domingo, 15 de janeiro de 2023

Leon Tolstoi

 

Embora tenha vivido na Rússia do século 19, as ideias de Liev (Leon) Tolstoi parecem mais atuais do que nunca. 

Liev Tolstói (1828-1910) foi um escritor russo de grandes obras literárias, como “Guerra e Paz” e “Ana Karenina”. 

Ele tinha proximidades com o anarquismo, apesar de repudiar ser classificado como tal. Achava que as instituições governamentais e da Igreja eram instrumentos de poder e dominação. Entretanto, era contra revoluções violentas. Achava que as mudanças tinham que ser pacíficas vindas de revoluções morais interiores. Muito antes dos movimentos ecológicos, Tolstoi já valorizava uma vida mais simples e perto da natureza. 

Além dos livros, Liev Tolstói é famoso por suas frases. A mais famosa é: Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia. É uma frase simples, mas genial. Em um mundo globalizado temos a oportunidade de várias experiências culturais diferentes, mas nosso referencial é sempre a “nossa aldeia”. Sinto claramente isso ao escrever aqui no Dicas do Timoneiro: “pintando a minha aldeia” para a Internet globalizada. 

Frases de Tolstoi 

“Se queres ser universal pinta a tua aldeia.” 

“Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”. 

“Todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo.” 

“O homem pode viver 100 anos na cidade sem perceber que já está morto há muito tempo.” 

“A felicidade é estar com a natureza, ver a natureza e conversar com ela.” 

(Do blog Dicas do Timoneiro) 


sábado, 14 de janeiro de 2023

O fanático

 Marcelo Rech

O fanático político, aquele que habita os extremos do arco ideológico, não sabe que é fanático. Ele só acha que estão sempre errados todos os outros que não pensam exatamente como ele. O fanático, como se sabe, não admite posições divergentes. E, muito menos, que o considerem fanático por ter ganas de silenciar quem pensa diferente. 

O fanático político não nasceu fanático. Ele foi sendo fanatizado antes de passar a fanatizar outros. Seu fanatismo foi num crescendo. No início, nem era fanatismo, mas uma natural e compreensível irritação com aquilo que achava que estava errado. Depois, ele foi se indignando mais e mais até que encontrou outros ainda mais indignados quando mergulhou de cabeça nas redes sociais e nos grupos de mensagens. Logo, deixou de distinguir o que era verdade de delírio, mas tudo parecia fazer sentido. Nada dava certo porque havia sempre uma conspiração maligna − contra sua vida ou seus ideais. Nesta sua nova bolha social, na qual todos pensavam de forma idêntica, a indignação foi transformando em raiva, ressentimento e ira. A partir daí, quem dele discordava ou fazia objeções a suas ideias radicais virava inimigo a ser aniquilado. Estava fanatizado. 

O fanático recusa argumentos razoáveis, fatos ou relatos em contrários. Os grupos de zap são sua fonte de informação e confiança. Familiares chegam a ser expurgados de seu convívio porque discordam dele. O fanático se dedica de corpo e alma a seu objeto de devoção − uma liderança política hábil em explorar o fanatismo. O culto à personalidade, o linguajar e o uso de símbolos que o identificam com a mesma seita política o fazem sentir-se abrigado neste mundo paralelo. 

Em alguns casos, o fanático desiste da convivência com opostos e empenha todas as energias a seu fervor, desde que cercado por devotos da mesma corrente. Foi com tal motivação que algumas pessoas antes moderadas e equilibradas viveram 60 dias em barracas diante de quartéis. Quem duvidasse dos objetivos era tachado de fraco ou, o pior dos piores para os fanáticos, de traidor. 

Incentivados por outros fanáticos, o fanático embarcou em um ônibus e foi para Brasília. Para ele, ali no acampamento ninguém era fanático, pois todos eram como ele. Numa tarde de domingo, o fanático foi convocado para uma marcha à Praça dos Três Poderes. Enrolou-se em seus adereços e seguiu confiante ao lado dos iguais, celular na mão para registrar seu imaginado protagonismo na história. Aqueles em volta, também fanatizados, haviam se transformado em seu mundo, o seu normal. Em instantes, ele viu a chance de descarregar a raiva, a ira e rancor acumulados. Quando se deu conta, o fanático estava dentro de um palácio de Brasília quebrando vidros, móveis e cometendo um crime atrás do outro. 

O fanático agora está preso. E, como é fanático, não consegue entender por quê. 

(Do jornal Zero Hora 14 de janeiro de 2023)



Mania de explicação*

 Adriana Falcão

Era uma menina que gostava de inventar uma explicação para cada coisa.

Explicação é uma frase que se acha mais importante do que a palavra.

As pessoas até se irritavam, irritação é um alarme de carro que dispara bem no meio de seu peito, com aquela menina explicando o tempo todo o que a população inteira já sabia. Quando ela se dava conta, todo mundo tinha ido embora. Então ela ficava lá, explicando, sozinha. 

Solidão é uma ilha com saudade de barco.

Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança pra acontecer de novo e não consegue.

Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo.

Autorização é quando a coisa é tão importante que só dizer “eu deixo” é pouco.

Pouco é menos da metade.

Muito é quando os dedos da mão não são suficientes.

Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro de sua cabeça.

Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego.

Agonia é quando o maestro de você se perde completamente. 

Preocupação é uma cola que não deixa o que não aconteceu ainda sair de seu pensamento.

Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer, mas acha que devia querer outra coisa.

Certeza é quando a ideia cansa de procurar e para.

Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido.

Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista.

Renúncia é um não que não queria ser ele.

Sucesso é quando você faz o que sempre fez só que todo mundo percebe.

Vaidade é um espelho onisciente, onipotente e onipresente. 

Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.

Orgulho é uma guarita entre você e o da frente.

Ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja.

Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada especialmente.

Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.

Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado.

Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes.

Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração.

Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é fevereiro.

Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.

Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros.

Decepção é quando você risca em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho.

Desilusão é quando anoitece em você contra a vontade do dia.

Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.

Perdão é quando o Natal acontece em maio, por exemplo.

Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo.

Excitação é quando os beijos estão desatinados pra sair de sua boca depressa.

Desatino é um desataque de prudência.

Prudência é um buraco de fechadura na porta do tempo.

Lucidez é um acesso de loucura ao contrário.

Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato.

Emoção é um tango que ainda não foi feito.

Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.

Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.

Desejo é uma boca com sede.

Paixão é quando apesar da placa “perigo”, o desejo vai e entra.

Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. Não. Amor é um exagero... Também não. É um desaforo... Uma batelada? Um enxame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego? Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse explicação, esse negócio de amor ela não sabia explicar, a menina. 

******* 

* Título do livro de Frases que Adriana Falcão esculpiu com sensibilidade para este livro delicioso, que já se tornou um clássico da literatura para as crianças de todas as idades. De página em página, Adriana vai “explicando” algumas palavras às vezes de difícil compreensão para aqueles que estão começando a entender o mundo.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Conspiradores

 

Numa cidade mineira, um grupo de amadores, no dia 21 de abril, resolveu representar, em homenagem a Tiradentes, o drama da Inconfidência. O artista principal, que fazia o papel de conspirador-mor, entra em cena, onde se encontrava à sua espera outro inconfidente. Olhando para os lados, como um conspirador que se preza, o artista, principal, com voz misteriosa, pergunta: 

‒ Estamos sós? 

E o outro, olhando muito desconsolado para a plateia, soltado um suspiro de desconforto, responde, deixado cair os braços: 

‒ Quase! 

(Do Almanaque do Barão de Itararé)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Temos que lutar

 Hay que luchar 

Zé Victor Castiel

(Nos círculos vermelhos, as perfurações à faca)

O que vimos, estarrecidos, no último domingo (8.1.2023), quando terroristas encomendados, financiados e insuflados por pessoas que, se tudo correr bem, serão identificadas e devidamente responsabilizadas, foi uma das maiores barbáries já testemunhadas pelo mundo. Uma horda de ignorantes que conseguiu involuir de manifestantes para terroristas em algumas horas e que, por serem psicopatas teleguiados, jamais conseguirão entender o que causaram ao povo brasileiro. O mais grave, claro, foi a tentativa de golpear a incipiente democracia brasileira, embora exista algo que tenha atingido, indelevelmente, todo o povo. Ao destruírem objetos raros, vandalizaram equipamentos modernos ou valiosos dos invioláveis casas do Legislativo, Executivo e Judiciário, agiram como verdadeiros neandertais comandados por bandidos endinheirados. 

O que doeu de verdade foi a destruição do patrimônio cultural e histórico que estava alocado nos três palácios. Tudo que ali estava trazia consigo uma simbologia. Elejo como símbolo da tristeza a danificação implacável à obra de Di Cavalcanti (foto acima). Quem fez isso, acabou dando fortes estocadas no coração de cada brasileiro. Aquele quadro não estava ali aleatoriamente. Simbolizava a índole linda de nosso povo. Portas, mesas, janelas e carpetes serão repostos facilmente. A obra de Di Cavalcanti, no valor estimado de R$ 8 milhões, demandará muito tempo até sorte para ser recuperada. Não há perdão nem para quem encomendou e nem para quem executou. 

Em 1962, nosso grande poeta Vinicius de Moraes escreveu a Balada a Di Cavalcanti, a qual permito-me reproduzir aqui, como símbolo da indignação de todos aqueles que têm o discernimento de saber que o que aconteceu no domingo passado foi um ato golpista, que, mesmo falhando, causou estragos no coração de todos. 

Diz o “poetinha”:

“Amigo Di Cavalcanti 
A hora é grave e inconstante. 
Tudo aquilo que prezamos: 
O povo, a arte, a cultura, 
Vêm sendo desfigurado 
Pelos homens do passado, 
Que por terror ao futuro, 
Optaram pela tortura. 
Poeta Di Cavalcanti:
Nossas coisas bem-amadas, 
Neste mesmo exato instante, 
Estão sendo desfiguradas. 
Hay que luchar, Cavalcanti, 
Como diria Neruda.”
 

A partir e hoje, é mister que se considere que qualquer manifestação cuja pauta de reivindicações seja apenas o golpe à democracia será realizada não por pessoas inocentes ou impunes, mas por cúmplices e partícipes do que aconteceu no domingo. Para todos esses, o meu asco e as consequências da lei.

(Do jornal Zero Hora, 12 de janeiro de 2023)

Pequenas histórias jurídicas

 

Se beber, não dirija. Se dirigir, não beba. 

Em uma noite chuvosa, dois carros se chocam em uma estrada. Um pertencia a um advogado; outro, a um médico. Ao sair do automóvel, o médico, preocupado, se dirige ao carro do advogado e pergunta se ele está ferido, examina-o brevemente e constata não haver nada de grave. Chegam à conclusão de que não havia como escapar do acidente: a estrada estava molhada, escura e mal sinalizada. Cada um ia assumir seus prejuízos. Com já haviam ligado para a polícia rodoviária, resolveram esperar a viatura. Conversa vai, conversa vem, vão ficando amigos. Até que o advogado propõe: “Devíamos comemorar. Afinal, estamos bem. E saúde é o que interessa.” Vai até o carro, pega uma garrafa de uísque e um copo. Serve o novo amigo, que dá três longos goles, agradece e pergunta: “E você, não bebe?” E o advogado: “Não, não... Só depois que a policia chegar.” 

As contas do litígio 

Doutor Antônio, advogado experiente, estava almoçando em casa com a família quando o sitiante José chega: 

‒ Doutor, eu comprei uma vaca do meu vizinho João e agora ele quer que devolva o bezerro que a vaca vai ter. Ela está prenha e eu comprei com tudo dentro. De quem é o bezerro? 

‒ Só pode ser seu, José ‒ respondeu o advogado. 

Passados uns instantes, aparece João: 

‒ Doutor, vendi uma vaca para o meu vizinho José. Acontece que a vaca está prenha, e eu só vendi a vaca, não a cria. De quem é o bezerro? 

‒ Só pode ser seu, João ‒ respondeu prontamente o advogado. 

E lá se foi João todo feliz. A esposa de Doutor Antônio, no entanto, ficou sem entender nada: 

‒ Mas afinal, Antônio, de quem é esse bezerro? 

‒ Não se apresse, querida. Depois do julgamento o bezerro é nosso. 

Sem vestir a carapuça 

Numa audiência de julgamento de um caso de corrupção, o promotor interroga uma testemunha: 

‒ É verdade que o senhor aceitou 10 mil reais para encobrir este caso? 

A testemunha continua com o olhar perdido, distraída, como se não tivesse ouvido a pergunta. O promotor repete, com mais ênfase: 

‒ É verdade que o senhor aceitou 10 mil reais para encobrir este caso? 

Como a testemunha continuava sem responder, o juiz interveio: 

‒ Cavalheiro, por favor, responda à questão. 

E a testemunha, surpresa: 

‒ Desculpe, Meritíssimo, é que eu pensei que ele estava falando como o senhor. 

Cultura É de Lei 

Em Juízo 

Brasil ‒ Almanaque de Cultura Popular

da TAM


quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

O verbo aqui

 

Nelson Werneck Sodré (1911‒1999 ‒ foi um militar, professor, escritor, colunista e historiador brasileiro marxista) era um tipo amistoso, mas objetivo. Podia ser cortante, o que ele próprio atribuía à formação militar. 

Em “Memórias de um Soldado”, de 1967, conta a histórias ótimas. 

No Colégio Militar havia dois irmãos, já taludos, apelidados Matusalém Pai e Matusalém Filho. Repetentes empedernidos, acabaram jubilados ‒ excluídos por falta comprovada de aproveitamento. Matusalém Filho foi a exame de português. O examinador lhe perguntou pela categoria léxica da palavra aqui. 

‒ Verbo ‒ respondeu com convicção. 

O examinador se recuperou da surpresa. 

‒ Então conjugue no presente do indicativo. 

‒ Eu aqui, tu ali, ele acolá, nós na frente, vós atrás, eles no meio. 

******* 

Que história é essa? 

Por Joel Rufino dos Santos* 

Brasil – Almanaque de Cultura Popular 

Fevereiro de 2007 

* Escritor e historiador.