quarta-feira, 17 de junho de 2020

Biliu de Campina, um forrozeiro brasileiro.



Coco pro Cão

Composição: D. Martins / Manezinho Silva.

Cambito, cuia, cabeçote de cangalha,
Careta, cara canalha, carrapeta e caçuá.
Caçote, coco, carrapato, catolé, carrapicho,
Cangapé, Calundum, cara, cará.
Cabaça cheia, caritó e cumpineira, caninana,
Capoeira, Cangati, cabra, corro.
Curimatã é cavalo do cão, cabresto
Cata cavaco no cesto, cazuza do cabrobó.

Chapéu de couro, caruara, curandeiro,
Curumim, cara, carreiro, cravinote e carimã.
Coivara, canga, caçuleta, caipira
Corisco, cara, cupira, casal de carapanã.

Conrado, corre chama comadre Cristina,
Camilo da Carolina e o Chagas Camaleão.
Chegou Chiquito, cabra chato pra chuchu,
Com cara de cururu, cantando o coco do cão.

Melhor do que Tu

Composição: Biliu De Campina / Juvenal De Oliveira.

Eu sei que sou desordeiro,
Desonrador e tarado,
Por deus amaldiçoado,
Trambiqueiro e maloqueiro,
Neto de catimbozeiro,
Parente de manitu,
Filho de surucucu,
Com gigolô de cortiço,
Provo que sou tudo isso,
Mas sou melhor do que tu!

Faço arrastão na praia,
Roubando e marcando passo,
Tudo o que vier eu traço,
Entro no meio da gandaia,
Tiro a calça e visto saia,
Com pomba gira e exu,
Faço o maior sururu,
Na mãe de santo dou cheiro,
Chifro o dono do terreiro,
Mas sou melhor do que tu!
Falo de tudo que vejo,
Tudo o que não presta eu faço.
Dou coice em vez de abraço,
Dentada em lugar de beijo,
Sou sangue de percevejo,
Nascido em carandiru,
Enguiço até urubu,
Sou a caixa do azar,
Lasco um só no olhar,
Mas sou melhor do que tu!

Sou todo cheio de pantim,
Moleque de vida torta.
Sou arrombador de porta,
Xeleléu de mulher ruim,
Pau d'água de botequim,
Colete de couro cru,
Espinho de caititu,
Futucando uma pantera,
Me casei com a besta fera,
Mas sou melhor do que tu!

Sou bebedor de cachaça,
Assaltante e desertor,
Caloteiro e impostor,
Caço uma briga de graça,
Bebendo no meio da praça,
Tiro a roupa e fico nu,
Fedegoso igual timbu,
Gosto de fumar maconha,
Pobre, liso e sem vergonha,
Mas sou melhor do que tu!

Entrei numa bebedeira,
Casei em taba lascada,
Com uma bicha desonrada,
Que tinha vindo da feira.
Fiquei cheio de gafeira,
Pintado só cururu,
Fiz o maior sangangu,
Da mulher já apanhei,
Toda venérea peguei,
Mas sou melhor do que tu!

Sou da pior catrevagem,
Sou vendedor de muamba,
Sou acabador de samba,
Contador de pabulagem,
No quadro da sacanagem,
Ninguém quebra o meu tabu.
Roubo mais que guabiru,
Sou chefe de vagabundo,
Pior do que todo mundo,
Mas sou melhor do que tu!

Quebrado que nem um caco,
Com a vida pelo meio,
Já estou de saco cheio,
De viver enchendo o saco.
Não posso ver um buraco,
Sou igual a candiru,
Fiz doutorado em rebu,
Sou feroz e violento,
Eu dou pontapé no vento,
Mas sou melhor do que tu!


Severino Xavier de Souza (Campina Grande − PB, 1º de março de 1949), mais conhecido como Biliu de Campina é um compositor, cantor e advogado brasileiro.

Formou-se em direito, pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), mas trocou a advocacia pela música em 1978 quando iniciou a carreira artística, resgatando o forró de raiz. Biliu é um forrozeiro que transita pela sua cidade natal tranquilamente, sendo um referencial e um patrimônio cultural da cidade. É fácil encontrá-lo no meio dos turistas no Parque do Povo e horas depois está em cima do palco fazendo show.

Se auto-intitula como o maior carrego de Campina Grande. Critica as bandas de forró eletrônico e forró universitário, classificando-os como sendo travestis de forrozeiros, que aparecem como balão junino; fazendo forró a força e dizendo que estão dando força para o Forró.

Biliu lançou três discos independentes: Tributo a Jackson e Rosil; Forró O Ano Inteiro e Matéria Paga. E lançou dois CDs independentes: Do Jeito Que O Diabo Gosta e Forrobodologia. Em 2002 mantendo seu lado irreverente, lança: Diga Sim A Biliu de Campina, trocadilho da campanha nacional do Combate a Pirataria: Diga Não a Pirataria.

O Forró de Biliu tem toda a essência dos forrós tradicionais, com um suingue característicos dos discípulos de Jackson e uma irreverência no duplo sentido das letras que mostra bem toda a malicia e o bom humor nordestino. Biliu mantém um trabalho local por opção e por falta de oportunidade de mostrar seu trabalho a nível nacional; não quer se desgastar no sudeste, batendo portas lacradas e trocado por modismo do mercado fonográfico.

terça-feira, 16 de junho de 2020

Decifre o seu chefe

Por Max Gehringer


1. O Chefe Evasivo

− Chefe, o senhor tem um minuto?
− Você é a...
− Glória.
− Glória, certo. Só que agora não vai dar, estou ocupado.
− Mas é rapidinho.
− Fale ali com o César. Ele está a par de tudo.
− Mas foi o César que pediu para eu vir falar com o senhor.
− Foi, é? Então pede para o César vir aqui falar comigo.
A Glória foi uma tremenda otimista ao achar que o chefe lhe daria alguma resposta prática. Porque Chefe Evasivo não responde, não toma posições, não assume compromissos, e não feedback. E, muitas vezes, como no caso da Glória, sequer sabe o nome de seus subordinados. O que está por trás da personalidade do Chefe Evasivo é uma enorme insegurança. Por isso, o Chefe Evasivo tem um fiel escudeiro que responde no lugar dele, normalmente alguém suficientemente esperto para não ter qualquer outra ambição na carreira, a não ser a de proteger o chefe contra as investidas dos subordinados.

Como lidar com ele?

Falando direto com o César. O único problema é que o César não tem autoridade e tampouco coragem para recomendar aumentos e promoções. Quem tem um Chefe Evasivo precisa urgentemente mudar de área e a melhor maneira de fazer isso é conversando diretamente como chefe da outra área. Se não mudar, vira subCésar. Ou seja, condena-se ao anonimato eterno.

{Alguns evasivos memoráveis}

Pôncio Pilatos → O mais famoso do clã. Sua atitude de lavar as mãos diante de Cristo virou emblema dos chefes que não assumem responsabilidades.

D. João VI → Evadiu-se quando Napoleão invadiu Portugal e tinha fama de submisso à mulher, Carlota Joaquina. Sempre que possível, decidia não decidir.

Zagallo → Consta que a seleção do tri, em 1970, era comandada de dentro do campo por Gérson e Carlos Alberto. O treinador tentava não atrapalhar.

2. O Chefe Compulsivo

O Chefe Compulsivo tem um problema de fuso horário. Ele quer tudo para ontem, e riscou de seu calendário a palavra “amanhã”. E, já que amanhã não existe, não haverá futuro. Logo, investir no desenvolvimento dos funcionários é perda de tempo. O que move um Chefe Compulsivo é, ao contrário do que as aparências indicam, a falta de iniciativa. Ele não pensa e, por isso, depende das ordens de seu superior para poder liberar sua adrenalina.

É fácil reconhecer o Chefe Compulsivo, até nas situações em que não se exige sua extremada compulsão. Num inocente churrasco promovido pela empresa, por exemplo, ele:

1) Se recusa a discutir política, religião, sexo ou futebol.

2) Só fala de seu objetivo para ontem.

3) Fica ridículo de bermuda e chinelão.

Como lidar com ele?

Evitando qualquer assunto que não seja a “ordem do dia”. No dia em que lhe for pedida uma referência sobre algum funcionário, o Chefe Compulsivo sempre recomendará não o mais criativo, nem o que apresenta melhores resultados, mas o que compartilha de sua paranoia.

{O maior compulsivo de todos os tempos}

Tio patinhas → O pato sovina e milionário das histórias em quadrinhos da Disney é o símbolo dos chefes para os quais todo o trabalho se resume a uma única “ordem do dia” − no caso, ganhar dinheiro.

3. O Chefe Repulsivo

Para ele, tudo é uma droga. O trabalho, o horário, a sua sala e, principalmente, os seus funcionários. Um dia, o Chefe Repulsivo está deprimido e não quer falar com ninguém. No outro, está irritado e desconta no primeiro que aparece. Ele dá a impressão de estar sempre com o desodorante vencido e de não ter dormido bem à noite. O Chefe Repulsivo não encara diretamente o funcionário e gosta de fazer críticas genéricas (“Eu falo, falo, e ninguém me entende!”). Escondido atrás da carranca está um frustrado que usa a autoridade como forma de compensação. Sua lógica é simples: a vida não o tratou como ele merecia. Logo, seus funcionários também precisam ser tratados como não merecem.

Como lidar com ele?

Elogiando-o, principalmente quando não há motivo. O Chefe Repulsivo busca a aprovação alheia e por isso preza o elogio, mesmo que vazio. O que, é claro, não bate com o caráter dos funcionários autênticos e bem resolvidos. Funcionários de bem com a vida são sempre suas vítimas preferenciais. Aí, não há o que discutir: o Chefe Repulsivo não vai mudar. Portanto, quem tem que mudar é o funcionário. De atitude, ou de empresa.

{O Rei dos Repulsivos}

Jânio Quadros → O presidente que renunciou de forma intempestiva se encaixa no perfil do chefe repulsivo: irascível, capaz de ir da depressão à agressividade num piscar de olhos, no fundo é um carente.*

4. O Chefe Impulsivo

Ele muda de ideia a cada cinco minutos. Desaprova o que tinha aprovado e contradiz o que tinha dito, sem cerimônia. Embola o meio de campo e credita isso à incompetência dos funcionários*. Consegue grandes sucessos e retumbantes fracassos, mas jamais admite seus erros. Napoleão é seu santo padroeiro.

Como lidar com ele?

Preparando-se com uma listinha de alternativas sempre que for conversar com ele, mesmo que a solução seja óbvia. O risco maior que alguém corre ao discutir com o Chefe Impulsivo é deixar todas as opções por conta dele, porque ele sempre escolherá a mais complicada. Ao contrário dos outros chefes chatos, o Chefe Impulsivo valoriza os funcionários capazes de pensar e ter ideais. Desde que eles deem a impressão de que a ideia foi do Chefe Impulsivo.

{Mais impulsivo, impossível}

Napoleão Bonaparte → Em sua política expansionista, que o levou a conquistar grande parte da Europa, o francês era capaz de grandes acertos e de erros vexatórios − como a desastrosa campanha da Rússia.

5. O Chefe Repressivo

É alérgico a ideias e sugestões. Tem mania de perseguição e vive enxergando conspirações. Não elogia nem por decreto. Impõe regras e não quer ouvir falar em exceções. Impede que seus funcionários tenham contatos fora do departamento. Tudo consequência de algum trauma pessoal, coisa que o Chefe Repressivo resolveria com terapia. Mas quem vai sugerir isso a ele?

Como lidar com ele?

Sendo extremamente obediente. O Chefe Repressivo só valoriza quem lhe dedica irrestrita fidelidade, mesmo quando suas ordens beiram o absurdo. O problema é que gente assim pode ir longe: Mussolini, Stálin e Hitler* eram Chefes Repressivos. E a lição ficou bem registrada: quem os contrariou não viveu para contar a história.

{Três repressivos irreprimíveis}

Mao Tse Tung → Presidente da China por décadas. Mao atingiu o auge como repressivo durante a Revolução Cultural, no fim dos anos 60.

Átila, O Huno → O último rei dos hunos (406-453) foi um grande líder guerreiro e uma ameaça constante ao Império Romano.

Médici → O general Emílio Garrastazu Médici presidiu o Brasil de 1969 a 1974, período mais repressivo da ditadura militar.

Do Almanaque Fantástico, o show da vida em revista,
novembro de 2007

*Há um político brasileiro que, desgraçadamente, se tornou presidente, que também se encaixa, e muito, em alguns desses perfis.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

De onde veio o cinema brasileiro



Rio de Janeiro, início do século XX: era na casa de espetáculos Chopp Cantante que se projetavam os filmes do nascente cinema brasileiro. O lugar também oferecia shows e números de circo e mágica.

1−Primeira Fase


→ Em 1889 começou a produção de filmes no Brasil, ainda chamados de “vistas animadas”. O imigrante italiano Alfonso Segreto, que já atuava no ramo de entretenimento no rio de Janeiro, comprou uma câmera na França e passou a filmar paisagens.

De 1906 a 1913, cresceu o volume de filmes brasileiros. As produtoras eram a Photo-Cinematographia Brasileira (1908), a Arnaldo & Cia. e a William & Cia. Entre 1908 e 1911, a produção se restringia a filmetes de baixa qualidade que reconstituíam crimes violentos e/ou passionais ou mostravam outros assuntos mundanos e popularescos.

2−Primeira Crise


→ O mundo evoluiu rapidamente na sétima arte. A indústria floresceu em outros países, enquanto no Brasil vivia sua primeira grande crise na área. A produção local mal chegava a meia dúzia de trabalhos por ano, com obras de curta duração e enredo sofríveis.

Francisco Serrador, cineasta do período de crise, era um imigrante espanhol que investia no ramo de entretenimento. Dono de vários cinemas, acabou criando, na primeira metade do século XX, o Circuito Serrador, rede de salas espalhadas pelas grandes cidades brasileiras. Foi ele quem concebeu a Cinelândia, inspirada na Times Square.

3−Primeira Obra-Prima


→ O cinema falado chegou ao Brasil em 1929, e o destaque dessa nova fase foi Ganga bruta (1933), de Humberto Mauro. Dos estúdios da Cinédia, o filme hoje é tratado como obra-prima. Quando estreou no Rio, porém, foi considerado o pior de todos os tempos.

Ganga bruta estava adiante de seu tempo, pois usou metáforas visuais. Só foi consagrado em 1952, na 1ª Retrospectiva do Cinema Brasileiro. O filme mostra um engenheiro que mata a mulher na noite de núpcias. O enredo corre na forma de lembranças do protagonista: o namoro, as suspeitas de traição, o noivado e o crime.

4−Primeira atriz global


→ Nos anos seguintes, a carioca Cinédia lançou chanchadas, comédias musicais com cantoras do rádio e atrizes do teatro de revista. Alo, alô Brasil (1935) e Alô, alô Carnaval (1936) projetaram artistas como Carmen Miranda, que se tornou artista global.

A Cinédia se fez no contexto da Revolução de 1930, que transferiu o poder da oligarquia rural para a classe média urbana. Getúlio Vargas levou o cinema a buscar sua identidade como indústria de entretenimento. Outras companhias da época: Brasil Vita Filmes (1934), Sonofilmes (1937) e Atlândida (1942).

5−Primeiro Prêmio Internacional


→ A criação do estúdio Vera Cruz, em 1949, por empresários paulistas, atendia ao desejo de reconquistar o espaço perdido para o cinema estrangeiro e de fazer cinema em bases industriais. Faliu seis anos depois, mas deixou como legado 18 longas-metragens.

O Cangaceiro (1953), escrito e dirigido por Limas Barreto, com diálogos de Rachel de Queiroz, saiu da Vera Cruz. A obra ganhou o prêmio de “melhor filme de aventura” no Festival de Cannes, até hoje um dos mais importantes do planeta. A trilha sonora da história de Lampião e Maria Bonita foi a canção Olé muié rendeira.

(Da revista História Viva, de 2009)


sábado, 13 de junho de 2020

O terror dos banheiros

Notícia falsa aterroriza crianças há mais de 40 anos*


(Imagem da internet)

Bata a porta do banheiro, dê descarga e abra a torneira. Faça isso três vezes. Quem esteve em uma escola brasileira nas últimas quatro décadas (2008**) sabe: surgirá uma loira, com algodão nas narinas e machado na mão. Sim, ela está morta.

Mas, afinal, de onde teria surgido essa mulher? A resposta é simples e direta: de uma matéria de jornal. Ou melhor, da imaginação de jornalistas que criaram e recriaram esta que possivelmente é das mais duradouras lendas urbanas.

A manchete estampou a capa do extinto jornal Notícias Populares em 1966: “Loira fantasma aparece em banheiro de escola”. Acostumados a buscar notícias polêmicas, os repórteres do NP se depararam com uma tarde sem sangrias. Ninguém fora morto a machadadas, nenhum bebê-diabo na maternidade. Mas havia uma foto borrada de uma funcionária do jornal. Loira. Tiveram a ideia da manchete, recriando a história inventada por Orlando Criscuolo para o Diário da Noite, anos antes. O borrão virou algodão, e a loira, defunta. A edição esgotou.

Mário Luiz Serra, um dos “pais” da loira, conta que recebeu uma diretora do conceituado Colégio Rio Branco, de São Paulo, afirmando ter tirado uma foto da fantasma. Quando o filme foi revelado, não havia nada. “Se fosse gente, aparecia”, assegurava a educadora.

A pressão aumentou, inclusive da Secretaria de Educação da cidade: por medo, as crianças não queriam mais ir ao banheiro. O jornal teve que publicar um desmentido. Tarde demais. A loira continuou cercando as escolas. Até mesmo a prima da tal funcionária que inspirou a manchete confessou: “Eu vi a loira do banheiro”.

*  Agora já são 52 anos...

**2008: Ano da publicação do texto.

(Do “Almanaque de Cultura Popular”, da TAM, julho de 2008)


Imagem da internet

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Obras imperdíveis




Dos mais belos projetos de Oscar Niemeyer, selecionamos oito, abrangendo desde os primórdios da carreira até os dias atuais.

Igreja de São Francisco de Assis (1940)
Belo Horizonte (MG)


A igreja é um dos destaques do Conjunto da Pampulha: “Era um protesto que eu levava como arquiteto, de cobrir a igreja de curvas, das curvas mais variadas, essa intenção de contestar a arquitetura retilínea que então predominava”. Burle Marx desenhou os jardins. Os baixos-relevos em bronze do batistério foram esculpidos por Alfredo Ceschiatti. Por sua forma não ortodoxa e pelo mural moderno pintado por Portinari, as autoridades eclesiásticas não autorizaram a consagração da igreja. Cultos só passaram a ser celebrados a partir dos anos 1960.

Edifício Copan (1951)
São Paulo (SP)


Localizado na região central, é um dos projetos de Niemeyer para as comemorações do quarto centenário da cidade, celebrado em 1954. Nos 1.160 apartamentos, divididos em seis blocos e 37 andares, vivem hoje cerca de 5 mil pessoas. É a maior estrutura de concreto armado do País.

Congresso Nacional (1958)
Brasília (DF)


Dos prédios projetados por Niemeyer na Praça dos Três Poderes, o do Congresso é o seu preferido. “Quando alguém vai a Brasília eu pergunto se viu o Congresso Nacional, e pergunto depois se gostou, se achou que o projeto era bom. Certo de que ela podia ter gostado ou não, mas nunca podia dizer que tinha visto antes coisa parecida.”

Catedral Metropolitana (1958)
Brasília (DF)


O interior da igreja recebe luz natural pelos vitrais pintados por Marianne Peretti. A Via Sacra é de Di Cavalcanti; os azulejos no batistério, de Athos Bulcão. “Evitei as soluções usuais das velhas catedrais escuras, lembrando pecado. Ao contrário: fiz escura a galeria de acesso à nave, e esta, toda iluminada, colorida, voltada com seus belos vitrais transparentes para os espaços infinitos.”

Sede do partido Comunista Francês (1967)
Paris (França)


Niemeyer levou apenas três dias para desenhar a planta do edifício. “Minha preocupação foi guardar no térreo o equilíbrio desejado entre volumes e espaços livres. Meu intuito era marcar um princípio importante da arquitetura, que, pela Europa, nem sempre era bem entendido.” Na França, os refeitórios dos assalariados costumam ser localizados no subsolo dos imóveis. Niemeyer fez diferente: instalou o refeitório no último andar, para que os trabalhadores pudessem aproveitar a luz natural e a vista de Paris. O prédio abrigará neste ano (2007) uma exposição em homenagem ao centenário do arquiteto.

Editora Mondadori (1968)
Milão (Itália)


Na fachada da editora, Niemeyer buscou manter um jogo harmonioso de volumes e espaços livres. “Fiz as colunas variando o vão: vão de 15 metros, de 3 metros, de 5 metros, de 6 metros. Era uma ideia que me ocorreu, uma ideia ʽmusicalʼ, vamos dizer.” O arquiteto italiano que trabalhou no projeto não gostou da ousadia. Quis fazer colunas de 8 em 8 metros, mas a criação de Niemeyer prevaleceu.

Centro Cultural de Le Havre (1972)
Le Havre (França)


Projeto tombado como patrimônio histórico pela Unesco. Niemeyer chegou ao local, localizado à beira do mar, e disse ao prefeito que, para proteger a praça do frio e dos ventos, queria afundá-la 4 metros. Apesar de espantado, o dirigente autorizou. “Você anda pela calçada e está vendo a praça embaixo”, explica Niemeyer. “Você é convidado a descer porque tem um teatro dentro dela, o sujeito desce e vê a praça. Essa característica a faz diferente de todas as outras da Europa.”

Museu de Arte Contemporânea de Niterói (1991)
Niterói (RJ)


“A arquitetura tem que ser fácil de explicar. Quando cheguei ao espaço destinado ao museu, vi a paisagem, e o mar defronte. Aí, as montanhas do Rio. Uma paisagem que eu tinha de preservar. Então subi o prédio, mantive a paisagem, com o museu solto no ar.”

Museu Oscar Niemeyer (2002)
Curitiba (PR)


Niemeyer projetou em 1967 o edifício, que inicialmente abrigaria um instituto de educação. O prédio, no entanto, acabou sendo usado como sede de secretarias e outros órgãos administrativos do Paraná. Em 2001, o governo do Estado resolveu transformar o complexo em um museu, convidando o arquiteto para desenhar um novo anexo, que ficou conhecido popularmente como Olho. “Lá está o museu a surpreender a todos que passam. Uma arquitetura que foge a tudo que viram antes. Toda feita de audácia, de técnica e de fantasia.”

(Do Almanaque de Cultura Popular, TAM, agosto de 2007)


Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho (Rio de Janeiro, 15 de dezembro de 1907 – Rio de Janeiro, 5 de dezembro de 2012) foi um arquiteto brasileiro, considerado uma das figuras-chave no desenvolvimento da arquitetura moderna. Niemeyer foi mais conhecido pelos projetos de edifícios cívicos para Brasília, uma cidade planejada que se tornou a capital do Brasil em 1960, bem como por sua colaboração no grupo de arquitetos indicados pelos Estados-membros da ONU que projetaram a sede das Nações Unidas em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Sua exploração das possibilidades construtivas do concreto armado foi altamente influente na época, tal como na arquitetura do final do século XX e início do século XXI. Elogiado e criticado por ser um “escultor de monumentos”, Niemeyer foi um grande artista e um dos maiores arquitetos de sua geração por seus partidários. Ele alegou que sua arquitetura foi fortemente influenciada por Le Corbusier, mas, em entrevista, assegurou que isso “não impediu que [sua] arquitetura seguisse em uma direção diferente”.

Folclore jurídico



Ver para crer

No interior do estado do Rio, o juiz interrogava uma vítima de sedução. Era a imagem da inocência. Indagada sobre o que houve, respondeu que o suspeito a havia encostado num muro perto do matagal, forçando-a a ter com ele relações íntimas.
O magistrado, sempre prudente, indagou:
− Quer dizer, minha filha, que o acusado prendeu seu braço esquerdo com a mão direita dele?
− Sim senhor!
− E prendeu seu braço direito com a mão esquerda dele, prendendo com força nas suas costas?
− Sim, doutor juiz.
− E você ficou com ambos os braços preso às costas?
− Isso mesmo, meritíssimo.
− Então absolvo o réu. Minha filha, se tudo foi assim, me diga uma coisa: quem guiou o ceguinho?

Último recurso

O réu estava sendo julgado por assassinato. Havia fortes evidências sobre sua culpa, mas o cadáver ainda não aparecera. Sem muita esperança, o advogado arrisca:
− Tenho uma surpresa. Dentro de um minuto, a pessoa presumivelmente assassinada entrará neste tribunal.
E olha para a porta. Os jurados, surpresos, repetem o gesto. Findado o prazo, o advogado retoma:
− Realmente, ninguém entrou. No entanto, por vossa expectativa, depreende-se que o júri não tenha certeza alguma de que alguém foi morto. Se não há morto, não há assassino.
Os jurados retiram-se para a decisão final. E vem o veredicto: culpado.
− Culpado? Mas como? − pergunta o advogado. − Vocês estavam em dúvida, eu vi todos olharem para a porta!
E o juiz, para arrematar:
− É verdade. Todos olhamos para a porta. Menos o seu cliente.

(Do “Almanaque de Cultura Popular”, da TAM)


quinta-feira, 11 de junho de 2020

Pena de morte

Por Joel Rufino dos Santos*


Execução de Joaquim José da Silva Xavier o Tiradentes, no dia 21 de Abril de 1792 (Reconstrução histórica feita sob apontamentos do Sr. Barão Homem de Mello).

Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi executado, como todos sabem, em 21 de abril de 1792, por volta do meio-dia, no centro do Rio. Do espetáculo participaram três bichos da terra tão pequenos. Essa é de Camões: bichos da terra tão pequenos...

O primeiro, seu escravo, foi passado nos cobres quando o amo precisou de cash para fugir. O cortejo fúnebre saiu da cadeia pública, atual Assembleia Legislativa, entre oito e nove horas de um dia lindo. Percorreu a Rua do Piolho (atual Assembleia), chegou ao Campo de São Domingos (hoje Teatro João Caetano) e parou na igreja da Lampadosa (que ainda está lá) para a oração final. Moças nas sacadas, rufo de tambores, o comandante da brigada em cavalo ajaezado, de cima pra baixo. No meio do cortejo, bandeiras da misericórdia, cestos de marmelada, pães-de-ló e vinhos para levantar o ânimo do condenado. Na rabeira, a carreta para os seus pedaços, empurrada por 12 forçados. Parecia desfile de escola de samba, mas sem alegria.

Tiradentes, entre dois meirinhos, suando muito, enfiava a cara no crucifixo de dois palmos. Já se avistando a forca especial, 24 degraus, surgiu de um corredor uma mulher preta, descalça, com água salobra para o coitado. Apesar da bondade, não entrou para a História.

O conde de Rezende ordenara a frei José de Jesus do Desterro pregar contra aqueles que fugiam à obediência aos reis e seus ministros. Um colega seu, Penaforte, se irritou com o espetáculo. José exagerou, deu pulos para simbolizar o coração batendo de devoção à Rainha, espancou o ar com mãos enormes para dizer que o próprio vento levaria ao palácio conversas de conspiradores, choveu enxofre sobre o público. Não satisfeito, rezou o credo dos apóstolos com paradas de ator, para que o condenado repetisse palavra por palavra.

A essa altura, o carrasco, forte como um estivador, recolheu o crucifixo, passou a corda no braço da forca, segurou a outra ponta. Tiradentes já conhecia Jerônimo Capitania − haviam sido apresentados antes de sair o cortejo.

Era galé, não sabemos de que crimes.

− Lhe peço perdão pelo que vou fazer. É meu trabalho.

− Não tem problema.

Deixa pra lá. A história pôs no lugar outras frases, solenes. Essas seriam mais ou menos as verdadeiras, se o condenado e o carrasco não tivessem passado à História. Capitania lhe pediu que tirasse a roupa, ia vestir-lhe o camisolão branco.

− Meu Redentor também por mim morreu nu! − teria respondido Tiradentes, frase também maquiada.

Para que o condenado nada visse, ou não lhe vissem os olhos de horror, Capitania os escondeu com uma tira de bretanha preta. Devia feder a sangue.

Frei José de Jesus já descia os degraus.

− Ó Pátria, recebe meu sacrifício − gemeu Tiradentes, ou algo que as testemunhas entenderam assim.

Capitania o empurrou com força.

Depois, com as pernas em volta do seu pescoço, cavalgou rodopiando.

*****

* Joel Rufino dos Santos é escritor e historiador

(Do “Almanaque de Cultura Popular”, TAM, junho de 2007)


Você sabia?
  
Por Diego Braga Norte
  
     
→ Entre suas propostas, os inconfidentes previam a instalação da capital federal em São João Del Rey, Minas Gerais.

→ Outra proposta: criar universidade em Vila Rica. O Brasil era carente em instituições de ensino superior.

→ Em 1873, visando combater ideais republicanos, Joaquim Norberto de Souza Silva publicou História da Conjuração Mineira. Tratava Tiradentes como louco irresponsável que entrou no meio dos revoltosos e pôs tudo a perder. Por décadas foi a única fonte de informação sobre os inconfidentes.

→ A cabeça de Tiradentes foi roubada na terceira noite. Nunca mais a encontraram.

→ Alferes, do árabe al faris (o cavaleiro, o herói), era patente abaixo de tenente. A denominação foi substituída por segundo-tenente.

→ Preocupados com o povoamento do País, a natalidade seria incentivada por meio de pensões para mães com muitos filhos.

→ O escravo Jerônimo Capitânia, condenado à morte, aceitou prisão perpétua em troca da missão de carrasco oficial. O destino lhe reservou a tarefa de enforcar Tiradentes.

→ Tomás Antônio Gonzaga (parceiro de Tiradentes), enquanto preso no Rio, escreveu um dos poemas de amor mais belos de nossa literatura: Marília de Dirceu, declaração a Maria Doroteia de Seixas.

→ Grande parte dos quadros e gravuras representa Tiradentes de barba e cabelo compridos. Mas, militar, mantinha-os aparados. Talvez tenham crescido durante a prisão; mas no dia da morte estava careca e barbeado, como se fazia com os condenados.

→ Joaquim Silvério dos Reis, perdoado da dívida de 220 mil-réis e salvo da condenação, foge para Portugal em 1794. Tentaram assassiná-lo no Rio e em Minas. Foi condecorado como “Fidalgo da Casa Real em foro e moradia” pelo príncipe-regente João VI. Fugindo de Napoleão, a Corte vem para o Brasil em 1808. Silvério vem junto e assume um cargo administrativo.

(Almanaque de Cultura Popular, TAM, abril de 2006)