sábado, 5 de outubro de 2019

Expressões proverbiais gregas



Nossa língua conserva vestígios dessas lendas em expressões proverbiais que lembram as qualidades dos deuses ou heróis.

O que se refere aos deuses evoca em geral a perfeição e os prazeres:

→ qualifica-se de olímpico algo majestoso, sublime, e de néctar uma bebida que consideramos divina;

→ uma mulher prefere ouvir dizer que tem o porte de uma deusa a se ver comparada com uma Harpia ou com uma Fúria;

partir para Cítera não significa ir em férias para essa ilha, mas se entregar às delícias do amor.

O tempo dos deuses infelizmente não traz apenas boas lembranças:

→ se um assunto se apresenta como um pomo de discórdia, não é bom sinal. E é melhor que desavença não tenha as mesmas consequências da que dividiu a três deusas, Hera, Atena e Afrodite, por causa do célebre pomo.


→ fala-se de um suplício de Tântalo quando não se consegue atingir o objeto do desejo, apesar de se estar bem perto dele.

Certas comparações não são necessariamente lisonjeiras:

→ dizer a um porteiro pouco amável que ele é um cérbero certamente não lhe agradaria.

Outras revelam um forte sentimento de superioridade: é melhor desconfiar de um pretensioso que imagine ter saído da coxa de Júpiter (o nome romano de Zeus).

As qualidades dos heróis subsistem, ainda, em termos relativos a seus nomes:

→ qualifica-se de hercúleo quem possui uma força colossal, como Hércules, nome romano de Háracles;

→ ser chamado de adônis ou apolo envaidece qualquer rapaz.

Também neste aspecto, as lembranças são mais ou menos agradáveis:

→ fala-se do fio de Ariadne quando se procura uma solução que permita sair de uma situação difícil... e quando essa  situação é mesmo complicada demais, diz-se que se trata de um dédalo. Isso não adianta muito, mas nos orgulhamos quando conseguimos sair de uma situação dessas.

Há muitas outras expressões: basta consultar o dicionário!

(Do livro “Contos e Lendas da Mitologia Grega”,
escrito por Claude Pouzadoux)

Glossário:

01. Olímpico: relativo a Olímpia, cidade da Élida (dos jogos) e a Olimpo, nome de vários montes da Grécia, em especial o monte entre a Tessália e a Macedônia.

02. Néctar: na Grécia antiga, bebida dos deuses do Olimpo que, segundo a lenda, eternizava a vida.

03. Deusa: divindade feminina, poética, mulher bela, adorável.

04. Harpia: na mitologia grega, monstro com cabeça de mulher, corpo de pássaro e garras muito afiadas. Figuradamente, mulher má; megera.

05. Fúria: quando ocorria uma tempestade, era bastante comum os gregos acreditarem que os raios e trovões eram lançados por Zeus em um estado de fúria.

06. Cítera: é o nome de uma ilha grega que faz parte do arquipélago das Ilhas Jônicas.
Na linguagem poética, cítera é uma ilha de encantos, pátria alegórica dos amores.

07. Pomo: foi uma maçã oferecida pela deusa Discórdia que gerou uma grande disputa.

08. Suplício de Tântalo: refere-se ao sofrimento daquele que deseja algo aparentemente próximo, porém, inalcançável, a exemplo do ditado popular “Tão perto e, ainda assim, tão longe”.

09. Cérbero: é o cão de três cabeças que guarda a entrada do mundo dos mortos na mitologia grega, o submundo Hades. Lá ele recebe as almas dos mortos e impede que tentem escapar.

10. Achar que saiu da coxa de Júpiter: Tal expressão é usada quando alguém se acha o melhor de todos.

11. Hercúleo: de Hércules, consagrado a Hércules, digno de Hércules; herculano. excepcional, fenomenal, assombroso, como (alguma qualidade) de Hércules, “força H”.

12. Adônis ou Adónis nas mitologias fenícia e grega, era um jovem de grande beleza que nasceu das relações incestuosas que o rei Cíniras de Chipre manteve com a sua filha Mirra. Adónis passou a despertar o amor de Perséfone e Afrodite.

13. Fio de Ariadne: expressão vem da mitologia grega, e faz referência ao fio que Teseu recebeu de Ariadne para escapar do labirinto após vencer o Minotauro. É o mesmo que uma ligação, um fio condutor que auxilia a sair de determinada situação problemática ou a concluir um raciocínio.

14. Dédalo: Lugar em que os caminhos estão dispostos de modo que é fácil perder-se neles. = Labirinto. Conjunto complicado de várias coisas = confusão, enredo.

Outras expressões

(Com conceitos resumidos)

01. Espada de Dâmocles: expressão que significa perigo iminente.

02. Asno de Buridan: Quem não toma nenhuma decisão racional sobre a escolha de uma ou de outra hipótese

03. Caixa de Pandora: A origem de todas as tragédias humanas.

04. Nó de Alexandre: É comumente usada como metáfora de um problema insolúvel.

05. Fio de Ariadne: É o termo usado para descrever a resolução de um problema em que se podem usar diversas maneiras óbvias.

06. Tonel das Danaides: A expressão significa, figuradamente, o esforço infindável porque nunca termina; o trabalho feito repetidamente sem que nunca apresente um resultado proveitoso.

07. Rochedo de Sísifo: A tarefa que envolve esforços inúteis passou a ser chamada de “Trabalho de Sísifo”.

08. Olhos de Argos: Quando Argos dormia ele mantinha 50 olhos abertos, por isso ele é considerado o símbolo da vigilância.

09. Pomo da discórdia: É a pessoa ou coisa que provoca uma desavença.

10. Túnica de Nesso: Indumentária fatídica.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

O homem de terno branco



Apolítico

Um homem de terno impecavelmente branco resolve atravessar um pântano. Seu terno permanecerá branco? Provavelmente não. Ainda que tome o devido cuidado, será quase impossível se livrar de todas as “armadilhas” numa área alagada, cheia de vegetação, sem contar o perigo dos animais quer povoam esse ecossistema.

Imaginemos que o sistema político é esse pântano. E o homem com terno seja alguém com reputação ilibada que quer se aventurar na política com o único desejo de melhorar o ambiente cheio de “armadilhas” da política, inclusive com pessoas que se comportam como animais selvagens na sua busca incansável e voraz por poder e tudo o que o acompanha. Será que essa pessoa passará incólume por tão denso terreno? Dificilmente.

Isso ilustra o quão difícil é para uma pessoa com boas intenções ter sucesso na política seguindo a cartilha já desgastada da honestidade e da ética. E desgastada não pelo uso, mas pelo mau uso ou pelo desprezo que a maioria dos políticos tem pelas leis que o regem e a todos nós, cidadãos. Um político não é nada mais do que um cidadão com os mesmos deveres e os mesmo direitos que qualquer um de nós tem. Mas o uso abusivo e deturpado das leis faz do político um ser diferente. Muitos acham que estão acima da lei. Creem, erroneamente, que o país está aos seus serviços, quando o contrário seria o correto.

Pode um homem com um terno impecavelmente branco passar pela política e manter sua condição inalterada, intacta? Impossível. Isso mostra que até o mais nobre dos homens pode ser fisgado pela corrupção, desejo de poder e dinheiro, que nada mais é do que a cobiça, qualidade presente em todas as pessoas, que quando controlada, pode não emergir, ficar latente, mas eis algo impossível na política. Não, não são os políticos que mudarão esse ou qualquer outro país. Engana-se quem pensa que isso seja possível. Então não há esperança? Creio que na política não.

Alguns clamam por sistema de governo já utilizados e já provados falhos. Parecem não se recordar dos abusos de outrora da parte das pessoas que hoje são vistas como salvadoras. O ser humano é imediatista e mesquinho. Se a situação está boa para ele, danem-se os outros. Enquanto mantiver essa pobreza de consciência e a busca de vantagens pessoais em detrimento do seu semelhante, o ser humano seguirá seu caminho nada virtuoso de egocentrismo e presunção e podemos ter a certeza de que, se assim continuar, dias melhores não virão. Apenas o individualismo que será seguido pelo caos.

Ser apolítico pode não resolver os problemas, mas evita que contribuamos com mazelas de uma sociedade hipócrita e à beira do abismo.

Parzival

(Do Blog Recanto das Letras)

O enigma da esfinge

O monstro de Tebas


Laio e a Esfinge

“O que é, o que é:
de manhã tem quatro patas,
ao meio dia duas e à noite três?”

(...)

(Laio) Chegando diante da alta muralha da cidade, encontrou suas sete portas trancadas. Era impossível entrar em Tebas. Um monstro fazia o terror reinar ali, recusando a passagem aos estrangeiros que não soubessem resolver o enigma que formulava. Para quem errasse, a resposta era a morte. Ele atirava os infelizes candidatos do alto dos rochedos...


Esse temível porteiro tinha cabeça de mulher e corpo de leão, e suas garras eram afiadas. Chamavam-no Esfinge. A Esfinge perguntou a Édipo:

“O que é, o que é: de manhã tem quatro patas, ao meio dia duas e à noite três?”

Édipo não demorou para responder:

“O homem: na manhã da vida, ainda bebê, ele engatinha; na idade madura, mantém-se sobre as duas pernas; enfim, quando suas forças declinam, apoia-se numa bengala.”

Furiosa por ter sido derrotada, a Esfinge se atirou do alto dos rochedos, e morreu do mesmo modo como matava suas vítimas.

(Do livro “Contos e Lendas da Mitologia Grega”, 
de Claude Pouzadoux)

O Direito das Crianças

Ruth Rocha


Toda criança no mundo
Deve ser bem protegida
Contra os rigores do tempo,
Contra os rigores da vida.

Criança tem que ter nome,
Criança tem que ter lar.
Ter saúde e não ter fome,
Ter segurança e estudar.

Não é questão de querer,
Nem questão de concordar,
Os direitos das crianças
Todos têm de respeitar.

Tem direito à atenção,
Direito de não ter medos,
Direito a livros e a pão,
Direito de ter brinquedos.

Mas criança também tem
O direito de sorrir.
Correr na beira do mar,
Ter lápis de colorir…

Ver uma estrela cadente,
Filme que tenha robô,
Ganhar um lindo presente,
Ouvir histórias do avô.

Descer do escorregador,
Fazer bolha de sabão,
Sorvete, se faz calor,
Brincar de adivinhação.

Morango com chantilly,
Ver mágico de cartola,
O canto do bem-te-vi,
Bola, bola, bola, bola!

Lamber fundo da panela,
Ser tratada com afeição,
Ser alegre e tagarela,
Poder também dizer não!

Carrinho, jogos, bonecas,
Montar um jogo de armar,
Amarelinha, petecas,
E uma corda de pular.


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

A primeira mulher a entrar para a ABL

(Academia Brasileira de Letras)

Quinta ocupante da Cadeira 5, eleita em 4 de agosto de 1977, na sucessão de Cândido Motta Filho e recebida pelo Acadêmico Adonias Filho em 4 de novembro de 1977.

        
Em agosto de 1977, Rachel de Queiroz,onde ocupava a cadeira de número 5. Ela sofreu um acidente vascular cerebral no dia 28 outubro de 2003, e na manhã de 4 de novembro, faleceu dormindo. Seu corpo foi velado na ABL, mas o enterro foi no cemitério São João Baptista, Rio de Janeiro, onde está o corpo de seu marido.

Rachel nasceu em Fortaleza-CE, em 17 de novembro de 1910, foi professora, jornalista, romancista, cronista e teatróloga. Com apenas sete anos, mudou-se para o Rio de Janeiro com os pais, fugindo da seca de 1915. Dessa experiência nasceu o livro O Quinze publicado em 1930.

Em 1932, Rachel publicou um novo romance, intitulado João Miguel, e em 1937, retornou com Caminho de Pedras. Dois anos depois, conquistou o prêmio da Sociedade Felipe de Oliveira, com o romance As três Marias. E o Prêmio Machado de Assis, da ABL, pelo conjunto de sua obra, em 1957.

Entre várias obras destaca-se Memorial de Maria Moura, a qual foi adaptada para uma minissérie na TV Globo.

Obras

O Quinze (1930)
João Miguel (1932)
Caminho de Pedras (1937)
As Três Marias (1939)
A Donzela e a Moura Torta - crônicas (1948)
O Galo de Ouro (1950)
Lampião - teatro (1953)
A beata Maria do Egito - teatro (1958)
100 Crônicas Escolhidas (1958)
O Brasileiro Perplexo - crônicas (1964)
O Caçador de Tatu - crônicas (1967)
O Menino Mágico - infanto-juvenil (1969)
As Menininhas e Outras Crônicas (1976)
O Jogador de Sinuca e Mais Historinhas (1980)
Cafute e Pena-de-Prata - infanto-juvenil (1986)
Memorial de Maria Moura (1992)
Obras reunidas de ficção:
Três Romances (1948)
Quatro Romances (1960)

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Aos pais

Diante de uma criança

Carlos Drummond de Andrade


Como fazer feliz meu filho?
Não há receitas para tal.
Todo o saber, todo o meu brilho
de vaidoso intelectual

vacila ante a interrogação
gravada em mim, impressa no ar.
Bola, bombons, patinação
talvez bastem para encantar?

Imprevistas, fartas mesadas,
louvores, prêmios, complacências,
milhões de coisas desejadas,
concedidas sem reticências?

Liberdade alheia a limites,
perdão de erros, sem julgamento,
e dizer-lhe que estamos quites,
conforme a lei do esquecimento?

Submeter-se à sua vontade
sem ponderar, sem discutir?
Dar-lhe tudo aquilo que há
de entontecer um grão-vizir?

E se depois de tanto mimo
que o atraia, ele se sente
pobre, sem paz e sem arrimo,
alma vazia, amargamente?

Não é feliz. Mas que fazer
para consolo desta criança?
Como em seu íntimo acender
uma fagulha de confiança?

Eis que acode meu coração
e oferece, como uma flor,
a doçura desta lição:
dar a meu filho meu amor.

Pois o amor resgata a pobreza,
vence o tédio, ilumina o dia
e instaura em nossa natureza
a imperecível alegria.

Porque amamos os nossos filhos

Carlos Drummond de Andrade

Ignacinho veio pedir-me uma vitrola como presente do seu próximo aniversário. Os últimos acontecimentos não são de molde a justificar essa pretensão do meu querido filho e companheiro. Presentes de aniversário dão-se a meninos bem comportados, que não trocam as aulas pelo futebol, nem as vigílias do estudo pelas do cinema. Ora Ignacinho tem sido justamente o contrario desse tipo de jovem exemplar, que é muito comum no “Coração” de Edmundo de Amicis e outros livros estrangeiros, mas que infelizmente não parece ter-se dado bem com o clima do Brasil. Como pois solicitar-me festas?

E daí Ignacinho não é mais uma criança. Membro do conselho fiscal do Centro dos Preparatorianos e colaborador das páginas de anúncio (as únicas que prestam) do “Fonfon” e do “Para Todos”, ele adquiriu já uma personalidade social e literária que não se coadunava com as calças curtas nem com as regalias conferidas aos frangotes de 13 anos. Rapazinho de calça comprida não tem direito a mimos infantis. Sócio do Centro dos Preparatorianos também não tem. Poeta ou prosador ainda que incipiente, também não.

Fiz ver todas essas coisas a Ignacinho. Sem ferocidade, palavra. Minha intenção era feri-lo no seu orgulhosinho púbere, de modo que ele renunciasse ostensivamente à vitrola, poupando-me a dor de recusá-la. Eu sou feito do mesmo barro de que se fazem todos os pais, e às vezes meu coração amolece nos momentos mais sérios. Em minha consciência achava que Ignacinho não tinha direito à maquina falante. Mas e coragem para dizê-lo?

Ignacinho, achando fúteis as minhas razões, reforçou o pedido com a promessa de dois belíssimos exames parcelados no Ginásio. Era vitrola para lá, exames para cá. Se eu fechasse o negócio, ele capricharia nas escritas e se excederia nas orais. Adverti-lhe de que não faria mais do que a sua estrita obrigação, prestando bons exames das humanidades (ele diz “desumanidades”) que se não estudara, devia ter estudado a fundo.

Mas intimamente, e sem cálculo, eu já tinha cedido um pouco.

Ignacinho prometeu mais. Prometeu ótimo comportamento durante as férias, e infatigável aplicação durante o próximo ano letivo. Em todos os futuros anos letivos. Na Faculdade de Medicina, até o 6º ano, seria o modelo dos candidatos a mortícola*. E na vida prática — Ignacinho nesse momento chegou a pensar na vida prática — seria o mortícola mais brilhante da sua geração, do seu país, do seu continente, do mundo. E tudo isso por um preço tão pequeno! O preço de uma vitrola Decca, das menores...

Antes que o rapaz me prometesse maiores absurdos, eu, desarmado, fiz como Capablanca: entreguei-lhe os pontos. Mas frisei bem: não contasse comigo na hora de comprar os discos.

O capetinha deu uma gargalhada e confessou, cínico:

− Não precisa não, papai. Os discos eu já tenho. Mamãe me deu. Eu falei com ela que o senhor tinha me dado a vitrola...

Astúcia, teimosia e senso comercial da alma infantil! Ignacinho explorou-me duplamente, é certo, pois pelo menos aqui no sertão, quem paga os presentes da mulher é o marido. Mas não são essas pequeninas coisas que nos fazem amar os nossos queridos filhos?

(Da Revista de Antropofagia número 2, junho de 1928)

Com a grafia atualizada

*mortícula, diz-se de um mau médico, que mata os doentes por inépcia.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Um condutor poeta no bonde Tijuca

Texto de Américo Matos

(Escrito em 1953)


Quem mora na Tijuca e viaja de bonde tem que conhecer o Quintas, Jacinto Nunes Quintas, o condutor poeta, o homem que, apesar de exercer uma das profissões mais ingratas do Rio de Janeiro, leva a vida como se não pertencesse a este mundo de aborrecimentos e aflições.

Para ele o que importa é fazer versos. Se o bonde está cheio ou vazio, ou se os passageiros gostam ou não da sua poesia, pouco o preocupa. Desde cedinho, quando entra de serviço e até o final do dia, vai improvisando ou repetindo velhas rimas. De tudo faz versos. Qualquer motivo serve para espicaçar a sua veia de poeta, ou, quando não seja, para provar que é um cidadão que sabe levar a vida com bom humor. Quando se apresenta ao passageiro para cobrar a passagem, vai logo dizendo:

Por gentileza,
Aqui está o condutor
Que trata a todos com delicadeza.

Se o passageiro não entende o fraseado, ele aplica uma nova rima:

Cavalheiro, por favor,
Não se esqueça de pagar o condutor.

Enquanto isso, o bonde vai rompendo o tráfego, conduzindo o seu poeta atento ao sinal dos passageiros descendo aqui e ali, sempre advertidos pela voz do bardo:

O bonde para na esquina,
Pois vai saltar a menina.

E mais adiante:

Chegou no ponto de seção
Quem quiser saltar, aproveite a ocasião.

Quando aparece um fiscal da Light para verificar se está registrando direito as passagens, ele, com um sorriso de ironia, comenta:

Pode ver, seu fiscal,
Aqui está tudo legal.

Colocando o visto na sua papeleta de serviço, faz tilintar a campainha e prossegue a viagem, fazendo versos e malabarismos para cobrar as passagens.

Quando os automóveis oferecem perigo aos pingentes, não se esquece de adverti-los:

Cuidado com a roupa
Que pode virar estopa.

Tendo os olhos sempre atentos ao trânsito, não deixa de dar o seu aviso aos colegiais que descem do seu bonde:

Meninos e meninas,
Nunca deixem de olhar
Em todas as esquinas,
Que pretendam atravessar.

Se o bonde para porque a rua está interrompida em consequência de uma colisão de automóveis, ele deixa os estribos balançando a cabeça:

Tudo isso podia ser evitado,
Se tanto um como outro,
Tivessem mais cuidado.

O repórter quis saber a razão do seu bom humor e a resposta veio sem demora:

Era assim que devia ser
Todo empregado:
Trabalhar satisfeito
E ser delicado.

E completa:

Eu reconheço e com razão
Que tanto não devia aborrecer,
Mas é essa minha missão,
Fazer versos até morrer.

Com o temperamento original e trabalhando no mesmo bonde desde 1934, Quintas conseguiu muitos amigos que gostam de ouvir os seus versos, inclusive algumas moças empregadas em casas de família que puxam por ele. Foi numa dessas ocasiões, em 1938, que conheceu uma jovem e não resistindo aos seus encantos, cantou a sua beleza em versos. A moça sorriu agradecida e daí a poucos meses estavam os dois diante o altar. Dessa união com dona Mabile Ferreira Quintas nasceu a sua filhinha Darci, uma linda menina que atualmente conta nove anos de idade e é a maior admiradora dos seus versos.

Darci, que é filha única do casal, está sendo educada com esmero. Para ela estão todas as atenções do pai que não mede sacrifícios para lhe dar conforto. É um pai feliz que, se antes dizia versos, agora, maior razão tem para prosseguir na sua inspiração de poeta.

Atualmente, Jacinto está afastado do serviço de condução de bondes. Tendo adoecido, encontra-se em tratamento pelos médicos da Caixa dos Servidores da Light. Entretanto, não perdeu o seu tempo em ficar olhando as paredes do seu quarto de doente. Procurou lembrar-se dos versos que diz aos seus passageiros e, escrevendo outros, resolveu reunir tudo num livro que já entregou a uma oficina para editar com o título Poesias de um condutor de bonde. E não pensem que se trata de um livrinho de umas vinte ou trinta páginas. Nada disso, será um volume contendo de 250 a 300 composições. E, como todo escritor que não gosta que suas obras fiquem esquecidas nas prateleiras das livrarias, já está cuidando da propaganda, que, naturalmente, não podia deixar de ser em versos. Ei-la:

Atenção, povo brasileiro!
Atenção, povo tijucano!
Breve... à venda um livro de poesias
O condutor do Tijuca está fazendo todo bacano.

Aguardem dentro de poucos dias
O sensacional livro de poesias,
Tendo como autor
Aquele humilde condutor.

Companheiros de trabalho,
Meus queridos passageiros,
Espero que todos comprem um livro,
Estrangeiros e brasileiros.

Termina o prospecto dizendo:

“À venda nas bancas de jornal da Tijuca, livrarias e com o autor”..

Ao ensejo da passagem do aniversário de Última Hora, Quintas inspirou-se e nos mandou a sua saudação num soneto:

 Salve aniversário de Última Hora!
Salve doze de junho de cinquenta e três!
Glória à Última Hora cada vez melhor!
Vamos! Vamos! Comprar mais uma vez!

Última Hora é um grande jornal,
É um orgulho para todos no Rio de Janeiro.
Leio com satisfação e mando para Portugal,
Entre muitos jornais, para mim é o primeiro.

Salve todos diretos da Última Hora!
E todos que trabalham na ocasião atual.
Todos a devem comprar, vamos! Embora!

Não se esqueçam os do Brasil e os de Portugal,
Última Hora é o melhor do Distrito Federal.
Vamos! Vamos! Todos comprar pessoal!

Matos, Américo: “Um condutor poeta no bonde Tijuca”.

(Última Hora, Rio de Janeiro, 22 de junho de 1953)


O saudoso bonde passa, o motorneiro protegido por dois “meganhas”, devido à violenta greve que ameaçava o patrimônio público.

Adendo final

Em 22 de junho de 1953, a Última Hora (Jornal carioca), publicava o lançamento do livro do condutor de bonde, Jacinto Nunes Quintas, intitulado “Poesias de um condutor de bonde”. No momento do lançamento, ele estava afastado do trabalho e se dedicava ainda mais à sua atividade preferida: fazer versos. Jacinto começou a trabalhar em 1934, ficou lembrado por seu bom humor mesmo nas dificuldades enfrentadas no dia-a-dia. Desde cedinho, quando entrava de serviço, até o final do dia, ia improvisando ou repetindo velhas rimas. O condutor podia fazer versos de tudo o que via, qualquer motivo podia servir de inspiração. Por seu bom humor no transporte coletivo, conquistou àquela que seria sua esposa.

(Do blog Memória Carris)