quarta-feira, 20 de maio de 2020

Paulinho da Viola se encontra com sua música


Paulinho da Viola por JBosco

Uma história do Paulinho da Viola na Lapa

Paulinho da Viola caminhava à noite pela Lapa e ouviu um som familiar. Isso aconteceu há menos de um ano, quando os tempos ainda não eram pandêmicos e as noites cariocas esfervilhavam de alegre aglomeração de seres humanos.

Sei dessa história porque o próprio Paulinho da Vila postou no facebook, embora ele não seja muito afeito às redes. O vídeo mostra Paulinho, debaixo de seus cabelos brancos, avançando em meio à multidão, enquanto a melodia de Choro Negro, que ele compôs há mais de 40 anos, evolava-se pelo ar, feito o aroma de uma comida boa.

Paulinho foi em frente devagar, seguindo a música, como os ratos seguiam o flautista de Hamelin. De onde viria? Quem estava tocando?

(...)

Pois ele foi ziguezagueando entre as pessoas, até encontrar a fonte da música. Era um grupo que tocava na calçada, e tocava bem, o Choro Negro era executado com precisão profissional. Paulinho parou, sorrindo, os braços cruzados no peito. As pessoas no entorno o reconheceram e começaram a aplaudir. Ele ficou ouvindo, quieto. Um dos músicos era um senhor de cabelos tão brancos quanto os dele, só que mais velho, encurvado pela idade, uns 80 anos, talvez. Muito concentrado, debruçado ao violão, nem percebeu que o autor da música que tocava o observava. Paulinho continuou olhando e ouvindo até o fim. Então, foi cumprimentar os músicos. Foi de um a um e deteve-se no senhorzinho de cabeça branca. Conversou com ele por algum tempo, com respeito, com atenção. Por fim, cumprimentou-o mais uma vez, e depois se foi.

Bonito aquilo, o autor de uma música encontrando-a ao acaso pela rua. Bonita também a reverência do Paulinho da Viola com o velho músico da calçada. Fiquei pensando que, hoje, os dois, o Paulinho e o músico estão recolhidos em casa, protegendo-se da peste. A Lapa deve estar silenciosa, os bares devem estar vazios, tudo à espera de um tempo mais seguro, quando de novo poderemos viver esses momentos simples, momentos que são até banais, mas que são tão maravilhosos.

(Da coluna de David Coimbra, na Zero Hora, maio de 2020)


P.S. Choro Negro é uma interpretação instrumental e está na internet.

Duas formas literárias



Uma Lenda Hindu

Artigo Publicado no Boletim da OTAN de Março de 1998

Conta uma velha lenda hindu que outrora todos os homens eram deuses, mas abusaram de tal modo da sua natureza divina que Brama, o Senhor dos deuses, decidiu retirar-lhes esse poder divino e escondê-lo em lugar onde lhes fosse impossível encontrá-lo. O problema, contudo, era encontrar esse esconderijo.

Brama convocou, pois, todos os deuses menores a fim de resolver este problema, e a sugestão que eles lhe deram foi enterrar a divindade do homem bem no fundo da terra. Mas Brama respondeu-lhes que isso não seria suficiente, pois o homem escavaria a terra e acabaria por reencontrar a sua natureza divina.

Então os deuses sugeriram que se atirasse para o fundo do mar a natureza divina do homem. E de novo Brama lhes respondeu que, mais tarde ou mais cedo, o homem exploraria as profundezas do mar e a recuperaria.

Os deuses menores já não sabiam que outros lugares poderiam existir, quer na terra quer no mar, onde o homem não conseguisse chegar um dia.

Então Brama disse: “Vamos fazer o seguinte com a natureza divina do homem: vamos encondê-la bem no fundo de si mesmo, pois será esse o único lugar onde o homem nunca a irá procurar.”

E desde esse dia, segundo conta a lenda, o homem tem percorrido e explorado o mundo, subido às montanhas mais altas e descido às grandes profundezas da terra e do mar, sempre à procura do que está dentro de si próprio.

* * * * * * *

Um poema brasileiro

O cachorro


Ricardo Silvestrin

O cachorro,
o melhor amigo
do homem,
é tido em alta conta,
mas também serve para xingar:
seu cachorro!
tem a cachorrada,
uma sacanagem da braba,
fulano me deu o cachorro,
um golpe, um Godot
quem teve um dia de cão
tem os que levam uma vida de cão
e quem não quer tripudiar
diz que não chuta cachorro morto
o cão também é o diabo
uma coisa cachorra
é ruim pra cachorro
tem um calor do cão
e o cara sem grana
está matando cachorro a grito
o homem é amigo do cachorro
mas não muito amigo
da palavra cachorro

(Do livro O menos vendido) 


terça-feira, 19 de maio de 2020

O pealo da vida

Paulo Mendes*


Era um homem jovem ainda, 50 e poucos, por aí, mantinha os braços fortes com marcas de quebraduras, vivera sempre naquela lida bruta de estância em estância. Era uma segunda-feira, madrugaram para principiar o serviço mais cedo, o capataz mandara castrar e marcar um lote de novilhos desmamados. Então, viu o jaguané correr rente à mangueira. Reboleou o laço de armada curta com duas rodilhas apenas, e lançou o tiro certeiro nas mãos, o bicho trocou de ponta e os companheiros chegaram para apertar, um botou o sovéu nas patas, outro torceu a cabeça. Ele ficou ali, recolhendo o laço de 12 braças feitio do finado Artidor, lá do Cerrito. Olfateando esterco olhou para o nascente, viu a bola de fogo que clareava o dia. Foi seu último pealo, o derradeiro tombo que dava num pavena. Em seguida, sentiu uma patada no peito, as coisas ao seu redor começaram a rodar e caiu, sujando a bombacha preta de favos com o verde da bosta do novilho. “Merda”, gritou Tonho Maidana, enquanto outros dois peões levavam o laçador até o galpão grande.

Quando o patrão chegou, levou Gilberto Sereno Ichuparry de La Cruz, o Gibão, para o Hospital da Vila Rica. Fizeram exames, constataram o rompimento de uma veia perto do coração e marcaram cirurgia. Começavam as horas finais da vida do campeiro que fazia bonito numa marcação, num rodeio de coxilha, no preparo de um assado em dia de festa, do dançador de xotes em bailongos beira de estrada, do exímio castrador, do domador respeitado, do pelador de adaga, do consagrado e disputado peão por todos os estancieiros do antigo Durasnal. Na véspera da cirurgia, sonhou com a infância no povoado de Masoller, no Uruguai. A mãe fugira dias antes da batalha entre Blancos e Colorados, aquela em que Aparício Saraiva foi ferido de morte. O avô, Gilberto Ichuparry, era federalista e morreu lutando pelo chefe, que peleava com um pala branco nos ombros, de peito aberto, de espada na mão, destemido, à frente das tropas e, por isso, acabou ferido por um disparo de Mauser dos colorados. Os blancos lutavam com espadas, adagas e lanças. A mãe de Gibão, Firmina Ichuparry, a dona Mina, sempre falava dessas batalhas e das peripécias dos irmãos Aparício e Gumercindo.

Foi no dia 2 de novembro de um certo ano dos 1900 que Gibão se despediu deste mundo. Havia nascido num Domingo de Páscoa, num ranchinho perto da Cascata do Ivaí, lugar pelo qual sua mãe se apaixonara e vivera com outro peleador uruguaio, Juan Ignácio de La Cruz. Quando o pequeno Giba nasceu, o pai se mandou pra Vichadero e nunca mais voltou. Ou era Santa Clara de Olimar? Bueno, agora não importa mais nada, está tudo acabado. Mas Dona Mina o criou forte e trabalhador.

Contam que Gibão nunca se casou, mas teve uma filha, fruto de um relacionamento fugaz que teve numa viagem a São Borja. Antes de morrer, pediu que a chamassem, sabia o nome e que trabalhava numa cooperativa. Quando Angélica chegou, finalmente conheceu o pai. Ele mandara muitas cartas, mas ela nunca o perdoara. O pequeno Gilberto, de 2 anos, era a cara do avô, que morrera fazendo o gostava, peleando a vida numa mangueira de pedra.

******

P.S. Quem me contou a história foi a própria Angélica. Ela se formou em Jornalismo na UFSM e atualmente tem um blog de notícias numa pequena cidade do interior.

*(Da coluna Campereada no Correio do Povo, maio de 2020)

Glossário

Jaguané: Diz-se de animal vacum que tem o fio do lombo e barriga brancos.

Mangueira: Grande curral de gado, de pedra ou de madeira, junto ao edifício da estância.

Reboleou: Deu movimento de rotação ao laço para arremessá-lo contra um animal que se quer prender.

Sovéu: Laço grosseiro e forte para pegar touros.

Pealo: Laço que se atira ao boi ou outro animal, quando este vai em disparada, prendendo-o pelas partas dianteiras.

Pavena: Valente, brigador.

Bailongo: festa em que há danças.

Peleador: Brigão, bom de briga.

Adaga: Faca comprida, e fina tipo punhal com dois gumes.

Peão: Trabalhador de estância.

Pelear: Lutar, combater.

Durasnal: Pomar de pessegueiros.

Mauser: Pistola semiautomática alemã.

Palavras consultadas no “Dicionário Gaúcho”,
de Alberto Juvenal de Oliveira.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

O marinheiro Marcílio Dias

Por Fátima Fabiana


A história de hoje não possui um retrato, Pulcena, podemos apenas imaginar como eram suas feições!

Em 1804, um casal liberto, que vinha da costa africana, festejava o nascimento de sua bebezinha. Levaram sua maior preciosidade à Igreja Nossa Senhora das Mercês (Nossa Senhora das Necessidades), na localidade de Povo Novo, no município de Rio Grande.

Um ano antes, na mesma pia batismal, Antônio de Souza Netto recebia o sagrado sacramento. Manoel Ventura e Joana Dias apresentavam a Deus a pequenina Polocena Dias, que com o tempo passou a ser chamada de Pulcena Dias. Cresceu no campo com pouco ou nenhum luxo...

No seu coração havia um sonho, o de conhecer um homem bom e se casar para ter sua própria família. Com seus vinte e alguns anos conheceu Francisco Joaquim e ele ficou encantado com a esbelta; seu rosto era redondo, com olhos negros cativantes emoldurados por cabelos volumosos. Seu sorriso franco conquistou o amor de Joaquim. Casaram-se e tiveram três filhas. Pulcena não sabia ler e nem escrever, mas sabia trabalhar e trabalhava com amor e dedicação. Limpava, lavava e cozinhava. Cesária, Luiza e Joaquina eram suas maiores alegrias, mas infelizmente seu esposo falece.

A luta pela vida e a necessidade de criar as meninas a fez resistir. Não faltava trabalho. Nunca souberam o que era usar roupas novas, e, no entanto, sempre andavam limpas, esbanjando capricho.

Um dia, o sotaque português do marinheiro Manuel Fagundes lhe aqueceu o coração! Foi impossível não se apaixonar. Ela lhe deu um varão, Marcílio*, que era tudo para a mãe e muito mimoso! O tempo passou e seu menino, agora com 17 anos, tornou-se um teimoso e algumas vezes ela teve que utilizar o chinelo… Alguém chega gritando: “Dona Pulcena, Dona Pulcena, é o Marcílio!” Ela saiu desesperada. Marcílio havia se envolvido em uma briga e se esvaía em sangue. Marcílio não levava desaforo para casa. Foi até à delegacia e registrou o ocorrido.

Em 1855 ela foi presa, acusada de introduzir moedas falsas. Ela disse aos filhos que era inocente. Chamou o padrinho do menino e pediu que o levasse para a Marinha. Naquela época, a Marinha funcionava como um castigo, uma escola, um lugar que “recrutava” crianças pobres para um local de baixos soldos e de muitas chibatas, porém para os pais era a única chance de uma vida “melhor”, viajar e quem sabe, aprender a ler! Foi difícil, mas era um mal necessário para seu mocito aprender a ter responsabilidades. Durante toda a vida, Pulcena dizia ao filho para ser obediente e mostrar ao mundo que ele tinha valor. Ele era filho de um homem do mar. Seu pai atravessou o mar e ele podia atravessar também! Ser pobre não é defeito! Defeito é ser preguiçoso e covarde!

Em 1855, o jovem ingressa na Marinha. Em pouco tempo a mãe é absolvida e retoma sua rotina. Sente muita saudade de seu filho amado. Chega a notícia de que ele esteve doente... Fica desesperada! Precisa ver sua cria! Pulcena recorre a todas as senhoras para quem sempre lavou, passou e cozinhou, para que a ajudem a trazer seu pequeno. Ela suplicou tanto, que em 1857 desembarca em Rio Grande um mulato marinheiro corpulento, alto, garboso. A mãe e as irmãs não acreditam que era o Marcílio… Choraram muito de felicidade… Dias felizes! Ela não se cansava de falar do seu orgulho! Dizia a todos: “Olhem o Marcílio, é o homem mais lindo da Marinha do Imperador”. Mas a licença expirou… Para a Marinha ele voltou... A mãe o beijou e disse que sempre estaria com ele, que amor de mãe vai aonde os olhos não enxergam.

Em 1864, Marcílio se destacou em Paysandu, com a bandeira do Brasil, emocionado, gritava “Vitória!”. Na ímpia Guerra do Paraguai, em 1865, Pulcena já estava em seu descanso eterno e o jovem marinheiro gaúcho, cercado por 4 inimigos, não se entrega. Algo em seu peito gritava: “Não está morto aquele que peleia”. E ele peleou, peleou como sua mãe e sua ancestralidade e com seu sabre matou dois, foi atingido, o braço decepado... Não desistia e comovia até o comandante Barroso. Riachuelo entra para a história.

Marcílio não resiste! Seu túmulo são as águas doces do Rio Paraná. Seu nome está gravado de Norte a Sul do Brasil. Os relatos de seus contemporâneos ajudaram a montar o seu retrato. No centro de minha cidade, a Rainha da Fronteira, uma das ruas tem o nome deste filho de lavadeira. Heróis são homens que resistem e insistem. Atrás de um filho herói existiu uma mãe heroína! Eu sei que muitos heróis nasceram em berços humildes e o maior de todos os seres humanos nasceu em uma manjedoura... Educação é a única solução para esta Nação. Hoje, o maior hospital da Marinha, na Cidade Maravilhosa, tem o nome deste gaúcho. O neto dos africanos fez história!

*****


O Imperial Marinheiro de Primeira Classe Marcílio Dias, era filho de Manuel Fagundes e de Dona Pulcena Dias, nasceu no Rio Grande do Sul, em 1838.

Ingressou na Marinha como Grumete aos 17 anos de idade, tendo sentado praça no Corpo de Imperiais Marinheiros em 5 de agosto de 1855.

Ao verificar praça no Imperial Corpo de Marinheiros, a fim de receber a instrução militar obrigatória, Marcilio Dias teve como seu primeiro comandante o então Capitão-de-Mar-e-Guerra Francisco Manuel Barroso da Silva, o futuro Comandante da nossa esquadra vitoriosa em Riachuelo.

Tendo cursado a Escola Prática de Artilharia, foi promovido a Marinheiro de Segunda Classe. Só podiam matricular-se na escola acima as praças que soubessem, pelo menos, ler e escrever. A sua sede era a bordo da Fragata Constituição. Depois realizou viagem de instrução para pratica de artilharia a bordo da Corveta Imperial Marinheiro. Dessa turma, composta de 38 alunos, somente 15 foram habilitados nos exames finais, sendo Marcilio Dias um desses 15. Sempre fora, uma praça distinta. Depreende-se daí, que Marcilio Dias não era, como muitos supõem analfabeto; se a Escola, cujo fim principal era o de “criar artilheiros com as necessárias habilitações para poderem desempenhar a bordo dos navios da Armada os importantes cargos de Chefes de Peça, Fiéis de Artilharia, Carregadores e Escoteiros, e a 11 de junho de 1865 Marcilio Dias era Chefe de Rodízio Raiado, conclui-se que o seu preparo instrutivo era de nível bem elevado.

Aprovado nos exames, Marcilio Dias embarcou na Canhoneira a Vapor Parnahyba, em 1863. Estava esse navio em aprestos de viagem para o Rio da Prata, era seu Comandante o 1º Tenente Aurélio Garcindo Fernandes de Sá.

Tomou parte ativa na tomada de Payssandú e de Corrientes. A 11 de junho de 1885, trava-se a memorável Batalha de Riachuelo.

A Parnahyba lançou-se sobre um Vapor inimigo pondo-o a pique. É porem, abordada pelos outros dois. A luta foi heróica. “Cada oficial, cada marinheiro, cada soldado, cumpriu o seu dever de verdadeiro brasileiro.” A nossa bandeira, que chegou a ser arriada por um oficial paraguaio, foi defendida até a morte pelo Capitão Pedro Afonso Ferreira e pelo Guarda-Marinha João Guilherme Greenhaigh. Quase toda a guarnição de ré foi acutilada.

Só com a aproximação da Fragata Amazonas, que viera em socorro da Parnahyba, é que os paraguaios abandonaram a nossa Canhoneira. O combate durara mais de uma hora. O Comandante Garcindo de Sã, tendo em vista a gravidade da situação, já ordenara ao Escrivão de Segunda Classe José de Correia da Silva que lançasse fogo ao paiol de pólvora.

Os paraguaios percebendo que vinham em socorro da Parnahyba, a Fragata Amazonas, o Vapor Belmonte e a Canhoneira Mearim, precipitaram-se ao rio, procurando ganhar a margem do Chaco.

Depois disso a nossa bandeira foi de novo içada.

O Comandante Garcindo de Sã, em parte que dirigiu ao Comandante-Chefe da Esquadra brasileira, assim se expressou sobre Marcilio Dias: “O Imperial-Marinheiro de Primeira Classe Marcilio Dias, que tanto se distinguira nos ataques de Paissandu, imortalizou-se ainda nesse dia. Chefe do rodízio raiado, abandonou-o, somente, quando fomos abordados, para sustentar braço a braço a luta de sabre com quatro paraguaios.

“Conseguiu matar dois, mas teve de sucumbir aos golpes dos outros. Seu corpo crivado de horríveis cutiladas, foi por nós piedosamente recolhido, e só exalou o último suspiro ontem (12 de junho), às duas horas da tarde, havendo-se-lhe prestado os socorros que me tornara digna a praça mais distinta da Parnahyba. Hoje (13 de junho), pelas 10 horas da manhã, foi sepultado, com rigorosa formalidade, no rio Paraná, por não termos embarcação própria para conduzir seu cadáver à terra.

Andréa, Júlio. A Marinha Brasileira: florões de glórias e de epopeias memoráveis. Rio de Janeiro, SDGM, 1955.

NOMAR − Noticias da Marinha, Rio de Janeiro, SRPM, n.º 502, abr/mai/jun. 1985; n.º 686, jun. 1999.


Combate Naval do Riachuelo – de Victor Meirelles*

* A pintura acima, hoje reside no Museu Histórico Nacional no Rio de Janeiro.




domingo, 17 de maio de 2020

Uma historinha do rádio gaúcho

O dia em que quase ganhei uma calcinha

Túlio Milman


Talvez eu já tenha contado essa história, mas, conforme expliquei acima, repetir não é pecado. Ainda mais quando a história é boa.

No começo da carreira, eu era interino do Rogério Mendelski no Gaúcha Hoje, apresentado atualmente com brilhantismo pelo Macedão*. Eu, guri, queria impressionar. O Rogério tirava férias entre Natal, Ano-Novo e Carnaval. E lá ia eu, bem feliz, noite fechada ainda, aproveitar a oportunidade de mostrar serviço.

O locutor que acompanhava o programa no estúdio era o Flávio Martins, dono de uma voz aveludada e de uma personalidade tranquila e reservada. Um baita colega, que me ajudou muito lá atrás. Era cedo, antes das 6h, hora de mais um break comercial. O Flávio pegou a pastinha e começou a ler, com aquela voz grave e imponente. “Você quer passar um Natal inesquecível?”. E eu, ligadíssimo, achei que poderia contribuir e valorizar a mensagem do cliente. “Claro, Flávio, quero sim”, emendei, de improviso, na pausa da respiração dele.

Fez-se um silêncio.

O Flávio olhava para a pasta e para mim, atônito.

Vi que ele, sempre reservado e quieto, mudou a fisionomia. Segurando o estouro na gargalhada, seguiu lendo a propaganda. “Se você quer passar um Natal inesquecível, vá a uma de nossas lojas e ganhe, nas compras acima de R$ 100, uma linda calcinha nova para passar o Ano-Novo”.

O operador cortou o áudio do estúdio e colocou os comerciais gravados, enquanto nos dobrávamos de rir sobre a mesa.

Nós e, imagino, os ouvintes também.

(No jornal Zero Hora, maio de 2020)

*Antônio Carlos Macedo, radialista da RBS.


sexta-feira, 15 de maio de 2020

Leal e Valorosa



Título conhecido dado à cidade de Porto Alegre pelo Decreto Imperial nº 103, de 19 de outubro de 1841, para assinalar a coragem e determinação de seus habitantes na retomada da cidade aos farroupilhas. Apesar de o ilustre historiador Walter Spalding haver sempre grafado como “leal e valerosa”, esse título honorífico, induzindo o município a inscrevê-lo desse modo no listel (faixa vermelha do escudo acima) que encima o escudo de armas, a forma adotada pelo decreto original foi mesmo “valorosa”, de acordo, aliás, com o uso dominante no século XIX. Assim o registra a publicação oficial das Leis do Brasil e do mesmo modo aparecem as cópias remetidas à Câmara Municipal pelo presidente da Província, Saturnino de Souza e Oliveira, quando recebeu o ato procedente da Corte.

O engano do Prof. Spalding talvez decorresse da circunstância de que, por algum tempo, enquanto Joaquim José Afonso Alves foi secretário da Câmara Municipal, até o ano de 1842, o mesmo sempre grafou “valerosa” no cabeço das atas das sessões, certamente por idiossincrasia pessoal sua.  Todos os demais secretários, até o título cair em desuso em 1892, escreveram “leal e valorosa cidade de Porto Alegre”, nos termos precisos do decreto original.

Paço Municipal


A sede do governo do município, na Praça Montevidéu, oficialmente denominada Paço dos Açorianos, foi mandada construir pelo Intendente José Montaury em sua primeira gestão. O projeto é do italiano J. L. Carrara Colfosco. Lançada a pedra fundamental em 5 de abril de 1898, a construção foi iniciada em 28 de setembro do mesmo ano. Em abril de 1901 já estava concluída, permitindo que a mudança completa dos serviços do município se consumasse em 15 de maio. Além do gabinete do intendente, ali funcionaria o Conselho Municipal, a Secretaria, a Contabilidade, a Tesouraria e a arrecadação de tributos, além do Arquivo, da Inspetoria de veículos, da Assistência Pública e do 1º Posto Policial com o respectivo xadrez.

Seu custo total, de 500 contos de réis, demandou dotações orçamentárias de quatro anos. Na ocasião, a imprensa local salientou que a mão-de-obra e quase todos os materiais utilizados na obra haviam sido produzidos em Porto Alegre. O Paço Municipal foi erguido sobre terreno conquistado a uma das chamadas docas do Mercado, construído em meados do século XIX.

Do livro “Porto Alegre Guia Histórico”,
de Sérgio da Costa Franco – Editora da Universidade.


Cais do Porto 1892

Ao fundo, vemos o Mercado Público; no meio da foto, barcos e o braço do Guaíba que foi aterrado, e que seria o local da construção das duas prefeituras, a velha, na Praça Montevidéu e a nova, na rua Siqueira Campos. O porto atual seria construído mais adiante do centro da cidade.


Mercado Público:

À esquerda da foto acima, vemos as águas do Guaíba que ainda não tinham sido aterradas. Nesse local seria construída a Prefeitura Municipal de Porto Alegre. As duas carroças, no meio da foto, estão onde hoje está a avenida Borges de Medeiros. O Mercado Público ainda não tinha o segundo andar.



quinta-feira, 14 de maio de 2020

Conheça a história de Santa Corona, protetora contra epidemias



No dia 14 de maio, a Igreja Católica comemora o dia de Santa Corona, considerada protetora contra epidemias. Pouco se sabe sobre a história dessa mártir da tradição cristã primitiva, que viveu no século II, na Síria. Embora a devoção seja pouco difundida, o nome da santa experimenta uma onda crescente de popularidade desde o início da pandemia do novo coronavírus.

Há ambiguidade em torno das datas e locais do martírio de Santa Corona. Algumas fontes apontam que ocorreu em Damasco, outras em Antioquia, mas a maioria concorda que ela foi morta na década de 170 d.C., durante o reinado de Marco Aurélio e por ordem de um juiz romano chamado Sebastian.

Conta-se que Corona tinha 16 anos quando foi executada, de forma brutal, por professar a fé. Ao ver soldados romanos torturando um homem, chamado Vitor, por se recusar a negar Cristo, a jovem tentou ajudá-lo. Levada a julgamento, ela se declarou cristã e também foi condenada à morte. Os soldados amarraram os membros de Corona a duas árvores curvadas que, ao retornarem à posição vertical, imprimiram uma força tão violenta que destruíram o corpo da jovem. Assim se deu o martírio de São Vitor e Santa Corona.

Parte das relíquias de Corona foi levada a Aachen pelo rei Otto III, em 997, e guardada em um túmulo debaixo de um piso na catedral, que ainda pode ser visto. Outra parte dos restos mortais de São Vitor e Santa Corona está preservada em uma basílica na cidade de Anzu, na Itália.

Padroeira contra epidemias

Em entrevista à Agência Alemã de Imprensa (DPA), em março, a porta-voz da Catedral de Aachen, Daniela Lövenich, afirmou que a santa é invocada por vítimas de epidemias. “Entre outras coisas, Santa Corona é considerada uma santa padroeira contra epidemias. É isso que a torna tão interessante neste momento”, afirmou.

Rastrear a origem dessa devoção, no entanto, não é tarefa fácil. De acordo com a Lexikon des Mittelalters, uma enciclopédia alemã sobre a história e a cultura da Idade Média, que reúne mais de 36 mil artigos em nove volumes, não há notícias documentadas sobre a vida de Corona. As informações que compõem a devoção em torno de seu nome foram transmitidas pela tradição oral.

A enciclopédia indica que a santa foi invocada por caçadores de tesouros e açougueiros e assinala que nada se sabe sobre um patronato especial contra epidemias, segundo reportagem da agência católica de notícias ACI Digital.

Há dúvidas se a santa se chamava realmente Corona ou se o nome se refere à moeda da época (a palavra “corona” vem do latim e significa “coroa”). Ela também era chamada de Stephania e alguns acreditam que a santa pode ter ficado conhecida como Corona por ser invocada para “assuntos de dinheiro, loteria e jogos de azar”, de acordo com a edição da enciclopédia publicada em 1931.

A referência à possível veneração de Santa Corona por jogadores foi retirada nas edições posteriores do livro. A edição mais recente da enciclopédia, de 2001, afirma que, na Baviera e na Baixa Áustria, Santa Corona foi venerada como “patrona da sorte” e “patrona dos caçadores de tesouros”, mas não traz referências ao patronato contra epidemias.

A Enciclopédia Ecumênica dos Santos, organizada pelo pastor protestante aposentado Joachim Schäfer define Santa Corona como padroeira contra epidemias. No entanto, a fonte não oferece informações sobre a origem deste patronato.

Ainda não está claro, portanto, quando e como Santa Corona passou a ser invocada como padroeira contra as epidemias. Sua festa é celebrada no dia 14 de maio pela Igreja Católica e no dia 11 de novembro pela Igreja Ortodoxa.

(Do jornal Extra, maio de 2020)