quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

O gênio da bola

 Nilson Souza

Um pouquinho de ficção para suavizar a realidade. 

Um homem caminhava pela praia, em Santos, quando encontrou uma bola enterrada na areia. Estava cheia. Ele passou delicadamente a mão sobre ela para tirar a poeira. Sem se dar conta, estava repetindo o célebre gesto de Aladim, das Mil e Uma Noites. E a magia se fez outra vez: começou a sair uma leve brisa pela válvula e, de repente, o gênio se materializou. Não era azul, nem levava uma cimitarra na cintura para enfrentar os perigos da vida. Era um pretinho mirrado, olhos arregalados, calção e camiseta alguns números acima do seu, meões enrolados para não cobrir os joelhos e chuteiras folgadas nos pés. 

‒ Quem é você? ‒ espantou-se o caminhante. 

O menino não respondeu. Simplesmente enganchou a bola entre os pés, ergueu-a até a cabeça, fez uma reverência, colocou-a na parte de trás do pescoço e saiu fazendo embaixadinhas por este mundo de Deus ‒ que também o observava lá do alto, admirado com tanta habilidade. E o gênio da bola, disfarçado de Pelé, cumpriu seu destino: encantou multidões, fez mais de mil gols, conquistou corações e Copas, desbravou fronteiras, virou rei e ajudou a transformar o futebol no esporte mais apaixonante do universo. Atleta do seu século e da eternidade, jamais deixou de ser o moleque que deslumbrava plateias e inspirava gerações enquanto se divertia com o seu brinquedo de infância. 

Pois na semana passada o nosso brasileríssimo gênio voltou para sua lâmpada em formato de bola. Espero que sua passagem para outra dimensão tenha sido suave como aquele ar que escapa lentamente do brinquedo mágico e nos leva a refletir: até mesmo uma vida extraordinária nada mais é do que um sopro. 

(...) 

(Do jornal Zero Hora, 3 de janeiro de 2023)

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Moreninha

 

Bruno Seabra* 

‒ Moreninha, dás-me um beijo.

‒ E o que me dá, meu senhor?

‒ Este cravo...

‒ Ora, esse cravo!

De que me serve uma flor?

Há tantas flores nos campos!

Hei de agora, meu senhor,

Dar-lhe um beijo por um cravo?

É barato; guarde a flor. 

‒ Dá-me o beijo, moreninha,

Dou-te um corte de cambraia.

‒ Por um beijo tanto pano!

Compro de graça uma saia!

Olhe que perdes na troca,

Como eu perdera com a flor;

Tanto pano por um beijo...

Sai-lhe caro, meu senhor. 

‒ Anda cá... ouve um segredo...

‒ Ai, pois quer fiar-se em mim?

Deus o livre; eu falo muito,

Toda mulher é assim... 

E um segredo... ora um segredo...

Pelos modos que lhe vejo

Queres o meu beijo de graça,

Um segredo por um beijo?! 

‒ Quero dizer-te aos ouvidos

Que tu és uma rainha...

‒ Achas, pois? e o que tem isso?

Queres ser rei, por vida minha? 

‒ Quem dera que tu quisesses...

‒ Não duvides, que o farei;

Meu senhor, case com ela,

A rainha o fará rei... 

‒ Casar-me?... ainda sou tão moço...

‒ Como é criança esta ovelha!

Pois eu pra beijar crianças,

Adeusinho, já sou velha.  

(Do livro “Antologia de humorismo e sátira”, 

de R. Magalhães Junior) 

Nasceu Bruno Henriques de Almeida Seabra a bordo de um barco, em águas paraenses (Tatuoca), a 6 de outubro de 1837. 

Estudou as primeiras letras e preparatórios em Belém, indo depois matricular-se na escola militar da capital da República. 

Foi um trabalhador infatigável, escrevendo, quase que diariamente, folhetins, crônicas, poesias, etc., em vários jornais fluminenses. 

Como funcionário público exerceu, com zelo e dedicação, cargos no Maranhão, na Bahia e no Rio de Janeiro, vindo finalmente a falecer em Salvador (Bahia), no ano de 1876. 


Imbróglio na Delegacia

 

Eram dois amigos, Cala Boca e Confusão. 

Os dois foram passear numa pequena cidade do interior gaúcho. Nisso, Confusão se meteu em uma briga num bar noturno do lugar e foi parar na delegacia. 

Cala Boca foi em busca do amigo para tentar libertá-lo. 

O delgado perguntou a ele: 

‒ Quem é você? 

‒ Cala Boca... 

‒ Me respeite que sou autoridade neste município! O que o senhor veio fazer aqui a esta hora? 

‒ Eu vim procurar Confusão. 

‒ O quê! Chama o escrivão! 

Escrivão: 

‒ Seu nome? 

‒ Cala Boca... 

Escrivão: 

‒ Você tá de sacanagem, está procurando o que afinal? 

‒ Confusão.

O que é desinformação?

 

Desinformar é enganar propositadamente. Através das redes sociais e qualquer um de nós pode ajudar a desinformar partilhando ou apenas “gostando” de alguma imagem ou mensagem que não é verdadeira. Na política e na publicidade, a desinformação é muito usada. Por exemplo, através de mensagens onde se oculta o que não interessa ou se realça algum aspeto de forma exagerada por forma a induzir a opinião do público no sentido de determinados interesses. 

O que é? 

Face à velocidade atual, com que qualquer informação, fidedigna ou não, é veiculada através da Internet, está cada vez mais presente a preocupação sobre a disseminação de conteúdos não validados colocando em causa o debate livre e informativo e, consequentemente, fragilizar a estabilidade das sociedades democráticas. 

A desinformação é o termo usado para definir qualquer tipo de conteúdo e ou prática que contribua para o aumento de informação falsificada, não validada ou pouco clara/ transparente e/ ou para afastar os cidadãos do conhecimento factual da realidade. Este fenômeno assume diferentes formatos, nomeadamente: 

Notícias falsas e/ou falsificadas ou globalmente designadas por Fake News, que podem indicar a vontade deliberada de distribuir informação falsa ou rumores, independentemente dos meios de comunicação e motivações associadas à sua criação. Embora as notícias falsas não constituam em si mesmas uma limitação da liberdade de imprensa, podem  utilizar informação veiculada pela comunicação social, afetando a credibilidade da mesma. 

A quem pode afetar? 

Todos podem ser afetados! Há vários exemplos de pessoas e empresas que sofreram inúmeras consequências devido às notícias falsas. 

As notícias falsas podem causar um grande impacto com consequências graves na reputação de uma pessoa ou empresa, causando complicações não só econômicas, mas também, pessoais e psicológicas. 

Muitas vezes é difícil contornar as Fakes News, mas saiba, que cabe a cada pessoa ou empresa, o poder de travar a desinformação. 

Se identificar uma notícia falsa, mesmo que não o afete diretamente, é importante denunciar esse conteúdo. Estará a ajudar a quebrar a disseminação da informação falsa e automaticamente a contribuir positivamente para a reputação de uma pessoa ou uma marca. 

(...) 

Como se Propagam? 

Através das redes sociais, Twitter, Facebook ou por aplicações mais fechadas como o Whatsapp. Há sites dedicados a notícias falsas, sediados em países europeus, mas com o IP registrado no Texas, por exemplo, de onde partiram centenas de “notícias” manipuladas. Em alguns casos, esses sites têm uma aparência e siglas idênticas aos dos media reais. 

Através de qualquer meio de comunicação. As redes sociais como Twitter, Whatsapp e Facebook são exemplos de propagadores de “fake news”. 

Existem sites dedicados à produção e manipulação de notícias falsas. Muitos destes sites têm endereços eletrônicos idênticos a outros meios de comunicação oficiais. 

Tenha sempre muita atenção onde recolhe a informação! 

Como Identificar? 

Tenha atenção antes de partilhar qualquer informação ou notícia especialmente para grupos privados ou familiares. 

1. Não leia apenas o título, mas sim a notícia inteira. 

2. Confirme a fonte e autoria. Deverá conter o autor e data. Caso contrário desconfie! 

3. Pesquise a mesma notícia na internet. Compare com outras fontes. Sendo verdadeira, haverá certamente outras fontes fidedignas que estejam também a noticiar a mesma informação. Caso seja uma notícia falsa, é provável que encontre informação sobre a sua falta de veracidade. 

4. Para tirar a prova dos nove, faça também uma pesquisa dos fatos citados na notícia. 

5. Partilhar notícias antigas pode também ser considerado desinformação! Cuidado, tenha em atenção as datas da informação em questão. 

6. Questione qualquer informação ou notícia, mesmo que tenha recebido da parte de alguém conhecido. Pergunte-lhe qual a fonte da mesma. 

Dica: 

No caso de receber informação em formato de imagem, há a possibilidade em diferentes motores de busca, de verificar em que outros sites, a mesma foi publicada. Tente confirmar a fonte! De qualquer forma, se a imagem lhe parece inverossímil, muito provavelmente não será real! 

Notícias em formato de áudio podem ser difíceis de verificar. Logo a sugestão passa por não partilhar o ficheiro e, sim pesquisar a informação em  fontes fidedignas. 

 (Centro Internet Segura) 

Diante dos números alarmantes e acelerada propagação da doença, as pessoas têm buscado na internet informações sobre o panorama do coronavírus, prevenção e todo tipo de cuidados para evitar o contágio. Porém, é nesse momento que falsas notícias e informações, conhecidas como fake news, circulam nas redes. 

O falso conteúdo compartilhado nos perfis das redes sociais gera um grande transtorno para parte da população que acaba sendo convencida pela mentira e repassado a fake news adiante. 

Veja a seguir a lista das dez fake news mais compartilhadas nas redes sociais. 

01 → O SUS-COVID-19 é um aplicativo falso e quando instalado no celular capta todas as informações do seu aparelho.  FALSO! 

02 → O Governo Federal anuncia a descoberta da vacina do novo coronavírus.  FALSO! 

03 → Beber muita água e fazer gargarejo com água morna, sal e vinagre previne o contágio. FALSO! 

04 → Cientistas chineses dizem que coronavírus tornara a maiorias dos infectados do sexo masculino infértil. FALSO! 

05 → Coronavírus fica vivo por nove dias no organismo. FALSO! 

06 → Óleo consagrado cura coronavírus. FALSO! 

07 → Receita com coco cura coronavírus. FALSO! 

08 → Vitamina C com água e limão cura coronavírus. FALSO! 

09 → Usar álcool em gel nas mãos para prevenção do coronavírus altera resultado no teste do bafômetro em blitze. FALSO! 

10 → O novo coronavírus veio de animais domésticos. FALSO! 

Combate às fake news 

Para combater as fake news sobre o novo coronavírus, o Ministério da Saúde disponibiliza um número de WhatsApp para envio de dúvidas da população. O canal não será um SAC ou tira dúvidas dos usuários, mas um espaço exclusivo para receber informações virais, que serão apuradas pelas áreas técnicas e respondidas oficialmente, se verdadeiras ou mentiras.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Pelé pelas letras dos escritores

Jornalistas e cronistas se debruçaram em elogios e relatos sobre o maior da história futebol.Por Wiliam Tavares

 Por William Tavares

Era impossível ver Pelé e se contentar apenas em guardar para si tamanha admiração pelo Rei do futebol. Por isso, diversos escritores que tiveram a honra de acompanhar o maior jogador de todos os tempos desfilar o talento pelos gramados trataram de fazer o que pode parecer impossível: transcrever a genialidade em palavras.

A primeira vez que Pelé foi chamado de “Rei do futebol”, por incrível que pareça, foi em 1958, após um duelo entre Santos e América/RJ. O Peixe ganhou por 5x3 ‒ todos os gols marcados pelo jovem de apenas 17 anos.

Na crônica “A realeza de Pelé”, o jornalista pernambucano Nelson Rodrigues não se conteve nos elogios. 

“Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável ‒ a de se sentir rei, da cabeça aos pés. 

Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. É um menino, um garoto. Se quisesse entrar num filme da Brigitte Bardot, seria barrado. Mas, reparem: é um gênio indubitável! Pelé podia virar-se para Michelangelo, Homero ou Dante e cumprimentá-los com íntima efusão: 'Como vai, colega?'”.

“O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols como Pelé. É difícil fazer um gol como Pelé. Aquele gol que gostaríamos tanto de fazer, que nos sentimos maduros para fazer, mas que diabolicamente, não se deixa fazer”, declarou certa vez o escritor Carlos Drummond de Andrade.

“Quando Pelé ia correndo, passava através dos adversários como um punhal. Quando parava, os adversários se perdiam nos labirintos que suas pernas desenhavam. Quando saltava, subia no ar como se o ar fosse uma escada”, escreveu o escritor uruguaio Eduardo Galeano. 

“Pelé era bom até amarrando a chuteira”, brincou o cronista gaúcho Luís Fernando Veríssimo. 

Livros e filmes 

Os feitos de Pelé também foram contados em livros, filmes e documentários. A Folha de Pernambuco cita abaixo algumas obras para conhecer mais sobre o Rei do futebol. 

“Eu sou Pelé” (1961) ‒  Editora Francisco Alves ‒ Autor: Benedito Ruy Barbosa

Pelé. A autobiografia (2006) ‒ Editora Sextante ‒ Autor: Pelé

Pelé: A importância do futebol (2014) ‒ Editora Realejo ‒ Autor: Pelé e Bria Winter

Pelé: Estrela Negra em Campos Verdes (2008) ‒ Editora Garamond ‒ Autora: Angela Basthi

De casaca e chuteira – A Era dos Grandes Dribles na Política, Cultura e História (2020) ‒ Editora Folha do Meio ‒ Autor: Silvestre Gorgulho

Pelé: O atleta do século (2020) ‒ Editora: Abril ‒ Autor: Sérgio Xavier Filho 

(Do blog da Folha de Pernambuco)

domingo, 1 de janeiro de 2023

O Malandro

 Chico Buarque

O malandro, na dureza,
Senta à mesa do café.
Bebe um gole de cachaça,
Acha graça e dá no pé.
 

O garçom, no prejuízo,
Sem sorriso, sem freguês,
De passagem pela caixa,
Dá uma baixa no português.
 

O galego acha estranho,
Que o seu ganho tá um horror.
Pega o lápis, soma os canos,
Passa os danos pro distribuidor.
 

Mas o frete vê que ao todo
Há engodo nos papéis,
E pra cima do alambique
Dá um trambique de cem mil réis.
 

O usineiro, nessa luta,
Grita: “ponte que o partiu!”
Não é idiota, trunca a nota,
Lesa o Banco do Brasil.
 

Nosso banco tá cotado
No mercado exterior.
Então taxa a cachaça
A um preço assustador.
 

Mas os ianques, com seus tanques,
Têm bem mais o que fazer.
E proíbem os soldados
Aliados de beber.
 

A cachaça tá parada,
Rejeitada no barril.
E o alambique tem chilique
Contra o Banco do Brasil.
 

O usineiro faz barulho
Com orgulho de produtor.
Mas a sua raiva cega
Descarrega no carregador.
 

Este chega pro galego,
Nega arrego, cobra mais.
A cachaça tá de graça,
Mas o frete como é que faz?
 

O galego tá apertado
Pro seu lado não tá bom,
Então deixa congelada
A mesada do garçom.
 

O garçom vê o malandro,
Sai gritando: “Pega ladrão!”
E o malandro autuado,
É julgado e condenado culpado
Pela situação.
 

******* 

A época da estreia do musical “Ópera do Malandro”, Chico Buarque descreveu e justificou o ambiente da peça em entrevistas a Isto É e Manchete: 

“Nós pegamos a Lapa, os bordéis, os agiotas, os contrabandistas, os policiais corruptos, os empresários inescrupulosos. (…) Tomamos como ponto de partida o que o italiano chama de Malacittá, o bas fond. Esta Lapa (que) começava a morrer era o prenúncio de uma série de outras mortes: da malandragem, de Madame Satã, de Geraldo Pereira, de Wilson Batista. Foi o fim da era de ouro do sambista urbano carioca. “Essa história está contada na letra de “Homenagem ao Malandro”, uma das melhores composições do musical: “Eu fui fazer um samba em homenagem / à nata da malandragem que conheço de outros carnavais / eu fui à Lapa e perdi a viagem / que aquela tal malandragem não existe mais…” E prossegue, retratando o “novo” malandro, “o malandro profissional”, “oficial”, “candidato a malandro federal”, arrematando: “Mas o malandro pra valer / – não espalha-/ aposentou a navalha / (…) / até trabalha / mora lá longe e chacoalha / num trem da Central…” “Homenagem ao Malandro” é um samba rasgado, com direito a solo de trombone do grande Maciel, breques e uma adequada interpretação de Chico Buarque. No álbum duplo do musical, só lançado em dezembro de 79, este samba é cantado pelo malandro Moreira da Silva, que vive assim o personagem João Alegre. 

Fonte: Livro 85 anos de Música Brasileira Vol. 2, 1ª edição, 1997, editora 34

Professor Pelé*

 Luís Fernando Veríssimo

James Joyce dizia que o leitor ideal é o leitor com insônia. O que sugere um paradoxo: não adianta ler a noite toda e ficar inteligente se no dia seguinte você parecerá um zonzo por falta de sono. A regra deveria valer para os leitores ideais dos livros de Joyce. Eu consegui ler todo o Ulysses (só não me peça para contar), mas decidi que tinha que escolher entre ler Finnegans Wake e viver. O fato é que já tive muita insônia, e mais tempo do que tenho agora, e por isso li bastante. 

Hoje me transformei num leitor de trechos, ou de notícias e artigos, que, pensando bem, também são trechos desta grande obra que ninguém sabe como vai terminar, que é a atualidade. Quando me perguntam sobre literatura brasileira e internacional, novos autores, etcétera, e não quero dizer que não leio mais como lia e por isso sou um abjeto desinformado, digo apenas que tenho dormido melhor, ultimamente. O que talvez explique esta cara de quem lê muito, e as perguntas. 

A falta de insônia e de tempo desanima o leitor diante de textos maiores ou mais exigentes, mas também condiciona quem escreve: sabemos como um advérbio de modo ou uma firula desnecessária podem atrasar a vida e procuramos o texto enxuto, a frase três-em-um (a que diz no mínimo três coisas com um verbo só) e a concisão. 

Sempre achei que o melhor professor de português do Brasil foi o Pelé. Quem o viu jogar ou hoje vê os seus teipes sabe que o Pelé jamais fez uma jogada que não fosse parte de uma progressão para o gol. O sentido de tudo que o Pelé escrevia com a bola no campo era o gol. O drible espetacular era apenas circunstancialmente, com perdão do longo advérbio, espetacular, porque ele existia em função do objetivo final. A lição para escritores é: defina o seu gol e tente chegar lá como o Pelé chegaria, com poucos, mas definitivos toques, sem nunca deixar que os meios o desviem do fim. E se, no caminho para o gol, você fizer alguma coisa espetacular, esforce-se para dar a impressão de que foi apenas por obrigação. 

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*Este texto foi publicado em ZH em 2/10/2002