sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Parque Moinhos de Vento



O nome do Parque remonta ao século XVIII, quando o mineiro Antônio Martins Barbosa estabeleceu na região, em uma parte elevada da avenida Independência, o seu moinho de vento. Na época, o trigo era um produto de grande importância econômica para o povo da freguesia de Nossa Senhora de Madre de Deus, que se tornou cidade de Porto Alegre em 1822. Até hoje o estado do Rio Grande do Sul é um dos maiores produtores de trigo do país.

Em 1839, o cartógrafo Luís Pereira Dias confeccionou um mapa da cidade e registrou um ponto da zona, na altura do atual Colégio Bom Conselho, como “Moinhos de Vento Velho”.

A história do parque está ligada também à Associação Rio-Grandense de Turfe. Até o século XIX, Porto Alegre teve cinco hipódromos conhecidos: o Rio-Grandense, no Menino Deus; o Estrada do Mato Grosso, no Partenon, o Boa Vista, no bairro Santana; o Navegantes, no bairro homônimo; e o Independência, no atual Moinhos de Vento. O turfe foi muito popular até 1904, ano em que se introduziu o futebol. Tendo perdido espaço para este esporte, dos cinco hipódromos somente o Independência conseguiu se preservar e logo passou a ser chamado de Hipódromo Moinhos de Vento. Porém, este não conseguia mais dar conta da demanda com sua limitada estrutura, e o Jockey Club do Rio Grande do Sul se viu obrigado a procurar um novo lugar para suas atividades, fundando o Hipódromo do Cristal, na zona sul da cidade.

Atentos à necessidade e aos benefícios de áreas verdes na cidade, foram o jornalista Alberto André e os vereadores Germano Petersen Filho, Mariano dos Santos e Say Marques que decidiram transformar a área do hipódromo Moinhos em um “jardim público”. Em 8 de março de 1960, na Câmara dos Vereadores, Petersen Filho pediu ao então prefeito José Loureiro da Silva um estudo para a criação de um parque. O decreto 2419 de 10 de setembro de 1962 desapropriou a área do Jockey Club, de modo que o pagamento da compra foi realizado em três formas: em dinheiro, em quitação e em resgate de taxas. Por fim, o decreto 3703 de 9 de novembro de 1972 oficializou a denominação da área: Parque Moinhos de Vento.

Além do hipódromo, funcionou também no parque, até o ano de 1954, o Estádio da Baixada, pertencente ao Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, o qual inaugurou o Estádio Olímpico Monumental naquele mesmo ano, no bairro Azenha.


(Do blog Porto Muito Mais Alegre)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Mensagens para 2020



A Felicidade

A felicidade não depende do que acontece ao nosso redor, senão do que acontece dentro de nós mesmos.
A felicidade se mede pelo espírito com que enfrentamos as dificuldades da vida...
A felicidade é um assunto de valentia; é muito mais fácil sentir-se deprimido e desesperado...
A felicidade é um estado de ânimo; não somos felizes até que decidamos sê-lo;
A felicidade não consiste em fazer sempre o que queremos; senão a querer tudo o que fizemos.
A felicidade nasce de colocar nosso coração no trabalho... E de fazê-lo com alegria e entusiasmo.
A felicidade não tem receitas... Cada um a cozinha com o tempero de sua própria preferência...
A felicidade não é uma pousada no caminho... senão uma forma de caminhar durante a vida!

Quantas vezes...

Quantas vezes nós pensamos em desistir, deixar de lado o ideal e os sonhos.
Quantas vezes batemos em retirada, com o coração amargurado pela injustiça.
Quantas vezes sentimos o peso da responsabilidade, sem ter com quem dividir.
Quantas vezes sentimos solidão, mesmo cercado de pessoas.
Quantas vezes falamos, sem sermos notados.
Quantas vezes lutamos por uma causa perdida.
Quantas vezes voltamos para casa com a sensação de derrota.
Quantas vezes aquela lágrima teima em cair, justamente na hora que precisamos parecer fortes. Quantas vezes pedimos a Deus um pouco de força, um pouco de luz.
E a resposta vem, seja lá como for, um sorriso, um olhar cúmplice, um cartãozinho, um bilhete, um gesto de amor. E a gente insiste. Insiste em prosseguir, em acreditar, em transformar, em dividir, em estar, em ser. E Deus insiste em nos abençoar, em nos mostrar o caminho, aquele mais difícil, mais complicado, mais bonito. E a gente insiste em seguir, por ter uma missão: ser feliz.

O Livro da Vida

Tua vida é como um livro. O título corresponde ao teu nome.

O prefácio é uma introdução ao mundo. As páginas são as crônicas diárias de teus esforços. O assunto principal de teu livro pode ser tua profissão, teus negócios, o amor, a ciência, a literatura e a religião. Dia a dia, teus pensamentos e atos são escritos nele, como prova de teu êxito ou fracasso. 

Tudo que tu anotas em cada uma das páginas, é de vital importância, pois ficará registrado para sempre.

Um dia, terás de escrever a palavra fim. Faça que, então, possas dizer que teu livro é um modelo de nobres propósitos e serviço generoso ao mundo. Seja valente; te esforça; dá o melhor de ti e aparecerá escrito o melhor de tua vida.

O que é um verdadeiro amigo:

“Amigo é aquele que chega quando todo o mundo já se foi.”

−  Meu amigo não voltou do campo de batalha, senhor. Solicito permissão para ir buscá-lo (disse um soldado a seu tenente).
− Permissão negada. (respondeu o oficial).
− Não quero que você arrisque sua vida por um homem que provavelmente esteja morto.

O soldado, ignorando a proibição, saiu, e uma hora mais tarde voltou ferido, transportando o cadáver de seu amigo. O oficial estava furioso:
− Eu não te disse que ele estava morto! Diga - me, valia a pena ir até lá para trazer um cadáver?
E o soldado, extenuado, respondeu:

− Claro que sim, senhor! Quando o encontrei, ele ainda estava vivo e pode me dizer: “Tinha certeza que virias”.

A vida

A vida é como um labirinto, com muitas opções para seguir. No caminho diário podemos nos chocar contra as paredes quando as circunstâncias são difíceis, mas é preciso tomar uma atitude positiva e de desapego; nada conseguimos ficando angustiados, preocupados e nos torturando com os problemas... Para qualquer dificuldade na vida existe uma razão, que escapa do nosso entendimento. Naquele momento. Não podemos entender o porquê de tantas paredes no labirinto, a menos que nos elevemos e vejamos a situação completa.

O que podemos?

Com dinheiro podemos comprar uma cama, mas não os sonhos; livros, mas não cultura; comida, mas não apetite; adornos, mas não beleza; uma casa, mas não um lar; remédios, mas não saúde; luxos, mas não simpatia; diversões, mas não felicidade; um crucifixo, mas não um Salvador; uma igreja, mas não o paraíso. E lembra, tudo que o dinheiro não é capaz de comprar, Deus nos dá de graça.

A lição de um velho

Um velho estava cuidando de uma planta com todo o carinho. Um jovem aproximou-se e perguntou:
 − Que planta é esta que o senhor está cuidando?
 − É uma jabuticabeira, respondeu o velho.
− E ela demora quanto tempo para dar frutos?
 − Pelo menos uns quinze anos, informou o velho.
− E o senhor espera viver tanto tempo assim? indagou, irônico, o rapaz.
− Não, não creio que viva mais tempo, pois já estou no fim da minha jornada, disse o ancião.
− Então, que vantagem você leva com isso, meu velho?
− Nenhuma, exceto a vantagem de saber que ninguém colheria jabuticabas, se todos pensassem como você...
Não importa se teremos tempo suficiente para ver mudadas as coisas e pessoas pelas  quais lutamos, mas sim, que façamos a nossa parte, de modo que tudo se transforme a seu tempo.

Simplicidade

A vida é feita de coisas muito simples... cada um tem um jeito de se expressar... Muitos não sabem dizer: “eu te amo” e acabam deixando passar o momento... Deixando escapar a chance de “ser” e “fazer” alguém feliz... Para viver feliz é preciso muito pouco...  Um olhar carinhoso... Um sorriso... Um beijo demorado... Uma brincadeira sadia... Um elogio...

Basta a presença de alguém para que tudo o mais seja só felicidade... Viva cada instante com amor e dignidade, e, no futuro, conte aos seus filhos e netos o segredo para se viver feliz. Ser amigo é tudo que importa!


Pila no linguajar gaúcho

Por que o gaúcho chama dinheiro de ‘pila’?


“Pila” (substantivo masculino) é um dos nomes pelos quais se denomina o dinheiro no Rio Grande do Sul. Desde que surgiu, nos anos 1930, tem equivalência paritária: hoje, um pila quer dizer um real.

A origem vem do sobrenome do político gaúcho Raul Pilla (20-1-1892 – 7-6-1973). Raul era filiado ao Partido Libertador (PL) em 1932. Pilla participou de dois levantes que apoiaram a Revolução Constitucionalista contra Getúlio Vargas. O movimento foi derrotado, e Pilla teve de se exilar na Argentina e no Uruguai, para fugir da perseguição de Vargas. A situação financeira de Raul Pilla, porém, era precária, e mal podia sustentar-se no exílio. Para ajudá-lo, seus partidários cotizaram-se e venderam bônus com valor de face (1 cruzeiro). Tais bônus rapidamente passaram a ser negociados como dinheiro entre os correligionários de Pilla. Como se tratava de “dinheiro” não oficial e criado especialmente para socorrer Raul Pilla no exílio, os bônus passaram a ser chamados de “pilas”. O nome ficou consagrado até hoje.

Apenas para ilustrar, Raul Pilla era médico de formação. Foi anistiado em 1935 e retornou à política, sendo secretário do governo de José Antônio Flores da Cunha. Em 1937, elegeu-se deputado estadual constituinte. Com o advento do Estado Novo, foi cassado e retornou à docência na Faculdade de Medicina de Porto Alegre (hoje integrada à UFRGS).

Na imagem acima, a fotografia de bônus de CR$100,00 (cem cruzeiros) = 100 pilas.

Prof. Menegotto


Raul Pilla*

*Raul Pilla (Porto Alegre, 20 de janeiro de 1892 − Porto Alegre, 7 de junho de 1973) foi um médico, jornalista, professor e político brasileiro, e um dos maiores defensores da adoção do regime parlamentarista, Pilla era chamado de O Papa do parlamentarismo no Brasil.

Pilla ingressou na política em 1909, com apenas dezessete anos, como secretário do diretório central do Partido Federalista do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Posteriormente, afirmaria que se aproximou do partido influenciado pelas ideias de Apeles Porto-Alegre, seu professor de história no Ginásio Júlio de Castilhos, adepto do parlamentarismo, uma das principais bandeiras dos federalistas.


Uma lenda da Lapa

A Igreja sem uma das torres, tiro de canhão?


Imagem de Justiniano Oliveira

(...) Wilson Batista gostava muito da Lapa, bairro inclusive onde viveu alguns anos, sendo que durante algum tempo residiu na rua Joaquim Silva. Mas a Lapa inspirou a Wilson um lindo samba de parceria com Marino Pinto, Largo da Lapa.

Foi na Lapa que eu nasci,
foi na Lapa que eu aprendi a ler.
Foi na Lapa que eu cresci,
e na Lapa, eu quero morrer.

A Lapa também tem a sua igreja,
pra que toda gente veja,
onde eu fui batizado.
A Lapa, onde já não há conflito,
fica no 5º Distrito,
onde eu fui criado.
Um samba, um sorriso de mulher,
bate-papo de café,
eis aí a Lapa.
Um samba, um sorriso de mulher,
bate-papo de café,
eis aí a Lapa.

Mas além dessa, Wilson compôs uma outra, mais interessante e que provocou muitos debates, pela incoerência de sua letra que, inclusive, deturpava a história: História da Lapa.

Lapa dos capoeiras,
Miguelzinho, Camisa Preta,
Meia-Noite e Edgar... *

Lapa, minha Lapa boêmia,
a lua só vai pra casa
depois do sol raiar.

Falta uma torre na igreja,
vou lhe contar, meu irmão,
foi na briga de Floriano,**
foi um tiro de canhão.
E nesse dia a Lapa vadia
teve sua glória,
deixou o nome na história.

Este samba deu bastante comentários, porque um repórter do jornal O Globo, inconformado com a letra da música, quis saber do famoso escritor e historiador Luiz Edmundo se era verdade que a torre da Igreja da lapa fora destruída por um tiro de canhão, no tempo de Floriano, ou seja, por ocasião da Revolta da Esquadra.***

Luiz Edmundo disse que a música estava errada, pois jamais tiro algum de canhão atingiu a torre da Igreja da Lapa. E ele podia afirmar isso com convicção, pois residia è época na rua da Lapa, à altura da rua Taylor, quando seu pai era encarregado de uma escola bem em frente àquela rua. Foi, portanto, uma testemunha dos acontecimentos e, em suas memórias, conta detalhadamente como observava dos fundos do quintal de sua casa a manobra dos navios da esquadra sob comando de Custódio de Melo e Saldanha da Gama. Era um espectador privilegiado, pois o mar vinha até a rua Augusto Severo. E jamais soube de tiro de canhão que arrasasse a torre da Igreja da Lapa.

(...) Certa vez, na Lapa, na calçada em frente à entrada do café Indígena, Jorge Faraj estava com alguns compositores, inclusive Wilson (Batista), perguntando o que havia de diferente na Igreja da Lapa. Nenhum deles, por mais que olhasse, acertou, até que Faraj com seu sorriso caricato disse que faltava uma torre na igreja. Todos riram.

(Trecho do livro “Wilson Batista e sua época”,
de Bruno Ferreira Gomes)

* Malandros da Lapa. Mas outros lugares como o Mangue, a Saúde, a Praça Onze e o Cais do Porto também abrigaram Meia-Noite, Beto Batuqueiro, Edgar, Sete-Coroas, Miguelzinho e muitos outros...

A partir de 1937, a vida do malandro vai ficando mais difícil. O Estado Novo de Getúlio Vargas, com sua ideologia de culto ao trabalho e à produção, inicia uma severa repressão aos “ociosos”.

Meia-Noite morreu assassinado por um desafeto em 1938. Miguelzinho morreu aos dezoito anos de morte natural. Joãozinho da Lapa foi assassinado por um companheiro de malandragem por volta de 1939. Edgar morreu aos 26 anos de idade − só um sobrou para contar a história...

João Francisco dos Santos − o Madame Satã, 1,75 m, 108 kg. sem um grama de gordura, forte e parrudo, cabelos negros longos e lisos, foi conhecido inicialmente como “Caranguejo da Praia das Virtudes”, onde nadava diariamente, e mais tarde como “Mulata do Balacochê”, o primeiro artista travestido Brasil.

**Floriano Peixoto (1839-1895) foi um militar e político brasileiro, primeiro vice-presidente e segundo presidente do Brasil, cujo governo abrange a maior parte do período da história brasileira conhecido como República da Espada.

***A Revolta da Armada foi um movimento de rebelião promovido por unidades da Marinha brasileira contra os dois primeiros governos republicanos, que estavam tomando feições de uma ditadura militar.


Na foto acima foto de 1925 vemos a Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Lapa do Desterro, tendo ainda ao fundo o convento, antigo seminário, que seria destruído por um incêndio no final da década de 50. O projeto é do século XVIII, do engenheiro José Fernandes Alpoim, e incluía a capela e um seminário. Obras de reforma aconteceram no século XIX e início do século XX.

É curioso que a igreja tenha uma torre sineira à esquerda e à direita apenas a coluna incompleta. Parece que seria completada apenas se fosse elevada à categoria de igreja-matriz. Outra hipótese, menos provável, é que o motivo disso vinha do Governo Português: na época cobraria altos impostos quando a construção estivesse concluída e aí a maneira encontrada para não pagar o imposto era deixar a obra inacabada.

(Do blog Saudades do Rio)


terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Marchinhas de Carnaval Educativas


Marchinha do Xixi

João Roberto kelly*


Tá com vontade de fazer xixi?
Não faz aqui-i!
Não faz aqui-i! (bis)

Nosso bloco a gente vê,
é cheiroso, é maneiro.
Tô falando pra você:
Lugar de mijão é no banheiro.

Marchinha do Porcalhão

João Roberto Kelly


Pulou a noite inteira,
jogou lixo no chão,
É porcalhão!
É porcalhão!

Pixou toda a cidade
e arranjou confusão.
É porcalhão!
É porcalhão!

Carnaval é fantasia,
alegria sem igual.
Malandro vem brincar direito
e faz o favor
de não sujar meu carnaval.

Se beber, não dirija.

João Roberto Kelly


Quero ver você feliz e contente,
curtindo o carnaval da gente.
Só peço uma coisa
que a todos convém:
Se beber, não dirija, meu bem.

Se beber, não dirija,
se beber, não dirija,
se beber, não dirija, meu bem!

Se beber, não dirija,
se beber, não dirija,
não dirija você, nem ninguém!

*João Roberto Esteves Kelly (Rio de Janeiro, 24 de junho de 1938) é um pianista, compositor e produtor musical brasileiro. Autor de Cabeleira do Zezé, Mulata iê iê iê, Bota a camisinha, etc...

Declaração polêmica de Damares,
inspira marchinha de João Roberto Kelly para o carnaval.


João Roberto Kelly, 80 anos de bom humor.

A polêmica declaração da ministra da Mulher Família e Direitos Humanos, Damares Alves, que disse que “meninas vestem rosa, e meninos vestem azul”, virou marchinha de carnaval nas mãos do compositor João Roberto Kelly, o “O rei das marchinhas”. Aos 80 anos, ele escreveu a música “Biquíni azul”, que é a aposta para o próximo carnaval.

− As minhas músicas todas são brincalhonas. Achei que essa polêmica dava uma marchinha. O menino de azul, e a menina de rosa... eu fiz o contrário. O carnaval é bom para essas coisas, para a gente brincar de forma saudável.

As marchinhas de João Roberto Kelly estão imortalizadas entre os foliões brasileiros. Ele é autor de clássicos como “Cabeleira do Zezé”, “Mulata iê iê iê” e “Maria Sapatão”, que estão entre as 20 músicas mais tocadas do carnaval de rua do Rio de Janeiro no último ano, segundo dados do Ecad.

− A marchinha é um ritmo do carnaval que todo mundo gosta, porque é fácil, agradável. A marchinha é para brincar o carnaval. É uma coisa leve, gostosa. − diz o compositor.

Confira a letra da nova marchinha de João Roberto Kelly:

Neste carnaval vou me divertir,
eu quero é confundir.
Vou brincar na Zona Norte,
Zona Oeste e Zona Sul.
Vou sair de sunga rosa;
minha mulher, de biquíni azul!

(Do blog do Jornal Extra, janeiro de 2019)

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

A lição do burro velho



Era uma vez um velho burro. Fora madraço* e manhoso. Não conquistara amigos porque os não merecia. Tinham-no lançado à margem no fim da vida. Principiou a viver ao acaso, pelos montes. Um dia, achava-se defronte de um valado*, estacado ao sol sobre as suas quatro patas, inerte, imóvel, olhando para um cardo seco com os seus grandes olhos redondos e encovados em órbitas esqueléticas, pensando nas vicissitudes da vida e procurando arrancar do seu cérebro, para se consolar, algumas ideias filosóficas.

Passou por ele e deteve-se a contemplá-lo um jovem asno, no viço das ilusões, cheio de amor e de zurros*, de alegria e de coices. A vetusta ossada angulosa do ancião parecia furar-lhe a pele ressequida e áspera. Um espesso enxame de moscas cobria-lhe as mataduras do lombo e dava-lhe o aspecto de ter um albardão* feito de zumbidos e de asas sobre um fundo de miçangas pretas e palpitantes, coisa rabujosa à vista.

− Sacode esse mosqueiro, disse-lhe o burro novo. Dar-se-á o caso de que, à semelhança do homem, deixasses também tu atrofiar o precioso músculo que aí tens na face para por meio dele abanares a orelha e moveres a pele?... Sacode-te, bestiaga*!

Ao que o lazarento*, pausado, retorquiu:

− Não sabes o que zurras, jovem temerário! O destino de quem tem mazelas é que o mosqueiro o cubra. As moscas que tu vês, e de que o meu cerro é a estalagem com mesa redonda, são moscas fartas, têm a mansidão abundante dos estômagos cheios. Se eu as sacudisse, viriam outras, − as famintas, de ferrões gulosos, que zunem como flechas, pousam como cáusticos, mordem como furúnculos. As que tu vês prestam-me um serviço impagável: − livram-me das que podem vir; são o meu xairel* benigno e suave, o meu arnês*, a minha couraça. Quando te chegar a idade de seres pasto de moscas (e breve te soará essa hora porque a mocidade é, como a erva, uma efêmera transição entre o alfobre* da meninice e a palha da idade madura); quando te chegar o teu dia, lembra-te, asninho imprudente, deste conselho amigo de um burro velho, que não aprende línguas, mas que tem a experiência que vale tanto como o ouro: Nunca sacudas mosca desde que criares mazela! Teme-te dos papos vazios das revoadas novas. Papos cheios não só não mordem, mas até empacam! Compreendeste, burrinho, a filosofia da minha inércia?


As Farpas: Crônica Mensal da Política, das Letras e dos Costumes
José Duarte Ramalho Ortigão.

Glossário:

*Madraço: que ou aquele que não se empenha em suas atividades, que é dado ao ócio; mandrião, preguiçoso, vadio.

*Valado: ala rasa, guarnecida de tapume ou sebe, que cerca uma propriedade rural.

*Zurro: som produzido por equídeo, burro, jumento; relincho.

* Albardão: sela própria para cavalaria, com feitio de albarda, mas forrada de carneira (pele de carneiro).

*Bestiaga: besta de pouco préstimo.

* Lazarento: insuportável; diz-se de quem que não se pode suportar ou do que é repulsivo:

*Xairel: cobertura de cavalgadura, por baixo do selim.

*Arnês: armadura completa de um guerreiro, que o cobria da cabeça aos pés.

*Alfobre: canteiro entre dois regos por onde corre água.

Boletim

Carlos Queiroz Telles


Chega uma hora
em que não dá mais
pra gente fugir do assunto.
Meio mundo da família,
pai e mãe, irmão e tia,
com olhares de cobrança,
pedem o troco da esperança
que jogaram sobre nós.

E então começa a guerra.
É a equação conjugada
em português matemático,
são matérias inexatas
e ciências desumanas.

É a cara da professora
que brigou com o namorado.
São as noites mal dormidas
de estudo ou de medo.
É o tormento renovado
do semestre que se acaba
ou do ano que termina.

Tempo de unha roída
de culpa e de sofrimento.
Coração sempre apertado,
dias com dor de barriga,
noites com falta de ar.

A vida fica um sufoco
até a hora temida
em que a angústia vira nota.
Amanhã... hoje... agora!
O olhar sabe de cor
onde o nome está na lista.
E então... lá vamos nós
com a cara e a covardia.

Um, dois, três... não acredito!
Aquela nota é um oito!
Não é possível, meu Deus!
É possível! É possível!
Aquele oito sou eu.