“Alguém disse que a primeira vez a gente nunca esquece.
Verdade!
A primeira vez que dei comida na boca da minha mãe, tive uma crise de choro logo depois, porque ela não conseguia mais segurar a colher e me olhou assustada.
Eu peguei a colher e comecei a dar a sopa de pão de milho com café com leite, ela levantou a cabeça e abriu muito a boca, eu dei risada (para não chorar na frente dela):
‒ Mãe é só para tomar a sopa e não para eu entrar com o carro na sua boca.
Ela riu (para não chorar na minha frente).
A primeira vez que vi meu pai de fraldas sobre a cama do hospital, fiquei parada na porta, não conseguia me mover e sai de perto para não chorar na frente dele, e ele não me olhou para não chorar na minha frente.
A primeira vez que eles passearam de cadeira de rodas; a primeira troca de fralda; o primeiro banho na cadeira e o desespero para temperar a água, de modo que não queimasse aquela pele fininha...
A primeira vez que meu pai me olhou e disse – “eu não tenho filhos”; ou a primeira vez que mamãe me chamou e perguntou ‒ “Mirinha eu estou com uma dúvida, você é minha mãe ou minha irmã?”...
A primeira vez que eles deliraram e a loucura riu da minha cara assustada; a primeira vez que eles pedem para morrer e a Morte riu da minha cara assustada.
Tudo nessa doença é enlouquecedor, triste, desesperador, mas nada se compara a primeira vez em que percebi que eles silenciaram e nunca mais ouviria aquela voz amada dizendo – “Mirinha”.
Amigos,
por mais cansados, desesperados, assustados que vocês estejam conversem com
seus idosos, tudo que puderem; peçam para eles contarem histórias da juventude,
ou qualquer bobagem. Saboreiem a voz, a risada, o olhar... e digam o quanto são
amados, o quanto vocês são gratos por tudo, para que a última conversa seja
sobre o amor e a gratidão.”
Míriam Morata
trecho do livro “Alzheimer diário do esquecimento”.

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