quinta-feira, 3 de outubro de 2019

A primeira mulher a entrar para a ABL

(Academia Brasileira de Letras)

Quinta ocupante da Cadeira 5, eleita em 4 de agosto de 1977, na sucessão de Cândido Motta Filho e recebida pelo Acadêmico Adonias Filho em 4 de novembro de 1977.

        
Em agosto de 1977, Rachel de Queiroz,onde ocupava a cadeira de número 5. Ela sofreu um acidente vascular cerebral no dia 28 outubro de 2003, e na manhã de 4 de novembro, faleceu dormindo. Seu corpo foi velado na ABL, mas o enterro foi no cemitério São João Baptista, Rio de Janeiro, onde está o corpo de seu marido.

Rachel nasceu em Fortaleza-CE, em 17 de novembro de 1910, foi professora, jornalista, romancista, cronista e teatróloga. Com apenas sete anos, mudou-se para o Rio de Janeiro com os pais, fugindo da seca de 1915. Dessa experiência nasceu o livro O Quinze publicado em 1930.

Em 1932, Rachel publicou um novo romance, intitulado João Miguel, e em 1937, retornou com Caminho de Pedras. Dois anos depois, conquistou o prêmio da Sociedade Felipe de Oliveira, com o romance As três Marias. E o Prêmio Machado de Assis, da ABL, pelo conjunto de sua obra, em 1957.

Entre várias obras destaca-se Memorial de Maria Moura, a qual foi adaptada para uma minissérie na TV Globo.

Obras

O Quinze (1930)
João Miguel (1932)
Caminho de Pedras (1937)
As Três Marias (1939)
A Donzela e a Moura Torta - crônicas (1948)
O Galo de Ouro (1950)
Lampião - teatro (1953)
A beata Maria do Egito - teatro (1958)
100 Crônicas Escolhidas (1958)
O Brasileiro Perplexo - crônicas (1964)
O Caçador de Tatu - crônicas (1967)
O Menino Mágico - infanto-juvenil (1969)
As Menininhas e Outras Crônicas (1976)
O Jogador de Sinuca e Mais Historinhas (1980)
Cafute e Pena-de-Prata - infanto-juvenil (1986)
Memorial de Maria Moura (1992)
Obras reunidas de ficção:
Três Romances (1948)
Quatro Romances (1960)

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Aos pais

Diante de uma criança

Carlos Drummond de Andrade


Como fazer feliz meu filho?
Não há receitas para tal.
Todo o saber, todo o meu brilho
de vaidoso intelectual

vacila ante a interrogação
gravada em mim, impressa no ar.
Bola, bombons, patinação
talvez bastem para encantar?

Imprevistas, fartas mesadas,
louvores, prêmios, complacências,
milhões de coisas desejadas,
concedidas sem reticências?

Liberdade alheia a limites,
perdão de erros, sem julgamento,
e dizer-lhe que estamos quites,
conforme a lei do esquecimento?

Submeter-se à sua vontade
sem ponderar, sem discutir?
Dar-lhe tudo aquilo que há
de entontecer um grão-vizir?

E se depois de tanto mimo
que o atraia, ele se sente
pobre, sem paz e sem arrimo,
alma vazia, amargamente?

Não é feliz. Mas que fazer
para consolo desta criança?
Como em seu íntimo acender
uma fagulha de confiança?

Eis que acode meu coração
e oferece, como uma flor,
a doçura desta lição:
dar a meu filho meu amor.

Pois o amor resgata a pobreza,
vence o tédio, ilumina o dia
e instaura em nossa natureza
a imperecível alegria.

Porque amamos os nossos filhos

Carlos Drummond de Andrade

Ignacinho veio pedir-me uma vitrola como presente do seu próximo aniversário. Os últimos acontecimentos não são de molde a justificar essa pretensão do meu querido filho e companheiro. Presentes de aniversário dão-se a meninos bem comportados, que não trocam as aulas pelo futebol, nem as vigílias do estudo pelas do cinema. Ora Ignacinho tem sido justamente o contrario desse tipo de jovem exemplar, que é muito comum no “Coração” de Edmundo de Amicis e outros livros estrangeiros, mas que infelizmente não parece ter-se dado bem com o clima do Brasil. Como pois solicitar-me festas?

E daí Ignacinho não é mais uma criança. Membro do conselho fiscal do Centro dos Preparatorianos e colaborador das páginas de anúncio (as únicas que prestam) do “Fonfon” e do “Para Todos”, ele adquiriu já uma personalidade social e literária que não se coadunava com as calças curtas nem com as regalias conferidas aos frangotes de 13 anos. Rapazinho de calça comprida não tem direito a mimos infantis. Sócio do Centro dos Preparatorianos também não tem. Poeta ou prosador ainda que incipiente, também não.

Fiz ver todas essas coisas a Ignacinho. Sem ferocidade, palavra. Minha intenção era feri-lo no seu orgulhosinho púbere, de modo que ele renunciasse ostensivamente à vitrola, poupando-me a dor de recusá-la. Eu sou feito do mesmo barro de que se fazem todos os pais, e às vezes meu coração amolece nos momentos mais sérios. Em minha consciência achava que Ignacinho não tinha direito à maquina falante. Mas e coragem para dizê-lo?

Ignacinho, achando fúteis as minhas razões, reforçou o pedido com a promessa de dois belíssimos exames parcelados no Ginásio. Era vitrola para lá, exames para cá. Se eu fechasse o negócio, ele capricharia nas escritas e se excederia nas orais. Adverti-lhe de que não faria mais do que a sua estrita obrigação, prestando bons exames das humanidades (ele diz “desumanidades”) que se não estudara, devia ter estudado a fundo.

Mas intimamente, e sem cálculo, eu já tinha cedido um pouco.

Ignacinho prometeu mais. Prometeu ótimo comportamento durante as férias, e infatigável aplicação durante o próximo ano letivo. Em todos os futuros anos letivos. Na Faculdade de Medicina, até o 6º ano, seria o modelo dos candidatos a mortícola*. E na vida prática — Ignacinho nesse momento chegou a pensar na vida prática — seria o mortícola mais brilhante da sua geração, do seu país, do seu continente, do mundo. E tudo isso por um preço tão pequeno! O preço de uma vitrola Decca, das menores...

Antes que o rapaz me prometesse maiores absurdos, eu, desarmado, fiz como Capablanca: entreguei-lhe os pontos. Mas frisei bem: não contasse comigo na hora de comprar os discos.

O capetinha deu uma gargalhada e confessou, cínico:

− Não precisa não, papai. Os discos eu já tenho. Mamãe me deu. Eu falei com ela que o senhor tinha me dado a vitrola...

Astúcia, teimosia e senso comercial da alma infantil! Ignacinho explorou-me duplamente, é certo, pois pelo menos aqui no sertão, quem paga os presentes da mulher é o marido. Mas não são essas pequeninas coisas que nos fazem amar os nossos queridos filhos?

(Da Revista de Antropofagia número 2, junho de 1928)

Com a grafia atualizada

*mortícula, diz-se de um mau médico, que mata os doentes por inépcia.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Um condutor poeta no bonde Tijuca

Texto de Américo Matos

(Escrito em 1953)


Quem mora na Tijuca e viaja de bonde tem que conhecer o Quintas, Jacinto Nunes Quintas, o condutor poeta, o homem que, apesar de exercer uma das profissões mais ingratas do Rio de Janeiro, leva a vida como se não pertencesse a este mundo de aborrecimentos e aflições.

Para ele o que importa é fazer versos. Se o bonde está cheio ou vazio, ou se os passageiros gostam ou não da sua poesia, pouco o preocupa. Desde cedinho, quando entra de serviço e até o final do dia, vai improvisando ou repetindo velhas rimas. De tudo faz versos. Qualquer motivo serve para espicaçar a sua veia de poeta, ou, quando não seja, para provar que é um cidadão que sabe levar a vida com bom humor. Quando se apresenta ao passageiro para cobrar a passagem, vai logo dizendo:

Por gentileza,
Aqui está o condutor
Que trata a todos com delicadeza.

Se o passageiro não entende o fraseado, ele aplica uma nova rima:

Cavalheiro, por favor,
Não se esqueça de pagar o condutor.

Enquanto isso, o bonde vai rompendo o tráfego, conduzindo o seu poeta atento ao sinal dos passageiros descendo aqui e ali, sempre advertidos pela voz do bardo:

O bonde para na esquina,
Pois vai saltar a menina.

E mais adiante:

Chegou no ponto de seção
Quem quiser saltar, aproveite a ocasião.

Quando aparece um fiscal da Light para verificar se está registrando direito as passagens, ele, com um sorriso de ironia, comenta:

Pode ver, seu fiscal,
Aqui está tudo legal.

Colocando o visto na sua papeleta de serviço, faz tilintar a campainha e prossegue a viagem, fazendo versos e malabarismos para cobrar as passagens.

Quando os automóveis oferecem perigo aos pingentes, não se esquece de adverti-los:

Cuidado com a roupa
Que pode virar estopa.

Tendo os olhos sempre atentos ao trânsito, não deixa de dar o seu aviso aos colegiais que descem do seu bonde:

Meninos e meninas,
Nunca deixem de olhar
Em todas as esquinas,
Que pretendam atravessar.

Se o bonde para porque a rua está interrompida em consequência de uma colisão de automóveis, ele deixa os estribos balançando a cabeça:

Tudo isso podia ser evitado,
Se tanto um como outro,
Tivessem mais cuidado.

O repórter quis saber a razão do seu bom humor e a resposta veio sem demora:

Era assim que devia ser
Todo empregado:
Trabalhar satisfeito
E ser delicado.

E completa:

Eu reconheço e com razão
Que tanto não devia aborrecer,
Mas é essa minha missão,
Fazer versos até morrer.

Com o temperamento original e trabalhando no mesmo bonde desde 1934, Quintas conseguiu muitos amigos que gostam de ouvir os seus versos, inclusive algumas moças empregadas em casas de família que puxam por ele. Foi numa dessas ocasiões, em 1938, que conheceu uma jovem e não resistindo aos seus encantos, cantou a sua beleza em versos. A moça sorriu agradecida e daí a poucos meses estavam os dois diante o altar. Dessa união com dona Mabile Ferreira Quintas nasceu a sua filhinha Darci, uma linda menina que atualmente conta nove anos de idade e é a maior admiradora dos seus versos.

Darci, que é filha única do casal, está sendo educada com esmero. Para ela estão todas as atenções do pai que não mede sacrifícios para lhe dar conforto. É um pai feliz que, se antes dizia versos, agora, maior razão tem para prosseguir na sua inspiração de poeta.

Atualmente, Jacinto está afastado do serviço de condução de bondes. Tendo adoecido, encontra-se em tratamento pelos médicos da Caixa dos Servidores da Light. Entretanto, não perdeu o seu tempo em ficar olhando as paredes do seu quarto de doente. Procurou lembrar-se dos versos que diz aos seus passageiros e, escrevendo outros, resolveu reunir tudo num livro que já entregou a uma oficina para editar com o título Poesias de um condutor de bonde. E não pensem que se trata de um livrinho de umas vinte ou trinta páginas. Nada disso, será um volume contendo de 250 a 300 composições. E, como todo escritor que não gosta que suas obras fiquem esquecidas nas prateleiras das livrarias, já está cuidando da propaganda, que, naturalmente, não podia deixar de ser em versos. Ei-la:

Atenção, povo brasileiro!
Atenção, povo tijucano!
Breve... à venda um livro de poesias
O condutor do Tijuca está fazendo todo bacano.

Aguardem dentro de poucos dias
O sensacional livro de poesias,
Tendo como autor
Aquele humilde condutor.

Companheiros de trabalho,
Meus queridos passageiros,
Espero que todos comprem um livro,
Estrangeiros e brasileiros.

Termina o prospecto dizendo:

“À venda nas bancas de jornal da Tijuca, livrarias e com o autor”..

Ao ensejo da passagem do aniversário de Última Hora, Quintas inspirou-se e nos mandou a sua saudação num soneto:

 Salve aniversário de Última Hora!
Salve doze de junho de cinquenta e três!
Glória à Última Hora cada vez melhor!
Vamos! Vamos! Comprar mais uma vez!

Última Hora é um grande jornal,
É um orgulho para todos no Rio de Janeiro.
Leio com satisfação e mando para Portugal,
Entre muitos jornais, para mim é o primeiro.

Salve todos diretos da Última Hora!
E todos que trabalham na ocasião atual.
Todos a devem comprar, vamos! Embora!

Não se esqueçam os do Brasil e os de Portugal,
Última Hora é o melhor do Distrito Federal.
Vamos! Vamos! Todos comprar pessoal!

Matos, Américo: “Um condutor poeta no bonde Tijuca”.

(Última Hora, Rio de Janeiro, 22 de junho de 1953)


O saudoso bonde passa, o motorneiro protegido por dois “meganhas”, devido à violenta greve que ameaçava o patrimônio público.

Adendo final

Em 22 de junho de 1953, a Última Hora (Jornal carioca), publicava o lançamento do livro do condutor de bonde, Jacinto Nunes Quintas, intitulado “Poesias de um condutor de bonde”. No momento do lançamento, ele estava afastado do trabalho e se dedicava ainda mais à sua atividade preferida: fazer versos. Jacinto começou a trabalhar em 1934, ficou lembrado por seu bom humor mesmo nas dificuldades enfrentadas no dia-a-dia. Desde cedinho, quando entrava de serviço, até o final do dia, ia improvisando ou repetindo velhas rimas. O condutor podia fazer versos de tudo o que via, qualquer motivo podia servir de inspiração. Por seu bom humor no transporte coletivo, conquistou àquela que seria sua esposa.

(Do blog Memória Carris)

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Frases Engraçadas



01) Quem quiser gostar de mim tem que ser por amor, porque dinheiro eu não tenho e beleza está em falta.

02) Se você é uma dessas pessoas que não tem sorte, quando vir a luz no fim do túnel, corra, pois é um trem.

03) No dia que suor der dinheiro, pobre nasce sem sovaco.

04) O cara era tão feio, mas tão feio, que foi comprar uma máscara para o carnaval e só lhe venderam um elástico.

05) Arrumo a casa para a minha mãe quase todos os dias. Quase arrumo na segunda, quase arrumo na terça, quase arrumo na quarta...

06) Se o mundo fosse bom, bebê não nascia chorando.

07) 12 de junho é o dia dos namorados; os outros 364 dias são nossos...

08) Ao discutir com uma mulher, ou ela está certa, ou você está errado.

09) Se eu for eleito prometo tirar os mendigos da ruas e colocá-los na calçadas.

10) Se você quer ser reconhecido, não se preocupe... Quando você errar isso ocorrerá.

11) Reflexão de Lavoisier ao descobrir que lhe haviam roubado a carteira: nada se perde, tudo muda de dono.

12) Existem dois tipos de mulheres: As que me amam e as que não me conhecem.

13) Pior do que político em época de eleição, só eles mesmos durante os anos de mandato.

14) É claro que uma relação platônica é possível; mas só entre marido e mulher.

15) Sou do tempo em que brincar de passar anel era uma brincadeira inocente de crianças, e sentar na boneca era apenas quebrar um brinquedo.

16) Já não aguento mais, há 30 anos minha mãe sempre me faz a mesma pergunta: − Filho quando você vai trabalhar?

17) Em terra de alcoólatra, álcool em gel é patê!

18) Meu amor por você é como visita de gente chata: nunca acaba!

19) Azarado é o Saci que nunca começa nada com o pé direito.

20) Amigo não é aquele que impede você de fazer algo que vai se arrepender, é aquele que faz junto.

21) Minha mãe diz para eu evitar más influências, mas eu ignoro porque não quero perder todos os meus amigos.

22) Meus amigos são perfeitos; uns perfeitos idiotas.

23) Simpatia para ganhar dinheiro: acorde cedo, tome banho e vá trabalhar.

24) Comida gordurosa é romântica... Vai direto pro coração.

25) Se a vida estiver muito amarga, dá uma rebolada. Às vezes, o açúcar está no fundo.

26) Se o seu problema é dinheiro, e você não tem dinheiro, então você não tem problema.

27) Quem inventou a seriedade, só podia estar de brincadeira...

28) O primeiro sentimento de quem está de dieta é o de revolta. Dá vontade de acabar com tudo, a começar pelo que tem na geladeira.

29) Se sou indeciso? Sim. Só que não. Porém. Talvez. Não, peraí...

30) O grande problema do Brasil atualmente, é que estamos tentando explicar a diferença entre Democracia e Ditadura, para quem confunde FGTS com STF.

31) Nada contra a cidade que eu moro. O problema está nos habitantes.

32) Foto da minha namorada comigo: 35 curtidas. Foto da minha namorada sozinha: 200 curtidas. Estou de olho, hein rapaziada!

33) A minha arrumação de quarto consiste em pegar a bagunça que está na cama e colocar na cadeira.

34) Regra básica da discussão: se estiver perdendo, corrija o português da pessoa.

35) Se eu fizer planos para amanhã, já dá errado hoje.

36) Chamar o ex-marido de demônio é fácil. Quero ver assumir que já foi possuída por ele.

37) Deitado, olhando pro nada e imaginando como seria a minha vida com um emprego.

38) Se eu colocar uma paranoia na minha cabeça, acho mais fácil eu tirar a cabeça, do que a paranoia.

39) Quando você tiver quase me esquecendo, vou passar em frente à sua casa e pedir água.

40) Estou fazendo a dieta da fé. Como de tudo e fico à espera de um milagre.

41) Quem inventou o deboche, mirou todo em mim.

42) Quem não me conhece, pensa que eu sou chato. Quem me conhece, tem certeza.

43) Tanta coisa pra eu desistir hoje, que nem sei por onde começar...

44) Está tão quente, que ao invés dos fantasmas aparecerem com um lençol branco, estão aparecendo só de cueca.

45) Não sou de dar palpites. Mas se quiser uma sugestão, eu dou.

46) “Você não vai conseguir!” é a frase mais motivadora que existe.

47) Transar todo mundo gosta. Mas buscar a garrafa de água, ninguém quer.

48) Atenção: não adianta postar frases como “Rezando pela Amazônia” ou “Salvem nossa flora”, se nem a samambaia da sua casa você molha.

49) Só é corno, quem é curioso.

50) A prova que a mulher ama mais o marido que os filhos, é que ela deixa os filhos com a vizinha, mas o marido não.

51) Desculpe pelo atraso. É que eu não queria nem ter vindo.

52) Cobrar é fácil, quero ver é contribuir.

53) Finja que eu sou motorista de ônibus e me fale somente o necessário.

54) Você gosta de funk? Não, prefiro ouvir música.

55) Lembrando que no Dia dos Pais só pode postar foto com o filho quem pagou a pensão.

56) Sim. Cada um tem uma opinião, e a sua está errada.

57) Não é por você ter me negado aquele Toddynho na 3ª série, numa manhã ensolarada de 6 de março de 2003 às 09:40, que eu guardo rancor de você!

58) Dizem que com a idade vem a sabedoria. Mas no meu caso veio a velhice, mesmo.

59) Se você quer espaço, vira astronauta.

60) Se você não tem boletos para pagar, você está vivendo errado.

61) Amizade é igual tênis da Nike: todo mundo tem, mas poucos são verdadeiros.

62) Quando vocês me oferecerem comida, me ofereçam de novo. A primeira vez eu recuso por educação.

63) Você foi a melhor coisa que sumiu da minha vida.

64) Oi! Vem aqui em casa pra gente assistir só o começo de um filme?

65) Hoje em dia, demoramos 16 anos para saber se o filho é menino ou menina.

66) Fala na cara! Nas costas você faz mensagem!

67) Odeio quem fala “Tô chegando”, quando ainda nem saiu de casa.

68) Gosto de pessoas doces, gosto de situações claras – e por tudo isso – ando cada vez mais só.

69) Espelho, espelho meu... por que as pessoas se preocupam mais com a minha vida do que eu?

70) Um brinde aos nossos defeitos. Porque com as nossas qualidades ninguém se importa mesmo.

71) O final de semana deveria levar uma multa por excesso de velocidade.

72) Se quem ama cuida, muita gente deve me amar. Porque o que tem de pessoas cuidando da minha vida, não é brincadeira!

73) Até a bateria do meu celular dura mais do que o amor eterno de certas pessoas!

74) Quando a mulher diz: Faz o que você quiser, ela quis dizer: Experimenta fazer pra ver o que te acontece.

75) Quanto mais coisas eu tenho pra fazer, mais tempo eu passo no Facebook.

76) Frase de um banheiro público: “Olha só a cagada que você está fazendo!”

77) Puxe a descarga com força. Há um longo caminho até o Congresso Nacional.

78) Eu até me avisei... mas não me ouvi.

79) Parei com esse negócio de uma mão lava a outra: quando chega na minha vez, nunca tem água.

80) Bala perdida tem mais rumo que eu!

81) Horrível ser pobre e não poder quebrar as coisas quando se está com raiva.

82) Oi! Notei que você só fica com pessoas bonitas, quer experimentar algo diferente?

83) Queria dormir com quem eu gosto, mas, infelizmente, não cabem todas na minha cama.

84) Quando era criança morria de medo de bêbado, hoje sei que a gente não faz mal a ninguém!

85) Se você cair, eu estarei aqui – disse o chão!

86) Ninguém é obrigado a gostar de mim, afinal, nem todos nascem com bom gosto.

87) A única boca que eu estou beijando este ano é a boca da latinha de cerveja...

88) Fui sacudir a poeira e dar a volta por cima… aí a rinite me atacou!

89) Minha posição favorita é em pé, na frente de um caixa eletrônico, sacando dinheiro!

90) Não sou desorganizado, apenas dou liberdade para minhas coisas ficarem onde elas quiserem!

91) Pobre é como pneu, quanto mais trabalha, mais liso fica!

92) Procure alguém que me entenda e depois me explique.

93) Você pensa: Um presidente não pode ser tão sem noção… Sim, ele pode!

94) Vocês que já tomaram um rumo? Ele tem gosto de quê?

95) Sua mensagem foi recebida, visualizada e ignorada com sucesso!

96) O dia que alguém correr atrás de mim, podem ter certeza, é assalto!

97) Vamos amar o próximo, que o anterior a gente sabe que não deu certo.

98) A esperança é a última que morre, e a minha paciência é a primeira.

99) Por que o governo não proíbe de uma vez os jogos de azar e libera só os que dão sorte?

100) Nada contra você, mas se quiser passar o resto da vida sem aparecer na minha frente eu agradeço!

101. Se você ouvir um tropel de cavalos, à noite, na sua rua, muito cuidado: pode ser um trote!

102. Esta desgraça que está acontecendo no Brasil irá acabar em 31 de dezembro de 2022, quando mudar o governo.


domingo, 29 de setembro de 2019

Português não é para amador



A diferença de doida e doída é um acento.

Assento não tem acento.

Nunca assento num acento, porque dói.

Assento é embaixo, acento é em cima.

Embaixo é junto, e em cima é separado.

Na sexta comprei uma cesta, logo após a sesta.

É a primeira vez que tu não o vês?

Vão tachar de ladrão se alguém taxar muito alto a taxa da tacha.

Asso um cervo na panela de aço que será servida pelo servo.

Vão cassar o direito de caçar de dois pais no meu país.

Por tanto nevoeiro, portanto, na serraria, a cerração impediu a serração de madeira.

Para começar o concerto, tiveram que fazer um conserto no piano.

Ao empossar o novo gerente, permitiu à esposa empoçar a sala de lágrimas.

Uma mulher vivida é sempre mais vívida; profetiza a profetisa.

O que é correto? Como se deve dizer:
Ele calça as botas?
Ele bota as botas?
Ele bota as calças?
Ele calça as calças?

A mãe para a filha mais nova:
− Calça você a bota.
E para a filha mais velha:
− Bota você a calça.

A palavra Oxítona é proparoxítona.

O carteiro, que as cartas sela, fugiu da cela em um cavalo sem sela.

No caminho, teve sede, e, avistando uma fazenda, a sede, correu para lá, onde encontrou uma senhorinha que andava devagar e gostava de divagar.

Ela começou a falar ao cavaleiro viajante sobre um cavalheiro andante que os homens do Capitão estavam a procurar, dizia ela que se ele fosse rumo à capital, sem capital, dificilmente chegaria lá.

Ela ofereceu-lhe uma torta, e ele, de cara torta, logo aceitou.

Na fábrica, ele fabrica bolos com gosto que eu gosto.

No concelho, ele deu um conselho, na seção, durante a sessão sobre a cessão de alvarás.

Eu canto em qualquer canto, até no forte verão, vocês verão!

No barraco, ele vela o defunto com uma vela na mão.

Ele saiu do hospital depauperado, porque foi operado de fimose.

Foram usadas duas brochas para segurar o salto do sapato do homem tachado de broxa!

− Quantas botas trazes calçadas?
− Duas.
− Não, três. Bota e meia em cada pé.

Quando eu saio cedo de casa, eu cedo o meu lugar sentado aos mais velhos.

Os alpinistas estão escalando o morro. Não vou porque morro de medo de morro alto!

A abobada viu a abóbada da igreja, quando estava na área em frente ouvindo um ária musical.

Depois da sessão das 15 horas, fui a uma loja, e na seção de calçados, pedi à moça a cessão de algumas caixas vazias.

Hoje ele pode sair mais cedo, mas ontem ele não pôde

− Você tem alguma forma de fazer bolo para me ensinar?
− Não, mas posso lhe emprestar a minha fôrma de bolo, que você fará qualquer bolo.

Este detalhe me passou despercebido, porque estava desapercebido de óculos.

Ele espiava pela janela o preso que expiava sua pena condenatória.

Os alunos, só de sacanagem, apelidaram o professor pedante de peidante!

Um poeta escreveu: “Entre doidos e doídos, prefiro não acentuar”.

Eu, por exemplo, prefiro a carne ao carnê.

Assim, como, obviamente, prefiro coco ao cocô.

Pense no cágado, por exemplo, o ser vivo mais afetado quando alguém pensa que o acento é mera decoração.

Eu não me medico. Eu vou ao médico.

Quem baba não é a babá.

Vou à secretaria para falar com a secretária.

Será que a romã é de Roma?

E você, prefere ser um a pessoa vívida ou vivida?

Seus pais vêm do mesmo país?

Seria maio o mês mais apropriado para se colocar um maiô?

Quem sabe mais entre a sábia e o sabiá. Você sabia a resposta?

O que tem a pele do Pelé?

O que há em comum entre o camelo e o camelô?

Tudo que se musica vira música?

Enquanto ele absorvia a água da esponja, o padre absolvia os pecados dos fiéis.

Ele vendeu uma vista à vista, agora não avista quase nada.

Eu quero duzentos gramas de presunto, para comer na grama. O grama está caro, mas a grama está verdinha.

Percentagem ou porcentagem? Tanto faz. A palavra agrada a gregos e troianos.

Se não sabes a diferença entre “vês” e “vez” é porque vês sempre muita televisão em vez de leres um bom livro. Agora já vês? Ou repito outra vez?

Na reforma de um armário, o pintor utilizou a broxa para fazer uma primeira pintura rápida; e o carpinteiro usou pequenas brochas para fixar o fundo da gaveta. Brigaram, um chamou o outro de broxa. O outro respondeu: Brocha é você! Os dois tinham razão.

Ao ir ao encontro da namorada, ele foi, com seu carro, de encontro a um muro alto.

Quem é destro não é sinistro, e quem é sinistro não é destro. Destro é quem tem habilidade na mão e no pé direito. Sinistro é quem tem habilidade na mão e no pé esquerdo. O sinistro é vulgarmente chamado de canhoto.

*Ambidestro: que ou o que se serve, com a mesma eficiência, de ambas as mãos, ou ambos os pés.

O craque Messi, além de seu jeito sinistro, é sinistro!

O Ministro da Fazenda, que também foi comerciante, não vendia fazendas para as fazendas.

Estava fazendo muito frio. Ele convidou-a a entrar num bar para se aquecer. Ele pediu uma garrafa de cachaça e dois copos. Depois de enchê-los, disse:
− Esta cá é meu e este aqui é seu.
Ela aquiesceu de novo. Bebeu e se aqueceu.

Ela trouxe o presente para eu desembrulhar? Que bom que ela trouxe o presente para mim!

Quem fala que não tem nenhum “pobrema” é mentiroso ou ignorante? Eis a questão do problema!

− Por que faltaste as aulas, diga, eu quero saber por quê?
− Faltei porque estava doente. Eis o porquê das faltas.

Interessante... todas as vezes que o “que” bate num ponto final, (qualquer sinal de pontuação) ele usa chapéu para não machucar a cabeça...

Na semana passada, fui a Brasília e à Bahia, logo estive em Brasília e na Bahia. Depois de dez dias, voltei de Brasília e voltei da Bahia. Percebeste que quem vai à, volta da; e quem vai a, volta de? E quem em fica sem, e quem fica na, acento no à?

É preferível vivermos confinados, do que com finados!

Há cerca de 10 anos, ele já falava acerca de uma praça de nossa cidade que fica a cerca de 20 km do centro, ao lado de uma casa que tem uma cerca branca.

Uma andorinha só não faz verão. Digo isso, porque no verão vocês verão!

Por ora eu quero saber a hora que você chegará em casa, ora bolas!

O menino, sapeca, chegou no posto e cheirou a gasolina. Saiu dali cheirando à gasolina.

O menino foi ao zoológico e queria muito ver elefantes e elefoas, também viados correndo na mata. A moça da informação, corrigindo o garoto, disse a ele que ali só havia elefantes e elefantas, e informou ao garoto que ali não tinha veados.

Plural é uma palavra singular, e adjetivo é substantivo.

O homem, mal-educado, por não querer sentar-se à mesa, sentou a mesa no garçom do restaurante. 

Catequese se escreve com s, mas catequizar é com z. Esse português...

Coser significa costurar. Cozer significa cozinhar.

Não esqueça: retificar é corrigir, e ratificar é comprovar, reafirmar: “Eu ratifico o que disse e retifico meus erros”.

Quando disser ruim, diga como se a sílaba mais forte fosse “im”. Não tem cabimento outra pronúncia.

Já se disse muitas vezes, mas vale repetir: televisão em cores, e não a cores.

Não adianta teimar: chuchu se escreve mesmo é com ch.

O aluno perguntou ao professor se podia dar uma telefonada. O mestre retrucou: “Na cabeça de quem?”. “Talvez você queira é dar um telefonema, não é mesmo?”

Gramática é aquilo que ensina a escrever certo o que já se fala errado.

O professor, no seu primeiro dia de aula, numa escola noturna de segundo grau, revelou aos seus alunos que era heterossexual. A maioria ficou pasma!

O funcionário do cartório pediu-me que colocasse a minha “rúbrica” em todos os documentos que eu estava assinando. Eu disse a ele que não poderia fazer isso, pois não sabia o que era “rúbrica”. Se fosse para colocar a minha rubrica, com ênfase na sílaba “bri”, eu saberia o que era para fazer.

No último Natal, quando visitava a cidade de Gramado, no Rio Grande do Sul, ouvi de uma criança: “A rua está cheia de luzezinhas.” Todos riram, e eu fiquei envergonhado... Não da criança, que na sua inocência falara da maneira correta, mas daqueles que riram. Os brasileiros costumam falar luzinhas. Esta forma é muito usada, mas desrespeita a regra. A criança estava certa.

O cozinheiro, na frente de todos, fritou as gemas às claras.

Onde eu digo “digo”, eu não digo “digo”, eu quero dizer Diogo.

Quem monta num cavalo cavalga. Quem toma uma barca embarca.

Mas não se cavalga num burro, nem se embarca num transatlântico.

Um freguês interessado em comprar um queijo, pergunta ao vendedor:

– Quantas gramas têm esse queijo?

Brincando, o feirante responde:

– Nenhuma, ora... Ele é feito de leite. Mas se o senhor tivesse perguntado quantos gramas têm esse queijo, aí eu saberia responder... 

Quem toca violão é violonista; quem toca violino é violinista; quem toca viola é violista e quem toca violoncelo é violoncelista.

Vendo o pôr do sol. O pôr do sol está à venda? Ou alguém está observando o pôr do sol?

Ela fabrica vestidos na sua fábrica caseira. Notaram que fabrica é verbo e é uma palavra paroxítona; enquanto fábrica é substantivo e é proparoxítona?

Na sua agência, ele agencia novas modelos. Notaram que agência é trissílaba e substantivo e termina num ditongo crescente, enquanto agencia é polissílaba e verbo, pois termina num hiato, que é o encontro de duas vogais em sílabas separadas?

No lugar onde moro faz muito calor, isto é, no lugar em que moro tem temperatura muito alta, pois no lugar aonde cheguei faz calor, isto é, no lugar a que cheguei faz calor.

Por que há cinco sílabas na palavra monossílaba?

Se eu afirmar que esta frase não é uma pergunta, ele continuará sendo?

A vida é feita de fases. Ou fazes ou não fazes.

Um famoso político foi a um asilo de velhinhos iniciar a campanha de vacinação. Ele começou assim o seu discurso: 

“Meus prezados anciãos, digo, anciães, ou melhor, anciões.” Se autocorrigindo sem saber que a palavra ancião tem três plurais. Os três, que ele utilizou, estavam certos. 

A mãe bateu na filha porque estava bêbada. Afinal, quem estava bêbada?

Soldados! Em frente e enfrente o inimigo! 

A palavra idiossincrasia tem uma peculiaridade que é significar peculiaridade.

Às vezes tem crase, mas não todas as vezes. 

Quem gosta de doce-de-coco sabe a importância de um circunflexo. (Sérgio Porto)

Iremos ao Guarujá por Santos para pôr uns santos numa igreja.

Foste escolhido porque és assaz inteligente, pois assas churrasco muito bem. 

Ele gosta de noz importada; já nós, da brasileira. 

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Poemas de Gioia Junior*



Não negues nunca o pão ao que te bate à porta,
nem o trates jamais de maneira violenta.
Amar é o sumo bem e, se o pão alimenta,
o gesto vivifica e a palavra conforta.

Vê no desconhecido a velha folha morta
que, às tontas, voluteia agarrada à tormenta;
ama-o como a ti mesmo. O amor constrói, sustenta,
encoraja, encaminha, ensina, instrui e exorta.

Não o faças, porém, visando recompensa:
o interesse amesquinha e desvirtua a crença.
Ama pelo prazer que o próprio amor produz.

Ao que te pede o pão não o negues jamais,
nem queiras ver, depois, teu nome nos jornais;
faze-o, com humildade, em nome de Jesus!

Oração da maçaneta


Não há mais bela música
que o ruído da maçaneta da porta
quando meu filho volta para casa.

Volta da rua, da vasta noite,
da madrugada de estranhas vozes,
e o ruído da maçaneta
e o gemer do trinco,
o bater da porta que novamente se fecha,
o tilintar inconfundível do molho de chaves
são um doce acalanto,
uma suave cantiga de ninar.

Só assim fecho os olhos,
posso afinal dormir e descansar.

Oh! a longa espera,
a negra ausência,
as histórias de acidentes e assaltos
que só a noite como ninguém sabe contar!

Oh! os presságios e os pesadelos,
o eco dos passos nas calçadas,
a voz dos bêbados na rua
e o longo apito do guarda
medindo a madrugada,
e os cães uivando na distância
e o grito lancinante da ambulância!

E o coração descompassado a pressentir
e a martelar
na arritmia do relógio do meu quarto
esquadrinhando a noite e seus mistérios

Nisso, na sala que se cala, estala
a gargalhada jovem
da maçaneta que canta
a festiva cantiga do retorno.
E sua voz engole a noite imensa
com todos os ruídos secundários.
− Oh! os címbalos do trinco
e os clarins da porta que se escancara
e os guizos das muitas chaves que se abraçam
e o festival dos passos que ganham a escada!
Nem as vozes da orquestra
e o tilintar de copos
e a mansa canção da chuva no telhado
podem sequer se comparar
ao som da maçaneta que sorri
quando meu filho volta.

Que ele retorne sempre são e salvo,
marinheiro depois da tempestade
a sorrir e a cantar.
E que na porta a maçaneta cante
a festiva canção do seu retorno
que soa para mim
como suave cantiga de ninar.

Só assim, só assim meu coração se aquieta,
posso afinal dormir e descansar.

Sê corajoso e forte


Quando estiveres fatigado e triste
e meditares na terrível sorte,
não temas, pois Jesus é teu amigo:
Sê corajoso e forte!

Se te apanharem pelo mar da vida,
da dor cruenta o vendaval e a morte,
não desanimes, Cristo está contigo:
Sê corajoso e forte!

Se, no trajeto pelo mundo incauto,
vires perdida a orientação, o norte,
segue a Jesus e Ele será teu guia:
Sê corajoso e forte!

Se o dissabor, que fere a humanidade,
no coração abrir-te fundo corte,
pede a Jesus, pois Ele dá o alívio:
Sê corajoso e forte!

Se forem tantas as dificuldades,
que a tua força já não mais suporte,
roga ao Senhor que te mantenha firme:
Sê corajoso e forte!

Se vacilares, pela vida escura,
e com teu mal o mundo nem se importe,
ora com fê − e te erguerás contente:
Sê corajoso e forte!


*Gioia Júnior foi um dos maiores nomes do nosso rádio e da nossa televisão. Rafael Gioia Junior nasceu na cidade de Campinas, interior de São Paulo, no dia 9 de agosto de 1931.  O grande radialista, jornalista, advogado e político faleceu em 3 de março de 1996. Estava com 64 anos de idade.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

A última visita

Euclides da Cunha


Casa no Cosme Velho, onde faleceu Machado de Assis.

Na noite em que faleceu Machado de Assis, quem penetrasse na vivenda do poeta, em Laranjeiras, não acreditaria que estivesse tão próximo o desenlace de sua enfermidade. Na sala de jantar, para onde dizia o quarto do querido mestre, um grupo de senhoras – ontem meninas que ele carregara no colo, hoje nobilíssimas mães de família – comentavam-lhe os lances encantadores da vida e reliam-lhe antigos versos, ainda inéditos, avaramente guardados em álbuns caprichosos. As vozes eram discretas, as mágoas apenas rebrilhavam nos olhos marejados de lágrimas, e a placidez era completa no recinto, onde a saudade glorificava uma existência, antes da morte.

No salão de visitas viam-se alguns discípulos dedicados, também aparentemente tranquilos.

E compreendia-se desde logo a antilogia de coração tão ao parecer tranquilos na iminência de uma catástrofe. Era o contágio da própria serenidade incomparável e emocionante em que ia a pouco e pouco se extinguindo o extraordinário escritor. Realmente, na fase aguda de sua moléstia, Machado de Assis, se por acaso traía com um gemido e uma contração mais viva o sofrimento, apressava-se a pedir desculpas aos que o assistiam, na ânsia e no apuro gentilíssimo de quem corrige um descuido ou involuntário deslize. Timbrava em sua primeira e última dissimulação: a dissimulação da própria agonia, para não nos magoar com o reflexo da sua dor. A sua infinita delicadeza de pensar, de sentir e de agir, que no trato vulgar dos homens se exteriorizava em timidez embaraçadora e recatado retraimento, transfigurava-se em fortaleza tranquila e soberana.

E gentilissimamente bom durante a vida, ele se tornava gentilmente heroico na morte...

Mas aquela placidez augusta despertava na sala principal, onde se reuniam Coelho Neto, Graça Aranha, Mário de Alencar, José Veríssimo, Raimundo Correia e Rodrigo Otávio, comentários divergentes. Resumia-os um amargo desapontamento.

De um modo geral, não se compreendia que uma vida que tanto viveu outras vidas, assimilando-as através de análises sutilíssimas, para no-las transfigurar e ampliar, aformoseadas em sínteses radiosas – que uma vida de tal porte desaparecesse no meio de tamanha indiferença, num círculo limitadíssimo de corações amigos. Um escritor da estatura de Machado de Assis só devera extinguir-se dentro de uma grande e nobilitadora comoção nacional.

Era pelo menos desanimador tanto descaso – a cidade inteira, sem a vibração de um abalo, derivando imperturbavelmente na normalidade sua existência complexa, quando faltavam poucos minutos para que se cerrassem quarenta anos de literatura gloriosa...

Neste momento, precisamente ao enunciar-se este juízo desalentado, ouviram-se umas tímidas pancadas na porta principal da entrada.

Abriram-na. Apareceu um desconhecido: um adolescente, de 16 a 18 anos no máximo. Perguntaram-lhe o nome. Declarou ser desnecessário dizê-lo: ninguém ali o conhecia; não conhecia, por sua vez, ninguém; não conhecia o próprio dono da casa, a não ser pela leitura de seus livros, que o encantavam. Por isto ao ler nos jornais da tarde que o escritor se achava em estado gravíssimo tivera o pensamento de visitá-lo. Relutara contra essa ideia, não tendo quem o apresentasse: mas não lograra vencê-la. Que o desculpassem, portanto. Se não lhe era dado ver o enfermo, dessem-lhe ao menos notícias certas do seu estado.

E o anônimo juvenil – vindo da noite – foi conduzido ao quarto do doente.

Chegou. Não disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre; beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-o depois por algum tempo ao peito. Levantou-se e, sem dizer palavra, saiu.

À porta José Veríssimo perguntou-lhe o nome. Disse-lho.*

Mas deve ficar anônimo. Qualquer que seja o destino dessa criança, ela nunca mais subirá tanto na vida. Naquele momento o seu coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo – no meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis – aquele menino foi o maior homem de sua Terra.

Ele saiu – e houve na sala há pouco invadida de desalentos uma transfiguração.

No fastígio de certos estados morais concretizaram-se às vezes as maiores idealizações. Pelos nossos olhos passara a impressão visual da Posteridade.

(30 de setembro de 1908 – Jornal do Commercio)

 

Astrojildo Pereira

* Em 1964, a casa de nº 11 da rua do Bispo, no Rio Comprido, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, foi invadida e saqueada pela polícia. Ali morava um perigoso subversivo chamado Astrojildo Pereira Duarte Silva, o jovem que visitou Machado de Assis, em seu leito de morte, de 74 anos e armado de livros até o teto.

Durante quase 30 anos Astrojildo moitou sobre a identidade da “última visita” de Machado, afinal revelada por Lúcia Miguel Pereira em 1936. Àquela altura, ele já era um nome bem conhecido, junto às esquerdas principalmente. Fazia então quatro anos que o Partido Comunista o afastara de seus quadros, por considerá-lo um “intelectual pequeno-burguês” e “oportunista”. Além do mais, prestista. Foi por seu intermédio que o tenente Luís Carlos Prestes, exilado na Bolívia, teve acesso aos primeiros clássicos do marxismo-leninismo.

Autodidata desde a adolescência, o “revolucionário cordial” nem concluiu o curso ginasial. Como tantos jovens da sua geração, foi civilista, anarquista, e antes mesmo de desviar para o comunismo, em 1921, já não via com bons olhos o Águia de Haia. Quando este morreu, em 1923, foi todo ironia: “O proletariado não perdeu nada com isso, antes pelo contrário”. Mas a Machado e ao comunismo permaneceu fiel a vida inteira. Nasceu em Rio Bonito, RJ, 8.11.1890 e faleceu no Rio de Janeiro em 20.11.1965.