quinta-feira, 23 de março de 2023

Pequenas histórias

 

Livro motivacional 

Um homem entra na livraria e pergunta ao atendente: 

− Você tem algum livro de assunto motivacional? 

− Sim, temos. Ele está no final daquele corredor, na terceira prateleira à direita − orienta o vendedor. 

E o sujeito se espanta: 

− Nossa, não tem um livro mais perto não? 

Lição de casa 

O menino está fazendo a lição de casa de português, quando tem uma dúvida e pergunta para o pai: 

− Papai, tô com uma dúvida na minha lição. 

− Fala, filho. 

− Burrice, se acentua? 

− Com o passar dos anos, sim. 

Memória fantástica 

Minha memória é espantosa. Guarda direitinho tudo o que aprendi no Colégio Souza Lobo, ou Souza Gonçalves, ou Lobo de Souza ou qualquer coisa assim.* 

E têm mais coisas que agora não lembro mais. 

*Essa parte é do Michele Caetano 

Esposos e Esposas 

A apetitosa senhora explica ao encanador que estava usando aquele tentador baby doll preto em homenagem a seu amado marido que havia partido... Havia partido pela manhã para uma rápida viagem de negócios. 

O marido furioso, chegando em casa e encontrando a mulher na cama com outro: 

− O que é que vocês estão fazendo? 

A mulher, virando-se para o outro, diz: 

− Viu? Eu não lhe disse que ele era burro! 

Queixa da esposa 

A mulher se queixava, quase em prantos, à sua empregada: 

− Oh, Maria, acho que meu marido está me enganando com a secretária! 

− Não acredito! A senhora está dizendo isso pra me deixar com ciúmes. 

Cabelos brancos 

Um dia, uma menina estava sentada observando sua mãe lavar os pratos na cozinha. De repente, percebeu que sua mãe tinha vários cabelos brancos que sobressaíam entre a sua cabeleira escura. 

Olhou para sua mãe e lhe perguntou: 

− Por que você tem tantos cabelos brancos, mamãe? 

A mãe respondeu: 

− Bom, cada vez que você faz algo de ruim e me faz chorar ou me faz ficar triste, um de meus cabelos fica branco. 

A menina digeriu esta revelação por alguns instantes e logo disse: 

− Mãe, por que todos os cabelos de minha avó estão brancos? 

O erro 

Se a Maria é casada com o Joaquim, mas dorme com o Manoel, o que ocorre é um erro de português. 

A origem 

O pai de um garoto de pouca inteligência, no interior paulista, diante do filho rebelde, adverte-o: 

− Filho, você não é estudioso, é desobediente, mal-educado, implicante, bate nos seus colegas menores, ofende as meninas da escola, passa-os para trás nos jogos e nas brincadeiras. O que você quer ser quando crescer? Um militar, para ser expulso da tropa, ou um político sacana? 

O elefante e a formiga 

História 1 

Iam um elefante e uma formiga correndo lado a lado. A certa altura a formiga olha para trás e diz: 

− Já viste a poeirada que estamos fazendo? 

História 2 

Estava uma formiga no cinema vendo um filme pacatamente, quando um enorme elefante sentou-se à frente dela. 

Arreliada com a situação, levantou-se e foi sentar-se na fila à frente, diante do paquiderme. Deixou-se estar ali um bocado e depois, com um sorriso trocista, olhou para trás e disse: 

− Atrapalha, não é mesmo? 

O sabido 

Comprei, pela internet, um livro com o seguinte título: 

Como não cair em golpes”, até paguei adiantado. 

Já se passaram 90 dias e ainda não recebi o livro... 

Acredite se quiser! 

No começo deste ano, o pintor Frinó Batista pulou do vigésimo andar de um edifico no centro da cidade de Madrid. Bateu num toldo que estava aberto no décimo sétimo, depois aliviou sua queda num mastro que estava colocado no décimo quinto e seguiu furando catorze toldos, que foram aparando seu tombo até o chão, onde caiu, por coincidência, numa poltrona que estava sendo limpa, absolutamente sem um arranhão e completamente morto.*

 *Esse texto é do Jô Soares. 

Constatação 

Por trás de um grande homem, há sempre alguém que não sai na foto. 

O convite 

Marido chega em casa, no final de uma sexta-feira, e faz o convite à esposa: 

− Vamos sair hoje? 

Ela, entusiasmada: 

− Claro, tô louca pra sair! 

Ele: 

− Tá com fome? 

Ela: 

− Bastante. 

Ele: 

− Então vai na cozinha e prepara algo pra comer.

E por último: 

Existem três tipos de pessoas: as que sabem contar e as que não sabem.

terça-feira, 21 de março de 2023

A mãe e os três irmãos ricos

 

Três irmãos competiram para ver quem mais agradava à mãe idosa. 

O primeiro comprou uma mansão para ela; o segundo deu-lhe uma Mercedes. O terceiro lembrou-se da dificuldade da mãe, quase cega, em ler a Bíblia, portanto, comprou um papagaio treinado para recitar versículos bíblicos. 

Na primeira reunião com os filhos, ela comenta com eles os presentes recebidos. 

− Jorge, você comprou uma casa grande demais só para mim. É enorme para uma pessoa que mora sozinha. Júlio, eu nunca saio e nem sei mais dirigir, então aquele carro é inútil. Pedro, você é o único que entende do que sua mãe realmente gosta: aquele franguinho de penas verdes estava uma delícia! 



.A felicidade tão perto e tão longe...

 Até pensei 

Chico Buarque

Junto à minha rua havia um bosque,
Que um muro alto proibia.
Lá todo balão caía,
Toda maçã nascia,

E o dono do bosque nem via. 

Do lado de lá tanta aventura,
E eu a espreitar na noite escura,
A dedilhar essa modinha.
A felicidade morava tão vizinha,

Que, de tolo, até pensei que fosse minha. 

Junto a mim morava a minha amada,
Com olhos claros como o dia.
Lá o meu olhar vivia,
De sonho e fantasia,
A dona dos olhos nem via.
 

Do lado de lá tanta aventura,
E eu a esperar pela ternura,
Que enganar nunca me vinha.
Eu andava pobre,
Tão pobre de carinho,

Que, de tolo,
Até pensei que fosses minha.
 

Toda a dor da vida
Me ensinou essa modinha,
Que, de tolo,
Até pensei que fosse minha...

segunda-feira, 20 de março de 2023

O literal

 João Alberto Soares

Não, ele não era louco. Apenas entendia e fazia as coisas ao pé da letra. Ou melhor, literalmente. Letra, para ele, não tinha pé. 

Fora assim desde pequeno. No jardim da Infância reclamava muito de que no tal Jardim da Infância não tinha nenhum jardim. A mãe tentava explicar: 

− Meu filho, jardim é um modo de falar. 

− Não, mãe. Jardim é um lugar cheio de flores. 

No adiantava. Se o ensinavam que as palavras tinham este ou aquele significado, por que as pessoas teimavam em falar e entender de outra maneira? Respondia às críticas com este argumento. 

No quinto ano primário teve sua primeira experiência dolorosa. Andava mal no colégio. O pai chamou-o para uma conversa: 

− Filho, sua mãe me disse que você anda pelas caronas no colégio. 

− Como? 

− Soube que você andou obtendo notas um pouco baixas no colégio. 

− Ah, é. 

− Você precisa estudar mais, meu filho. 

− Sim, pai. 

− Você precisa se atirar de cabeça nos livros. 

Dito e feito. Meia hora depois foi preciso levá-lo às pressas ao pronto-socorro com um enorme galo na cabeça. 

Outro dia estavam todos na sala vendo televisão. Como achasse que o pessoal na tevê não estava dizendo coisa com coisa, ele ligou o rádio e ficou ouvindo música. A mãe pediu para baixasse o rádio. Ele atendeu na hora: pegou o rádio de cima da mesinha e colocou-o no chão, sob o sofá. 

Não, não é de rir. Não foram poucos os mal-entendidos na sua vida. Teve aquele do aniversario de quinze anos, quando convidou uma menina para dançar: 

− Que bom que você me tirou. 

− O que é que eu tirei? 

− Tirar pra dançar. 

− Ah. 

− É que todas as outras queriam dar um tirinho em você. 

− Tiro? Em mim? 

Disse isto e saiu como uma bala, correndo como quem corre de tiroteio. 

Certa vez ia entrando no supermercado para fazer umas comprinhas. Uma mulher que ia saindo segurou-o pelo braço e disse dramaticamente: 

− Cuidado! Eles estão arrancando os olhos da cara! 

Foi o que bastou. Deu meia-volta e só parou de correr em casa. 

A última vez que o vi foi quando resolveu aprender violino. Como não se desse muito bem com as notas no papel, após algumas aulas o professor aconselhou-o a tocar de ouvido. Foi parar no médico com a orelha sangrando. 

Depois disso me perdi dele. Alguém me disse que ele estava trabalhando em Brasília. Como salva-vidas no mar de bobagens que é a política brasileira. 

(Do livro “De Quatro”, Editora Globo)

P.S. Esse livro pode ser encontrado nos sebos do centro de Porto Alegre. O meu exemplar consegui num sebo da Rua dos Andradas (Rua da Praia), quase defronte à Casa de Cultura Mário Quintana. 


Sou professor

 John W. Schlatter

Sou professor. Nasci no momento exato em que uma pergunta saltou da boca de uma criança. Fui muitas pessoas em muitos lugares.  Sou Sócrates, estimulando a juventude de Atenas a descobrir novas ideias através de perguntas. Sou Anne Sullivan, extraindo os segredos do universo da mão estendida de Helen Keller. Sou Esopo e Hans Christian Andersen, revelando a verdade através de inúmeras histórias. Sou Marva Collins, lutando pelo direito de toda a criança à Educação. Sou Mary McCloud Bethune, construindo uma grande universidade para meu povo, utilizando caixotes de laranja como escrivaninhas. Sou Bel Kauffman, lutando para colocar em prática o Up Down Staircase. Os nomes daqueles que praticaram minha profissão soam como um corredor da fama para a humanidade... Booker T. Washington, Buda, Confúcio, Ralph Waldo Emerson, Leo Buscaglia, Moisés e Jesus. 

Sou também aqueles cujos nomes foram há muito esquecidos, mas cujas lições e o caráter serão sempre lembrados nas realizações de seus alunos. 

Tenho chorado de alegria nos casamentos de ex-alunos, gargalhado de júbilo no nascimento de seus filhos e permanecido com a cabeça baixa de pesar e confusão ao lado de suas sepulturas cavadas cedo demais, para corpos jovens demais. 

Ao longo de cada dia tenho sido solicitado como ator, amigo, enfermeiro e médico, treinador, descobridor de artigos perdidos, como o que empresta dinheiro, como motorista de táxi, psicólogo, pai substituto, vendedor, político e mantenedor da fé. 

A despeito de mapas, gráficos, fórmulas, verbos, histórias e livros, não tenho tido, na verdade, nada o que ensinar, pois meus alunos têm apenas a si próprios para aprender, e eu sei que é preciso o mundo inteiro para dizer a alguém quem ele é. 

Sou um paradoxo.

É quando falo alto que escuto mais.

Minhas maiores dádivas estão no que desejo receber agradecido de meus alunos. 

Riqueza material não é um dos meus objetivos, mas sou um caçador de tesouros em tempo integral, em minha busca de novas oportunidades para que meus alunos usem seus talentos e em minha procura constante desses talentos que, às vezes, permanecem encobertos pela autoderrota. 

Sou o mais afortunado entre todos os que labutam. A um médico é permitido conduzir a vida num mágico momento. A mim, é permitido ver que a vida renasce a cada dia com novas perguntas, ideias e amizades.

Um arquiteto sabe que, se construir com cuidado, sua estrutura poderá permanecer por séculos. Um professor sabe que, se construir com amor e verdade, o que construir durará para sempre. 

Sou um guerreiro, batalhando diariamente contra a pressão dos colegas, o negativismo, o medo, o conformismo, o preconceito, a ignorância e a apatia. 

Mas tenho grandes aliados: Inteligência, Curiosidade, Apoio paterno, Individualidade, Criatividade, Fé, Amor e Riso, todos correm a tomar meu partido com apoio indômito. (...) 

E assim, tenho um passado rico em memórias. Tenho um presente de desafios, aventuras e divertimento, porque a mim é permitido passar meus dias com o futuro.

Sou professor... e agradeço a Deus por isso todos os dias. 


Um diálogo possível

 Michele Caetano

Tudo começou num esbarrão. 

1 − (Paz na Terra) Desculpe... 

2 − (Boa Vontade Entre os Homens) Tudo em paz, não esquenta... 

1 − Espera. Conheço você de algum lugar... 

2 − Não estive lá, mas sou a BOA VONTADE ENTRE OS HOMENS. E você? 

1 − Eu sou a PAZ NA TERRA. 

2 − Ah! Estranha que nem eu. 

1 − Mas bem mais falada que você. 

2 − Por uma meia dúzia. Não vejo vantagem. 

1 − E você que só fica na vontade. 

2 − Em compensação você é “persona non grata” em todo o mundo. 

1 − Mas você também não está em parte nenhuma, neném. 

2 − Cuidado, pombinha, que o Kadafi* te escuta. 

1 − Pode ser, porque de Oriente Médio você entende, né mesmo? 

2 − Que maldade, minha rola. Não foi você que o Begin* ganhou como prêmio? 

1 − Foi um engano dos homens de boa vontade, queridinha. 

2 − Me usaram como pretexto, paloma. Mas a intenção... 

1 − É só o que você tem, menina. Intenção. E o inferno está cheio de... 

2 − De homens que lutaram por você, colomba. A sua dialética e hipócrita. 

1 − Hipócrita é esta sua boa vontade, donzela. Porque a dialética é sua. 

2 − Minha? Não é por mim que vivem fazendo reuniões, conferências e outras babaquices que não levam a nada. 

1 − Mas você é o pretexto, boneca. 

2 − O pretexto é você, branquinha. 

1 − Você está fazendo jogo, minha preta. 

2 − Não faço jogo, peitudinha. Não me interessa. 

1 − É só o que te interessa, minha atriz, o jogo de interesses. 

2 − Logo quem falando. A menina mais volúvel a paróquia. 

1 − Aliás, de paróquia você também manja, não é, minha Marcinkus*? 

2 − Opa! Isso é com você, divina. Não é lá o seu ninho? 

1 − O meu ninho, santinha, é no mundo todo. 

2 − É. E por que você não pro Chile,** ou São Salvador,** ou Nicarágua?** 

1 − Isso é função sua, minha globe trotter. Primeiro a intenção, depois o gesto. 

2 − O primeiro trottoir é seu, minha columbiforme. 

1 − Em absoluto, juju. Primeiro o ovo. 

2 − Que disparate, minha penosa. Primeiro a galinha. 

1 − Falsa! 

2 − Interesseira!  

(Do livro “De Quatro”, Editora Globo, de 1983) 

* Muamar al-Kadafi, ditador que dominou a Líbia por 42 anos. 

* Menachem Begin primeiro ministro israelense, ganhador no Nobel da Paz, em 1978. 

* Paul Marcinkus, arcebispo norte-americano, conhecido pelo seu envolvimento num dos maiores escândalos financeiros do Vaticano. 

**. O Chile, São Salvador e a Nicarágua viviam, nos anos 1980, em brutais ditaduras. A Nicarágua vive até hoje...

sábado, 18 de março de 2023

Prêt-à-porter de Tafetá

Aldir Blanc e  João Bosco

Esta música de João Bosco e com letra de Aldir Blanc narra, com início meio e fim, à maneira carioca de dizer as coisas, uma cantada, com lances de recusa, e, finalmente, o encontro para o affair entre os personagens. 

Blanc utiliza-se de palavras francesas (com grafia incorreta) para sugerir os acontecimentos. Os sons das palavras estrangeiras dão o toque de malícia para entender a história, que, aparentemente, não quer dizer nada, mas diz tudo. Basta entendê-la. 

(O encontro) 

Pagode em Cocotá,
Vi a nega rebolá
Num preta-porter de tafetá.
Beijei meu patuá,
Ói, sambá, Ói, ulalá
Mé carrefour, o randevú vai começá.
 

(A recusa da abordagem) 

Além de me empurrá:
“Kes que sé, tamanduá?
Purquá jé suí du Zanzibar.”
 

(A cantada maliciosa) 

Aí, eu me criei: pas de bafo, mon bombom,
Pra que zangá?
Sou primo do Villegagnon.
Voalá e çavá, patati, patatá,
Boulevar, saravá, sou da Praça Mauá.
Dendê, matinê, padedê

Meu peticomitê, bambolê,
Encaçapo você.
 

(O encontro marcado e as perspectivas sacanas...) 

Taí, seu Mitterrand,
Marcamos pra amanhã em Paquetá,
Num flamboyant en fleur
Onde eu vou ter colher.

Pompadu? Zulu,
Manjei toá bocu!... 

P.S. Essa música está na internet, na voz do autor de música: João Bosco.

A letra da música contada 

Um pagode com música ao vivo em Cocotá, bairro da zona Norte do município do Rio de Janeiro, localizado na ilha do Governador. 

Um malandro avista uma linda mulata num vestido sensual, prêt-a-porter de tafetá, tecido muito antigo feito à base de fibra de seda ou material sintético. 

Para dar sorte e se dar bem na sua intenção de cortejar a moça, ele beija seu patuá, que é um amuleto muito utilizado por pessoas ligadas ao candomblé, e vai à luta. 

A moça, ao se sentir assediada por um desconhecido, empurra-o como defesa de seu corpo. O cara, então, resolve partir para uma conversação de malandro com boa lábia e se desculpando pela forma como ele a abordou, afinal ele é da Praça Mauá, que é uma praça situada no bairro do Centro, na zona portuária e boêmia da cidade do Rio de Janeiro. 

Depois de uma cantada muito convincente, eles resolvem se encontrar, no dia seguinte, na Ilha de Paquetá, à sobra de uma árvore, onde ele acha que irá se dar bem e comer algo muito íntimo e delicioso...