinot noir, que tem casca escura, mas é vinificado sem contato com a uva para não extrair a coloração nem os taninos. No Brasil, temos ótimos espumantes deste tipo.

Vinho doce leva açúcar

Depende do tipo de vinho. Espumante moscatel, por exemplo, é uma bebida que tem adição de açúcar e que também tem o açúcar proveniente da própria fruta. Funciona assim: a fermentação é interrompida, produzindo menor quantidade de álcool e uma concentração maior de açúcar residual. Vinhos suaves, por exemplo, recebem a adição do açúcar para ficarem dentro da categoria de rótulos doces.

Vinho tinto é ideal para o inverno e branco para o verão

Uma frase bem usual, mas nada verídica. Os vinhos tintos possuem uma grande quantidade de antocianas e taninos, polifenóis que estimulam a circulação e o aquecimento do corpo. Mas também existem tintos leves, menos encorpados e que podem ser, inclusive, resfriados para serem consumidos em dias de calor.

Já os brancos, por serem servidos gelados e terem acidez presente, acabam sendo relacionados ao verão. Não está errado, mas existem rótulos brancos estruturados, com passagem por madeira, que comportam uma temperatura de serviço mais elevada.

Frutos do mar só combinam com vinho branco

Geralmente optamos por branco, pois frutos do mar têm sabor delicado e, geralmente, apresentam um toque cítrico no preparo − características que os vinhos jovens também têm. É preciso ter cuidado se a escolha for servir com vinhos tintos. As versões encorpadas podem deixar um sabor metálico bem desagradável na boca. É tudo uma questão de gosto.

Vinho feito de varias uvas não é bom.
Os melhores são os de uma única uva

É mito. Vale ressaltar que os primeiros vinhos que surgiram na história foram feitos com cortes, a combinação de diferentes variedades. Os chamados varietais, os feitos com apenas uma uva, nasceram com a chegada do Novo Mundo, fase que marca uma nova era de produção da bebida, na década de 1970. A combinação de variedades aumenta a complexidade do produto e pode deixar a bebida ainda mais saborosa. Além de ser um desafio legal para os enólogos.


Enóloga e sommelière da Casa Destemperados.

(Do jornal Zero Hora, julho de 2020)