sexta-feira, 16 de maio de 2014

A Roda dos Expostos



Extraído da página 133 do livro 
“Rio Grande Do Sul - Um Século de História”,
de Carlos Urbim, Lucia Porto, Magda Achutti e Emiliano Urbim,
editora Mercado Aberto:

Ocultas pela calada da noite, milhares de pessoas, durante décadas, a partir de 1838, se descartaram de fardos humanos indesejados, depositando-os na pequena abertura de um cilindro giratório existente na parede fronteiriça da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.

A Roda dos Expostos era uma engrenagem semelhante a uma roleta na qual a criança era colocada aos cuidados da caridade pública. A mãe, que mantinha dessa forma o anonimato, girava o mecanismo e seu filho via-se ao abrigo da Santa Casa, que recebeu do governo a incumbência de criar os recém-nascidos abandonados.

Enquanto davam meia-volta no cilindro, girando a criança para o seu interior, elas puxavam nervosamente a campainha e se afastavam rápido para fugir ao flagrante.

No interior da casa, próximo à entrada, a porteira, mulher velha e de sono leve, corria e acomodava o pequeno enjeitado em um berço quentinho, com um pelego de ovelha feito colchão.

Os meninos e meninas abandonados viviam na chamada Casa da Roda, sustentada exclusivamente por doações da comunidade. Essas crianças eram conhecidas como Meninos do Arsenal porque a maioria conseguia emprego no Arsenal de Guerra.

A Roda dos Expostos só foi extinta em 1940, vários anos depois de ser abandonada pelos demais países que também a adotavam, como a França. Enviada ao Museu Júlio de Castilhos, a engrenagem acabou sendo devorada pelos cupins.”

(Texto de Magda Achutti)

Luciana de Abreu, a órfã da Roda dos Expostos

Uma das ruas mais elegantes do Moinhos de Vento homenageia uma mulher de destaque na história cultural gaúcha – Luciana de Abreu (1847 – 1880).


Sua vida foi surpreendente: de órfã abandonada na Roda dos Expostos da Santa Casa, na noite de 11 de julho de 1847, ela tornou-se professora, escritora e defensora dos direitos das mulheres. Integrou o Partenon Literário – sociedade formada por jovens intelectuais de Porto Alegre –, onde realizou discursos contundentes.

Em um deles, de 1873, defendeu a igualdade de direitos entre os sexos: “Nós (mulheres) não somos somenos ao homem: a nossa alma tem a mesma passividade e atividade que a dele, e tanto a sensibilidade como a inteligência e liberdade participam do mesmo grau de capacidade e podem ter o mesmo grau de desenvolvimento num ou noutro sexo.”

Além de tudo isso, Luciana foi esposa dedicada e mãe de um casal de filhos.

Professora emérita, consagrada por mestres e discípulos, teve vida muito breve: aos trinta e três anos de idade, cheia ainda de esperanças, de projetos e anseios, fechava os olhos para o mundo, vítima de insidiosa tuberculose, conforme consta do atestado de óbito, a 13 de junho de 1880.

Porto Alegre consagrou-a dando seu nome a uma rua e a Secretaria da Educação e Cultura a uma escola, o G. E. Luciana de Abreu, sito à avenida João Pessoa, esquina da rua Venâncio Aires.

Nesse discurso, confirmando suas ideias emancipacionistas da mulher, dizia ela:

“E vós, senhoras brasileiras, que reunis à beleza plástica uma vasta inteligência e um terno coração, não quereis que pulse ele ao amor das letras e da glória nacional? - Ontem, proscritas da ciência e consideradas apenas meros ornatos dos salões, deu-vos o Partenon um lugar de honra no banquete do progresso. Hoje, que a voz autorizada de Andrada se elevou no parlamento nacional em prol de vossos foros, estreai no Partenon o uso de vossos direitos”.



3 comentários:

  1. Realmente muito interessante!Eu desconhecia a história de Luciana de Abreu e, a partir de hoje, jamais passarei pela Rua Luciana de Abreu, sem lembrar do que acabo de ler neste Blog. Parabéns ao autor por preservar a história de Porto Alegre.

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    1. Obrigado, Mateus, pela leitura de nosso modesto Almanaque e pelo gentil comentário.

      Nilo da Silva Moraes

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  2. " Somente seres humanos excepcionais e irrepreensíveis suscitam ideias generosas e acções elevadas."
    Albert Einstein

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