terça-feira, 9 de janeiro de 2018

O Caso Vinicius de Moraes



Como Vinicius de Moraes deixou o Itamaraty

 (Primeira versão)

Velho amigo do poeta Vinicius de Moraes escreve-me para convocar-me a ajudá-lo a desfazer “versão fantasiosa” sobre a maneira como o poeta se afastou, aposentado, do Itamaraty, em 1968. Ele era primeiro secretário no serviço diplomático e, segundo a fantasia, teria sido excluído da carreira por ordem do então presidente Arthur da Costa e Silva transmitida em memorando dirigido ao ministro da Exterior da época, José de Magalhães Pinto. O apelo que me foi feito relaciona-se com duas circunstâncias: a de ter sido também amigo do poeta e por ser o “decano da reportagem política”.

Enquanto se espera a abertura das urnas para contagem dos votos, o dia se apresenta propício a que se tente a revisão de um tema que poderá ser tratado sempre na base de uma versão que já está consagrada em livro. Na verdade, Ruy Castro, no seu festejado livro − “ Chega de Saudade − a história  e as histórias da bossa nova” − a endossa, oferecendo-a como a verdade sobre o afastamento de Vinicius de Moraes da carreira diplomática. Não tive tempo nem paciência, contudo, de ir ao arquivo do Itamaraty, como sugere o missivista, para examinar o maço referente ao nosso saudoso amigo.

Na página 408 da sua narrativa, diz Ruy Castro: “ ʽAssunto: Vinicius de Moraes. Demita-se esse vagabundo. Ass. Arthur da Costa e Silvaʼ. Com este grosseiro memorando ao chanceler Magalhães Pinto, o marechal-presidente decretou a saída do poeta do corpo diplomático em fins de 1968. Vinicius recebeu a notícia em alto-mar, a bordo da banheira de sua cabine no navio Eugênio C. Chorou convulsivamente, porque adorava o Itamaraty”.

Vamos à época e ao fato, segundo o roteiro do meu missivista, pessoa idônea e afetivamente ligado a Vinicius. Já lançado com sucesso na música popular, tendo feito shows no Rio, ele preferia continuar a vida de show-business e de compositor ao Itamaraty. Depois de 1965, a seu pedido, foi requisitado pelo governador de Minas, Israel Pinheiro, para ficar, sem ônus, à disposição da Fundação Ouro Preto, recém-fundada e dirigida por Murilo Rubião. O Itamaraty o cedeu, também sem ônus. O poeta prestou alguns serviços a Ouro Preto, onde se valia da casa de Scliar e da de Rodrigo M.F. de Andrade.

Dois anos depois, pelo menos, esgotada a requisição, Vinicius ou voltava ao Itamaraty ou teria de se aposentar. Nascido em 1913, em 1968 tinha 55 anos. Nessa altura sobreveio o AI-5, 1968. Vinicius esteve longamente em Lisboa, onde já tinha se apresentado em um show ao lado de Chico Buarque. Já tinha se apresentado também em Roma, em São Paulo e no Rio. Entre “alcoólatras, pederastas e subversivos”, então afastados da carreira. Vinicius teria sido “vagamente enquadrado nessa última categoria”. Se foi, o nome dele consta de lista dos aposentados e punidos pelo AI-5 em ato que, segundo o ritual autoritário, seria assinado pelo presidente e por ministros. O arquivo do Itamaraty deve ter o registro desse memorando ou de qualquer papel de igual teor entre presidente e chanceler.

“Até onde me lembro”, diz o missivista, cujo nome prefiro não revelar, “o Vinicius não quis voltar ao Itamaraty, como a lei exigia, para tentar ser conselheiro, na época só título. Tinha decidido a continuar a carreira de compositor e show-man, apesar dos amigos que tinha na carreira diplomática e que sempre lhe foram fiéis”. O poeta, acrescenta, não precisa ter ampliado seu charme irresistível com heroísmo “fundado numa grosseria”, a qual Costa e Silva provavelmente não cometeria, nem Magalhães acolheria.

Pelo que sei e o aide-mémoire me fez recordar, Vinicius recebeu a carta-telegrama do Ministério do Exterior comunicando sua aposentadoria quando se achava em Lisboa e não a bordo do navio Eugênio C., nem é provável que tenha chorado na ocasião. A versão acolhida por Ruy Castro foi várias vezes repetida, mas nunca foi objeto de pesquisa, que poderia envolver perguntas ao ex-ministro, aos antigos secretário-geral, chefe de gabinete e chefe do D.A e mais simplesmente com uma consulta ao maço de Marcos Vinicius da Cruz de Moraes, o nome inteiro do poeta e diplomata.

(Texto da Coluna do Castello, de Carlos Castello Branco,
novembro de 1990)

Segunda versão
  
Ainda sobre a cassação de Vinicius de Moraes


Recebi esta carta da irmã de Vinicius de Moraes,
Laetitia C. de Moraes Vasconcellos:

“Antecipando-se à carta que eu estava por enviar-lhe com relação à primeira nota de sua coluna o JB sobre Vinicius, o Sr. Rui Castro retificou parte das informações publicadas a respeito da saída de Vinicius da carreira diplomática. Servirá esta, agora, para dar-lhe mais detalhes do que aconteceu, então.

Segundo o que o próprio Vinicius, meu irmão, relatou à minha irmã Lygia, antes mesmo da edição do AI-5, ele soubera, através de amigos no Itamaraty, que o presidente enviara a famosa nota ao então ministro Magalhães Pinto, vazada nos seguintes termos: 'Demita-se esse vagabundo'. Antes de prosseguir no assunto, devo explicar que, naquela época, eu trabalhava na FAO-Nações Unidas e tinha muito contato com o Itamaraty, onde nunca encontrava Vinicius. Por isso, em certa ocasião, perguntei-lhe por que não comparecia regularmente a Casa, e sua resposta foi: 'Já me apresentei três vezes (depois de sua volta do Uruguai) ao secretário geral para ser designado para alguma função. Nada foi feito e eu me recuso a ficar andando pelos corredores, sem nada para fazer e até sem ter mesa e cadeira para mim.'

De acordo com um amigo de Vinicius na Casa (leia-se Itamaraty), a quem o ministro transmitira o recado e pedira o levantamento da carreira dele, foi feito um relatório em que se destacara a atuação de Vinicius em Paris (onde a casa dele era considerada como que uma segunda Embaixada do Brasil e de onde, através de sua amizade com Sacha Gordine, nascera o projeto e o filme Orfeu do Carnaval) bem como o quanto ele fizera no Uruguai para divulgar a cultura e a música popular brasileira. No Uruguai, pude eu mesma constatar, quando meu marido foi ali designado como embaixador do Brasil no período de 1971 a 1974, a marca da presença de Vinicius no plano cultural e as inúmeras amizades que havia conquistado quando ali esteve como cônsul brasileiro nos idos de 1960. Eu costumava dizer a Arnaldo, meu marido, que me dava mais prestígio em Montevidéu ser irmã de Vinicius do que, propriamente, ser embaixatriz.

Pelo que soube por Lygia (eu me encontrava, então, com meu marido, em posto, no Egito), o presidente lera o relatório e o deixara de lado para decisão futura. Infelizmente, e a despeito dos serviços prestados ao país, o presidente teve por bem, eu diria por mal, cassar Vinicius, demitindo-o da carreira. A notícia chegou-lhe através de um amigo diplomata, quando ele, Vinicius, se encontrava em casa de minha mãe, já falecida, e habitada por Lygia. Vinicius ficou muito abatido, pois gostava da carreira, mas não chorou não. Naquele mesmo dia, recebeu telefonemas de dois amigos, Lauro Escorel e Carlos Jacinto de Barros, que lhe vieram hipotecar solidariedade.

No que diz respeito à volta dele à carreira, foi apenas por insistência de minha irmã, procuradora dele, que Vinicius, depois da anistia, permitiu que ela providenciasse sua reintegração ao Itamaraty (uma maneira, segundo ela, de limpar sua folha de serviços) e apresentou, logo a seguir, seu pedido de demissão.

Quanto à lenda (e há tantas sobre Vinicius) de ter recebido a notícia na banheira, deve-se, creio eu, ao fato de ele gostar de mergulhado a meio na água, escrever seus artigos e letras de música em máquina colocada sobre uma tábua atravessada na banheira. Era também assim que muitas vezes recebia alguns de seus amigos.

E pela (espero) última vez (já o fizemos tantas vezes), queria deixar claro que Vinicius é Vinicius de Moraes − e nada mais. Foi registrado como Marcus Vinicius por meu pai, tendo Vinicius, já no ginásio, abandonado o Marcus, conforme consta no livro próprio do Cartório do Registro, passando a assinar-se apenas Vinicius de Moraes (xerox da identidade dele anexo). A lenda, mais uma, de ele chamar-se Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes deve-se a uma brincadeira, em verso, de Manuel Bandeira depois de saber que Vina (seu apelido de família) tivera inicialmente o nome de Marcus Vinicius e que ele descendia, por parte materna, da família Burlamaqui dos Santos Cruz e, do lado paterno, de Alexandre José de Mello Moraes, médico e historiador, pai de nossa avó. O Bandeira misturou essas informações e compôs esse nome, Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes, que o persegue até hoje.

Espero que, com esta carta, fique esclarecido todo esse assunto e ponho-me, juntamente com minha irmã Lygia, à sua disposição para qualquer informação adicional.

Ao desculpar-me por carta tão longa, gostaria de dizer-lhe o quanto apreciamos, meu marido e eu, suas crônicas no JB, pela clareza e dignidade com que trata assuntos outros de tanta relevância para o Brasil. Sua admiradora sincera, Laetitia C. de Moraes Vasconcellos.”

(Da Coluna do Castello, de Carlos Castello Branco)

Governo repara cassação de Vinícius de Moraes
 como embaixador

“Promover o diplomata, poeta e compositor Vinícius de Moraes ao cargo de Ministro de Primeira Classe (embaixador) é um processo de reparação obrigatória, que não precisa de agradecimento algum por parte da família”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante cerimônia realizada, na noite desta segunda-feira (16.08.2010) no Palácio Itamaraty.

Emocionado, Lula disse que “possivelmente, quem teve a atitude de propor a cassação de Vinicius não tenha lido o poema Operário em Construção. Porque se ele tivesse lido, tal como o operário ele teria aprendido a dizer ‘não’ e não teria cumprido a aberração que foi colocar fim à carreira diplomática do Vinícius de Moraes”.

(...)

Vinícius foi aposentado compulsoriamente durante a ditadura militar, por meio do Ato Institucional n.º 5 (AI-5), em 1968. A lei sancionada por Lula, em junho passado, assegura aos atuais dependentes do poeta os benefícios da pensão correspondente ao cargo.

Lula ressaltou a preocupação de seu governo em reparar erros históricos e lembrou o brilhantismo de Vinícius como pessoa, poeta e diplomata: “Eu tenho dito aos meus companheiros de governo que, muitas vezes, no Brasil, nós esquecemos as pessoas que a gente gosta, deixamos de exaltar as pessoas que foram vítimas do período do autoritarismo. Aos poucos, a gente vai esquecendo de transformar os nossos heróis em heróis, porque nós não falamos deles”.




segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Uma carta e o Natal*



Por Carlos Heitor Cony,
na Folha de S. Paulo, em 31.12.2017

Este será o primeiro Natal que enfrentaremos, pródigos e lúcidos. Até o ano passado conseguimos manter o mistério − e eu amava o brilho de teus olhos quando, manhã ainda, vinhas cambaleando de sono em busca da árvore que durante a noite brotara embrulhos e coisas. Havia um rito complicado e que começava na véspera, quando eu te mostrava a estrela onde Papai Noel viria, com seu trenó e suas renas, abarrotado de brinquedos e presentes.

Tu ias dormir e eu velava para que dormisses bem e profundamente. Tua irmã, embora menor, creio que ela me embromava: na realidade, ela já devia pressentir que Papai Noel era um mito que nós fazíamos força para manter em nós mesmos. Ela não fazia força para isso, e desde que a árvore amanhecesse florida de pacotes e coisas, tudo dava na mesma. Contigo era diferente. Tu realmente acreditavas em mim e em Papai Noel.

Na escola te corromperam. Disseram que Papai Noel era eu − e eu nem posso repelir a infâmia e o falso testemunho. De qualquer forma, pediste um acordeão e uma caneta − e fomos juntos, de mãos dadas, escolher o acordeão.

O acordeão veio logo, e hoje, quando o encontrar na árvore, já vai saber o preço, o prazo de garantia, o fabricante. Não será o mágico brinquedo de outros Natais.

Quanto à caneta, também a compramos juntos. Escolheste a cor e o modelo, e abasteceste de tinta, para “já estar pronta” no dia de Natal. Sim, a caneta estava pronta. Arrumamos juntos os presentes em volta da árvore. Foste dormir, eu quedei sozinho e desesperado.

E apanhei a caneta. Escrevi isto. Não sei, ainda, se deixarei esta carta junto com os demais brinquedos. Porque nisso tudo o mais roubado fui eu. Meu Natal acabou e é triste a gente não poder mais dar água a um velhinho cansado das chaminés e tetos do mundo.
*****
*A última crônica de Carlos Heitor Cony, que faleceu no dia 5 de janeiro de 2018. Ele tinha 91 anos. (14.03.1926 – 05.01.2018)

→ Abaixo, uma crônica de Carlos Heitor Cony, publicada pela Folha de S. Paulo no dia 5 de março de 2017. O grande escritor e jornalista carioca, que já vinha muito doente há vários anos, praticamente estava se despedindo, naquele seu estilo irônico e rascante.

Se eu morrer amanhã
Carlos Heitor Cony


Carlos Heitor Cony por Osvalter
  
Se eu morrer amanhã, não levarei saudade de Donald Trump. Também não levarei saudade da operação Lava Jato nem do mensalão. Não levarei saudade dos programas do Ratinho, do Chaves, do Big Brother em geral. Não levarei nenhuma saudade do governador Pezão e do porteiro do meu prédio.

Se eu morresse amanhã, não levaria saudade do rock, dos sambas-enredo do Carnaval, daquela águia da Portela nem dos discursos do Senado e da Câmara, incluindo principalmente as assembleias estaduais e a Câmara dos Vereadores.

Se eu morrer amanhã, não levarei saudades dos buracos da rua Voluntários da Pátria, das enchentes do Catumbi, dos técnicos do Fluminense, dos juízes de futebol, da Xuxa e das piadas póstumas do Chico Anysio. Não levarei saudade do Imposto de Renda e demais impostos, e muito menos levarei saudade das multas do Detran.

Não levarei saudade da vizinha que canta durante o dia uma ária de Puccini (“oh mio bambino caro”) que ela ouviu num filme do Woody Allen. Aliás, também não levarei saudade do rapaz que mora ao meu lado e está aprendendo a tocar bateria.

Não levarei saudade das cotações da Bolsa, das taxas de inflação e das dívidas externas do Brasil. Não levarei saudade dos pasteis das feiras livres nem das próprias feiras livres, também não levarei saudade dos blocos de índio que geralmente fedem mais do que os verdadeiros índios.

Não levarei saudade dos lugares em que não posso fumar, das lanchas de Paquetá e dos remédios feitos com óleo de fígado de bacalhau. Não terei saudades das mulheres que usam silicone e blusas compradas no Saara.

Enfim, não levarei saudade de mim mesmo, dos meus fracassos e dívidas. Finalmente, não terei saudades dos milagres dos pastores evangélicos nem de um mundo que cada vez fica mais imundo.



domingo, 7 de janeiro de 2018

A vida das bailarinas



Personagens típicas da noite carioca nos anos trinta e quarenta, essas bailarinas serviriam de motivo a algumas canções como “Garota do Dancing”, de Alberto Ribeiro e Jorge Faraj. Nenhuma, entretanto, alcançaria o prestígio de “Vida de Bailarina”, lançada por Ângela Maria em 1954 e revisitada por Elis Regina, dezoito anos depois. Uma representante ilustre da classe foi Elizeth Cardoso, bailarina do Dancing Avenida, antes de se tornar cantora profissional. Aliás, tanto Elizeth como Ângela Maria atuaram no início de carreira como crooners no popular Avenida.

(Texto do livro: “A Canção no tempo – 85 anos de Músicas Brasileiras”,
de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello)
  
Vida de Bailarina

(Chocolate e Américo Seixas)
  
Quem descerrar a cortina
Da vida da bailarina
Há de ver cheio de horror,
Que, no fundo do seu peito,
Abriga um sonho desfeito,
Ou a desgraça de um amor.

Os que compram o desejo,
Pagando amor a varejo,
Vão falando sem saber.
Que ela é forçada a enganar,
Não vivendo pra dançar,
Mas dançando pra viver.

Ela é obrigada pelo ofício
A bailar dentro do vício
Como um lírio em lamaçal.
É uma sereia vadia,
Prepara em noites de orgia,
O seu drama passional.
Fingindo sempre que gosta
De ficar a noite exposta,
Sem escolher o seu par.
Vive uma vida de louca,
Com um sorriso na boca
E uma lágrima no olhar.

*Ouça a gravação dessa música, na internet, na voz de Ângela Maria. A gravação com Elis Regina, ela só canta a primeira parte.

Garota do Dancing

(Alberto Ribeiro e Jorge Faraj)

Brincando como criança,
Ganhando a vida na dança,
Eu um dia te encontrei.
E tive, ao dançar contigo,
O prêmio de um doce castigo
Sem querer me apaixonei...

A culpa foi certamente
Desse perfume envolvente
Dos teus cabelos fatais.
Escravo desse perfume,
Sangrei na cruz do ciúme
E jurei não te ver mais...

Deixei que na triste lida,
A dançar ganhando a vida,
E fugir para esquecer,
Mas o perfume tirano
Dominou-me soberano
E me fez retroceder...

Deixa o pudor na outra sala,
Escuta a voz que te fala,
A voz do meu coração.
Vem dançar na minha vida
A melodia sentida nesse
Meu samba-canção...


Figura de mulher por J. Carlos

*Há, na internet, uma gravação de Garota do Dancing, com Nestor Amaral, de 1939.



sábado, 6 de janeiro de 2018

Que tipo de chef você é na cozinha?



Não existe fórmula nem explicação, mas dá para saber se você é um banqueteiro em potencial ou simplesmente um ogro glutão. Basta completar este nosso divertido questionário e checar as respostas.

1) Qual a primeira coisa que você faz quando decide cozinhar?

→ a. Lava as mãos, separa os ingredientes e os recipientes a serem usados.
→ b. Deixa a alface e o agrião de molho no higienizador e prepara um molho de iogurte com mel.
→ c. Coloca logo a cebola e o alho para fritar. Afinal, o que vale é matar a fome.
→ d. Passa um paninho na mesa e separa as facas necessárias para tirar couros e tripas.

2) Quando você cozinha e chama alguém para experimentar, qual a reação das pessoas?

→ a. “Hummmmmmmm...”
→ b. Quem gosta de legumes, apoia. Quem prefere bife e fritura nem chega perto.
→ c. Enchem o bucho de tanto comer.
→ d. Pessoas, que pessoas? Todo mundo corre quando você termina de cozinhar.

3) Enquanto você cozinha, que música não pode faltar no seu ambiente?

→ a. Música clássica e sofisticada para servir de inspiração.
→ b. Prefere o bom e velho silêncio. Assim consegue se concentrar mais no prato.
→ c. Um sambinha básico, para combinar com a cervejinha que bebe enquanto prepara tudo.
→ d. African music, kuduro, maculelê, gamelão, reggae, hula-hula e outras músicas regionais e diferentes.

4) Marque a opção com as palavras que mais usa na cozinha:

→ a. Brie, cabernet sauvignon, fondue e crème brülée.
→ b. Endívias, espinafre, limão e mandioquinha.
→ c. Feijoada, macarrão, farofa e guaraná.
→ d. Olho de cabra, insetos e miúdos.

5) Que ingrediente não pode faltar na sua despensa?

→ a. Filé mignon, salmão e outros ingredientes de qualidade.
→ b. Legumes e verduras, claro. Não há nada melhor do que uma alimentação saudável.
→ c. O que tiver está bom, desde que seja comestível. O importante é matar a fome.
→ d. Casu Marzu (queijo de leite de ovelha e larvas de moscas). Coragem é o que não falta, nunca.

6) Quando alguém oferece ajuda para preparar o jantar, você:

→ a. Recusa. Afinal de contas, nem todo mundo tem a delicadeza necessária para cozinhar. Melhor não colocar sua refeição em risco.
→ b. Deixa que faça algo simples, mas fica extremamente irritado se alguma coisa der errado.
→ c. É só chegar. Quanto mais mãos para ajudar, melhor! Pena que todas elas somem na hora de eliminar aquela pilha de louça.
→ d. Pergunta: você é forte o suficiente?

7) Quando vai a um restaurante o que mais lhe chama a atenção?

→ a. A arrumação da mesa, as cores e combinações do prato e, é claro, a harmonização das bebidas servidas com a comida.
→ b. A falta de alternativas mais saudáveis.
→ c. O prato com melhor custo-benefício: vem mais e é mais barato.
→ d. A quantidade de nomes diferentes no cardápio.

8) Quando tem convidados para jantar, geralmente:

→ a. Gosta de fazer um prato bem elaborado e prepara tudo com muito capricho.
→ b. Vai à feira de manhã para adquirir alimentos fresquinhos. Compra um peixe, que é mais leve, e usa temperos colhidos na horta de casa.
→ c. Faz aquela macarronada com salsicha que todo mundo a-do-ra! É a sua especialidade.
→ d. Elas recusam o convite, já que na sua casa miúdo é arroz com feijão.

9. Qual desses objetos não pode faltar na sua cozinha?

→ a. Sousplat.
→ b. Potes de plástico.
→ c. Frigideira.
→ d. Faca.

Gabarito

 

Mais respostas “A” → Você adota a filosofia de que um bom prato começa com um visual bonito. Preocupa-se com o preparo dos pratos, tenta harmonizar bem os alimentos e dedica-se para fazer o melhor que pode. Em geral, consegue conquistar as pessoas pelo estômago, assim como o renomado Claude Troisgros. Que tal abrir um restaurante?

Mais respostas “B” → Uma vida mais saudável é sua filosofia, igual à de Jamie Oliver. Prefere pratos mais leves, frios e criativos. Fica irritado quando vai ao restaurante e vê as pessoas da mesa ao lado comendo torresmo. É muita bomba para um organismo só!

Mais respostas “C” → Bem ao estilo Paulo Oliveira, para você, na cozinha os fins justificam os meios. Se o seu problema é fome, você vai matá-la. Não importa o ingrediente ou o modo de preparo. O justo é ser gostoso e não muito difícil de fazer. 

Mais respostas “D” → Ok, você tem coragem! Come para viver, vive para comer, mas não se importa em colocar algum risco nisso. O problema é que a maioria das pessoas não te compreende e vive fugindo das suas experimentações malucas. Mas não se preocupe: Andrew Zimmern está do seu lado.

(Texto de Monet – A Revista da NET – agosto de 2012)



sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

O mármore que fala



Pietá de Michelangelo

Um enorme bloco de mármore de Carrara jazia há 35 anos nas oficinas da Catedral de Florença. Estreito, com 5 metros de altura e conhecido como o Gigante, começou a ser talhado por Agostino di Duccio, em 1466, e foi logo abandonado pela dificuldade em arrancar vida de um sólido com proporções tão desfavoráveis. Sua sombra tinha servido para alertar os escultores florentinos sobre os desafios de sua profissão. No entanto, o governo de Florença anunciou oficialmente o nome do jovem Michelangelo Buonarroti, de 26 anos, como aquele que vai tentar, por fim, dar forma à rocha desafiadora. O tema bíblico de Davi, proposto pelo artista para enfrentar o “Gigante”, não pôde ser mais adequado. “Davi usou uma funda para combater Golias. Eu usarei minha pua de escultor”, disse o artista.

Michelangelo vinha sendo aclamado como o maior escultor da atualidade desde quando terminou uma maravilhosa pietá – imagem da Virgem com Jesus morto em seus braços, tradicional na arte de Flandres. O artista se comprometera em contrato a realizar “o mais fino trabalho em mármore jamais visto em Roma”. O resultado excedeu as expectativas. O conjunto, em forma de pirâmide, é compacto e monumental. A figura do Cristo morto ainda parece ter vida correndo nas veias. Os olhos abaixados da Virgem, ao contrário da tradição, emocionam pela dor e pela resignação. Seu manto, majestosamente drapeado, arranca do mármore uma leveza imaginável. Na visão idealista de seu autor, a profunda beleza das duas figuras é a melhor tradução de sua nobreza de espírito.

Nos dias que passou analisando os veios e a estrutura do Gigante, Michelangelo revelou hábitos espartanos: trabalhava febrilmente, comia apenas um pedaço de pão no meio da jornada e tinha nas garrafas de vinho branco de Trebianno sua única concessão ao prazer. Dormia três horas por noite, geralmente calçado e com as roupas usadas durante o dia. Por vezes ficava tanto tempo sem tirar as botas que, ao fazê-lo, arrancava pedaços da pele dos pés. O promissor artista nasceu em Caprese, ingressou no ateliê de Ghirlandaio aos 13 anos e se tornou um dos protegidos de Lourenço, o Magnífico, até a queda da família Medici, em 1494. A lista de seus trabalhos anteriores a pietá não é extensa: os dramáticos relevos Madona das Escadas e Batalha dos Centauros (onde não há realmente centauros), uma estátua de Hércules com 2 metros, três figuras para a tumba de São Domingos, um Cupido vendido como falsa antiguidade ao cardeal de San Giorgio in Velabro, em Roma, e um Baco. A amostra, porém, já fazia prever um Davi portentoso para Florença.

(Texto da revista Veja Especial – de 2000)

P.S. Foi alterado o tempo de alguns verbos.


A história de Davi

Por Wim Van Aalst*

→ Para reiterar a história Bíblica de Davi, o jovem pastor que conquistou Golias, o guerreiro filisteu gigante, apenas com seu arpão e uma pedra, corta a cabeça do gigante e mais tarde torna-se o lendário rei Hebreu.

→ Era comum na segunda parte do século XV retratar Davi com a cabeça de Golias, mas aqui uma abordagem mais diplomática é usada para expressar o tema, um Davi solitário vislumbra o horizonte distante, o seu sobrolho franzido, avalia a força do seu oponente instantes antes da luta.
A sua expressão tensa contrasta fortemente com a sua pose relaxada. Ele está alerta, e, ao mesmo tempo, relaxado; sem medo, mas não gabarola. As suas pupilas são em forma de coração. Tudo o que ele vê é o alcance do seu coração, a sua postura gloriosa prevê já a vitória.

As imperfeições da estátua

→ Existem algumas imperfeições anatômicas na estátua que deixaram perplexos, ao longo dos séculos, aqueles que a apreciaram. Estas ‘falhas’ são difíceis de explicar, como simples erros, dado que Michelangelo era um profundo conhecedor da anatomia humana.

→ A cabeça de Davi demasiado grande e o seu torso ligeiramente aumentado são geralmente assumidos como uma escolha deliberada, para corrigir o volume diminuído da parte superior, que é percebida pela perspectiva do observador. A estátua tinha originalmente como destino o telhado da catedral de Florença.

→ É uma teoria que realmente faz sentido: nessa altura, a perspectiva não tinha segredos para os artistas italianos. Mas isso não explica a mão direita anormalmente grande.

→ Podíamos supor que o tamanho da mão direita tinha como propósito servir para equilibrar a atenção do observador, mas isto é pouco provável, pois a definição exagerada dos mamilos já é suficiente para equilibrar a nudez pélvica. Portanto qual a razão deste ‘erro’?

→ Michelangelo compreendeu a importância de fazer com que este rapaz pastor parecesse capaz de derrubar um gigante – e em mais do que um contexto. Junto com a motivação religiosa, o tema do desprivilegiado que se torna vencedor também é importante na concessão da obra.

→ Nessa altura, Florença era uma cidade-estado independente ameaçada por poderosos rivais. Não seria suficiente se Davi fosse somente um rapaz bem parecido, exibindo apenas beleza e elegância. Ele teria que dar a impressão de ser um indivíduo que não deveria ser desconsiderado. E assim é.

→ Michelangelo foi bem sucedido na expressão da história Bíblica com diplomacia e eficiência. Esta estátua não é a figura de um desprivilegiado – é um aviso imbuído de uma glória avassaladora. “Não importa o quão grande é o rufião, ele irá pagar caro se desafiar o povo de Deus”.

→ Da base da estátua, essa mão enorme repousa ameaçadoramente como uma arma de alto calibre. Se houver desejo de confrontação, rapidamente esta se dissipa.

→ Nunca iremos saber em que medida a magnificência desta estátua contribuiu para assegurar a paz ou evitar invasões estrangeiras, mas, sem dúvida, a absoluta capacidade artística que esta peça inspira causou admiração dos estrangeiros e conseguiu mais respeito do que seria possível conseguir com uma mensagem ameaçadora.


*****

*Wim Van Aalst possui um mestrado em publicidade e design gráfico. Pintor autodidata, ele começou o seu trabalho como artista profissional em 2008 ensinando aos estudantes as técnicas e teorias da pintura a óleo tradicional.


*****

Certa vez alguém encontrou Michelangelo esculpindo com seu formão numa enorme rocha sem forma. A pessoa indagou ao escultor o que ele estava fazendo. “Estou soltando o anjo aprisionado nesta rocha.” Ele respondeu.

Duas histórias verídicas

Ponte de mão dupla


Pouco antes da Primeira Guerra Mundial, um estudante gaúcho, mais tarde pai de político de projeção nacional, passava temporada no Rio.

Apesar de praticamente sem dinheiro, encomendou vários ternos caríssimos no Fernandes, o melhor alfaiate da cidade. O preço era quinhentos mil réis, dos quais, de sinal, deu cinquenta. Marcou-se determinada manhã para a entrega das roupas.

Na véspera, o rapaz, primeiramente, gastou o último dinheiro comprando passagem no navio que voltava ao sul na tarde do dia seguinte. Depois procurou seu Joaquim, um português que tinha uma pastelaria defronte à alfaiataria, encomendando-lhe quatrocentos e cinquenta docinhos, também para a tarde seguinte.

Na manhã do recebimento dos trajes, o jovem disse ao alfaiate que o saldo do dinheiro, quatrocentos e cinquenta mil réis, seria pago pelo Joaquim, da padaria em frente, o qual lhe devia essa exata quantia. Na presença de Fernandes, para confirmar, chamou o português, desde a porta da alfaiataria, e, quando ele assomou do outro lado, gritou-lhe:

− Ô, Joaquim! Aquele quatrocentos e cinquenta, que você me deve para hoje à tarde, você entrega aqui para o seu Fernandes, certo?

− Certo! – respondeu o padeiro...

*****

Outra de português


Outra de português, também verídica, contada pelo saudoso Huet Bacellar à roda de amigos, no Restaurante Ghilosso, que ficava defronte à Praça da Alfândega.

Um ex-funcionário do seu Joaquim entrou com reclamatória trabalhista, dizendo que, ao ser demitido, não recebera do ex-patrão qualquer de seus direitos, a começar pelo salário.

Durante a audiência, o juiz propôs a conciliação de praxe; mas o português, que denotava uma certa impaciência, não quis, alegando nada dever, ao mesmo tempo que apresentava, assinados pelo reclamante, um pedido de demissão e um recibo de quitação plena.

O magistrado perguntou se o empregado realmente assinara aqueles documentos. O outro respondeu que a assinatura era realmente parecida com a sua, porém reafirmou não ter recebido qualquer pagamento. Lembrou também que, ao ser admitido, assinara dois papéis em branco. Se aquelas assinaturas eram suas, então o seu Joaquim preenchera-os posteriormente.

O português, ao ser interpelado pelo Juiz, deu um sorriso enigmático, pôs os dedos polegares no colete, jogou lentamente o corpo para trás, cutucando de leve, com o cotovelo, o braço de seu advogado – a quem dirigia olhar maroto – e respondeu, triunfante e desafiador, ao mesmo tempo que apontava para o ex-empregado, com um movimento de queixo:

Fazeire, eu fiz, sim senhoire. Agora, eu quero ver é ele provaire...

 (Textos do livro “Anedotário da Rua da Praia 1”,
de Renato Maciel de Sá Junior)


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Casablanca



O filme que usou a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo para uma das histórias de amor mais lembradas do cinema completa 70 anos* ainda jovem em nossa memória coletiva.

*Abril de 2002

Por Carol Almeida

Mesmo que por algum desleixo cinematográfico você não tenha visto Casablanca, tenha certeza de que, sim, você já viu Casablanca. Seja como um cartaz de fundo de cena estampando Humphrey Bogart e Ingrid Bergman (foto acima), no título de algum filme ou em frases de vários diálogos do cinema, da TV e da literatura, referências dessa produção foram recicladas bem diante de seus olhos em diversos momentos da sua vida. E muitas vezes, sem se dar conta, lá estava você escutando os ecos de um triângulo amoroso que completa agora seus jovens 70 anos. (vide asterisco acima)

A história dessa miniquadrilha drummondiana do Victor que amava Ilsa que amava Rick que amava a si próprio (mas também amava Ilsa e, de certa forma, Victor) se mostra cada vez mais vigorosa em suas imagens icônicas e sobretudo nas frases de efeito disparadas quase que em velocidade de metralhadora durante a trama. E como todo bom clássico, ainda carrega na bagagem um sem número de curiosas histórias de bastidores que amplificam ainda mais sua perenidade e seus status de cult. Mas se estamos cientes de seu lugar no Olimpo dos filmes que catalisam memórias coletivas, é preciso entender por que exatamente ele chegou ali.

O drama de homens e mulheres tentando fugir da ocupação alemã na Europa foi exibido em plena Segunda Guerra Mundial e, portanto, havia algo de documental e assustadoramente atual quando, no dia 26 de novembro de 1942, em Nova York, a primeira projeção do filme foi desvelada ao público. A lembrar que a Paris onde Rick (Bogart) e Ilsa (Bergman) se apaixonaram quando os alemães tomaram a cidade – eles vestiam cinza e ela vestia azul – só seria desocupada pelos nazistas em 1944. Havia algo de urgente no roteiro do filme que se readaptava a cada dia, quase como uma novela que vai navegando para onde o vento soprar.

O drama é inspirado na peça Everybody Comes To Rick′s, de Murray Burnett e Joan Alison, mas ganhou outros contornos quando chegou aos irmãos Epstein, Hal Wallis, Howard Koch e Casey Robinson, com direção de Michael Curtiz. Juntos, eles criaram a história de Rick e Ilsa, que encontram e se apaixonam em Paris, e tudo vai bem até o dia em que os alemães avançam pela cidade – “Isso foi uma bala de canhão ou meu coração batendo?”, perguntava Ilsa. Ao som do piano de Sam (Dooley Wilson), Rick sugere que eles fujam da cidade juntos e ela promete encontrá-lo no dia seguinte na estação de trem. Mas na hora marcada para a viagem Ilsa não aparece. Os dois só vão se reencontrar em Casablanca, onde Rick agora é proprietário de um bar e Ilsa é casada com Victor Laszlo (Paul Henreid), um herói da resistência aos nazistas.


 Despedidas e reencontros

→ Acima, Humphrey Bogart, Claude Rains, Paul Henreid e Ingrid Bergman na cena em que Rick finalmente revê Ilsa, agora acompanhada do marido, Victor Laszlo. Abaixo, Rick, Ilsa e o pianista Sam (Dooley Wilson) planejam a fuga de uma Paris que será ocupada pelos nazistas, mas ela já teme o pior.


A várias mãos, a história ia sendo reescrita enquanto a guerra se desenrolava. E foi ironicamente essa premência e necessidade de ser atual que lhe conferiu imortalidade. Justo porque não tinham tempo, os roteiristas fizeram uma colagem de clichês e arquétipos do próprio cinema. E assim o filme foi se transformando num Frankenstein que deu certo. Muito certo.

Em um ensaio sobre o clássico, Umberto Eco observa esse fenômeno da seguinte forma: “Casablanca se tornou um cult porque ele não é um só filme. Ele é filmes. E essa é a razão pela qual ele funciona, a despeito de qualquer teoria estética”. Segundo Eco, a grande virtude é essa estranha e bem-sucedida combinação de modelos já sedimentados em nosso imaginário.

Exemplos não faltam. Casablanca, a cidade do Marrocos que no filme serve de ponto estratégico para que os fugitivos da guerra possam embarcar para Lisboa e de lá para os Estados Unidos, seria uma espécie de purgatório de onde ninguém consegue sair. As cartas de trânsito que Rick esconde em seu bar representaria a “chave mágica” para fugir desse purgatório e o próprio bar de Rick encerra nele uma série de elementos arquetípicos, como o “inferno” da mesa de apostas, o clima de bordel ao redor do piano de Sam, que é, ao mesmo tempo, o “paraíso” dos foragidos. Sem mencionar que o filme consegue a proeza de ser simultaneamente um título que congrega quase todos os gêneros hollywoodianos: drama, comédia, ação, suspense e romance.


“Todo mundo vai para o Rick′s”

→ Acima, sem que ninguém note, Rick esconde as preciosas cartas de trânsito sobre o piano de Sam; abaixo, vemos Michael Curtiz dirigir a clássica cena final do drama, quando Rick avisa Ilsa que decidiu não embarcar no voo para Lisboa, deixando-a partir com o marido, Victor Laszlo.


Deuses distantes

“Talvez o poder milenar que o mito exerce na vivência humana possa ser o responsável maior pela sobrevivência de Casablanca no imaginário geral. Mesmo quem ainda é noviço na contemplação do cinema tem suas atenções reviradas e desconhecidos instintos reavivados à simples menção da palavra Casablanca”, acredita o crítico de cinema Cid Nader. Segundo ele, o filme se sustenta muito desse culto aos “deuses” de Hollywood, neste caso corporificados nas expressões duras de Humphrey Bogart, que acabara de filmar o sucesso Relíquia Macabra, e no rosto de porcelana e voz grave da sueca Ingrid Bergman, que aos 27 anos tinha na América uma carreira que começava ascender em vertiginosa escalada (na contramão de outra diva sueca, Greta Garbo, que nesse momento se isolava de Hollywood).

“Dentre todos os que reagem à lembrança da história ou da falsa fala ʽPlay it Again, Samʼ, é possível dizer que a maioria nunca tenha visto o filme na íntegra. Talvez as questão possa ser compreendida por conta da apropriação de alguns significados da mitologia (e da importância das figuras “fabulares” na conformação da mente) por parte de Hollywood: uma espécie de ʽAsgardʼ moderna onde seus deuses e seres espantosos (astros e estrelas) residiam, contemplando a nós, pobres mortais”, sustenta Nader.

Um desses mortais, seduzido pelo drama e contexto histórico do filme, foi o jornalista e sociólogo Luiz Roberto da Costa Júnior, que, não contente em apenas falar do filme, lançou em 2010 o livro Casablanca – Política, História e Semiótica no Cinema (All Print editora), reunindo algumas curiosidades da trama, incluindo aí a ligação de seu roteiro a um jogo de xadrez e a aspectos da numerologia. “Acho que as grandes virtudes do filme estão na interpretação dos personagens e principalmente naquela coisa de que eles estão sempre no limiar de tomar decisões sem saber ainda o que fazer. Essa incerteza coletiva, que reflete o espírito que o mundo vivia naquele momento, foi o que colocou o filme em relevo”, opina.

Fundamentos semióticos, históricos e mitológicos à parte, o fato é que Casablanca é, acima de tudo isso, um filme consensualmente bem realizado. Custou módicos – para os padrões atuais – US$ 1 milhão, sendo US$ 33,667 de Bogart e US$ 25 mil de Bergman, e levou três estatuetas do Oscar: melhor filme, melhor diretor para Michael Curtiz e melhor roteiro adaptado (e deveria ter levado também pela trilha sonora brilhante, cheia de inovadoras mixagens, do mestre Max Steiner).

Porém, muito mais do que esse reconhecimento formal, Casablanca merece seu lugar entre os grandes clássicos de Hollywood porque cravou em nossa memória, cenas e situações que até hoje perduram quando o nome do filme se projeta na nossa frente. “Dessa história fabular, com ʽdeusesʼ agindo num momento de temor ante o destino que aparecia como trágico, em pleno 1942, restou uma marca indelével, que se transfere pelas gerações”, pontua Nader.

São gerações que ainda têm o filme como um marco – vivido ou adquirido – do chamado cinema de ouro hollywoodiano, mas que, sobretudo, lembram do longa-metragem como uma clássica história de amor. E olha que estamos falando de uma em que o final é infeliz. Porque para os padrões moralistas da América não se poderia conceber a ideia de que uma mulher traísse seu marido (para ficar com o homem de sua vida). Ficou apenas o consolo de que Rick, Ilsa e todos nós sempre teremos Paris.


(Texto de Monet – A Revista da NET, abril de 2002)