sábado, 7 de janeiro de 2017

Pescas, pandorgas e futebol


Para muito além das pandorgas*


Eu queria de novo meu caniço lambarizeiro, cuja taquarinha fina apodreceu num galpão depois que abri as asas e me mandei para outros pagos em busca de oportunidades que imaginava serem muitas. Nunca mais o encontrei, caniço da minha infância, que me acompanhava naqueles verões em riachos, sangas e açudes da Vila Rica, tão verdejante e amiga, hoje revirada em lavouras, com os mananciais destroçados por pesticidas, sem as matas nativas. Com aquele caniço tirei da água centenas de lambaris prateados, reluzentes como a vida que imaginava ter pela frente, mas que com o passar dos anos se mostrou bem menos luzidia e brilhante.

Sonho com as pandorgas que soltava ao vento nas manhãs de domingo, dando corda e linha, fazendo ziguezague no céu, sumindo lá nas grimpas, e eu cá embaixo, sonhando horizontes. Porque bem depois daquelas paragens onde ainda temos vista, existem outras, com muito mais lonjura, com muito mais alegria, com muito mais ausências, onde só chegamos montados no pensamento. Mas eu era frequentador assíduo, ia sempre, porque além das pandorgas, dos pássaros, das nuvens e das estrelas, estava minha imaginação. Eu via tantas coisas naquele céu, no meu universo azulado repleto de tintas e cores, retrato de um guri que possuía um entardecer e duas mãos cálidas. Uma flor seca caída num pátio ou pássaros sentados num fio de arame, na pauta dos aramados que somem na bruma das várzeas nas longas tardes de outono.

Queria, outra vez, minha bola de couro costurada a tento de lonca de potro, que quando encharcava, deixava vergões pelo corpo. Cadê a pelota amiga, companheira daquelas tardes domingueiras sumidas na poeira do tempo? Foram tantos gols, jogadas inesquecíveis, brincadeiras, goleiras feitas com moirões, traves de eucalipto ou improvisadas com tijolos, chinelos, bostas secas, qualquer coisa, porque uma criança renova o mundo com uma borboleta na mão. Um dia, quando já crescido, esqueci minha velha bola de couro num canto qualquer, precisei pensar como homem, tive que enfrentar meus desafios, os novos compromissos e me perdi. Nunca mais me encontrei, deixei de ser um craque das peladas de potreiro para virar um perna de pau do asfalto, dos apartamentos, da vida corrida e sem brinquedos em cidades grandes. Me transformei em tantas porcarias, porque a felicidade havia ficado lá para sempre.

Queria de volta meu caniço, queria pandorga e a bola de couro para ser criança como fui há tantos anos. Queria cavalo de taquara, tropa de osso, aro de ferro, bolitas e carretinha de lata. Ah, eu reanimo o guri que ainda vive de calça curta e pé no chão dentro de mim. Não, ele não pode envelhecer e bater as botas. Te levanta! Olha lá fora, teus amigos estão te esperando… Vieram quase todos, veja bem… o Clécio, o Ronaldo, o Carlinhos, o Valter, o Miguelzinho, o Zé Mariano, o Corvinho, o Jacaré, o Chupim, o Claudinho, o Chibo e o Lebrão… Que gurizada medonha veio te abraçar. Não chores. Se chorares eles somem, desaparecem outra vez, porque para vê-los tu tens que rir, pular de alegria, como faz todo guri que reencontra, muitos anos depois, os amigos perdidos…


(De Paulo Mendes da coluna Campereada do Correio do Povo)

*Uma das crônicas vencedoras do Prêmio ARI de jornalismo de 2016.

Sobre o autor


→ Nasci na véspera do Natal de 1962, em Cacequi (RS), mas dos três aos 18 anos vivi numa chácara na zona rural de Júlio de Castilhos (RS). Sempre gostei de ler e escrever, desde que fui alfabetizado. No bolicho beira de estrada da minha família, conheci, ainda guri, os deserdados da sorte, gente humilde e trabalhadora que encharcava suas desesperanças nos copos de canha. De certa forma, tornei-me jornalista para ajudar essa gente sem voz. Agora as palavras deles ressoam nas crônicas, nos contos e nos causos escritos com alma, couro e coração dessas “campereadas”.

→ Já trabalhei em diversos órgãos de imprensa, jornais, rádios e revistas, mas foi no centenário Correio do Povo, de Porto Alegre, que fiz minha segunda casa desde 1990. E desde 2009 escrevo a coluna “Campereada” no Correio Rural, todos os domingos. Em 2011, foi lançada pela Sulina a coletânea “Campereadas ‒ Crônicas, contos e causos do Sul”, e no ano passado “Campereadas 2 ‒ Couro, alma e coração”. Aprecio toda e qualquer boa literatura, mas confesso que as coisas do Sul são as que mais me comovem. Por isso, sempre que posso, sigo as pegadas de João Simões Lopes Neto, Luiz Sérgio Metz e Jayme Caetano Braun, que considero meus mestres. Tive muitas decepções e tristezas, mas também muitas alegrias na vida. E, por pachola que sou, sempre que um novo dia amanhece, monto no meu pingo imaginário e sigo a galope, no rumo de meus infinitos.

Nota do Almanaque Cultural Brasileiro

Eu, como assinante do Correio do Povo, tenho todos os livros do cronista Paulo Mendes, um admirável seguidor de João Simões Lopes, o nosso melhor escritor regionalista. Suas crônicas retratam bem a vida do homem simples do campo e nossos costumes gauchescos. Recomendo a leitura de suas “Campereadas”. Elas são ternas, verdadeiras e com um realismo comovedor.

 Nilo da Silva Moraes


Um poema de Hilda Hilst*


Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo.

Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.

O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
“Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas.”
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:

MORRE O AMOR DE UM POETA.

E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto
Não cabe no meu canto.
  
(Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974)
Poemas aos Homens do nosso Tempo - XVI)
(Poesia: 1959 - 1979 - São Paulo: Quíron; [Brasília]: INL, 1980.)



*Hilda Hilst (Jaú, 21 de abril de 1930 ‒ Campinas, 4 de fevereiro de 2004) foi uma poetisa, ficcionista, cronista e dramaturga brasileira. É considerada pela crítica especializada como uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século XX.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Novidades médicas



Numa época em que as notícias ruins predominam, veja algumas boas notícias chegando de Israel. Nestes tempos em que estão sendo comemoradas as conquistas do povo de Israel, em seus curtos 66 anos de vida independente, vale relacionar este decálogo de conquistas científicas que beneficiarão, não somente aos israelenses, mas a toda HUMANIDADE.

E nem preciso dizer, mas sem atentados, sem terrorismo, sem radicalismo e sem querer "eliminar do mapa" nenhum país, nem os doentios islâmicos, desculpa a redundância.

01 - A Universidade de Tel Aviv está perto de alcançar uma vacina nasal que proteja tanto da doença de Alzheimer quanto dos derrames. As primeiras experiências são muito encorajadoras.

02 - O Technion de Haifa, instituto dedicado à pesquisa de tecnologia médica, desenvolveu um teste de sangue simples que pode detectar várias doenças (incluindo câncer).

03 - O Centro Ichilov de Tel Aviv isolou uma proteína que vai substituir a colonoscopia na detecção do câncer de cólon. Basta um simples exame de sangue. O câncer do cólon mata cerca de 500.000 pessoas por ano. Muitas dessas mortes podem ser evitadas se detectadas a tempo.

04) A acne não mata ninguém, mas gera grande ansiedade e insatisfação a milhão de adolescentes. O laboratório CureLight criou uma maneira de curá-la, emitindo raios ultravioleta de alta intensidade sobre as bactérias que produzem acne, sem causar mais complicações.

05 - O laboratório Given Imaging desenvolveu uma pequena câmera na forma de comprimidos que são engolidos e passam milhares de fotos do aparelho digestivo. Estas imagens, de alta qualidade (dois por segundo, durante oito horas), podem detectar pólipos, câncer e fontes de sangramento. Elas são enviados a um chip que armazena e, em seguida, descarregadas em um computador para o médico examinar. O paciente expele a câmera através do reto.

06 - A Universidade Hebraica desenvolveu um estimulador elétrico por baterias que são implantados no peito dos pacientes com Parkinson, bem como marcapassos. As emissões destes sinais nervosos bloqueiam as unidades que causam os tremores.

07 - O odor da respiração de um paciente pode ser usado para detectar se ele tem câncer de pulmão. O Instituto de Nanotecnologia Russell Berrie criou sensores capazes de perceber e registrar 42 biomarcadores que indicam a presença de câncer de pulmão sem a necessidade das
invasivas biópsias.

08 - É possível fazer sem cateterismo, em muitos casos, exames que visam clarificar o estatuto das artérias coronárias. O EndoPAT é um dispositivo colocado nas pontas dos dedos indicadores, que pode medir o estado das artérias e prever as chances de um ataque cardíaco ocorrer nos próximos sete anos.

09 - A Universidade Bar Ilan está estudando um novo medicamento para combater vírus transmitidos pelo sangue. Eles chamam a armadilha de Vecoy, que engana o vírus para alcançar a sua autodestruição. É muito útil para combater a hepatite, o temido Ebola e AIDS.

10 - Os cientistas israelenses do Hadassah Medical Center podem ter curado o primeiro caso de esclerose lateral amiotrófica, conhecida como doença de Lou Gehrig. O tratamento foi desenvolvido com base em células-tronco e curou um rabino ortodoxo.



quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Selfista, uma praga mundial


A praga dos selfies

Walcyr Carrasco*


(Nem o Papa escapou dos selfistas...)

Nada mais útil que o celular. Mudou a forma de as pessoas se relacionarem. Criou negócios. Sou um fã incondicional, desde os tempos em que o conheci em Miami, bem antes de chegar ao Brasil. Sim, demoramos. Só com a privatização aconteceu a revolução telefônica. Meu primeiro era um tijolão. Era difícil dar linha. Pesado, seria uma boa arma em caso de assalto. Celulares evoluíram. Substituíram as câmeras fotográficas em grande escala. Esse é meu horror. Qualquer um com um mínimo de exposição pública, como eu, passa boa parte do tempo fazendo fotos com pessoas que não conhece. Alguém vê e se aproxima:

– Faz uma foto comigo?

A maior parte das vezes digo que sim. A pessoa é simpática, eu escrevo novelas, livros, por que não? Mas nem sempre dá. Outro dia, eu estava falando ao telefone, no aeroporto. Uma mulher se aproximou. Pediu a foto. Fiz sinal para esperar que eu terminasse a ligação. Saiu xingando. Esse é o problema. Muita gente acredita que é obrigação da pessoa conhecida tirar fotos a qualquer momento. Recentemente, no aeroporto de Belo Horizonte, chamaram para o meu voo. Mas eu tinha uma necessidade urgente de ir ao toalete. Voei naquela direção. Uma senhora entrou na frente com a filha pequena.

– Minha filha leu seu livro na escola. Faz uma foto?

Como recusar? Aterrorizado pelo tempo, sorri. Ela clicou.

– Ah, não sei o que aconteceu. Acho que apertei errado. Faz outra?

Eu, a menina e a mãe posamos de novo, enquanto meu voo chamava e eu trançava as pernas. Outra vez:

– Não ficou boa! Vamos fazer outra?

– Minha senhora, não dá. Preciso ir ao toalete.

Ficou paralisada, ofendida, enquanto eu corria.

Na recente Bienal do Livro, em São Paulo, estava numa das esquinas. Uma senhora pediu a foto. Topei. Formou-se uma roda em torno de mim. Era uma foto atrás da outra. Eu me sentiria um ídolo pop se não soubesse a verdade. Boa parte das pessoas não tinha ideia de quem eu era. Quando alguém vê um grupo em torno de alguém fazendo fotos, quer também. Sente que é uma oportunidade que não pode perder. Já ouvi a pergunta, após o clique.

– O senhor quem é mesmo?

Afinal fugi, deixando umas 50 pessoas ofendidas. Diziam:

– Só mais uma!

Sei de casos com atores, mais conhecidos que eu, incapazes de conversar num local público. Sempre alguém interrompe, celular na mão.

– Faz uma foto.

O sujeito pode estar se separando da mulher, na conversa mais séria de sua vida. É obrigado a interromper. Muitas vezes, quando leio uma reportagem onde a prova é que fulano aparece numa foto com um criminoso, penso:

– Mas e se ele fez aquela foto sem saber quem era?

Foto de celular deixou de ser prova de relacionamento. Já devo ter sido fotografado com traficantes e foragidos. Como saber? E em todas apareço sorrindo, sem ter a menor ideia de quem se trata. Evito, sim, ser fotografado com políticos. Posso aparecer numa campanha anos depois, como se desse aval.

Minha grande curiosidade é: o que as pessoas fazem com essa infinidade de fotos? Vão para alguma nuvem? Daqui a séculos um estudioso terá acesso e tentará compreender o que significam esses milhares de sorrisos? Penso que as pessoas tiram as fotos, deixam na memória do celular e nunca mais veem. Exatamente como eu faço. Às vezes abro a memória sem querer e me vejo com meus dois gatos, que já se foram. Ou com amigos com quem nem falo mais. É até um susto.

De uma coisa tenho certeza. A foto pelo celular vale apenas pelo momento. Não será feito um álbum de fotografias, como no passado, onde víamos as imagens, lembrávamos da família, de férias, de alegrias. As imagens ficarão esquecidas em um imenso arquivo. Talvez uma ou outra, mais especial, seja revivida. Todas as outras, que ideia. Só valem pelo prazer de fazer o selfie. Mostrar a alguns amigos. Mas o significado original da foto de família ou com amigos, que seria preservar o momento, está perdido. Vale pelo instante,  como até grandes amores são hoje em dia. É o sorriso, o clique, e obrigado. A conquista: uma foto com alguém conhecido.

Tento não recusar nenhuma foto. É uma questão de respeito com quem gosta do que escrevo. Outras pessoas, até mais famosas, pensam como eu. Virou um vício social. Uma praga. Sei que minha imagem um dia será apagada para ceder espaço a outras e outras. Mas tudo hoje é assim: volátil. O que vale é o sorriso e o momento.

*Walcyr Carrasco é jornalista, autor de livros, peças teatrais e novelas de televisão.

(Da revista Época, setembro de 2016)


Cantos de aniversários


É big! Não! É pique

(ou origem do “Parabéns pra Você”)


Dia desses, a Luciana tentou emendar um papinho furado sobre uma verdadeira instituição nacional: o nosso bom e velho “parabéns pra você”. Ela garante que, após a tradicional melodia e o famigerado “e pro fulano nada, então como é que é”, as pessoas em Belém do Pará cantam:

– É big! É big! É big, é big, é big!

Como eu nunca ouvi ninguém da região norte cantar parabéns pra mim, tratei de informá-la forma conhecida em São Paulo:

– É pique! É pique! É pique, é pique, é pique!

Continuei a provocá-la, garantindo que provavelmente apenas uns dois ou três guetos paraenses decidiram trocar o “pique” por “big”. Fiquei preocupado no último final de semana, quando a Luciana ressuscitou a pauta diante da blogueira-sem-blog Viva. Para minha surpresa, ela explicou que já ouviu alguns “é pique!” mas os cariocas cantam mesmo “é big!”.

Diante da celeuma, tratei de buscar por indícios que colocassem a pique qualquer menção ao big. Comecei descobrindo que a canção “Parabéns pra Você” nasceu graças a duas professoras norte-americanas de nome Patty e Mildred, como “Good Morning to All” (“Bom Dia pra Você”, como cantava aquele ratinho chato em um desenho do “Tom e Jerry”). Tanto a melodia quanto as quatro linhas repetidas em inglês foram compostas em 1893, mas registradas apenas em 1935 pela empresa Summy Company – que, pasmem, cobra royalties pela execução da melodia! Eu nunca paguei, mas eles chegam a receber alguns milhões de dólares por ano!

A versão brasileira do “Happy Birthday to You” veio em 1942, graças a um concurso da Rádio Tupi do Rio de Janeiro. Bertha Celeste Homem de Mello*, uma simpática paulista, criou o popularíssimo “Parabéns a você / Nesta data querida / Muita felicidade / Muitos anos de vida”. Repare na flexão do terceiro verso, no singular: enquanto permaneceu viva, Bertha Celeste pedia encarecidamente que as pessoas cantassem a letra exatamente dessa forma…

Claro que num país continental como o Brasil, as diferenças seriam inevitáveis – e vão muito além de um simples plural. No Rio Grande do Sul, o Parabéns Crioulo (ou Gaudério, como queiram), criado por Dimas Costa (radialista do histórico “Grande Rodeio Coringa”) popularizou outra forma de celebrar um aniversário: “Parabéns, parabéns / Saúde e felicidade / Que tu colhas sempre todo dia / Paz e alegria na lavoura da amizade”.

As inúmeras variações regionais explicam a evolução do “pique” para o “big” – e não o contrário, como gostariam os partidários da Luciana. Matéria assinada por Fabrício Marques na revista “Pesquisa Fapesp”, em agosto de 2004, traz uma série de situações geradas ao redor da Faculdade de Direito do largo de São Francisco. Em dois parágrafos, também revela a origem dos versos não-identificados do nosso bom e velho “parabéns”. De acordo com o texto:

O bordão “é pique é pique, é hora é hora, rá-tim-bum”, incorporado no Brasil ao Parabéns a você, é uma colagem de bordões dos pândegos estudantes das Arcadas (como a faculdade também era chamada) da década de 1930. “É pique” era uma saudação ao estudante Ubirajara Martins, conhecido como “pic-pic” porque vivia com uma tesourinha aparando a barba e o bigode pontiagudo. “É hora” era um grito de guerra de botequim: nos bares, os estudantes eram obrigados a aguardar meia hora por uma nova rodada de cerveja – era o tempo necessário para a bebida refrigerar em barras de gelo. Quando dava o tempo, eles gritavam: “É meia hora, é hora, é hora, é hora”.

“Rá-tim-bum” , por incrível que pareça, refere-se a um rajá indiano chamado Timbum, ou coisa parecida, que visitou a faculdade – e cativou os estudantes com a sonoridade de seu nome. O amontoado de bordões ecoava nas mesas do restaurante Ponto Chic (que criou o sanduíche Bauru graças a outro estudante de Direito, Casemiro Pinto Neto), com um formato um pouco diferente do que se conhece hoje: “Pic-pic, pic-pic; meia hora, é hora, é hora, é hora; rá, já, tim, bum”.

Isso significa que algum gaiato ouviu “pic-pic” uma vez e passou a cantar “pique”, até que outro cururu prosseguiu com o telefone-sem-fio, emendando “big”. Provavelmente, ao serem questionados, são capazes de justificar suas escolhas: “pique é o grau mais alto, o auge, é a disposição e energia máxima”. “Mas big significa grande, e é tudo que um aniversário representa”. Nem é preciso discorrer sobre a motivação de quem deturpou o polêmico trecho:

– É pica! É pica! É rola, é rola, é rola…

Enfim, ainda falta descobrir de onde veio outro complemento infame: “com quem será, com quem será… Que o Fulano vai se casar? Vai depender, vai depender… Se a Fulana também vai querer…”.


André Marmota é professor

(Do Blog Marmota maisdosmenos)


*Berta Celeste Homem de Melo (Pindamonhangaba, 21 de março de 1902 - Jacareí, 16 de agosto de 1999) foi uma poetisa, farmacêutica e professora brasileira, autora da letra em português da canção "Parabéns a Você", comumente cantada nos aniversários.

Cantos univesitários


E assim nasceu o “Pique-Pique”...

Adriano Marrey*


As gerações de bacharéis veteranos concorreram para a formação do mais rico folclore acadêmico, ou melhor, para o que se chama de suas “tradições”. Foram os estudantes de uma turma próxima de 1930 os que criaram, um dia, o popular “pique-pique”, que atualmente todos cantam nos dias festivos.

Poucos conhecem a sua singular origem. Escreveu Guilherme de Almeida, a que se reportava o querido amigo Lauro Malheiros, em seu comovente livro de memórias intitulado “Rosas no Inverno”, que três estudantes, da turma que colaria grau em 1927, eram então amigos inseparáveis nas horas de boemia. Um deles – Ubirajara Martins de Souza – usava um extraordinário bigode de pontas finas e retorcidas para cima e por isso era apelidado de “pique-pique”. Outro, era Mário Ribeiro da Silva, “inteligência viva e afinado senso de humor” e que apreciava desconsertar os interlocutores mais austeros, interdizendo no meio das conversas frases desconexas, como esta: “Veja você, hein? Meia hora...”. O terceiro era Aru Medeiros; e juntos constituíam o grupo do “Pudim”...

Numa noite em que bebericavam o seu chope, no bar Pérola do Douro, sendo aniversário de Ubirajara, Mário o brindava, gritando: “Pique-pique, pique-pique, pique-pique”. Retrucou, então, Ubirajara: “Meia hora, meia hora, meia hora”. Daí, para emendar com “Rá-rá-tchin-bum”, foi um relâmpago. Estava criado o hino do “Pudim”, o grito de guerra de toda a estudantada.

Recordou Guilherme de Almeida que “no dia seguinte visitava a Faculdade de Direito o Marajá de Kapurtala. Entre outras manifestações, recebeu nas bochechas ilustres, berrado de perto, o primeiro ‘pique-pique’ oficial. Gostou e manifestou alto interesse pela harmonia e sugestiva língua falada no Brasil”...

Concluiu Lauro Malheiros – “foi assim que nasceu o 'pique-pique’ em São Paulo. Entre estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco”.


*Extraído da oração proferida na solenidade realizada na Faculdade de Direito de São Paulo, pela OAB/SP, em homenagem aos bacharéis em Direito com mais de 50 anos de exercício. O discurso foi depois impresso com o título de “Saudade das Arcadas”.

Abaixo, outra versão do Blog História e Tradições

A Origem do Pique-Pique

Foi assim que nasceu o “pique-pique”, em São Paulo, entre estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco:

Guilherme de Almeida, o príncipe dos poetas brasileiros, dedicou ao episódio uma de suas deliciosas crônicas (Ontem - Hoje - Amanhã) publicada no Diário de S. Paulo, edição de 12 de setembro de 1952, exatamente sob o título "O pique-pique".

 Ei-la:

“Conversa entre amigos. Faz pouco tempo. Na Rádio Tupi, durante o cafezinho, à margem do programa ‘Repto aos Enciclopédicos’. Fugas do pensamento, Marcha-à-ré no Tempo. Estudantadas. A velha Faculdade... E alguém:

‒ É verdade... Por quem, e quando, teria sido inventado o popularíssimo ‘Pique-pique’: a já tradicional saudação dos estudantes?. Garanto que com essa pergunta eu abiscoitaria os 250 cruzeiros!

“Ora, estava na roda o meu amigo Ubirajara Martins. Tomou um arzinho entendido, sorriu a prometeu-me um fiel depoimento a respeito. Prometeu e cumpriu. E a mim, agora, a agradável tarefa de resumir o pitoresco e fidedigno histórico.

1923. A turma que iria colar grau em 1927 (a do Primeiro Centenário da Faculdade) cultuava a boa boemia. Três estudantes ‒ o Ubirajara, o Aru Medeiros e o Mário Ribeiro da Silva ‒ fundaram uma alegre sociedade que se chamou "Pudim". Com bom fermento, o "Pudim" cresceu: desbravou o Interior com uma "Bandeira Acadêmica", composta de um team de futebol, um jazz e um grupo teatral: somente estudantes, e não apenas de Direito, mas já também de Medicina, da Politécnica e do Mackenzie.

“Ora, essa turma precisava de um grito-de-guerra. Não lhe bastava o corriqueiro ‘Ra-ra-tchim-bum!’ Sentia necessidade de coisa mais característica... Ora, na sua trindade fundadora, havia, primeiro, o apelido de Ubirajara: ‘pique-pique’ (por causa dos seus bigodes feitos de pontas agressivas como ‘picos’); depois, a expressão ‘inexpressiva’ do Mário, que, a qualquer propósito, cortava a perlenga do interlocutor com um inoportuno e incompreensível: 'Meia hora'...

“Ora, certa noite, na ‘Pérola do Douro’ ‒ um bar lusitano da Avenida São João, lá no Paissandu ‒ quando ia alta a noite, e alto o nível alcoólico, a cada trago novo Mário brindava Ubirajara, dizendo ‘Pique-pique, pique-pique, pique-pique!’ E a Ubirajara a vez de replicar: ‘Meia hora, meia hora’. Daí, para emendar com o ‘Ra-ra-tchim-bum!’ foi um relâmpago. Estava criado o hino´’ do ‘Pudim’ e da ‘Bandeira’: o grito de guerra de toda a estudantada de hoje.

“Quando foi entoado pela primeira vez? No dia seguinte àquela noite de farra, durante a visita do Marajá de Kapurtala à Faculdade: assim saudado, o príncipe hindu manifestou vivo interesse pela harmonia e sugestiva língua falada no Brasil”...”

Apud Rosas no Inverno - memórias, Lauro Malheiros, pág. 173

É pic! É pic!
Meia-hora! É hora! É hora!
Ra-já Tim-bum!

ou

“Pic-pic, pic-pic,
meia hora, é hora, é hora, é hora,
rá, já, tim, bum!”


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Pra não dizer que não falei de selfie



O selfista

 (Fabrício Carpinejar – Revista Dona de Zero Hora)

Sempre que me aproximo de quem está tirando uma selfie, eu tenho medo de atrapalhar. É como encontrar alguém nu ou se masturbando. É ser vítima de um atentado violento ao pudor.

Fico com vontade de pedir desculpa, viro o rosto, evito encarar.

O selfista demonstra uma carência extrema, é um solitário pretendendo demonstrar que é conhecido. Desperta compaixão, insinua uma orfandade de amigos.

Quem faz selfie pensa que ninguém está olhando, está possuído da vaidade e não compreende o quanto é patético.

O rosto sério passa a ser falsamente sorridente com a mão levantada. Um minuto atrás era uma careta, um minuto após é um sorriso de canto a canto da boca, sem nenhuma motivação secreta. Como pode rir se nada aconteceu de diferente?

As pessoas comuns inventaram o riso súbito, para concorrer com o choro profissional e o beijo cênico dos atores.

O selfista transforma a tela em uma metralhadora de toques, até achar um momento que preste. A busca pelo ângulo perfeito beira a obsessão. Tem gente que posa 10 horas para si mesmo, à procura de um instante de satisfação. Lota a caixa de imagens somente para atualizar as redes sociais. Um flagrante salvo significa 99 deletados. Já é compulsão, já é doença, já é vício.

Não tem como não se incomodar com o autorretrato virtual. Ele se baseia numa mentira. Boa selfie é aquela que parece que foi clicada por uma outra pessoa. Precisa de extensão do braço e de uma mirada ao lado, como se pego de surpresa. Ou seja, selfie é a negação da selfie. Se fosse algo agradável, ninguém teria vergonha de esconder como foi feita.

Quando testemunho alguém manipulando o celular freneticamente para todos os lados, a minha ânsia é chamar a Samu. É um ataque epilético do narcisismo.

O homem ou a mulher vai se debatendo com o aparelho, esfaqueando-se com o celular, quase se esganando de contorcionismo. Coloca o cabelo para frente e para trás, morde os lábios, encolhe a barriga, suspende a respiração, gira o quadril para enquadrar a melhor paisagem, não poupa esforços para fingir leveza.

Qualquer um que enxerga a cena acaba nervoso.

Trata-se de uma tragédia silenciosa. O selfista não se contenta jamais, percebe um defeito invisível no nariz, nos olhos, no penteado, mesmo quando há nada de errado. Alucina, não está mais entre nós. A ausência de confiança produz uma tortura infinita. Cada foto é o reconhecimento do que falta na aparência, cada foto piora a vontade de viver, cada foto é um aborto.

O selfie virou um espelho que anda e substitui a realidade. Nem estou falando dos filtros e retoques, onde você tenta apagar as imperfeições e simplesmente desaparece dos registros, só ficando o lugar em que estava.


Charge de Nani