segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Comportamento de filhos



→ Eu adoro meus filhos. Você deve adorar os seus. Mas nem por isso a gente deve abrir a carteira e mostrar aquela foto pequenininha, em que todas as crianças são absolutamente iguais. E foto de bebês? Não vamos obrigar o nosso próximo a dizer que gracinha, ok?

(...)

→ Ensine seus filhos a cuidarem da bagunça que fazem. O copo de Coca-Cola? De volta para a cozinha. A revistinha que acabou de ler? Para o quarto. Os milhares de papeizinhos de Bis? Amassar e jogar no cinzeiro. A lista não teria fim, porque a imaginação de uma criança para instalar o caos onde quer que esteja é também infinita.

Alguns mandamentos:

não sair para se servir correndo na frente dos outros. O ideal, aliás, seria que as crianças, até uma certa idade, fizessem as refeições antes dos adultos, com as mães ao lado, patrulhando as boas maneiras;

não deixar cair um grão de arroz sequer na mesa;

não encher demais o prato. A fome do mundo, etc... Se encher, que coma tudo;

usar sempre o guardanapo;

a partir dos cinco anos, não cortar a carne toda de uma vez. Cinco? Talvez eu tenha exagerado. Sete;

não misturar carne com peixe, macarrão com farofa, etc. Isso é cultura;

pedir licença para se levantar quando a refeição terminar (pode alegar que precisa estudar). Para evitar aquela tortura de ficar na mesa até a hora do café, um suplício;

não bater a porta do quarto com estrondo, nem quando brigar com o irmão;

só gritar se for por mordida de cobra;

ficar mudo, estático, dentro do elevador;

não chamar a amiga da mãe de tia. Aliás, não chamar ninguém de tia, a não ser as tias de verdade. E, só para deixar bem claro, tia Rosinha, tia Helena, nunca tia só. Todos os flanelinhas chamam a gente de tia − quero matar;

sentar à mesa devidamente penteado, mãos limpas.

(Do livro “Na sala com Danuza”, de Danuza Leão)

Samba de Orly



Toquinho, Chico Buarque e Vinicius de Moraes, nos anos 1970.
  
A história da música Samba de Orly começou quando Chico, “convidado a se retirar do país” pela ditadura militar, mandou um telegrama para Toquinho, no Brasil, convocando-o para uma suposta oportunidade de emprego em seu novo país, a Itália. Toquinho não titubeou e comprou a passagem só de ida. Chegando lá, Chico contou a verdade: não havia oferta nenhuma; o convite foi só porque ele queria companhia, pois se sentia muito só naquele país. Mas ficou a promessa de que em 10 meses as coisas melhorariam.

Toquinho confiou e realmente, quase um ano depois, já haviam surgido alguns convites. Mas, obrigado a voltar para o Brasil para shows com Vinícius, o violonista deixou com o amigo uma melodia sem letra. Tempos depois, quando pôde retornar ao país, Chico foi procurar Toquinho, que fez questão de mostrar a ele algumas das muitas composições que fizera com Vinícius.

Acontece que o poeta tinha uma certa “pinimba” com Chico, por causa de suas inspiradas letras (quando lia uma letra de Chico Buarque, Vinícius achava que podia ter tido aquela ideia antes).

Sem ter muito o que apresentar, o Carioca mostrou aquela música que Toquinho deixara com ele, mas já com letra. Humilde, ele pediu a opinião de Vinícius, que logo deu seu veredicto: “o sambinha não é ruim, não, mas está precisando de alguma coisa”. Três minutos depois ele voltou com a letra, mexida em apenas uma frase, o que já foi suficiente para pedir a inclusão na parceria. “Foi um samba a seis mãos”, empolgava-se Vinícius, feliz de assinar uma composição com Chico Buarque.

Em época de ditadura, a música teve de ser mostrada à censura, que vetou apenas uma frase, exatamente a que foi sugerida por Vinícius. No Canecão, Toquinho fez um certo suspense até contar o hilariante desfecho: “Liguei para a Bahia, onde Vinícius estava, e contei para ele que a censura vetou justamente aquela frase dele. No que ele me respondeu: “olha, então tira a frase do samba. Mas da parceria eu não saio mais!”. O público, é claro, caiu na gargalhada, para depois cantar junto com Toquinho o belíssimo Samba de Orly.

Do Blog Só MPB

Samba de Orly

Chico Buarque / Toquinho / Vinícius de Moraes

1970

Vai, meu irmão (Toquinho),
Pega esse avião,
Você tem razão de correr assim
Desse frio (europeu),
Mas beija
O meu Rio de Janeiro,
Antes que um aventureiro
Lance mão.

Pede perdão
Pela duração (Pela omissão)*
Dessa temporada, (Um tanto forçada)* 
Mas não diga nada
Que me viu chorando
E pros da pesada
Diz que vou levando.
Vê como é que anda
Aquela vida à toa
E se puder me manda
Uma notícia boa.

*Versos vetados pela Censura

Nota sobre Samba de Orly

Por Humberto Werneck

Juntos, viram o homem pisar pela primeira vez na Lua, em julho de 1969. À distância, acompanharam o surgimento da luta armada no Brasil, o primeiro sequestro de um embaixador estrangeiro para obter a libertação de prisioneiros políticos, o dramático esfarinhamento da esquerda brasileira em miríades de grupúsculos. Em novembro, Toquinho resolveu voltar. No último dia, foi ao apartamento de Chico e lhe mostrou um samba ainda sem letra. Só então teve coragem de contar que estava partindo. “Fiz essa música de saudade mesmo”, disse, “vou embora amanhã”. Era o Samba de Orly, com todo aquele clima de exílio, de impossibilidade. Toquinho conta que Chico fez na hora os versos finais:

Vê como é que anda
Aquela vida à toa
E se puder me manda
Uma notícia boa

Bem depois, quando estava preparando o LP Construção, Chico convidou Vinícius para ajudar na letra. Três dos versos que o poeta escreveu:

Pede perdão
Pela omissão
Um tanto forçada

Seriam podados pela censura. “Omissão” teve que virar “duração”, e “um tanto forçada” deu lugar a “dessa temporada”.

© Copyright Humberto Werneck in Chico Buarque Letra e Música, Cia da Letras, 1989

P.S. Toquinho estava voltando para o Brasil do Aeroporto de Fiumicino, na Itália, a canção foi batizada como “Samba de Orly”, porque a França era a porta de entrada dos exilados brasileiros que iam e voltavam da Europa. Chico Buarque tinha sido expulso pela ditadura militar, tinha, obrigatoriamente, de ficar na Itália, Toquinho não estava exilado, logo poderia voltar ao Brasil. Chico, com a letra, diz com palavras poéticas a dor da saudade de estar longe do Brasil forçadamente...

Obs.: Esta música está na internet na voz do autor da letra: Chico Buarque.


domingo, 3 de fevereiro de 2019

O soneto de Rubem Braga


Apaixonado, Rubem produziu seu Soneto:


(Para Tônia Carrero, caminhando pelo Leblon)

E quando nós saímos era a Lua,
era o vento caído e o mar sereno,
azul e cinza azul anoitecendo
a tarde ruiva das amendoeiras.

E respiramos, livres das ardências
do sol, que nos levara à sombra cauta,
tangidos pelo canto das cigarras
dentro e fora de nós exasperadas.

Andamos em silêncio pela praia.
Nos corpos leves e levados ia
o sentimento do prazer cumprido.

Se mágoa me ficou na despedida,
não fez mal que ficasse, nem doesse:
era bem doce, perto das antigas.

Nas ruas de Paris, em 1947, com o marido, o cenógrafo Carlos Thiré, a professora de educação física Maria Antonieta Portocarrero esbarrou com o escritor Rubem Braga*. Surpresa, horas depois soube que o encontro não fora casual. “Ele estava completamente apaixonado por mim e me seguiu até lá”, conta. Tônia Carrero** se rendeu ao escritor, com quem teve um romance por seis meses. “Nos encontrávamos numa garçonniére de um amigo dele”, lembra. Caminhando com ela na praia do Leblon, Rubem fez um soneto. E ameaçou se suicidar caso ela o abandonasse, dizendo que se jogaria na frente de um carro. A história, real, é uma das que a atriz revelou na peça Amigos para Sempre, que esteve em cartaz em São Paulo.

*   Rubem Braga: Cachoeiro de Itapemirim, ES, 12 de janeiro de 1913 – 19 de dezembro de 1990, Rio de Janeiro, RJ.

**  Tônia Carrero: 23 de agosto de 1922, Rio de Janeiro, RJ – 3 de março de 2018, Rio de Janeiro, RJ.

“Sempre tenho confiança de que não serei maltratado na
porta do céu, e mesmo que São Pedro tenha ordem
para não me deixar entrar, ele ficar indeciso
quando eu lhe disser em voz baixa:
Eu sou de Cachoeiro...”



Na noite de uma segunda-feira, 17 de dezembro de 1990, o escritor Rubem Braga reuniu um pequeno grupo de amigos, cada vez mais selecionados por ele, na sua cobertura em Ipanema. Foi uma visita silenciosa, mas claramente subentendida pelos amigos Moacyr Werneck de Castro, Otto Lara Resende e Edvaldo Pacote. Às 23h30min da noite de quarta-feira, 19 de dezembro, sedado num quarto do Hospital Samaritano, Rubem Braga morreu, sozinho como desejara e pedira aos amigos.

A causa da morte foi uma parada respiratória em consequência de um tumor na laringe que ele preferiu não operar nem tratar quimicamente.


sábado, 2 de fevereiro de 2019

O sucesso consiste em não fazer inimigos


por Max Geringer

Nas relações humanas no trabalho, existem apenas 3 regras:


Regra número 1:

Colegas passam, mas inimigos são para sempre. A chance de uma pessoa se lembrar de um favor que você fez a ela vai diminuindo à taxa de 20% ao ano. Cinco anos depois, o favor será esquecido. Não adianta mais cobrar. Mas a chance de alguém se lembrar de uma desfeita se mantém estável, não importa quanto tempo passe. Exemplo: se você estendeu a mão para cumprimentar alguém em 1997 e a pessoa ignorou sua mão estendida, você ainda se lembra disso em 2007.

Regra número 2:

A importância de um favor diminui com o tempo, enquanto a importância de uma desfeita aumenta. Favor é como um investimento de curto prazo. Desfeita é como um empréstimo de longo prazo. Um dia, ele será cobrado, e com juros.

Regra número 3:

Um colega não é um amigo. Colega é aquela pessoa que, durante algum tempo, parece um amigo. Muitas vezes, até parece o melhor amigo, mas isso só dura até um dos dois mudar de emprego. Amigo é aquela pessoa que liga para perguntar se você está precisando de alguma coisa. Ex-colega que parecia amigo é aquela pessoa que você liga para pedir alguma coisa, e ela manda dizer que no momento não pode atender. Durante sua carreira, uma pessoa normal terá a impressão de que fez um milhão de amigos e apenas meia dúzia de inimigos. Estatisticamente, isso parece ótimo. Mas não é. A ‘Lei da Perversidade Profissional’ diz que, no futuro, quando você precisar de ajuda, é provável que quem mais poderá ajudá-lo é exatamente um daqueles poucos inimigos.

Portanto, profissionalmente falando, e pensando a longo prazo, o sucesso consiste, principalmente, em evitar fazer inimigos. Porque, por uma infeliz coincidência biológica, os poucos inimigos são exatamente aqueles que têm boa memória.

*****

P.S. (Do  editor do Almanaque): Quando você faz algo com amor, com o coração, você está absolutamente calmo. O ato afetivo, em si, fala por suas ações. Você se sente feliz com a alegria e contentamento do outro ao receber uma dádiva de você. Ou quando você recebe de alguém algo de bom, seu comportamento emocional está completamente regular. Você sorri, agradece e pronto. Tudo volta ao normal. Com o tempo, o que dá ou que recebe uma dádiva de alguém, a gratidão vai esmorecendo, vai se apagando e se esquecerá tudo com o passar dos anos.

Mas... se você, numa situação qualquer julgar que alguém esteja fazendo algo contra você, sua reação será de ódio, adrenalina pura, raiva, rancor e reação agressiva contra aquilo que você acha que o esteja prejudicando. O tempo esmorece, mas a lembrança do acontecido, o ódio e rancor acumulado nunca se apagarão da memória do prejudicado. Não interessa a grandeza do bem recebido, ele será sempre inferior ao julgamento da crítica, ou mal que a outra pessoa achar que recebeu de você.



Uma risada de galpão

Alcy Cheuiche*


General e Deputado Flores da Cunha

− De que está rindo, doutor Saint-Pastous?

− De nada... Bem... de um fato que me contaram a seu respeito, General Flores. Acontecido na Câmara de Deputados, mas não sei se é verdade.

− Deve ser. Aqueles idiotas engravatados têm mesmo vocação para palhaços... Pena que o Getúlio dependa dessa gente para governar.

− E como vai o nosso presidente?

− Gordo e são de lombo. E nunca governou tão bem na sua vida, o que está deixando o Lacerda como louco. Essa de nomear o Janguinho Ministro do Trabalho foi uma grande jogada. E autorizou o guri a dobrar o salário mínimo, que o Dutra tinha deixado perder muito valor.

− Mas o João Goulart não é novo demais para esse cargo?

− Talvez seja, deve ter uns trinta e poucos anos. Mas o Getúlio passou dos setenta; tem que preparar seu substituto. E eu e o Oswaldo Aranha somos quase tão velhos como ele.

− Dizem que o pessoal de São Paulo ficou furioso com esse aumento do salário mínimo e promete vingança.

− Política é assim, doutor Saint-Pastous, mas isso é bom para o futuro do Jango. A gente cresce na política não só com o aumento do número de amigos, mas também de inimigos.

− Sou médico, General Flores, não entendo nada de política.

− Pois o Batista Luzardo também é médico e estava lá peleando na Ponte do Ibirapuitã, infelizmente do lado dos maragatos... Quer mais mate?

− Aceito. Nunca tinha tomado mate no Rio de Janeiro. Também, só venho aqui correndo.

− O Aranha e eu tomamos mate juntos quase todas as madrugadas, tirando tempo dos cavalos, no Jóquei Clube. Até na Câmara de Deputados eu não dispenso o chimarrão... E, por falar nisso, o que aconteceu comigo por lá que fez o senhor rir?

O médico olhou alguns momentos para o topete de erva verde, entremeada com alguns pauzinhos, e ajeitou-o distraidamente com o dedo indicador da mão esquerda. Embora também fosse famoso e respeitado, considerava o general Flores da Cunha quase como um mito, e hesitou em responder-lhe a pergunta. Porém, depois que a bomba roncou no fundo da cuia, devolveu-a com a mão direita e foi obrigado a falar:

 − Foi um fato que dizem que aconteceu no ano passado, no aniversário do combate da Ponte de Ibirapuitã.

− Haaa... Claro que eu me lembro, e foi um causo engraçado mesmo, embora não fosse esse o meu objetivo.

− Como assim, general?

− Foi quando eu registrei na Câmara a passagem dos trinta anos do Combate da Ponte do Ibirapuitã. Trinta anos... E, para mim, parece que foi ontem.

O general calou-se, emocionado, e Saint-Pastous também recuou para aquela noite de 5 de junho de 1923. Recém-chegado da França, onde se formara em Medicina, a revolução que ensanguentava o Rio Grande do Sul lhe parecia ainda mais bárbara. E a cidadezinha de Alegrete, onde nascera, um triste amontoado de casas na curva do Rio Ibirapuitã. Numa delas, a dos seus pais, passara boa parte do dia ouvindo o tiroteio e segurando-se para não sair e ver de perto o que acontecia. Chegado o silêncio da noite, decidira ir até a Santa Casa para ajudar os dois ou três médicos da cidade a atender os feridos. Quando chegou próximo do hospital, foi detido por uma voz autoritária:

− De aqui no pasa!

− Tenho que passar, sou médico, vou cuidar dos feridos.

− Salga de la vereda y pónga-se de el médio de la calle!

Humilhado por receber ordens em espanhol em seu próprio país, foi obrigado a sair da calçada e colocar-se no meio da rua. Não demorou e colocaram-lhe um lampião de querosene na cara.

− Tiene alguma arma?

− Não. Para que precisaria de uma?

− Soy yo quien hace las perguntas! Quien lo mando aca?

− Ninguém. Vim porque acredito que precisam de mim.

− Bueno, también hay uruguayos heridos... Uste puede passar.

O médico pensou tudo isso em poucos segundos e, revivendo a arrogância do guerrilheiro, perguntou em voz baixa ao general, que tomava maus um mate, também pensativo.

− Por que o senhor aceitou que aqueles castelhanos lutassem do seu lado, em 1923?

Flores da Cunha terminou de sorver o mate e respondeu, sorrindo:

− Eu não aceitei, eu pedi ajuda ao Nepomuceno Saraiva e sua gente para lutarem do nosso lado contra os maragatos do Honório Lemes. O pai dele, o General Aparício Saraiva, também combateu aqui em 1893.

O médico ia comentar que sim, que os irmãos Gumercindo e Aparício Saraiva tinham lutado no Brasil, na Revolução Federalista, mas do lado dos revolucionários e não a favor do governo. 

Constrangido, resolveu não dizer nada sobre isso, afinal, não queria entender de política. Mas gostava muito de História e não perderia a oportunidade de ouvir o relato que ele mesmo provocara.

− E o que aconteceu quando o senhor discursou nos trinta anos do Combate da Ponte?

− Bem, na qualidade de presidente da Câmara de Deputados, eu não poderia quebrar o protocolo. Assim, passei a presidência para um colega, antes de ocupar a tribuna e tomar a palavra.

− ...

− De fato, eu estava muito emocionado, pois queria falar também em homenagem ao meu irmão Guilherme, que morreu crivado de balas sobre a ponte.

− Por que era importante atravessá-la?

− Porque o Ibirapuitã estava muito cheio, a poucos palmos da pranchada da ponte, o que nos impediu de atravessar o rio a cavalo, a nado. Além disso, o Honório e uns trezentos maragatos estavam entrincheirados do outro lado, nos provocando com uma bandeira vermelha hasteada no alto de uma casa de pedra.

− Assim como os toureiros fazem para provocar o touro?

− Exatamente. E nós aceitamos o desafio e demos uma carga de cavalaria para atravessar a ponte, sendo o meu irmão morto e o Oswaldo Aranha ferido, entre outros, na primeira tentativa.

− E o que houve de hilariante? Eu não compreendo...

− Naquele combate só houve sofrimento e agonia, de ambos os lados. Acontece que, ao narrar os fatos da tribuna, eu comecei a repetir as primeiras palavras, como se faz nos discursos.

− ...

− Sim, eu começava cada frase dizendo: Me lembro muito bem daquele dia de loucura cívica... Me lembro dos lenços brancos republicanos salpicados de sangue rubro... Me lembro da dor do meu próprio ferimento, que não me impediu de continuar montado a cavalo, comandando a carga... Me lembro... Foi quando tive meu discurso interrompido pela voz em falsete de um adversário político:

− Vossa Excelência permite um aparte?

Mesmo contrariado com a interrupção, respondi-lhe educadamente:

− Como não, nobre deputado Teixeira Coelho.

− Muito obrigado, senhor Presidente. Meu aparte é para elogiar a aula de História que estamos recebendo de Vossa Excelência, partícipe glorioso que foi dos fatos que nos está narrando. No entanto, Vossa Excelência está falhando com o vernáculo, Vossa Excelência está massacrando a língua portuguesa. Vossa Excelência não tem o direito de inverter o pronome, dizendo: me lembro. Lembro-me é a maneira castiça, certa, de dizer.

− ...

 − Meu amigo, ao ouvir aquelas asneiras, meu rosto ficou mais vermelho do que a bandeira dos maragatos. Mas, como não podia derrubar a pata de cavalo aquele insolente.

− O que ele merecia.

− Sim, merecia no mínimo uns tabefes, mas consegui controlar-me, respirei fundo e disse-lhe com a voz mais calma possível:

− Deputado Teixeira Coelho, eu não estava a falar com o vernáculo e sim com o coração. Como o faço agora, nobre deputado, pois se tivesse que falar-lhe sem inverter o pronome, eu não o chamaria de Teixeira Coelho e sim de Xeira-te Coelho...

Desta vez, Saint-Pastous, com toda sua educação polida em Paris, não conseguiu conter-se e deu uma risada verdadeira, uma verdadeira risada de galpão.

(Correio do Povo, janeiro de 2019)

****


→ Oswaldo Aranha, de barba, o segundo a partir da esquerda, com Flores da Cunha, ao centro e seu irmão, Guilherme, a sua esquerda, morto em combate no mesmo ano, 1923.

→ Guilherme Flores da Cunha, Santana do Livramento, 1892, falecimento, em combate, em 19 de junho de 1923, aos 31 anos, na Ponte sobre o rio Ibirapuitã, em Alegrete, RS.

→ José Antônio Flores da Cunha, quarto da esquerda para a direita, (Santana do Livramento, 5 de março de 1880Porto Alegre, 4 de novembro de 1959) foi um advogado, general e político brasileiro, tendo sido interventor federal e, posteriormente, presidente eleito do estado do Rio Grande do Sul, bem como senador pelo mesmo estado.

*O autor, escritor Alcy Cheuiche, ficcionaliza papo entre o médico Sait-Pastous e o deputado Flores da Cunha e resposta a um colega que provocou risos. 


Alcy Cheuiche em foto de Marco Nedeff


Antônio Saint-Pastous de Freitas (Alegrete-RS-11 de fevereiro de 1892 – Porto Alegre-RS-28 de setembro de 1976) Médico pela Faculdade de Medicina de Porto Alegre, 1915. Curso de aperfeiçoamento na Europa, 1921-1922; no Prata, 1933; e nos EUA, 1941. Médico e pecuarista no município natal. Especialista em Clínica Médica, Radiologia e Cancerologia em Porto Alegre. Catedrático de Clínica Medica na Faculdade de Medicina de Porto Alegre desde 1935. Diretor da citada Faculdade, Reitor da Universidade de Porto Alegre, 1943-1944. Diretor do Hospital Moinhos de Vento, Porto Alegre. Líder ruralista, sociólogo e conferencista. Membro da Academia Nacional de Medicina, Rio de Janeiro, da Sociedade de Medicina e Cirurgia, Porto Alegre, e da FARSUL, Porto Alegre, que presidiu. Participou ativamente das revoluções de 1923 e 1930. Patrono da cadeira 4 da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina, de que é titular o professor Darcy de Oliveira Ilha.

O relato do imbróglio

Para finalizar, relembremos um relato de Sebastião Nery, publicado na Folha de S. Paulo em 18.2.81 e posteriormente transcrito por Celso Luft no jornal Correio do Povo:

O deputado Teixeira Coelho, do Maranhão, fiel ao purismo linguístico de São Luís, a Atenas brasileira (que depois do Sarney virou a apenas brasileira), ficou indignado:

– Deputado Flores da Cunha, Vossa Excelência não pode estar nesta Casa, onde se deve primar pela pureza da língua, a cometer esses deslizes de pronome fora do lugar, começando os períodos. – Isso é coisa de importância menor, deputado. O principal é a ideia.

– Desculpe, Excelência, mas não é. Lá em São Luís não admitimos isso em estudante de ginásio.

Flores da Cunha deu uma baforada, olhou lá de cima com total desprezo:

– Senhor deputado, lá no Rio Grande a gramática é livre, como livre são os pampas e o minuano, como é livre o gaúcho.

– Mas não está dispensado de respeitar a língua.

– Ora, deputado, quem é Vossa Excelência para corrigir minha linguagem?

– Sou um deputado, como Vossa Excelência.

– Mas sem autoridade nenhuma para falar de pronomes. Vossa Excelência é o próprio pronome mal colocado. Vossa Excelência é um pronome errado.

– Não entendi, deputado.

– Olhe sua carteira de identidade. Vossa Excelência é “Teixeira” Coelho. Em nome do purismo da língua deveria chamar-se “Xeira-te” Coelho.

O Teixeira calou.



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Pequenas Fábulas de Millôr Fernandes

O Evento


O pai lia o jornal – notícias do mundo. O telefone tocou tirim-tirim. A mocinha, filha dele, dezoito, vinte, vinte e dois anos, sei lá, veio lá de dentro, atendeu: “Alô! Dois quatro sete um dois cinco quatro. Mauro!!! Puxa, onde é que você andou? Há quanto tempo! Que coisa! Pensei que tinha morrido! Sumiu! Diz! Não!?! É mesmo? Que maravilha! Meus parabéns!!! Homem ou mulher? Ah! Que bom!... Vem logo. Não vou sair não”. Desligou o telefone. O pai perguntou: “Mauro teve um filho?” A mocinha respondeu: “Não. Casou”.

MORAL:

Já não se entendem os diálogos como antigamente.

*****

A Viúva


Quando a amiga lhe apresentou o garotinho lindo dizendo que era seu filho mais novo, ela não pôde resistir e exclamou: “Mas como, seu marido não morreu há cinco anos?” “Sim, é verdade” − respondeu então a outra, cheia daquela compreensão, sabedoria e calor que fazem os seres humanos − “mas eu não”.

MORAL:

Não morre a passarada quando morre um pássaro.

Poemas em vários estilos


Prova difícil

Cornélio Pires

Pregava Nhô Tatinho do Lajão
Numa sessão do centro de Jandira:
- Meus irmãos, a brandura cobre a ira,
Humildade é que vence a tentação!

Ninguém seja teimoso, nem brigão.
Nisso, Nhô Bem, na sala, tosse, vira,
Aponta a mesa e grita meio gira:
- Vancê faz o que fala, meu irmão?

Antes mansinho, a conversar no banco,
Na raiva agora e a levantar de arranco,
Nhô Tatinho berrou para Nhô Bem:

- Saia daqui, miolo de cachaço,
Cale a boca!... Se eu falo mas não faço,
Isso não é da conta de ninguém!

Visita à casa paterna

Luiz Guimarães Júnior

Como a ave que volta ao ninho antigo,
Depois de um longo e tenebroso inverno,
Eu quis também rever o lar paterno,
O meu primeiro e virginal abrigo.

Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
O fantasma talvez do amor materno,
Tomou-me as mãos – olhou-me grave e terno
E, passo a passo, caminhou comigo.

Era esta a sala... Oh! Se me lembro! E quanto!
Em que da luz noturna à claridade,
Minhas irmãs e minha mãe... O pranto

Jorrou-me em ondas... Resistir que há de?
Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade!

Canção

Cecília Meireles

Se não chover nem ventar,
se a lua e sol forem limpos
e houver festa pelo mar,
ir-te-ei visitar.

Se o chão se cobrir de flor,
e o endereço estiver claro,
e o mundo livre de dor,
ir-te-ei ver, amor.

Se o tempo não tiver fim,
se terra e céu se encontrarem
à porta do teu jardim,
- espera por mim.

Cantarei minha canção
com violas de eternamente
que são de alma e em alma estão,
- De outro modo, não.

Ninguém mais

Cassiano Ricardo

Quando pergunto alguma coisa
ao silêncio da hora triste,
não sei de onde uma voz me responde.

Quando olho no espelho do rio
no azul sem mágoa da planície d′água
vejo alguém que me espia longamente...

Quando vou pela estrada
que serpeia no oceano de areia
sob a lua que me ilumina o passo incerto,
noto que um vulto, alguma sombra estranha,
pelo caminho me acompanha...

Só tenho três amigos!
Meu eco,
minha imagem,
minha sombra.