Aquarela
Maurizio Fabrizio / Guido Morra
Toquinho / Vinicius de Moraes
Numa folha qualquer eu
desenho um sol amarelo,
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo…
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva,
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva…
Se um pinguinho de tinta cai
num pedacinho azul do papel,
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu…
Vai voando, contornando a imensa curva Norte e Sul,
Vou com ela viajando Havaí, Pequim ou Istambul,
Pinto um barco a vela, branco navegando, é tanto céu e mar num beijo azul…
Entre as nuvens, vem surgindo
um lindo avião rosa e grená,
Tudo em volta colorindo com suas luzes a piscar…
Basta imaginar e ele está partindo, sereno e lindo,
Se a gente quiser, ele vai pousar…
Numa folha qualquer eu
desenho um navio de partida,
Com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida…
De uma América a outra eu consigo passar num segundo,
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo…
Um menino caminha e caminhando
chega no muro,
E ali logo em frente, a esperar pela gente o futuro está…
E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar,
Não tem tempo, nem piedade, nem tem hora de chegar…
Sem pedir licença muda a nossa vida e depois convida a rir ou chorar…
Nessa estrada não nos cabe
conhecer ou ver o que virá,
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar…
Vamos todos numa linda passarela,
De uma aquarela que um dia enfim... descolorirá…
Numa folha qualquer eu
desenho um sol amarelo (Que descolorirá!)
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo (Que descolorirá!)
Giro um simples compasso, num círculo eu faço o mundo (Que descolorirá!)…
Aquarela, de Toquinho, fala do sonho de criança que
não se apagará
Alison Pitangueira e Nathalia Ferreia
Aquarela,
grande sucesso de Toquinho, lançada em 1983, fala da nossa capacidade de sonhar
e “viajar” pelo mundo, mesmo sem sair do lugar.
Aquarela,
assim que lançada, fez grande sucesso entre as crianças de todo o país, mas não
apenas entre elas. De melodia e letra simples, a canção aborda o quão é fluida
a imaginação da criança!
Aquarela
é uma canção que, como aborda os sonhos e desejos da criança, é bem nostálgica,
não é verdade? Quem nunca se pegou ouvindo a bela letra e imaginando o cenário
descrito na canção?
Você
sabia que a letra de Aquarela, no entanto, não é de Toquinho? E muito menos
brasileira? Além disso, ela foi baseada em outra canção, vinda da parceria
histórica entre Toquinho e Vinicius de Moraes.
(...)
Análise da letra de Aquarela
Após conhecermos a história por
trás de Aquarela, vamos entender, agora, cada um dos maravilhosos versos da
canção. Acompanhe:
“Numa folha qualquer
Eu desenho um Sol amarelo
E com cinco ou seis retas
É fácil fazer um castelo”.
Aquarela
começa nos falando sobre a capacidade que só a criança tem de fazer qualquer
coisa se tornar brinquedo: numa folha qualquer, sem nada de especial, a
imaginação começa a fluir.
“Corro o lápis em torno da
mão
E me dou uma luva
E se faço chover, com dois riscos
Tenho um guarda chuva”.
A
gente consegue até imaginar a cena de uma criança desenhando, né? A música
descreve os traços que começam sem rumo e aos poucos vão ganhando forma. Quem
nunca fez dois riscos no papel e foi correndo falar pros pais que tinha
desenhado uma pessoa?
“Se um pinguinho de tinta
Cai num pedacinho azul do papel
Num instante imagino
Uma linda gaivota a voar no céu”.
Aqui
neste trecho, a mensagem é simples: quando alguma coisa não dá certo, é só usar
a imaginação pra consertar.
“Vai voando, contornando
A imensa curva norte-sul
Vou com ela viajando
Havaí, Pequim ou Istambul”.
Na
cabeça da criança, o desenho ganha vida e a imaginação voa longe! É através
dela que se atravessa fronteiras e se conhece o mundo sem sair do lugar.
“Pinto um barco a vela
Branco navegando
É tanto céu e mar
Num beijo azul”.
Nesta
estrofe, o beijo azul é a linha de encontro entre o céu e o mar. Através da
imaginação, é possível navegar em ambos.
“Entre as nuvens vem surgindo
Um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo
Com suas luzes a piscar”.
Aqui,
a letra de Aquarela nos convida não só a imaginar o desenho, mas a pensar nele
como algo vivo e que se movimenta. Além disso, o autor enfatiza as cores, que
são muito importantes no universo infantil.
“Basta imaginar e ele está
partindo
Sereno e lindo
E se a gente quiser
Ele vai pousar”.
Mais
uma vez, a música destaca o poder da imaginação infantil: o avião desenhado
pode estar decolando ou pousando, depende da história que a criança quiser
contar.
A segunda etapa de Aquarela
“Numa folha qualquer
Eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos
Bebendo de bem com a vida”.
Neste
trecho, inicia-se um novo desenho. Alguns entendem que a segunda parte da
música marca a passagem para a vida adulta, e vem mostrar que mesmo com as
complexidades que ela traz, tudo ainda pode ser muito simples, é só imaginar.
“De uma América a outra
Consigo passar num segundo
Giro um simples compasso
E num círculo eu faço o mundo”.
O
autor nos convida a imaginar que podemos ter o mundo todo dentro de uma folha.
“Um menino caminha
E caminhando chega no muro
E ali logo em frente a esperar
Pela gente o futuro está
E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade
Nem tem hora de chegar”.
Nestas
duas estrofes, Aquarela deixa a imaginação um pouco de lado e começa a falar
sobre o futuro, que chega de forma inesperada. Diferente da imaginação, esse
futuro não pode ser controlado por nós, ainda que tentemos.
“Sem pedir licença
Muda nossa vida
E depois convida
A rir ou chorar
Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar”.
A
gente querendo ou não, o futuro chega e a criança cresce. Esse futuro sobre o
qual não temos controle pode ser bom ou ruim, e não cabe a nós tentar descobrir
nada antes da hora certa, porque ninguém sabe do fim.
“Vamos todos
Numa linda passarela
De uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá”.
Apesar
de tudo isso, a letra de Aquarela nos convida a pensar na caminhada da vida
como algo belo e positivo.
Desenhamos
uma passarela e seguimos por ela, ou seja, imaginamos um futuro e um caminho
para chegar até ele. É inevitável, no entanto, que essa imagem se apague com o
passar do tempo.
“Numa folha qualquer
Eu desenho um Sol amarelo
Que descolorirá
E com cinco ou seis retas
É fácil fazer um castelo
Que descolorirá
Giro um simples compasso
E num círculo eu faço o mundo
Que descolorirá”.
Nas
três últimas estrofes de Aquarela, são retomados versos de outras partes e
repete o descolorirá, ou seja, vai desbotar ou perder a cor.
Nossa
imaginação de criança inevitavelmente se apagará um dia, mas isso não precisa
necessariamente ser entendido como algo ruim.
A
música pode querer dizer que os sonhos de criança saem para abrir espaço para
novos desejos e sonhos.
(Do Blog História da Música)