quarta-feira, 25 de março de 2026

A índia que amava a Lua

Muitos e muitos anos atrás, vivia Iapuna, uma jovem índia do povo Tupi. 

Ela era uma garota alegre, que gostava de passear pela floresta, de brincar com os animais, de nadar nos rios com seus irmãos. Mas, quando a noite começava a chegar, gostava de ficar sozinha, deitada na grama, admirando as estrelas, a Lua, o céu distante.

Certa noite, a Lua estava mais brilhante do que nunca. Seus raios penetravam entre as árvores da floresta e envolvia tudo com uma luz intensa, mágica. Iapuna lembrou-se então das histórias contadas pelos velhos índios da tribo sobre a Lua. Uma delas dizia que as estrelas eram jovens índias levadas ao céu pela Lua. 

‒ Ah! Como eu gostaria de ser uma das estrelas do céu! – pensou Iapuna. ‒ Poderia ficar sempre perto da Lua e abraçá-la! 

Aos poucos, esse desejo foi tomando conta de Iapuna e ela não pensava em mais nada, a não ser subir ao céu para abraçar a Lua. 

Certa noite, ela foi passear na beira de uma lagoa. Não havia vento a água estava calma, quase parada. E, bem no meio da lagoa, brilhava o reflexo da Lua cheia! 

Quando viu aquilo, Iapuna ficou enlouquecida de alegria. Era ela, a sua amada Lua que enfim chegara para levá-la ao céu! 

Sem pensar em mais nada, mergulhou e pôs-se a nadar em direção ao reflexo da Lua. Mas, quanto mais nadava, mais distante parecia estar o brilho da Lua. Iapuna foi ficando cansada. Finalmente, conseguiu se aproximar da sua amada Lua e quis abraçá-la. Mas, sem força nos braços, começou a afundar e seu corpo desapareceu nas águas da lagoa. 

Toda a aldeia chorou a morte da linda Iapuna. 

Lá no céu, a Lua, que tudo observava, ficou triste com o destino de Iapuna. E já que não pôde transformá-la em uma estrela do céu, resolveu fazer dela uma estrela das águas. Por isso, transformou-a e uma linda planta, que passou a ser chamada de vitória régia. 

É uma planta bonita e grande, que se fecha durante o dia e se abre quando a noite chega, para receber o abraço da Lua, como sempre sonhou a jovem índia Iapuna.

 

******* 

Douglas Tufano “Histórias da terra e do céu: 

lendas indígenas do Brasil”

terça-feira, 24 de março de 2026

Era uma vez...

 

O Fogo, a Água e a Confiança entraram juntas em uma floresta e o Fogo disse: 

‒ Se eu me perder, procurem a fumaça, porque onde há fumaça, há fogo! 

A Água disse: 

‒ Se eu me perder, procurem a umidade, pois onde há umidade, há água! 

Então, a Confiança disse: 

‒ Se eu me perder, não me procurem, pois quem me perde, não irá me encontrar nunca! 

Moral da história: 

A Confiança é muito valiosa, mas uma vez perdida... Nunca mais!

segunda-feira, 23 de março de 2026

O único animal

 (Texto de Luís Fernando Veríssimo)

O homem é o único animal que ri dos outros. O Homem é o único animal que passa por outro e finge que não vê. É o único que fala mais que o papagaio. É o único que gosta de escargot (fora, claro, o escargot). É o único que acha que Deus é parecido com ele. 

E é o único...

que se veste...

que veste o os outros...

que despe os outros...

que faz o que gosta escondido...

que muda de cor quando se envergonha...

que se senta e cruza as pernas...

que sabe que vai morrer...

que pensa que é eterno...

que não tem uma linguagem comum a toda a espécie...

que se tosa voluntariamente...

que lucra com os ovos dos outros...

que pensa que é anfíbio e morre afogado...

que tem bichos...

que joga no bicho...

que aposta nos outros..

que compra antenas...

que se compara com os outros. 

O homem não é o único animal que alimenta e cuida das suas crias, mas é o único que depois usa isso para fazer chantagem emocional. 

Não é o único que mata, mas é o único que vende a pele. 

Não é o único que mata, mas é o único que manda matar. 

E não é o único que voa, mas é o único que paga para isso... 

Que constrói casa, mas é o único que precisa de fechadura... 

Que constrói casa, mas é o único que passa quinze anos pagando... 

Que foge dos outros, mas é o único que chama isso de retirada estratégica... 

Que trai, polui e aterroriza, mas é o único que justifica... 

Que engole sapo, mas é o único não faz isso pelo valor nutritivo... 

Que faz sexo, mas é o único que faz um boneco inflável da fêmea... 

Que faz sexo, mas é o único que precisa de manual de instrução. 

A Linguagem do Amor

 Casa-te

 

Fico triste quando não te vejo. Casa-te, por que não? E vem viver comigo. Eu te farei tão feliz quanto possa. Não precisarás trabalhar muito; e, quando estiveres cansada, poderás recostar em meu colo e eu cantarei para que descanses... Tocarei para ti uma melodia ao violino quantas vezes me pedires e tão bem quanto eu possa; e largarei de fumar, se o quiseres... Creio que eu sempre seria muito bom para ti, porque te amo muito. Não te farei trazer água e madeira, nem alimentar o porco, nem ordenhar a vaca, nem ir aos vizinhos pedir leite emprestado. Queres te casar?

(Carta de um pretendente norte-americano, século XIX) 

© © ©

domingo, 22 de março de 2026

O galo operário

 É dura a vida no campo

No poleiro do galinheiro, na pequena propriedade rural de uma cidade do interior gaúcho, uma galinha, veterana, sacode o velho galo que dorme um sono profundo: 

‒ Acorda, homem! Tá na hora do trabalho! Te mexe! 

Ele, então, salta do poleiro cambaleante, com a galinha azucrinando nos seus ouvidos: 

‒ Anda logo, senão tu vais perder a hora! Apura, vamos! 

O galo se empoleira na cerca da casa, e emite um som para acordar toda a família: 

‒ Cócóricóóóó! 

O dono da propriedade comenta com a sua velha esposa: 

‒ Este velho galo não falha nunca! Animal responsável tá aí, sabe sempre a hora de fazer o seu serviço. 

******* 

De uma tirinha de Sávio Moura, no Correio do Povo, março de 2026

A quem quiser me excluir ou me cancelar,

 vou ajudá-lo:

• Sou a favor do apoio social. 

• Bandido bom é bandido ressocializado (para crime hediondo sou a favor da prisão perpétua). 

• Criminosos de colarinho branco também são bandidos (e, talvez, sejam os piores). 

• Pedofilia é crime, e penso que é hediondo. 

• Sou pró-família (independentemente da constituição desta). 

• Sou contra a erotização de crianças, mas a favor da educação sexual. 

• Sou a favor de acabar com todo e qualquer privilégio da classe política, militar e jurídica. 

• Cotas devem existir para pessoas desfavorecidas social e economicamente. 

• Direitos humanos é direito de todos os humanos e, se não fosse por eles, não seríamos uma sociedade. 

• Professores, profissionais da saúde e policiais deveriam receber mais do que deputados e senadores. 

• O Brasil é um país laico e todas as religiões merecem respeito. 

• O feminismo existe para defender e proteger a mulher, e quem acha o contrário é, no mínimo, mal intencionado. 

• Racismo é crime abominável. 

• Sou contra o aborto (mas a favor da sua descriminalização). 

• Somos todos iguais, porém é notório o preconceito ainda enraizado em nossa sociedade. 

• Sou a favor de políticas que beneficiem as minorias. 

• Meritocracia só existe pra quem tem dinheiro (no Brasil). 

• Sobre os gays, não deveria nem ser tema de debate político, porque orientação sexual não define caráter. 

• E essa nova geração está precisando estudar mais, para não cometer erros como a antiga cometeu. 

Marcos Malfatti

Soneto

 

O soneto é uma forma poética que se mantém viva na literatura há quase 800 anos, desde que os poetas da escola siciliana fizeram projeção de sua estrutura ‒ eficaz em termos de comunicação de um conteúdo estético, sonora como poucas no seu ritmo e nas suas rimas. Giacomo Lentini (1210-1260) é tido como seu criador. O estilo fez sucesso e foi seguido no século XIV por Dante (1265-1321) e Petrarca (1304-1374), que o estabilizaram e difundiram. 

A forma breve, fixa, sonora (sonetto em italiano significa pequenos sons, pequena canção) fácil de decorar por seu metro decassílabo e pela musicalidade de suas rimas, atingiu praticamente todos os países e segue firme até hoje. Não cabe aqui historiar a evolução do soneto, mas lembrar que com o seu uso e abuso vieram as variações, que foram muitas, principalmente a partir do Romantismo, Parnasianismo e Simbolismo, com a adoção do verso de 12 sílabas. No Modernismo a liberdade métrica foi atingida com a adoção de versos de métricas variada, e versos livres. Antes disso, já havia acontecido a alteração do soneto dito inglês, popularizado por William Shakespeare (1564-1616), que era composto por três quartetos e um dístico. 

No Brasil o soneto começou a ser utilizado no Barroco, tendo como modelos Petrarca e Camões (1524-1580), e atingiu o Modernismo com Augusto Frederico Schmidt (1906-1965), Vinicius de Moraes (1913-1980), Mário Quintana (1906-1994). Na contemporaneidade muitas foram as transformações do soneto, fiquemos para breve análise com dois exemplos notáveis de transformação lúdica da norma: Paulo Henrique Britto (1951) e Ricardo Silvestrin (1963). 

(...) 

Parte da matéria de José Eduardo Degrazia, poeta, escritor e tradutor, para o Caderno de Sábado, março de 2026, no Correio do Povo. 

Resumindo 

O soneto é uma forma poética fixa de origem italiana (século XIII), composta por 14 versos, geralmente organizados em quatro estrofes: dois quartetos (quatro versos cada) seguidos de dois tercetos (três versos cada). Clássicos, utilizam versos decassílabos (10 sílabas) ou alexandrinos (12 sílabas) com rimas estruturadas, popularizados por Francesco Petrarca e Luis de Camões.

Francesco Petrarca