quarta-feira, 3 de maio de 2023

Teste rápido de inteligência virtual

 

01. Os homens têm doze pares de costelas. Quantos pares têm as mulheres? 

02. Em que parte do corpo está a epiderme? 

03. Quantas vidas tem um gato? 

04. Na Bahia, o que é um mosquitinho? 

05. Que doença você teria se estivesse com rubéola? 

06.  Você pode aterrissar no planeta Marte? 

07. Na Matemática relativa de Einstein 2 + 2 =... 

08. Os ursos polares do Polo Sul são brancos ou marrons? 

09. No Polo Norte, os pinguins são a refeição predileta dos ursos ou dos leões marinhos? 

10. Segundo a etimologia da palavra, todo coitado é um... 

Respostas

 

 

 

 

 

01. Tem também os doze pares. O quê? Achou que a mulher fosse diferente do homem! 

02. Em todo o corpo. 

03. Uma só. Não vai me dizer que você pensou em sete? 

04. Na Bahia, e em todo Brasil, mosquitinho é diminutivo de mosquito. 

05. Só pode ser rubéola. 

06. Você só pode aterrissar na Terra. Em Marte, criando uma nova palavra, seria, talvez, marterissar (pousar em Marte). Mas há controvérsia. 

07. Não existe Matemática relativa de Einstein. 2 + 2 = 4, e fim de papo. 

08. Não existe urso branco no Polo Sul. 

09. Como, também, não há pingüins no Polo Norte. 

10. Quem pensou que “coitado” fosse um “fodido”, se ferrou! Coitado não vem de coito como a homofonia (semelhança de sons) faria crer. O sinônimo tradicional de aflito é o único possível, pois coitado descende do latim vulgar coctare (cozer, incomodar e, por extensão, afligir). 


Ando, logo existo

 Juliana Bublitz

Lá estava eu, correndo os olhos na timeline, quando duas imagens, reproduzindo desenhos infantis, me detiveram. Ambas as ilustrações mostravam a forma como crianças haviam representado, visualmente, o caminho que faziam para a escola. Um dos esboços era rico em detalhes, colorido, mostrando uma igreja, um cinema e até as flores do percurso. O outro, mais simples, exibia apenas uma estrada cinza sem graça. O que significava aquilo? 

Fui pesquisar sobre o assunto. Descobri que os dois autores eram meninos de sete anos e frequentavam o mesmo colégio na cidade de Balzers, localizada ao sul do Principado de Liechtenstein, entre a Áustria e a Suíça. Os desenhos da dupla − e de outros meninos e meninas da localidade − foram analisados por um membro do Centro de Pesquisa e Documentação para Crianças e Meio Ambiente, na Suíça. 

Era uma representação intitulada “Ich gehe, also bin ich!” (algo como “ando, logo existo!”, em alemão), Marco Hüttenmoser fez uma análise sobre como a forma com que os pequenos se relacionam com a vida à sua volta influencia o desenvolvimento e a visão de mundo de cada um. 

Resumindo: o dono do desenho rico de detalhes ia para a escola a pé. Já o seu colega, do desenho “vazio”, fazia o trajeto de carro, sentado em uma cadeirinha no banco de trás do veículo, sem conseguir ver tudo aquilo o que o amigo era capaz de enxergar na rua. 

Se a gente pensar bem, é curioso como isso também vale para nós, adultos. Em uma viagem, por exemplo, uma boa caminhada sempre é bem-vinda, porque é “assim que se conhece de verdade um lugar”. 

É claro que, no caso das crianças (e de todos nós), há outros aspectos a levar em conta, como a segurança. Nem sempre, em grandes cidades, é possível levar o filho ou a filha ao colégio caminhando. Há o risco de assaltos, de vias sem sinalização e até de encontrar um motorista descuidado pela frente. Ainda assim, vale a reflexão. Andar faz bem. 

(No jornal Zero Hora, 3 de maio de 2023)

terça-feira, 2 de maio de 2023

Hora da Sesta

 Jaime Caetano Braun*

O sol parece uma brasa
na cinza do firmamento.
Sobre o campo sonolento
ninguém está de vigília,
na lagoa − uma novilha,
bebe de ventas franzidas
e duas graças perdidas
sentam na grama tordilha. 

No galpão tudo é silêncio,
a cachorrada cochila
e a peonada se perfila,
estirada nos arreios,
só se escutam os floreios
da mamangava lubana
fazendo zoada, importuna,
nos buracos dos esteios. 

Hora de sesta o piazedo
sumiu-se direito à sanga.
Na rama junto a canga,
que o cabeçalho se abraça,
está um boi velho fumaça,
que ruminando descansa,

porque já trouxe de herança
remoer a própria desgraça. 

Rompe o silêncio da sesta
na guajuvira da frente.
O tá-tá-tá impertinente
do bico dum pica-pau.
No galpão, um índio mau
quase enleia na açoiteira
a naniquinha poedeira
que vem botar no jirau. 

Mas a soneira é mais forte
do que os gritos da galinha,
e até as chinas da cozinha
cochicham meio em segredo.
Não há rumor no arvoredo,
nos bretes e nas mangueiras,
dormem as velhas figueiras,
só quem não dorme é o piazedo. 

É hora de caçar lagartos
e peleguear camoatim,
hora das artes sem fim
que o grande faz que ignora,
enquanto guri de fora,
criado no desamor,
numa infância de rigor
só foi guri nessa hora. 

Hora de sesta − Saudades,
de juventude e de infância,
Hoje, ao te ver à distância,
quando a vida já rareia,
igual um sol que bruxuleia
num canhadão se perdendo,
hoje, afinal, compreendo
porque guri não sesteia!

* Jaime Caetano Braun foi o maior pajador gaúcho. A pajada pode ser executada com apenas um pajador, exaltando as coisas que gosta e que admira, ou fazendo críticas ao momento ou ao cenário, demonstrando nessa arte toda a sua habilidade de rimar assuntos diversos. Porém, a pajada pode ser de contraponto, quando dois pajadores se desafiam em duelos rimados, mostrando ainda maior habilidade no verso de improviso.

Por trás da letra:

 Atrás da Porta 

No Verão de 1972, Elis Regina se separou mesmo de Ronaldo (Bôscoli), num divórcio tão previsível quanto tempestuoso... Roberto Menescal voltou a produzir seus discos, agora com a direção musical e o piano de César Camargo Mariano e uma banda totalmente diferente, talvez melhor... Um grande disco, mais equilibrado e sem aventuras, com um repertório de alto nível e uma Elis mais discreta e precisa. No disco inteiro ela se apresenta mais técnica e contida, mas em uma música explode de emoção como nunca e se derrama, chora e soluça as palavras de “Atrás da porta”, uma de suas maiores performances em disco... 

Quando Elis conheceu a música, levada por Menescal, a melodia de Francis Hime tinha só a primeira parte da letra de Chico Buarque. Elis e César ficaram apaixonados pela música e a gravação foi marcada para dentro de três dias. Nesse meio tempo, Menescal e Francis tentariam dar uma pressão em Chico para terminar a letra. À noite, separada de Ronaldo, sozinha na casa branca da Oscar Niemeyer, Elis resolveu fazer uma sessão de cinema, convidando alguns amigos, entre eles César, para ver “Morangos silvestres”, de Bergman, um clássico-cabeça da época. Mal o filme começou, César recebeu um bilhete de Elis, foi ao banheiro ler e se espantou: era um “torpedo” amoroso. Atônito, César leu e releu, acreditou e sumiu: completamente fascinado por Elis, era tudo o que secretamente desejava. E temia. Então sumiu. Não foi encontrado nos dois dias seguintes em lugar nenhum, os amigos se preocuparam. Mas no dia e hora da gravação, duas da tarde, César estava no estúdio, Menescal se sentiu aliviado e Elis sorriu sedutora. César dispensou os músicos, pediu para todo mundo sair, para colocarem o piano no meio do estúdio, baixarem as luzes e deixarem só ele e Elis, para a gravação do piano e da voz-guia de “Atrás da porta”. 

Extravasando seus sentimentos, misturando as dores da separação com as esperanças de um novo amor, Elis cantou, mesmo sem a segunda parte da letra, com extraordinária emoção, com a voz tremendo e intensa musicalidade. Na técnica, quando ela terminou, estavam todos mudos. Elis chorava abraçada por César. Juntos, César e Menescal foram levar a fita para Chico, que ouviu, chorou, e terminou a letra ali mesmo, no ato. 

Assim, Elis Regina cantou a versão definitiva de uma das mais poderosas e dilacerantes letras de amor e ódio da música brasileira, produziu uma gravação antológica e emocionou o Brasil com sua arte. E ganhou um novo namorado, com quem esperava crescer na música e na vida. 

Do livro: “Noites Tropicais”, de Nelson Motta.

Atrás da porta 

Chico Buarque e Francis Hime 

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus.
Juro que não acreditei, eu te estranhei,
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei,
E me arrastei e te arranhei,
E me agarrei nos teus cabelos,
Nos teus pelos, teu pijama;
Nos teus pés, ao pé da cama,
Sem carinho, sem coberta,
No tapete, atrás da porta.
Reclamei baixinho,
Dei pra maldizer o nosso lar,
Pra sujar teu nome, te humilhar,
E me vingar a qualquer preço,
Te adorando pelo avesso,
Pra mostrar que ainda sou tua...

Até provar que inda sou tua... 

Comentários 

Nesta letra a personagem chega em casa e percebe que o marido está estranho (Quando olhaste bem nos olhos meus/E o teu olhar era de adeus). Ela demonstra que o traía pelo arrependimento ao decorrer da canção, principalmente na parte “Dei pra maldizer o nosso lar/Pra sujar teu nome, te humilhar”.

E a personagem também demonstra a humilhação que se submeteu para conseguir o perdão do amado (Me debrucei sobre teu corpo e duvidei/E me arrastei e te arranhei/E me agarrei nos teus cabelos/Nos teu pelos, teu pijama/Nos teus pés ao pé da cama/Sem carinho, sem coberta). 

Rayza 

Essa letra é incrível! Pra começar, Chico Buarque mais uma vez se utiliza do eu lírico feminino, nenhum outro compositor o faz tão bem quanto ele! A letra fala abertamente de um homem que está abandonando a companheira e demonstra inicialmente toda a amargura da mesma… Em seguida, essa mulher abandonada se encontra já totalmente possuída pelo sentimento de vingança, reparem que quando Chico canta: “Dei pra maldizer o nosso lar…” dá margem há duas interpretações claras, o “dei” pode ser interpretado como um começo de uma atividade ou ato sexual em si… quer dizer, a mulher em questão começa a se envolver com outros homens a fim de reverter a humilhação que sentiu… Fantástico! 

Mariana Cantarim 

Assista, na internet (ou no youtube), ao vídeo dessa música, num especial da Globo, interpretada por Elis Regina. É de arrepiar!

O “Passarinho” na Imprensa

 

(...) 

Deixa eu explicar o que é um passarinho. Em (19)54, o Nelson Rodrigues escreveu uma crônica (acho que na Última Hora, de Samuel Wainer) dizendo que a imprensa estava muito chata por falta de passarinhos. E explicava que antigamente era diferente. Que hoje (1954) não se mentia mais. Uma vez houve um incêndio na Lapa, mandaram um repórter para lá e reservaram a primeira página. O repórter voltou desanimado: apagaram o incêndio com um regador de jardim. Mas não aconteceu nada que dê notícia? Bem, disse o repórter, tinha um passarinho dentro de uma gaiola muito nervoso. Foi o bastante: Fogo Ameaça a Fauna da Lapa. 

Era isso: O Nelson estava dizendo que os jornalistas brasileiros não mais aumentavam a notícia, não criavam nenhum passarinho. E nas nossas conversas intercronistas a palavra passarinho é muito corriqueira. Eu, por exemplo, me considero um passarinheiro de marca maior. 

(Parte de uma crônica do livro:

 “Minha mulheres e meus homens”, de Mario Prata”

segunda-feira, 1 de maio de 2023

O problema educacional

 (ou Sacrifícios de Mãe)

A pobre mãezinha levou o filhinho ao psicanalista porque ele era incapaz de comer qualquer coisa. Ou coisa alguma. Só gostava de comer o impossível. O médico examinou o crescimento mental do menino e recomendou à mãe (dele) que não forçasse o menino a comer o que ele não gostasse. 

Percebia-se nitidamente que era um jovenzinho de formação extravagante a quem se deveria oferecer apenas pratos ímpares. Assim foi que a mãezinha, muito da psicanalítica, chegou em casa e perguntou ao filhinho o que é que ele gostaria de comer. O menino nem titubeou. Disse logo: 

− Uma lagartixa. 

Com grande repugnância e não menor dificuldade, a mãe(zinha) conseguiu caçar uma lagartixa e deu-a ao menino. O menino olhou a lagartixa com igual ânsia, um olho pra cá, outro pra lá, os dois olhos parando lá em cima e exclamou: 

− “Come vuoí, mamma, que io mangi questa porcheria cosí cruda senza ne meno il doppio burro?” − ou seja: “Como é que a senhora pretende que eu coma essa porcaria assim crua: não tem sequer manteiga dupla?” 

A mãe, sempre mãe, e mais mãe porque psicanaliticamente orientada, pegou a lagartixa, pô-la na frigideira e fritou-a como o menino desejava. 

− Está bem agora? − perguntou ao menino. 

− Não − respondeu a peste, − parte ao meio. 

A mãezinha tão Kleiniana, coitada!, fez o que o menino mandava. O menino olhou a mãezinha, a mãezinha olhou o menino, o menino mexeu um olho, a mãe baixou a cabeça meio centímetro, o menino mexeu o outro olho, a mãe voltou com a cabeça à posição anterior e aí o menino impôs: 

− Eu só como a lagartixa se a senhora comer metade. 

− Então come que depois eu como − disse a mãe. 

− Não, você tem que comer primeiro − disse o menino. 

A mãezinha sentiu uma golfada de nojo, mas, que ia fazer? Mãe é mãe e, além do mais, ela tinha tantas raízes junguianas! Fechou os olhos e, para não sentir, com um gesto rápido, jogou metade da lagartixa dentro da goela, engoliu. O menino olhou-a firme, olhou a metade da lagartixa dentro na frigideira e começou a chorar: 

− Ah, ah, ah!… A senhora comeu exatamente a metade que eu gosto. Essa daí eu não como de jeito nenhum. 

Moral: Quando você tiver de engolir um sapo, não há o que escolher. Mas quando tiver que engolir metade do sapo escolha sempre a metade que coaxa. 

Submoral: Dizem alguns historiadores que a mãe pegou e deu uma bruta surra no garoto. Mas os historiadores que abraçam essa versão não sabem os terríveis traumas (ai, freudianos) que causam na infância esses choques físico morais provocados por espancamentos. Todas as mães modernas preferem comer lagartixas. 

Do livro: “Fábulas Fabulosas”, de Millôr Fernandes.


O Prêmio Camões a Chico Buarque

 

Em 2019, Chico Buarque foi merecedor à indicação do Prêmio Camões, a mais importante premiação na área da Literatura, a qual é conferida pelo Governo de Portugal em parceria com o Governo do Brasil. 

Como representante maior de pais, naquela época, cabia ao presidente Jair Bolsonaro a assinatura do Diploma, mas, lamentável ou felizmente, segundo o Chico, ele se recusou a assinar referido Diploma. 

Transcorridos quatro anos, hoje, 24 de abril de 2023, Chico Buarque o recebeu, em Lisboa, Portugal, das mãos do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo, o Prêmio Camões. 

Ao receber o prêmio, Chico Buarque fez um discurso de quase dez minutos. Com intensa emoção e retórica, falou do forte legado herdado de seu pai, o historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda, e, seguindo uma linha de raciocínio sobre sua genealogia, disse: “O meu pai era paulista, meu avô, pernambucano, o meu bisavô mineiro, meu tataravô, baiano (risos da plateia) e tenho antepassados negros e indígenas, cujos personagens alguns antepassados brancos tentaram suprimir da família. Corre nas minhas veias o sangue dos açoitados e dos açoitadores”, etc. e assim continuou seu discurso. 

Nos últimos minutos disse: 

“Valeu muito a pena esperar por quatro anos esta cerimônia. Lá se foram quatro anos que este meu prêmio foi anunciado e eu me perguntava se ele havia me esquecido ou se os prêmios são também perecíveis, se tem prazo de validade. Quatro anos, com uma pandemia no meio, davam a impressão que um tempo bem mais longo havia transcorrido. 

No que se refere ao meu país, quatro anos de um governo funesto duraram uma eternidade, porque foi um tempo em que o tempo parecia andar para trás. Mas, graças ao bom povo brasileiro, aquele governo foi derrotado nas urnas, mas, nem por isso podemos nos distrair, pois a ameaça fascista persiste... 

Continuando sua fala disse: 

“Hoje, nesta tarde de celebração, reconforta-me lembrar que o funesto ex-presidente teve a rara fineza de não sujar o Diploma do Prêmio Camões, deixando seu espaço em branco para que, quatro anos depois, o Presidente e Estadista Lula colocasse sua assinatura e me entregasse o Diploma. 

Finalmente, senhoras e senhores, recebo este prêmio, menos como uma honra pessoal, e mais, como um desagravo a tantos autores e artistas brasileiros judiados, ofendidos e desrespeitados nestes últimos anos de estupidez e obscurantismo. 

Muito obrigado!”