segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Causos de galpão

Tropeiros fantasmas

Por Beraldo Lopes Figueiredo


Lá pras bandas do Oriente, no costado de Livramento, há uma fazenda centenária, toda de pedra, com mangueira redonda, angicos gigantes, um pé de umbu que aconchegou, em sua sombra, Bento Gonçalves e sua tropa.

Fazenda tão antiga, mas tão antiga que nela ainda mora as almas da revolução. Seus donos atuais, com seus carros modernos, não entendem o que acontece quando nas noites os dois mundos se encontram.

Surge, num reponte da coxilha, sob o vento minuano, uma tropa de fantasmas, cavalgando pelo pampa, gritando pela justiça dessa terra, no trote que treme a terra, no bufar das narinas dos cavalos, leves relinchos quebram o silêncio e, embaixo do velho umbu, a tropa que ninguém vê, apeia pra descansar, no clarão da lua cheia.

As esporas trepidam como um guizo de cascavel, o povo, dentro da casa, escuta tudo quietinho e quando abre a porta da casa, está tudo silente e embaixo do velho umbu nada tem, nada consta, está tudo normal. Os guaipecas da estância nem deram sinal.

Porém, quando fecham a porta, tudo volta lá fora. Umas conversas e risadas, um grita pelo mate, outra pede um pelego sobrando, pois diz que a noite tá fria. Logo se vê o barulho de gravetos quebrados, um grita pelo fogo, e logo ele acende e se vê o estalar da madeira queimando, uma conversalhada. Novamente, o dono da estância abre a porta com uma arma na mão, mas logo vê que nada tem, apenas os grilos da noite. Agora, assustado e com medo, sabe que nada vê, mas que quem ele não vê está vendo ele todo medroso.

Assim é nosso pago, cheio de mistérios, nas estâncias antigas, ainda mora almas doutro mundo, inconformadas pelo destino de morrerem tão jovens, deixando o corpo no chão, e agora estão vagando pelos campos sem fim, fazendo tantas coisas que quando seus corpos tinham. Montando em cavalos da imaginação, pobres almas perdidas, nos pampas da escuridão.

O velho peão Geremias, sabendo do acontecido, reza uma Ave Maria, pedindo que a tropa fantasma descanse noutras paragens, pois, neste encontro de mundos, a ilusão de estar aqui, pobres almas só vivem na noite, sem ver o sol estendendo sua luz no manto verde dos nossos campos.

Logo o dia amanhece, a tropa foge da luz, pois esta trás uma dúvida que eles não querem descobrir, pois ainda pensam que vivem nos pagos do pampa gaúcho, mas, na verdade, estão mortos vivendo nas noites escuras, lutando por uma briga perdida, tão perdida como uma noite sem lua.


domingo, 12 de janeiro de 2020

Voltando ao Portinho dos anos 1950

Sandra Pereira


Vou aproveitar que estou voltando ao Portinho e vou ver se acho uns bonitos acessórios e meias de nylon na Sloper, mas algo que combine com meus trajes da Casa Lu e do Wollens. E é claro que não vou perder um café no Rihan ou quem sabe, uma “taça colegial” no Matheus...


Se não ficar muito tarde, vou conferir o que está passando no Imperial ou no Victória. Mas preciso, em tempo, passar na galeria Chaves e ver uma agulha nova pro meu toca-discos, apanharei na Globo uns carbonos pro mimeógrafo e a agenda do ano. Ainda, nas lojas de música, verei se tem algum novo vinil de boleros e essa tal de “Bossa Nova”...

Eu não posso esquecer de pagar um carnê na Mesbla e conferir a quantos cruzeiros estão saindo agora uma cozinha completa de fórmica, com um bom fogão Geral e uma lavadora Lavínia Westhinghouse. Talvez, passe na Hermes Macedo e compare os preços da Caloy, pros meus guris...


Se avançar da hora pro almoço, eu passo no Dona Maria ou no Gambrinus. Na casa Masson, irei só pra ver mesmo os novos relógios, porque tudo está custando muitos cruzeiros! Não poderei deixar de pegar um rouge, algum batom carmim, uma Glostora ou Gumex, pro meu bem-amado e um laquê, tudo na Lyra ou em alguma Pharmacia. Farei uma fezinha estadual ou federal no Periquito da Sorte, levarei uns enlatados bons do Armazém Rio-Grandense, principalmente a goiabada cascão em caixa, mais aquele bolo inglês que só tem na Haiti. Ah! sem deixar de ver também uns cortes novos de seda e de tergal na Casa X e uns cobertores Parayba, nas Casas Pernambucanas... Afff, mas se parte disso tudo não der tempo de fazer, amanhã sem falta eu volto!

Outra versão de outra porto-alegrense

Vou aproveitar que estou aposentado e vou pro centro. Vou ver se acho uns acessórios pras minhas gurias na Sloper. Mas algo que combine com as roupas que elas compraram na Casa Lu, e com os sapatos da Casa Maria. Depois, vou pegar umas roupas pra minha mulher na Casa Louro e pros meus genros no Saco e Cuecão. Vou comprar pra mim uma calça de tergal no Wollens, uma camisa “volta ao mundo” no Guaspari, uma camiseta de física na Casas Carvalho, e uma bola na Loja Cauduro. No caminho, vou almoçar no Dona Maria, comer uma Banana Split nas Americanas, e tomar um cafezinho no Rian (Foto abaixo). Pra descansar, vou pegar uma matinê no Imperial ou no Vitória. Na saída, vou acertar o meu relógio na Casa Masson, comprar uns discos na Yes discos, e matrizes pro mimeógrafo e uma agenda do ano na Globo. Eu não posso esquecer de comprar uns brinquedos no Palácio dos Enfeites e de pagar um carnê na Mesbla.


Vou conferir quanto custa uma cozinha de fórmica, um fogão Geral e uma lavadora Lavínia Westhinghouse na Hermes Macedo. Aproveitarei para comparar os preços da bicicleta Caloi com os da Casa Catraca. Se der tempo, poderei pegar uma Glostora ou Gumex na Lyra e farei uma fezinha na estadual no Periquito da Sorte, Quando estiver indo pro Abrigo dos Bondes, pegarei uns enlatados do Armazém Rio-grandense e tomarei uma batida e comerei um sanduíche farroupilha na Padaria Pão de Açúcar. Vou ter que voltar pra casa a tempo de ouvir o Repórter Esso e assistir ao Direito de Nascer. Mas isso faz parte, pois devo colocar as gurias pra dormir após assistirem ao Jango e Ruivão, e ao boa noite dos cobertores Parayba. Se não der tempo de faze tudo isso hoje, amanhã, sem falta, eu voltarei!

Maria Ivony Rodrigues

sábado, 11 de janeiro de 2020

Vida em branco

Zélia Duncan

(Um recado aos zumbis da internet)


Você não precisa de artistas?
Então me devolve os momentos bons.
Os versos roubados de nós,
As cores do seu caminho.
Arranca o rádio do seu carro,
Destrói a caixa de som.
Joga fora os instrumentos
E todos aqueles quadros.
Deixe as paredes em branco,
Assim como é sua cabeça,
Seu céu de cimento,
Silêncio cheio de ódio,
Armas para dormir.
Nenhuma canção para ninar
E suas crianças em guarda
Esperando a hora incerta
Pra mandar ou receber rajadas

Você não precisa de artistas?
Então fecha os olhos, mora no breu.
Esquece o que a arte te deu.
Finge que ela não te deu nada,
Nenhum som, nenhuma cor,
Nenhuma flor na sua blusa.
Nem Van Gogh, nem Tom Jobim,
Nenhum Gonzaga, nem Diadorim.
Você vai rimar com números.
Você vai dormir com raiva
E acordar sem sonhos, sem nada.
E esse vazio no seu peito
Não tem refrão pra dar jeito,
Não tem balé pra bailar.

Você não precisa de artistas?
Então nos perca de vista,
Nos deixe de fora
Desse seu mundo perverso,
Sem verso, sem graça, sem alma.

Intitulado como Vida em Branco, o texto de Duncan enfatiza como as produções artísticas estão presentes na vida das pessoas:

A compositora conta que o texto foi escrito no período das eleições presidenciais de 2018, e tinha sido elaborado, inicialmente, para uma revista eletrônica organizada por Gabriel Póvoas, filho da cantora Daniela Mercury.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Os bares da minha vida



Um bar, uma boate, um restaurante conquista um grupo em determinada época, quando a época acaba, o bar, a boate, o restaurante termina também.

Li as palavras das duas primeiras orações acima, numa coluna do David Coimbra, na ZH de janeiro deste ano (2020). Percebi que o assunto era bom e resolvi dar continuidade ao tema

Tudo começou quando cursava, nos anos 60, o Clássico no Colégio Ruy Barbosa, no início da Oswaldo Aranha e, todas as sextas-feiras, eu, com alguns colegas, íamos ao Bar Alaska, fundado em 1965, onde se discutia política na época da ditadura militar. No bar, havia estudantes secundaristas, estudantes de arquitetura e de filosofia, os mais politizados do local.


Bar Alaska, anos 60

Nos anos 1960, segunda metade, eu tinha uma turma que íamos, aos sábados, no Bon Ami, na Salgado Filho, quase inicio da Independência; depois, numa fase amorosa, no Gilbert′s, também na Salgado filho.

Também nessas décadas, 60 e 70, como era bom dançar no La Ca D′oro e no La Fontana di Trevi, na João Pessoa. Dançava-se junto ou separado. Bebia-se apenas o valor da consumação por casal: quatro chopes e não se comia nada, a não ser os ovinhos de codorna dados de cortesia pela casa.

Havia outras casas noturnas para quem tivesse grana e podia se divertir. A lista deve ser aberta pela pioneira do grupo, Crazy Rabbitt (na Garibaldi), seguida pela mais famosa, a Encouraçado Butikin (1965), a Baiúca (1962), que no final passou a ser chamada de Vila Velha, La Locomotive (1964), Scavi (1968), Whisky a Gogo (1970), Barroco, Paraphernalia (1966), Le Club (Rua João Telles), Água na Boca (1979, Praça do Portão), Dancin’Days (1971), Flower’s (1971, Praça Jayme Telles), Scalaris (Avenida Getúlio Vargas), Velha Guarda (Ipiranga/Getúlio).

Nos anos 1970, depois das aulas na Faculdade de Letras, às sextas-feiras, como era bom tomar uns chopes nos bares da Protásio Alves, no alto Petrópolis.

Algumas vezes, ia-se ao Chopão − cervejaria com bandinha e comida alemã instalada no complexo Beira-Rio, ou na Churrascaria Saci, no mesmo estádio.

Quando se estava no centro da cidade, tomava-se um cafezinho no Café Rian − no térreo do edifício Santa Cruz, na rua dos Andradas, era ponto de encontro dos principais personagens da cidade.

Já com automóvel, assistir a um filme no Centro Comercial João Pessoa − o primeiro shopping center da cidade.

Pra quem tinha fome na madrugada, a salvação era comer um cachorro quente no Zé do Passaporte − no Bom Fim, junto à Redenção, um dos tantos trailers que transformaram Porto Alegre na capital do XIS.

Pra se comer um bom sanduíche aberto, que só existe no Sul, ia-se ao Pedrini, na Venâncio Aires. Se quisesse saborear uma comida campeira, com música regional, a solução era ir Ao Recanto do Tio Flor, na Getúlio Vargas, quase ao lado do Cine Marrocos. Comia-se também comida gaúcha no Pulperia, na Cidade Baixa.

Pra ouvir música e dançar, nos anos 1980, tinha o Chipps, na Getúlio Vargas, que existe até hoje. Pra ouvir MPB, tendo, algumas vezes, o prazer de ver Lupicínio Rodrigues com os amigos de sempre, no Adelaide′s Bar, na subida da Marechal Floriano. O Tom e Tom, no início da José de Alencar, quase esquina da Praia de Belas, tinha conjunto musical e uma pequena pista de dança.

Mas, para cada um de nós, acabou a sua época, o grupo de amigos se desfez, amadureceu, foi batalhar pelo pão de cada dia. Casou, perdeu o romantismo, mudou de hábito e de cidade. Outros grupos de outra geração fixaram-se em outros bares. Os antigos bares, por falta da sua clientela fiel, fecharam, o prédio se tornou ponto para um negócio mais lucrativo.

Cada um de nós, ao passar por uma rua, avenida ou um lugar qualquer de Porto Alegre, percebe um local que foi um lugar de encantamento de uma fase feliz de sua vida, que segue, com outra geração de outras épocas em outros bares da cidade. E a vida continua...

Nilo da Silva Moraes

15 points de Porto Alegre nos anos 70 e 80.

Que outros você se recorda?


01 - Rib's da 24 de Outubro, foto acima, - lancheria de parada obrigatória para juventude do Moinhos de Vento e adjacências.

02 - Looking Glass - primeira discoteca da capital gaúcha. Inaugurada em 1978.

03 - New Looking - sucessora da Looking Glass no mesmo endereço do Menino Deus.

04 - Boutiques do Moinhos de Vento - endereço obrigatório da moda na cidade.

05 - Choppão - cervejaria com bandinha e comida alemã instalada no complexo Beira-Rio.

06 - Crocodilos - discoteca que ficava no começo da Plínio Brasil Milano, no bairro Auxiliadora.

07 - Água na Boca - badalada casa noturna da Praça Conde de Porto Alegre, perto da Santa Casa.

08 - Churrascarias Saci e Mosqueteiro - no Beira-Rio e Olímpico.

09 - Vitória, Cacique, Imperial, Guarani, Rex, Carlos Gomes e Scala - cinemas do centro de Porto Alegre.

10 - Café Rian - no térreo do edifício Santa Cruz, na rua dos Andradas, era ponto de encontro dos principais personagens da cidade.

11 - Trianon Bauru - primeiro e melhor bauru da capital.

12 - Centro Comercial João Pessoa - o primeiro shopping center da cidade.

13 - Shopping Iguatemi - inaugurado em 1983, ampliou o conceito de shopping center em Porto Alegre.

14 - Bar Ocidente - um dos símbolos do Bom Fim como bairro de todas as 'tribos'.

15 - Zé do Passaporte, foto abaixo - no Bom Fim, junto à Redenção, um dos tantos trailers que transformaram Porto Alegre na capital do XIS.




Histórias de Paraquedistas XXXIII

Uma palavra, um erro, formou um destino trágico.


O fato que vai ser narrado aqui, foi um fato isolado dentro das múltiplas atividades que acontecem num ano na Brigada de Infantaria Paraquedista. Mas ele, infelizmente, aconteceu. Foi-me contado por um ex-paraquedista que vivenciou esse acontecimento. Conto para que um jovem, que sofreu muito pelos percalços da vida, em sua curta passagem por ela, por mais simples que fosse, merece ser narrada neste almanaque, pois será a sua única marca a ser deixada por ele na sua breve vida de 20 anos.

Vamos ao fato:

Em 1975, o jovem negro Jorge Francisco da Silva, egresso da FEBEM, onde viveu toda a sua vida, sem pai, sem mãe, sem o carinho que só uma família pode dar a um ser humano, almejava ser um cidadão de bem, construir uma família e ter um lar decente.

Já com a idade de servir ao Exército, inscreveu-se na Brigada de Infantaria Paraquedista para tentar seguir, na vida militar, uma carreira que pudesse realizar seus sonhos e mudar, para melhor, uma vida difícil traçada pelo destino para uma criança abandonada.

Com treinos exaustivos, num período conturbado da política nacional, ele, com muito esforço e determinação, no Turno do 1975/1, já com o número de Pqdt 26.272, conseguiu os símbolos mais sagrados que um jovem pode almejar dentro de uma Tropa de Elite, como é a Tropa Paraquedista: o bute marrom, o brevê prateado e a boina bordô.

Agora, era deixar passar o tempo, estudar, se esforçar e lutar para que lhe fosse dada uma oportunidade de conseguir realizar o seu sonho: ser um graduado, para mudar o rumo mal-traçado de sua vida, sem lar, sem carinho e sem amor.

Na Páscoa de 1975, já brevetado, o seu colega de farda, Jorge dos Santos Arruda, Pqdt 26276, do Turno 1975/1, DoMPSA, convidou o jovem colega para um almoço comemorativo da Páscoa de Jesus Cristo, em sua casa. O jovem, ao ver uma família cristã unida, mesa posta e orações religiosas, sentiu-se num mundo de encanto e admiração, do qual, desgraçadamente, a vida lhe privou.

Num dia da semana, na hora do rancho, desacostumado com as regras rígidas da caserna, ele pediu ao soldado que tinha a função de servir determinada quantia de alimento a cada recruta na hora do almoço, mais uma concha de feijão, que lhe foi negada. Um sargento, cor parda, vendo a cena, resolveu interferir de maneira intempestiva, gritando ao jovem:

− Aqui é quartel, não é favela de onde você veio, seu macaco!

O jovem, sendo humilhado e agredido de uma forma cruel e preconceituosa, reagiu dizendo ao sargento do rancho:

− O senhor tem o direito de me negar mais uma concha de comida, mas não tem o direito de me chamar de macaco, na frente dos meus colegas!

O sargento retrucou:

− Garanto que na favela de onde você veio nunca comeu duas conchas de feijão, macaco!

O jovem, agora ofendido duas vezes, incontinenti, jogou a badeja de comida na cara do sargento, que fez menção de puxar sua pistola do coldre. Um jovem aspirante, que presenciou toda a cena, advertiu o sargento:

− Eu vi toda a cena, e o senhor está errado!

Conclusão: o jovem paraquedista pegou trinta dias de xadrez, no final do ano foi obrigado a dar baixa da Brigada, foi morar na Cidade de Deus para ser mais um soldado do tráfico e, em 1977, dois anos depois desse trágico acontecimento, foi morto numa batida policial.

Como dissemos no título acima: uma palavra que não deveria ser dita com a força de uma ofensa racial, uma reação sanguínea de um jovem criado sem amor, que o forçou a ter uma vida que ele não planejou, mas lhe foi imposta pelo destino. Só podia terminar numa tragédia anunciada...

(Testemunha do fato: Pqdt Jorge Arruda dos Santos,
Texto do Pqdt Nilo da Silva Moraes)


quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

As duas bilhas



Cada qual com seu igual. Deste nosso provérbio parece foi tomado o doutrinal apólogo das duas bilhas: uma de barro, outra de cobre, levadas rio abaixo com a força da cheia. Rogou a de cobre à de barro que se chegasse a ela, para que juntas resistissem melhor ao ímpeto das águas.

“Não me convém, respondeu ela, a vossa amizade e vizinhança; porque, ou suceda topar eu convosco ou vós comigo, sempre vós ficareis inteira e eu quebrada.”

M. Bernardes.

Era o tempo da revolta de Custódio José de Melo. Rio de Janeiro jazia sob terror das balas. Receosos de carência de garantias aos estrangeiros, reuniram-se os membros do Corpo Diplomático, sob a presidência do seu decano, o conde de Parati, representante de Portugal, a fim de deliberarem sobre o caso. Após muita hesitação, − não ousando tomar uma atitude coletiva −, re­tiveram agir cada um de per si.* O representante da Inglaterra passou a Carlos de Carvalho, ministro do Exterior, uma nota em que comunicava, que, dentro em breve, estaria na Guanabara uma esquadra inglesa, para garantir a vida dos súditos da Grã-Bretanha Respondeu-lhe Carlos de Carvalho, que o assunto era de tal forma melindroso que aconselhava fosse ouvido o próprio Presidente. Confiante no prestígio e na força da Nação que representava, dirigiu-se o embaixador a palácio. E’ introduzido na sala da audiência. Após os cumprimentos, toma a palavra:

− Excelência desejava saber como seria recebida no Rio uma esquadra inglês que teria o único fim de garantir a vida dos súditos de S. Majestade Britânica?

Floriano, com aquela serenidade que nenhum perigo, nenhuma ameaça conseguia perturbar, respondeu, impávido:

− À bala!…

Jonatas Serrano

*Per si ou de per si, oriundo do Latim de per si e, quanto utilizado, pretende dizer: por si, de modo individual ou isolado.
Cabe a ele, de per si, reunir as provas da má conduta de seu adversário.

*****

Acabara de ser exposto o quadro de Pedro Américo “Ba­talha de Avaí”. Pedro II, que se vangloriava de exímio conhece­dor das obras de arte, lá se foi com a sua corte a ver o novo tra­balho do afamado pintor. Pararam todos em frente ao quadro E o imperador, desde logo, pôs-se a fazer a análise da bela pintu­ra. Elogiou o conjunto, admirou os pormenores, aplaudiu o efeito do colorido. Enquanto isso, a um canto Caxias olhava, de esgue­lha e simultaneamente, o quadro, o Imperador e o artista. Seus dentes cerrados murmuravam qualquer coisa de incompreensível. Um dos cortesões, notando-lhe o semblante enfarruscado, vira-se para o Imperador e diz-lhe baixinho ao ouvido:

− Majestade, pa­rece que o general não está gostando do quadro…

Pedro II volta-se surpreso. Como? Haveria alguém que ou­sasse ter pensamento diferente do seu? Ele já havia elogiado sem restrições a pintura, felicitara o autor, e alguém desaprovava o seu juízo?

E entre autoritário e persuasivo:

− General, faltam apenas os seus parabéns.

Foi então que a fisionomia do herói se fechou de todo. E, num gesto de desa­bafo, a voz surda, o olhar severo, ressentido, disse entre dentes:

− Onde foi que Pedro Américo me viu no combate, de farda aberta e de camisa aparecendo?

(ldem)

Perdoou el-rei D. Sebastião de Portugal a uma viúva do seu tesoureiro metade da dívida em que seu marido ficara obrigado à fazenda real. Não faltou quem advertisse de que parecia lance excessivo. E ele, chamando logo a viúva, que voltava contente com o bom despacho da sua petição, lhe disse:

− Entendeste-me?

− Sim, Senhor (respondeu ela): há Vossa Alteza por bem quitar-me metade da dívida.

− Não é isso, sendo que perdoo-a toda.

M. Bernardes.

O papa Sixto V, que dantes se chamava Felix Peretti, andava com bordão e cabeça baixa, fingindo-se enfermo e, para pouco, que necessitava, sendo assunto ao pontificado, de que os cardeais governassem por ele, e ele tivesse só o título honorífico, sem o exercício laborioso. Mas, tanto que foi eleito e se declararam os votos, arremessou de si o bordão e endireitou a cabeça e disse com despejo: “Até agora andava inclinado para o chão, porque buscava as chaves de São Pedro; agora me levanto, porque busco a fechadura, e quero abrir a porta do céu.”

(Idem)

Sonhou um homem que via um ovo atado na ponta do seu cobertor. Consultou a um agoureiro, que lhe disse, por interpre­tação, que naquele lugar onde dormia, estava escondido dinheiro.

Cavou o homem e achou ouro e prata. Desta deu por prê­mio ao adivinhador uma pouca parte, o qual, aceitando-a meio alegre, meio triste, disse aludindo ao ouro: “E da gema não há nada?”

(Idem)

Diógenes, filósofo cínico, cria tão pouco nas coisas deste mundo, que nem uma choupana tinha em que viver, e morava den­tro em uma cuba. Foi-o ver por maravilha Alexandre Magno e dizendo-lhe, com a sua natural munificência, que pedisse quan­to quisesse, que responderia Diógenes?

− Peço-te que não me tires o que não podes dar.

Disse isto, porque era inverno, e Alexandre, com a sombra do corpo, tirava-lhe o sol.

M. Bernardes

Entrou uma vez Alexandre Magno na oficina de Apeles, por honrar com sua presença a um sujeito tão insigne na sua arte, e começou a falar demasiadamente acerca da pintura. Apeles com brandura, cortês, mas picante, lhe disse:

− Senhor, veja que se ri o moço que mói as tintas.

(Idem)

Expôs Apeles à porta uma pintura sua, e pôs-s detrás do pano a escutar os votos e censuras várias dos que passavam. Veio um sapateiro e notou um defeito na chinela duma figura principal. Emendou Apeles a falta, e no seguinte dia tornou a passar aquele oficial: e, vendo a emenda, ficou satisfeito de si e atreveu-se a notar outra coisa na perna da mesma figura. Então Apeles, aparecendo, lhe disse:

− Não suba o sapateiro além da chinela.

(Idem)

Orando uma vez em Atenas o eloquentíssimo Demóstenes sobre matérias de importância, e advertindo que o auditório estava pouco atento, introduziu com destreza o conto ou fábula de um caminhante que alquilara um jumento, e, para se defender no descampado da força da calma, se assentara à sombra dele e o al­mocreve o demandara por maior paga, alegando que lhe aluga­ra a besta, mas não a sombra dela. Estavam os Atenienses neste passo mui aplicados, desejando saber a sentença com que se decidira aquele pleito; porém Demóstenes, no mesmo tempo, se desce da cadeira dizendo:

− Oh pejo! Oh miséria grande! Fol­gais de ouvir da sombra do jumento, e não folgais de ouvir do estado e bem público da Grécia!

(Idem)

O rei Leopoldo II da Bélgica, embora na sua vida não tivesse sido um modelo católico, não foi, entretanto anticlerical. Quando as religiosas francesas, expulsas em massa por Combes, transpuseram as fronteiras em demanda da Bélgica hospitaleira, ao rei Leopoldo II, que se achava em Paris, se dirigiu um dos ministros do governo e pediu-lhe desculpas dizendo:

− Lamentamos dar esse incômodo a V. Majestade. São elas que, uma vez expulsas, procuram o seu país.

− Não se aflija − respondeu Leopoldo II — no meu país nun­ca são demais as pessoas honestas.
  
(Textos do livro “Seleta em Prosa e Verso”,
de Alfredo Clemente Pinto)

As aves

Garcia Redondo


No fundo da chácara, numa touceira de arbustos, um me­nino encontrou um ninho, onde três avezinhas mal emplumadas dormiam.

Contente do seu achado e no desejo inconsciente de se apo­derar dele, o menino meteu o braço por entre a trama dos galhos e das folhas e aproximou a mão cobiçosas dos pobres inocentes, que logo ergueram para ele o biquinho guloso.

Nesse momento, o menino ouviu pipilos angustiados e o sus­surro de uma asa que lhe roçou pelo rosto. Depois sentiu que essa asa lhe batia nos olhos e que um bico audaz lhe espicaçava o rosto.

Tímido, receoso dessa inesperada agressão, retirou o braço e olhou. Era um tico-tico, a mãe das avezinhas do ninho, que defendia a prole, e continuou a atacar o menino, enquanto ele permaneceu junto à touceira de arbustos.

Saindo dali, muito admirado da audácia e da coragem dessa ave minúscula, o menino contou o caso à mãe:

E a mãe disse-lhe:

− Não há que estranhar, meu filho; essa avezinha faz pelos filhos o que eu faria por ti. Que pensarias de mim, se, um dia, um homem mau e forte entrasse nesta casa e procurasse levar-te, sem que eu lhe embargasse o passo? Pensas que, nessas oca­siões terríveis, as mães medem as suas forças? Nunca; o amor materno incute-lhes coragem e elas, sem avaliar as consequências de seu ato, pensando apenas nos filhos, procuram arrancá-los ao perigo iminente, saltando à frente do agressor e atacando-o. Agora dize-me cá: Para que querias tu essas avezinhas mal emplu­madas, que para nada servem? Não pensaste na dor que causarias aos pais, privando-os desses filhos amados? A ave, como os seres humanos, como todos os seres animados, tem coração e tem alma. Ela sente como nós, sofre e chora como nós, como nós tem a sen­sação do prazer. Alegre quando canta, triste quando pia, irrita­da ou desesperada quando grita, ela manifesta pela voz e pelo gesto o seu estado d′alma. Se a acaricias, tens nela uma amiga; se a maltratas, principalmente os seus filhos, tens nela uma ini­miga rancorosa que nunca te perdoará o agravo. Mas, para que maltratar a ave, se ela é por natureza tão boa, tão meia e tão útil? A maioria alegra-nos e delicia-nos com o seu canto. A maioria fornece-nos ovos deliciosos que nos alimentam. Todas nos dão a pena que aformoseia a nossa toalete e que nos aquece, quando convertida em edredons, travesseiros e colchões macios. Acresce que a maioria é útil, porque livra os nossos campos e os nossos quintais das larvas e insetos daninhos que devastam as plantações. Se elas não fossem boas e úteis, os homens não asse­melhariam os anjos às aves, dando-lhes asas, que são o símbolo da pureza e da bondade. Não faças mal às aves, meu filho, nem procures tolhê-las na sua liberdade, porque é em liberdade que elas devem viver para nos serem verdadeiramente úteis.

O menino, atento e enternecido, ouviu a mãe e, quando ela acabou de falar, apoderou-se de uma gaiola onde estava um pin­tassilgo aprisionado, abriu a porta e deu-lhe a liberdade.

A mãe disse-lhe comovida:

−É assim que eu te amo, meu filho. Tens um bom coração.

E ele, contente, vendo o pintassilgo a voar, chilreando, ex­clamou:

− Nunca mais, mamãe, nunca mais destruirei ninhos, por­ quê...

− Porque os ninhos são berços, meu filho, acrescentou a mãe.

*****

(Do livro “Seleta em Prosa e Verso”, Alfredo Clemente Pinto)

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 59ª edição. Livraria Martins Livreiro – Editor Porto Alegre


Alfredo Clemente Pinto (Porto Alegre, 18541938) foi um educador, escritor e político brasileiro.

Foi eleito deputado estadual, à 21ª Legislatura da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, de 1891 a 1895.

É autor de uma famosa obra didática, utilizada por longos anos nas escolas gaúchas, intitulada Seleta em Prosa e Verso.

Outra versão

O amor materno

Garcia Redondo*


Mãe e filho no jardim, ilustração de John Rae, 1922.

No fundo da chácara, numa touceira de arbustos, um menino encontrou um ninho, onde três avezinhas mal emplumadas dormiam. Contente do seu achado e no desejo inconsciente de se apoderar dele, o menino meteu o braço por entre a trama dos galhos e das folhas e aproximou a mão cobiçosa dos pobres inocentes, que logo ergueram para ele o biquinho e o sussurro duma asa que lhe roçou pelo rosto. Depois sentiu que essa asa lhe batia nos olhos e que um bico audaz lhe espicaçava o rosto. Tímido, receoso dessa inesperada agressão, retirou o braço e olhou. Era um tico-tico, a mãe da avezinhas no ninho, que defendia a prole, e continuou a atacar o menino, enquanto ele permaneceu junto à touceira de arbustos. Saindo dali, muito admirado da audácia e da coragem dessa ave minúscula, o menino contou o caso à mãe. E a mãe lhe disse:

− Não há que estranhar, meu filho: essa avezinha faz pelos filhos o que eu faria por ti.

 *****


*Manuel Ferreira Garcia Redondo (Rio de Janeiro, 7 de janeiro de 1854 − São Paulo, 6 de outubro de 1916) foi um engenheiro, jornalista, professor, contista e teatrólogo brasileiro, e membro fundador da Academia Brasileira de Letras.