quinta-feira, 25 de junho de 2020

Deixa teu marco!

Duílio caldeira*


Meu camarada! − Sê sincero e verdadeiro −
O que fizeste em tantos anos nesta vida?
A tua consciência não te acusa
De haveres esbanjado teus minutos?
Foram teus sonhos, pelo menos, começados
E alguns deles foram realizados?
Os teus propósitos vingaram ou se perderam?
Tu tens em ti este poder maravilhoso
Que tal te foi dado pela natureza:
Podes pensar e planejar e executar,
Mas, no entanto, tu preferes copiar?

Por que norteias todas as tuas ações
Pelo temor de que elas desagradem
Aos que são, como tu, da mesma massa,
Da mesma terra e da mesma água?

Vê se transformas tua inércia
E teu viver latente em labutar!
Lembra que o tempo que deixares ir,
Sem preenchê-lo com ações fecundas,
Nunca terás de volta em tua vida.
E te serão cobrados, muito em breve,
Os altos juros de arrependimento
Do desperdício de momentos preciosos
Que permitiste ir caindo um a um
No abismo oco da inutilidade!

Toma vergonha, companheiro, escuta!
A voz da vida está te gritando nos ouvidos:
− Faze qualquer coisa por ti mesmo ou pelos outros!

Deixa na terra uma lembrança tua!
Deixa teu nome gravado numa rocha!
Deixa uma árvore dando sombra, meu amigo!

*Duílio Caldeira foi um militar, Sargento Paraquedista e Mestre de Salto.


quarta-feira, 24 de junho de 2020

Como funciona o paraquedas?

Por Tiago Jokura


1. Num salto-padrão, o paraquedista deixa o avião quando ele atinge cerca de 12 mil pés de altitude, ou seja, 3 600 metros. Nas costas, o saltador carrega a mochila que guarda o paraquedas todo dobrado.

2. Quando a queda livre começa, o corpo do paraquedista vai aumentando progressivamente de velocidade até atingir cerca de 200 km/h. Até chegar a essa velocidade e se estabilizar, lá se vão 12 segundo de adrenalina.

3. Quando a altitude cai para 5 mil pés (1 500 metros), é hora de abrir o paraquedas, após 45 longos segundos de queda livre! Saltadores mais experientes ainda ganham alguns segundos extras ao acionar o equipamento a 3 mil pés do solo (900 metros).

4. O paraquedas tem várias “peças”. O slider serve para regular a velocidade de abertura do velame, evitando que o equipamento se enrole todo. O velame, por sua vez, é formado pelas células de náilon, que inflam para lhe dar o formato de uma asa. Com ele aberto, a velocidade do voo fica em cerda de 30 km/h.

5. Para “dirigir” o paraquedas, é preciso usar os batoques – ligados à cauda do velame por linhas direcionais. Quando o batoque esquerdo é puxado para baixo, o paraquedas vira para a esquerda. E vice-versa para o batoque direito.

6. Na hora de pousar, cerca de 5 a 7 minutos após a saída do avião, o ideal é pegar um “vento de nariz” (frontal) e puxar os dois batoques para baixo, simultaneamente. O movimento empina o velame e funciona com freio, permitindo uma aterrissagem suave.

Abre-te quedas!

A maior parte dos paraquedistas abre o equipamento manualmente – apesar de existir uma opção automática. Eles puxam da mochila um miniparaquedas chamado pilotinho. Ao ser solto, o pilotinho é inflado pelo ar e arrasta o paraquedas (velame) principal para fora da mochila.

Para a frente…

Mudando a posição do corpo, o paraquedista pode corrigir a direção e a velocidade da queda livre. Na posição front slide, feita com os braços encolhidos e as pernas esticadas, o vento empurra o corpo do paraquedista para a frente.

…ou para trás

Para se deslocar no sentido contrário, o paraquedista precisa esticar os braços e dobrar totalmente os joelhos. Isso faz com que o vento jogue seu corpo para trás. A posição é chamada de back slide.

Ou dobra ou nada!

Dobragem dos paraquedas é tão importante 
que tem até prazo de validade

→ Para o equipamento não falhar, uma dobragem bem feita dos velames é fundamental. O ideal é que ela ocorra em um ambiente coberto, evitando superfícies abrasivas como asfalto ou cimento que podem danificar o tecido.

→ Se os velames ficam na mochila muito tempo, fatores externos, como umidade acumulada, podem prejudicar a abertura. Por isso, a dobragem do reserva tem prazo de validade: após quatro meses, é obrigatório redrobá-lo.

→ Todo paraquedista certificado aprende a dobrar seu velame principal, mas, se quiser, pode pagar 7 reais* pelo serviço. A dobragem do reserva – mais minuciosa para garantir uma abertura rápida e sem falhas – custa dez vezes mais e só é feita por especialistas.

Mochila voadora Equipamento leva paraquedas principal e reserva, e pesa até 14 quilos

Um grude só

Além de abrigar os velames, a mochila tem tirantes (alças) para mantê-la firmemente grudada no tronco e nas pernas do paraquedista. Dependendo do tipo de salto e do nível de experiência da pessoa, o peso da mochila varai de 7 a 14 quilos.

Cabos da boa esperança

Existem cabos do lado de fora da mochila para acionar os dois velames. O cabeamento de aço flexível que aciona o reserva é protegido por um conduíte e coberto por abas de proteção. Isso evita que atritos (até do vento) acionem o equipamento acidentalmente.

Dois em um

Na mochila vão dois velames (paraquedas) guardados em bolsas. O principal fica na parte inferior. O reserva, alojado logo acima, fica bem mais compactado. Quando aberto, porém, ele tem o mesmo tamanho do paraquedas principal.

(Revista Super Interessante, julho de 2018)

*Valor de dobragem na época, julho de 2018, da reportagem.

Como sobreviver se o paraquedas não abrir?

Hipótese A − Salto em grupo − Chances remotas

1. Peça ajuda:

→ Se os paraquedas principal e reserva falharem, acene para um colega e aponte para seu paraquedas − sem demora, pois você já deve estar a menos de 750 metros do solo.

2. Segure firme:

→ Seu companheiro deve mergulhar na sua direção. Agarre-o fortemente. A essa altura, vocês estarão na velocidade máxima de queda livre - mais de 200 km/h.

3. Aguente o tranco:

→ Segurar não basta: o impacto da abertura desata qualquer abraço. Entrelace seus braços nos arreios do macacão do colega. O tranco deve quebrar seus braços.

4. Pouse como der:

→ Assim que seu colega abrir o paraquedas, ele deve conduzir a queda enquanto você se segura. Tentem desviar de obstáculos como construções e fiação elétrica. Como o peso é grande e a distância do chão, curta − cerca de 150 metros − uma aterrissagem suave está fora de cogitação. Se houver água por perto, pousem lá. Após o pouso, seu companheiro terá de evitar a inundação do pára-quedas. As conseqüências dessa operação vão de algumas fraturas à morte imediata dos dois saltadores.

Hipótese B - Você cai sozinho

Chances ridículas 1.

→ Procure um bom lugar para cair. Sem paraquedas, a chance de morrer é de aproximadamente 100%. Ainda assim, alguns terrenos podem − pelo menos em teoria − amortecer o impacto e, em casos extraordinários, evitar a morte. Exemplos: copas densas de árvores sobre um pântano, celeiros cheios de feno e encostas íngremes cobertas por neve fofa.

2. Vá a esse lugar:

→ Manobre seu corpo para o local de pouso. Para deslocamentos horizontais, adote a posição “tábua”, com o corpo todo esticado e a cabeça apontando a direção desejada. Inclinando-se a cabeça para baixo, o ângulo da queda se torna mais agudo; para uma descida totalmente vertical, posicione-se de ponta-cabeça.


segunda-feira, 22 de junho de 2020

Acidente aéreo com avião da Varig completa 60 anos



Há exatos 60 anos, (notícia de 2017) um modelo Curtiss C-46, da Varig, levantou voo, de Santana do Livramento, às 8h, com 35 passageiros e cinco tripulantes, em um dia cinzento e frio. A rota, que terminaria em Porto Alegre, faria escala em Bagé, para embarque e abastecimento. Pouco depois das 8h30min, o avião decolou rumo à capital gaúcha. Em questão de minutos, a torre de comando do aeroporto Comandante Kraemer recebeu mensagem da tripulação, declarando emergência em decorrência de um provável incêndio no motor esquerdo. O sinistro daria origem ao maior acidente aéreo da história bajeense.



Há versões de que após acionar os extintores do motor, a tripulação acreditou ter controlado os danos. Ainda assim, o pouso de emergência seria necessário, por questões de segurança. O trem de pouso não funcionou conforme o esperado e o piloto, Fernando Silva Leandro, abortou a manobra e arremeteu a aeronave, com a intenção de tentar novamente. Uma das teorias mais aceitas é de que durante o momento da decolagem, uma pedra tenha sido arremessada pelas rodas dentro do compartimento do motor, ocasionando o fogo.

Diferente do que a tripulação imaginou, o fogo não havia sido extinguido. Assim que o avião começou a taxiar para uma nova tentativa de pouso, as chamas voltaram com força. O piloto ainda tentou levar a aeronave ao solo, mas perdeu uma asa ainda no ar e o avião caiu, sendo reconhecida depois apenas como uma bola de metal retorcida e ardente. Todas as 40 pessoas a bordo morreram na queda ou em meio ao fogo. Entre eles, figuras ilustres, como o então secretário de Educação do Estado, Liberato Salzano Vieira da Cunha, e o advogado Antenor Gonçalves Pereira.

O domingo cinzento

O alvorecer do dia 7 de abril de 1957 não foi extraordinário na casa de João Ilone Freire. Como fazia diariamente, acordou, saiu da cama e se arrumou para o trabalho, que ficava a alguns metros de sua residência. Nada indicava que aquele seria mais do que um dia normal e que em poucas horas ele seria testemunha ocular da história de uma tragédia da aviação brasileira.

Mas a história teve início muito antes, na década de 1930, quando iniciou a fabricação dos aviões Curtiss C-46 Commando, utilizado para transporte de tropas, armas e munições durante a Segunda Guerra Mundial pelos aliados. Com o fim do conflito bélico, os aviões foram vendidos para empresas aéreas do mundo todo, entre elas a Viação Aérea Rio-Grandense (Varig). O personagem principal desta história veio nesse lote e recebeu o prefixo PP-VCF.

Após enfrentar anos de guerra, armamento pesado e um exército bem equipado, o Curtiss C-46 Commander PP-VCF acabou encontrando seu fim nos pampas gaúchos, no mesmo data em que João levantou acreditando ser mais um dia normal.

Testemunha ocular da queda


Jovem, contando 19 anos na ocasião do acidente, Freire morava próximo à área do aeroporto junto à família. O pai, Álvaro Freire da Fontoura Gomes, havia sido o responsável pela construção da pista do aeroporto, onde tempos depois o PP-VCF encontraria seu fim, em chamas. E também no aeroporto iniciou a vida profissional, como despachante aéreo da Sociedade Anônima Viação Aérea Gaúcha (Savag).

Ele conta que chegou a ver a aeronave antes de decolar. Depois, quando a viu novamente, ela já vinha rumo ao seu destino final. “Ligaram para a torre, avisaram do fogo e pediram apoio para apagar após o pouso. Foi uma comoção, todos saíram correndo com os extintores e ficamos esperando na beira da pista”, recorda.

Ele conta que viu o avião tentar pousar na primeira vez e arremeter. “Eu não sei por que ele fez aquilo. Deve ter pensado que tinha controlado o fogo e estava tranquilo para tentar de novo”, diz.

Freire relembra que, quando o Curtiss retornava, a asa esquerda, tomada pelo fogo, então já visível, se dobrou e se separou do resto do corpo metálico. “Parecia de papel, se dobrou para trás e voou. Nisso, o avião já caiu e a carenagem foi rolando pela pista”, relata.

O horror daquela visão nunca foi esquecido por Freire, que junto ao pai e ao irmão correu na tentativa de ajudar a apagar o fogo e resgatar um possível sobrevivente. Mas no caminho até a carenagem, viu que seria impossível encontrar alguém com vida. “Quando o avião caiu, foi se arrastando pela pista e ficava um rastro de pedaços de corpos. Aí eu vi que seria muito difícil alguém ter se salvado”, lembra.

Fim de um mistério

Entre as lendas urbanas que circularam pela cidade ao longo de seis décadas, talvez uma das mais conhecidas esteja relacionada ao destino de barras de ouro que teriam sido encontradas no acidente. Freire garante que havia, realmente, ouro a bordo. Ele sabe disso porque alega ter encontrado o valioso metal, preso no corpo de um dos passageiros por um cinturão. “Eu vi que era valioso, tirei o cinturão do corpo e avisei o pessoal da Varig. Depois não vi mais, sei que foi entregue para a Polícia Federal”, garante.

Aos 79 anos, afirma ainda ter na memória as cores vívidas do fogo que queimava a carenagem do avião contra o céu cinza chumbo daquela manhã de domingo. E embora poucas pessoas saibam do horror que presenciou, Freire afirma que o fato nunca saiu de sua mente. “Acho que ainda sonho com isso, às vezes, porque acordo assustado, dando pulo, mas sem lembrar do que sonhei. Acho que deve ser isso que ainda me assusta em sonho”, conta ele, com as mãos marcadas pelo tempo cruzadas sobre as pernas.

(Do blog do Jornal Minuano)

domingo, 21 de junho de 2020

Dois pequenos textos jurídicos

e suas traduções simultâneas.


Dois exemplos de textos jurídicos genuínos − na versão original, em juridiquês, e em seguida simplificados, o primeiro pela professora Hélide Santos Campos, da Unip-Sorocaba, o segundo pelo advogado Sabatini Giampietro Netto:

V. Ex.ª, data maxima venia, não adentrou às entranhas meritórias doutrinárias e jurisprudenciais acopladas na inicial, que caracterizam, hialinamente, o dano sofrido.*

*Tradução:

V.Ex.ª não observou devidamente a doutrina e a jurisprudência citadas na inicial, que caracterizam, claramente, o dano sofrido.

*****

Como espia no referido precedente, plenamente afincado, de modo consuetudinatário, por e entendimento turmário iterativo e remansoso, e com amplo supedâneo na Carta Política, que não preceitua garantia ao contencioso nem absoluta nem ilimitada, padecendo ao revés dos temperamentos constritores limados pela dicção do legislador infraconstitucional, resulta de meridiana clareza, tornando despicienda maior peroração, que o apelo a este Pretório se compadece do imperioso prequestionamento da matéria abojada na insurgência, tal estendido como expressamente abordada no Acórdão guerreado, sem o que estéril se mostrará a irresignação, inviabilizada ab ovo por carecer de pressuposto essencial ao desabrochar da operação cognitiva.**

**Tradução:

Um recurso, para ser recebido pelos tribunais superiores, deve abordar matéria explicitamente tocada pelo tribunal inferior ao julgar a causa. Isso não ocorrendo, será pura e simplesmente rejeitado, sem exame do mérito da questão.

(Da revista “Língua Portuguesa”, número 2, de 2005)


sábado, 20 de junho de 2020

Quando não se dá importância a uma pandemia



Febre verde-amarela

Eduardo Bueno

Como se fosse uma bofetada − ao mesmo tempo irônica e trágica − da mão do destino, o navio, embora norte-americano, chamava-se... Brazil. Havia zarpado de New Orleans, onde um pequeno surto de febre amarela já fora identificada, e logo fez escala em Cuba − sempre Cuba! −, onde a doença grassava solta. O vapor então seguiu seu rumo para Salvador, na Bahia. Chegou lá em 30 de setembro de 1849.

Como dois marujos haviam morrido a bordo − sendo sepultado no mar −, o Brazil não poderia aportar. Mas, suspeita-se, teria subornado as autoridades portuárias e obtido carta branca − a então chamada “carta de saúde” −, para desembarcar sua carga. E seus contaminados tripulantes circularam livremente pela cidade.

E foi assim que a febre amarela chegou ao Brazil, ops, ao Brasil. Febre verde-amarela, no caso.

Só que chegou e foi solenemente ignorada. Dois médicos ingleses, os irmãos Alexander e John Patterson, e um alemão, Otto Wucherer, de imediato perceberam a gravidade da situação e, três dias depois, emitiram o alerta: a terrível, contagiosa e mortífera febre amarela estava de volta ao Brasil, 200 anos depois de ter sido erradicada do país. Qual o resultado de sua ação? Bem, os três foram quase linchados.

Sim, pois, após uma reunião com o então presidente da província, o emérito visconde de São Lourenço, foram afrontados pelos não menos eméritos membros do Conselho de Salubridade Pública em pleno palácio. E, no dia 4 de dezembro, o governo emitiu nota afirmando que “a opinião de nossos facultativos está em oposição à dos médicos estrangeiros” e “a presente febre nada tem em si de contagiosa nem de assustadora, sendo os casos graves ou fatais que agora se registram meramente devidos à predisposição dos doentes a outras moléstias, ou aos sustos de que os doentes têm se deixado apoderar ou finalmente a tratamentos contrários à razão”. Assim, uma rígida medida profilática foi tomada: proibiu-se o dobrar dos sinos, “pois eles incutem nos doentes a ideia da morte, que muito agrava seu estado e pode até causá-la nos indivíduos mais nervosos”.

De Salvador, a febre amarela espalhou-se por todo o Brasil e calcula-se que tenha vitimado mais de 30 mil pessoas, 5 mil delas só em Salvador, quem sabe se não pelo letal dobrar dos sinos.

(...)

(Do jornal Zero, junho de 2020)

*****
Eduardo Bueno (Peninha), Porto Alegre, 30 de maio de 1958, é um jornalista, escritor e tradutor brasileiro.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Recordar é reviver

O tempo levou: um roteiro dos anos 1980

Jorge Luiz Bledow*


Vindo de Três Passos, cheguei à Capital, para morar, em 1980. Faz 40 anos. Eu achava que não me adaptaria, mas vivo em Porto Alegre até hoje.

Ia ao supermercado Castelão, do Menino Deus. Havia o Cine Marrocos, na avenida Getúlio Vargas, a Companhia do Sanduíche e a Pizzaria Chuca. Ali, mandávamos ver quem comia mais fatias. Acho que foi um dos primeiros rodízios de pizza. Era bom! Às vezes, jantava no Zepelim, na Getúlio com a Ipiranga. Abastecia no posto do Touring Club e frequentava o centro Comercial João Pessoa (o primeiro da cidade). A novidade era o cinema e, depois, ir ao café Paris, bem romântico. Estive lá muitas vezes, depois de assistir a um filme.

No primeiro ano, me matriculei no Instituto Pré-Vestibular (IPV), na Salgado Filho. Fiz o supletivo e pré-vestibular e consegui vaga no curso de Engenharia Civil da UFRGS, na qual ingressei em 1981. Ainda no centro, fui várias vezes à CRT para fazer ligações interurbanas (DDD). Não era como hoje. Precisava ir aonde houvesse cabine telefônica.

Também frequentei o inferninho Peter Pan. Lá, tinha uma jukebox, daquelas que se vê em filmes americanos antigos, em que se põe uma ficha e ela toca a música escolhida. Era um barato.

Comprei livros na Globo, da Rua da Praia, e na Sulina, da Borges de Medeiros, em frente ao Capitólio. Uma vez, fui ao Le Club. Nunca fui ao Água na Boca, que não era para o meu contracheque. Eu tinha um Fiat 147, azul-noite, e ia ao Taba, que ficava em Ipanema, na beira do rio. Era tempo da discoteca.

Frequentei o Rose Place, o Clube da Saudade, o Sandália de Prata, o Chippʼs e Fascinação. Tive um Passat Pointer 1983, baita carro! Vi show do Noel Guarany, na Reitoria, e também de um guri chamado Borghettinho, que tocava gaita-ponto no CTG 35.

Algumas vezes, almocei na Paçoquinha, em Canoas, mas, quando estudava na UFRGS, era no RU. Tomei café no Ribʼs, da Andradas. Ia à Pulperia, no Largo da Epatur. Ao Tio Flor, da Getúlio, e, algumas vezes, jantei no Vinha DʼAlhos. De madrugada, o lanche era no Cachorro do Rosário ou no Mac Dinhos, da São Luís, e no Jacaré, da Lima e Silva. Sopa era no Van Gogh, da República, ou no Luanda, na José do Patrocínio. Caipirinhas no Bate-Bate, de Ipanema. Pedalinho no lago da Redenção. Aniversários infantis com Tio Tôni.

Cheguei a viajar de Transbrasil e de Varig várias vezes.

Comíamos xis na Rótula do Papa. Aliás, estive na missa que ele rezou onde hoje há uma cruz em sua homenagem, perto do antigo Estádio Olímpico, hoje em ruínas.

Ainda se usava calças boca de sino. Comprei roupas na Mesbla, no Alfred, no Saco & Cuecão, na Escosteguy e na Hipo Imcosul. Eletrodomésticos na J.H. Santos e na Manlec. Material esportivo na Cauduro, na Couro Esporte e na Courolândia. Já tive poupança no Bando Sulbrasileiro e na Caixa Econômica Estadual. Revelei muitas fotografias, tiradas com minha Olympus Trip 35, na Cambial.

Vi filmes no Victória, Lido, Guarani, Cacique, Baltimore, Marrocos, Capitólio, Avenida, Roma e em outros. Até no Bailão do Cardoso eu já fui. Brinquei de festa do chope na Cristóvão e assisti a muitos audiovisuais do Flávio Del Mese no Stúdio, da Cidade Baixa. Ali perto, eu ia no Bar do Miro, onde, para não fazer barulho, aplaudia-se estalando os dedos. Aos domingos, às 19 h, começava Os Trapalhões. Depois, no Fantástico, o Chico Anysio fazia sua crônica engraçada e inteligente e, em vez dos cavalinhos, a Zebrinha anunciava o resultado da Loteria Esportiva. Uma vez, fiz 13 pontos. Deu a lógica. Ganhei o equivalente a meio salário mínimo e foi-se com isso toda a minha sorte de ficar rico.

Assisti à primeira temporada de Bailei na Curva, no Teatro do IPE, e a O Cabaré de Maria Elefante, no Renascença. Conheci o grupo Oi Nóis Aqui Traveiz. Aos domingos, dava uma passada no Brique, comia frango assado com polenta no Bom Fim e passeava na Redenção. Ali, uma cigana me disse: “Vejo uma morena na tua vida”.

Comprei apartamento, financiado em 25 anos, na Lima e Silva, em frente à antiga Cooban, que depois virou o Zaffari, que ainda existe. O resto... o tempo levou!

*****

*Jorge Luiz Bledow, engenheiro militar, que acaba de lançar o livro “Prende o Velhinho e Outras Trapaças”, com crônicas escritas durante a quarentena.

(Do Almanaque Gaúcho, de Zero Hora, junho de 2020)


quinta-feira, 18 de junho de 2020

Eu acuso

Jʼaccuse

Gilberto Schwartsmann, médico


Eu sonhei que estava em Paris. Era 13 de janeiro de 1898. Não era o intelectual Émile Zola quem assinava, na capa do jornal LʼAurore, a carta aberta ao presidente francês, intitulada Jʼaccuse − Eu Acuso. O signatário era eu. E o caso não era o Dreyfus.

Dirigia-me ao meu presidente. Alguém perguntou quem era eu para tal atrevimento. Respondi que um brasileiro, médico e professor, com uma vida dedicada a ensinar, pesquisar e cuidar da saúde das pessoas.

E sem qualquer vinculação partidária. Era por respeito ao meu país que o acusava de imprudência. Não se troca um ministro da Saúde que segue com rigor as recomendações dos órgãos competentes, em meio a uma terrível pandemia e por motivo fútil.

Eu o acusava de desrespeitar o distanciamento social e não usar máscara de proteção, medidas recomendadas no mundo inteiro para reduzir o contágio pelo vírus. Isto deixava a população confusa, sem saber o que fazer.

Eu o acusava de não exercer a liderança que se espera de um presidente num momento tão grave. Até pegar no sono, mais de 40 mil* brasileiros haviam morrido na pandemia. Mil mortes por dia.

Eu o acusava de questionar recomendações da OMS, instituição que é patrimônio da humanidade. Acabou com a varíola e a poliomielite, enfrentou a aids e promove a saúde em quase 200 países. E de comprometer a reputação da saúde pública brasileira, reconhecida no mundo pelo controle da tuberculose, o combate ao tabagismo, o tratamento da aids e por criar um sistema público de saúde, o SUS, num país de mais de 200 milhões de habitantes.

Eu o acusava por desqualificar recomendações das mais prestigiadas entidades médicas, contrárias ao uso empírico da cloroquina na covid-19, fazendo a sua apologia. Quando um presidente decide sobre medicamento?

E que ele não permitisse que seus apoiadores promovessem ataques a hospitais, jogassem fogo nas instituições da República e deixassem em paz as universidades, últimos rincões das liberdades democráticas.

Como no LʼAurore, eu reconhecia que era por livre vontade que eu publicava este manifesto. E, por minha formação familiar, era incapaz de cultivar por alguém sentimentos menores, como ódio ou rancor. Movia-me somente o amor à pátria.

No JʼAccuse, Zola dizia: “Receba, senhor presidente, minhas manifestações de mais profundo respeito”. Em meu sonho, eu pedia respeito aos direitos e liberdades do povo brasileiro. E que, no exercício da Presidência, ele não usasse termos de baixo calão. Fere a liturgia do cargo.

Acordei quando pedia que seu filho número tal − ele os chama assim − parasse de nos ameaçar com a volta do AI-5 e o fim da democracia. Ficava feio fazer isto na presença de um homem tão corajoso. Afinal, no sonho eu era Émile Zola.

(Do jornal Zero Hora, 16 de junho de 2020)

*40 mil mortos na data da publicação do texto. A cada dia o número de mortos e contaminados aumentarão muito mais...

P.S. Hoje já passou dos 100 mil...

P. S. Quando uma pessoa não tem empatia pelos ser humano, ela não se importa com ninguém!