sexta-feira, 16 de maio de 2014

Oração de Guerra



A Morte do Soldado Legalista, de Robert Capa,
é a mais conhecida fotografia sobre a Guerra Civil Espanhola.

No cadáver de um soldado, na frente de Ebro*, foi encontrado um diário. Nele estava escrito a lápis uma oração de guerra, como lhe chama o autor. É, como verá o leitor, um rasgo magnífico do ímpeto juvenil, primorosamente expresso em forma literária:

“Oh! Deus, Senhor dos que dominam, Guia Supremo, que tens nas mãos o fio da vida e da morte, escuta a minha oração de guerra.

Faze, Senhor, que minha alma não vacile no combate e meu corpo não sinta o tremor do medo.

Faze que o sibilo agudo dos projéteis alegre meu coração.

Faze que a sede e a fome, o cansaço e a fadiga não os sintam minha carne e meus ossos.

Faze que minha alma, Senhor, esteja firme e pronta ao sacrifício e à dor.

Que não recue, nem sequer com a imaginação do primeiro posto no combate da guarda mais dura na trincheira, da missão mais difícil, para que meu tiro seja certeiro.

Põe destreza na minha mão, para que meu tiro seja certeiro.

Põe caridade no meu coração, para que meu tiro seja sem ódio.

Que deseje morrer e viver a um só tempo. Morrer como os teus santos apóstolos, como tens velhos profetas para chegar a Ti.

Peço-Te, Senhor, que a penitência encarne em meu corpo e saiba sofrer com sorriso nos lábios, como sofriam os teus mártires.

Concede-me, ó Rei das Vitórias, o perdão da minha soberba. Quisera ser o soldado mais valente da minha Pátria.

Perdoa o meu orgulho, Senhor. Peço-Te, pela minha guarda constante no amanhecer rosado de cada dia.

Rogo-Te pôr em minhas horas de vida, o fuzil e o ouvido atentos aos ruídos misteriosos da noite.

Por minha jornada de sede, de fome, de fadiga e de dor.

Se alcanço isto, Senhor, já meu sangue pode correr com júbilo pelos campos de minha Pátria e minha alma pode subir e gozar no templo de tua eternidade.”

(Em “Pára-quedista – publicação Oficial do
 Núcleo da Divisão Aeroterrestre  – Ano II - N° 1)*

*Teria sido compilado, provavelmente, pelo Sgt Duílio Caldeira.

O rio Ebro é um dos maiores rios da Espanha e da Península Ibérica. Nasce em Fontibre, na Cordilheira Cantábrica (Cantábria), e percorre Miranda do Ebro, Logroño, Saragoça, Flix, Tortosa, Amposta e acaba num delta a desaguar no mar das Baleares (parte do mar Mediterrâneo), na província de Tarragona. Texto provável achado na Guera Civial Espanhola (Conflito bélico deflagrado após um fracassado golpe de estado de um setor do exército contra o governo legal e democrático da Segunda República Espanhola. A guerra civil teve início após um pronunciamento dos militares rebeldes, entre 17 e 18 de julho de 1936, e terminou em 1° de abril de 1939, com a vitória dos militares e a instauração de um regime ditatorial de caráter fascista, liderado pelo general Francisco Franco.


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